Maravilhas do Mundo Prog: SBB – Wołanie o Brzęk Szkła [1978]

26 de maio, 2011 | por Mairon
Diversos
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Por Mairon Machado

Além da cortina de ferro, surgiu um dos maiores grupos de rock progressivo da história da Polônia. Estamos falando do trio SBB. Durante os anos de 1975 e 1980, esse grupo revolucionou o rock polonês, se tornando o principal representante do estilo vindo daquele país e sendo eleito como a melhor banda  polonesa de todos os tempos.

Sua história divide-se em duas partes: a primeira, enquanto ainda estavam escondidos atrás da cortina-de-ferro; e a segunda, quando a Alemanha ocidental revelou o grupo para o mundo.

Foi exatamente no período de transição entre as duas partes que o grupo lançou uma verdadeira maravilha. Até chegar lá, o grupo caminhou um bocado pelas estradas da Polônia e também da Alemanha.

A origem do grupo está no início de 1971, na região histórica da Sillésia, localizada entre a Polônia e a República Tcheca (antiga Tchecoslováquia), mais precisamente na cidade polonesa de Siemianowice Slaskie. Lá, o sensacional músico Józef Skrzek (teclados, baixo, harmônica e voz), começou a ganhar notoriedade graças a uma passagem pelo grupo Breakout, onde gravou o álbum 70A (1970). 

Depois de sair do Breakout, Józef decidiu que iria ampliar seus horizontes, investindo nos consagrados power-trios e tendo como inspiração o Experience de Jimi Hendrix, Cream e Taste. Eis que surge um garoto de apenas 17 anos chamado Apostolis Anthimos, e que tocava guitarra com uma técnica impecável. Através de Apostolis, o baterista Jerzy Piotrowski é apresentado a Józef, nascendo então o Silesian Blues Band, cujo nome era uma homenagem à região onde o trio morava.

Piotrowski, Apostolis e Józef

O trio passou a participar com regularidade em shows pela Região da Silésia, tocando na Alemanha Oriental, Polônia e Tchecoslováquia, além de apresentar-se em rádios da região. Próximo ao fim de 1971, passam a acompanhar Czesław Niemen, com quem gravam quatro álbuns em apenas 18 meses: Strange In This World (1972), Ode To Venus (1973), Niemen Vol. 1 e Niemen Vol. 2 (ambos de 1973), aumentando ainda mais a popularidade do grupo, com destaque total para o baixista Józef. Ao lado de Niemen, a Silesian Blues Band fez uma excursão pela europa, tendo como auge uma apresentação no Rock and Jazz Now Festival de Munique (Alemanha).
 

Fundamental álbum de estreia do SBB

No verão de 1973, a Silesian Blues Band separa-se de Niemen, mudando de nome. Como SBB (sigla para Szukaj, Burz, Buduj  – Busque, Quebre e Construa), estreiam oficialmente em 4 de fevereiro de 1974, partindo então para uma série de shows pela Polônia. Os shows de 18 e 19 de abril no Stodoal Club, em Varsóvia, foram registrados, e acabaram se tornando o primeiro álbum da banda, um dos mais incríveis álbuns de estreia de todos os tempos. SBB, lançado ainda em 1974, é uma paulada sonora, com Józef sendo a principal atração tocando baixo com distorções e como se fosse uma guitarra. As três faixas do álbum exalam suor, técnica e sentimento raros de se encontrar, sendo que os duelos de baixo e guitarra são de se perguntar: “como eles conseguem fazer isso??”

Depois de SBB, o grupo seguiu com vários shows pela europa oriental, tocando na Alemanha Oriental, Tchecoslóváquia e Hungria e tendo como marca registrada o baixo distorcido de Józef. Mas, o baixista começou a estudar e admirar um novo instrumento, o moog, e com ele, começou a criar canções  que mudariam toda a sonoridade do SBB, como podemos comprovar nos álbuns Nowy Horizont (1975), Pamięć (1976) e  Ze Słowem Biegnę Do Ciebie, além do raríssimo cassete Jerzyk, onde está apresentado um SBB concentrado em longas suítes, tendo sequências computadorizadas como uma das atrações,  e com Apostolis e Piotrowski ganhando mais espaço junto dos sintetizadores de Józef.

Nessa mesma época, o grupo atravessou a cortina de ferro e passou a fazer gravações na Alemanha. O primeiro álbum “ocidental” foi Follow My Dream, que é bem diferente dos álbuns “orientais”, com canções mais curtas e também sem tantas explorações instrumentais. Isso desagradou aos fãs poloneses e dos demais países da europa oriental, que exigiam o SBB das longas suítes e delirantes duelos entre Apostolis e Józef.

O trio de ferro polonês

O grupo então decidiu manter duas carreiras distintas: uma somente para a europa ocidental, lançando o álbum SBB (não confundir com o primeiro álbum do grupo lançado em 1974 e com o mesmo nome), o qual também é conhecido como Amiga Album, somente para o mercado alemão, inglês e italiano, e que foi gravado na Alemanha, e Wołanie o Brzęk Szkła, gravado na Tchecoslováquia e seguindo a linha tradicional dos seus antecessores orientais.

Tendo ganho espaço no ocidente, o trio estava muito mais maduro para fazer composições longas e ao mesmo tempo extremamente versáteis. Apenas duas canções estão em Wołanie o Brzęk Szkła, cada uma ocupando um lado do vinil. É difícil dizer qual das duas é a mais maravilhosa, mas eu arriscarei minhas fichas na faixa-título.


Essa composição é belíssima, sendo daquelas raras canções que você ouve e, passados seus vinte minutos de duração, você não acredita, e fica pensando “como se passaram vinte minutos se você parece ter ouvido apenas cinco?”.

“Wołanie o Brzęk Szkła” (algo como “Um Grito para Tilintar com um Vidro”) começa apenas com o dedilhado de Apostolis e os teclados de Józef sendo adicionado aos poucos, em um suave crescendo. Piotrowski surge com uma lenta marcação, enquando o moog faz algumas notas perdidas.

A canção vai crescendo, agora com a adição de vocalizações que levam a letra, a qual é cantada em polonês. As vocalizações dão um charme especial para a canção, que vai aumentando o pique com as batidas de Piotrowski, que comanda uma cadência repleta de viradas. Józef rasga a voz, cercado pelas vocalizações e intervenções do moog, chegando então na viajante sessão instrumental, onde no ritmo único do SBB, Apostolis começa a solar em um magnífico arranjo progressivo. As viradas de Piotrowski são o principal destaque nessa sessão, e uma delas leva para o segundo solo de guitarra, com uma levada muito rápida, onde o baterista mostra toda a sua técnica.

As intervenções do moog criam um clima de filme de ficção, que se torna mais evidente com o uso de sintetizadores que simulam uma tempestade de ventos. O ritmo da bateria muda para uma sequência de batidas apenas na caixa, para acompanhar o longo solo de harmônica de Józef, voltando as origens bluesísticas da banda, e as várias intervenções de sintetizadores mantém o viajante clima no ar. As batidas vão aumentando, com o moog tomando conta das caixas de som, sendo o destaque na sequência de encerramento da faixa, com um solo dinâmico e veloz, onde as sequências de viradas de Piotrowski junto aos temas marcados  de Józef e Apostolis são trabalhados extremamente, mostrando aos fãs orientais que o grupo ainda tinha muito para dar em termos de instrumentação e também inovação musical.

A outra maravilha desse álbum é “Odejście”, um grande petardo criado pelo trio, mas que talvez por não conter tantas variações quanto sua parceira do lado A, ficará para uma próxima sua apresentação.

Versão alemã de Wołanie o Brzęk Szkła

Wołanie o Brzęk Szkła ainda saiu no mercado da Alemanha Ocidental em 1979, batizado agora como Slovenian Girls, e alterando também o nome das faixas para “Julia” e “Anna”, logo após o terceiro disco “ocidental” ser lançado no mesmo país, no caso Welcome.

Em 1980 foi lançado o último LP do SBB em ambos os mercados. Memento Z Banalnym Tryptykiem apresenta uma longa suíte em seu lado B e diversas pequenas faixas em seu lado A, fazendo a mescla de despedida das composições de Józef, Piotrowsky e Apostolis, que agora contavam com a participação do guitarrista Sławomir Piwowar.

Os três membros fundadores do SBB voltariam a se reunir posteriormente nos anos 90, lançando diversos álbuns (em sua maioria ao vivo), mantendo o nome do grupo na ativa e matando a sede dos fanáticos seguidores da década de 70, ávidos por ouvir as experiências sonoras feitas por este que é o principal nome do rock progressivo polônes, e que possui uma das histórias mais ricas da música do leste europeu, a qual está sendo escrita até os dias de hoje, com o mesmo vigor, criatividade e dedicação de seus anos primordiais, sempre procurando, quebrando e construindo.



2 Comentarios

  1. Não conheço NADA do prog feito nesses países, mas já ouço falar há algum tempo, principalmente via Gaspari. Lendo a matéria fiquei bem mais interessado, pois pelo que entendi não é apenas uma cópia bem feita, mas parece ter algo novo.. Bem, em breve eu vejo se escuto algo e tiro minhas próprias impressões!

  2. Grouchom eu te recomendo começar pelo primeiro, SBB, e depois pegar esse aqui. Tu vais perceber a pesada mudança que a banda sofreu com a entrada dos teclados, dai vais poder julgar como era melhor

    Outra banda que te recomendo, agora da Hungria, é o Syrius, com o LP Devil's Masquerade, que rolará por aqui em breve

    Abraço

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