Por Diogo Bizotto

O nome de Don Henley não traz tantas lembranças no público musical brasileiro. Mas em seu país de origem, os Estados Unidos, ele é visto e aclamado por público e crítica como um dos melhores vocalistas a emergir de sua geração, além de um dos mais bem sucedidos artistas no sinuoso e nem sempre honesto meio musical. Sua origem como baterista e vocalista do Eagles data de 40 anos, onde fez fama, fortuna e pôde concretizar seus desejos e cometer quantos excessos quis. Em 1980, após ter lançado seis álbuns de estúdio e ter atingido o topo das paradas diversas vezes, vendendo dezenas de milhões de cópias, a banda encerrou suas atividades em meio a tensões que se acumulavam e que quase fizeram com que seus integrantes partissem para a troca de murros sobre o palco, abrindo espaço para que florescessem carreiras solo bastante distintas.

Don Henley e o guitarrista Glenn Frey são os únicos que estiveram no grupo desde os primórdios, assim como constituíam os principais compositores e vocalistas do Eagles, assinando juntos diversas canções de sucesso. Dessa maneira, é interessante comparar os rumos que os dois tomaram em suas carreiras como artistas solo. Ambos conseguiram fazer uma boa transição para a década de 80, onde a imagem passou a ser levada muito mais em conta, diferentemente dos anos de glória do Eagles, época onde a MTV inexistia, e videoclipes existiam em muito menor profusão. Seus rostos tornaram-se conhecidos e alguns hits foram cunhados, mas Henley foi o mais bem sucedido, tanto comercial quanto musicalmente.

Don em meados dos anos 80.

Logo de início, Don estabeleceu uma parceria com o produtor, compositor e guitarrista Danny Kortchmar, com quem cunhou seus dois primeiros álbuns, I Can’t Stand Still (1982) e Building the Perfect Beast (1985). Mesmo não tão bem sucedidos quanto seus discos no Eagles, os lançamentos firmaram o nome de Don com uma sonoridade que, através de um formato rock, trazia o esmero do AOR e uma sensibilidade pop, unidos a suas reflexivas letras. Alguns hits foram destaque nessa época, caso de “Dirty Laundry”, “The Boys of Summer” e “All She Wants to Do Is Dance”, todas figurando entre as dez mais da parada de singles da Billboard. Não apenas isso, mas finalmente ganhando o respeito da crítica, que costumava desprezar o trabalho do Eagles.

Mas o passo mais ambicioso de Don ainda estava para ser dado. Contando novamente com Danny Kortchmar como braço direito, além de um time de músicos e participações especiais de primeira linha, The End of the Innocence foi trabalhado com esmero, com cada faixa recebendo atenção em separado, muitas vezes trazendo uma formação completamente diferente em sua gravação. O resultado valeu a pena. Tendo em vista as mudanças no mercado fonográfico desde o fim do Eagles, a oitava posição na Billboard e as mais de seis milhões de cópias comercializadas mostraram que Henley estava no caminho certo, apresentando aqui um álbum menos pop que os antecessores, explorando diversas nuances com sua caprichada instrumentação, mas sem deixar de conquistar o ouvinte das rádios.

Don na contracapa de The End of the Innocence.

Composta com Bruce Hornsby (que, para quem não conhece, é o autor de “The Way It Is“), que executa aqui o piano, a faixa-título é baseada em um delicado riff desse instrumento, executado sobre uma base formada em sua maior parte por sintetizadores, construindo com êxito o tom saudosista expresso na bela letra de Don, que, envolta em uma aura que parece apenas remeter ao passado, carrega uma crítica à política belicista da Era Reagan. Destaque também para o solo de saxofone de Wayne Shorter (Miles Davis, Weather Report).

“How Bad Do You Want It” é um pop rock cheio de malícia que inclui backing vocals femininos em seu refrão, enquanto “I Will Not Go Quietly” traz uma pegada mais hard rock e a participação de ninguém menos que Axl Rose, que em 1989 ainda não havia cimentado sua fama de encrenqueiro egocêntrico, mas já tirava muito proveito de sua recente fama. É necessário destacar o trabalho de Danny Kortchmar, que muitas vezes é responsável por maior parte da instrumentação. Nesse caso em especial, seus riffs e solos constituem a porção mais interessante da faixa.

Integrantes dos Heartbreakers, banda de apoio do cantor e compositor norte-americano Tom Petty, o guitarrista Mike Campbell e o baterista Stan Lynch juntaram-se a Don em “The Last Worthless Evening”, balada que passa longe da pieguice e constitui um ponto alto do disco, mas superada pela seguinte, “New York Minute”, um épico dramático que versa sobre como a vida pode mudar drasticamente de uma hora para a outra. Com um line-up que inclui o fantástico baterista Jeff Porcaro (Toto, vários), o tecladista, compositor e arranjador David Paich (Toto, vários), o baixista Pino Palladino (The Who, Eric Clapton, Jeff Beck) e o grupo vocal gospel Take 6, Don oferece aqui uma balada na linha de “The Last Resort”, talvez sua obra máxima no Eagles. Não à toa, “New York Minute” passaria a ser executada com frequência nas posteriores reuniões da banda, não por exigência de Don, mas por insistência do companheiro Glenn Frey, um grande apreciador do trabalho de Henley nos anos 80.

Enquanto “Shangri-la” coloca em evidência as linhas de baixo, aqui também empunhado por Pino Palladino, “Little Tin God” se assemelha a um reggae, mas sem os cacoetes mais clichês do estilo, soando agradável até para alguém que não é apreciador do gênero, como eu. “Gimme What You Got” deixa bem claro o capricho empregado na instrumentação, onde nada soa fora do lugar, incluindo as intervenções solo de Danny Kortchmar na guitarra. A então pouco conhecida cantora Sheryl Crow contribui com backing vocals em “If Dirt Were Dollars”, que tem a cara de como o Eagles provavelmente soaria caso não tivesse encerrado atividades e continuado no caminho de The Long Run (1979), atenuando as influências country rock e fazendo emergir o lado mais pop do grupo.

Don Henley ao vivo.

Fosse finalizado na nona faixa, The End of the Innocence já seria um bom álbum, mas Henley guardou o melhor para o final. “The Heart of the Matter” é muito mais que uma simples balada. Trata-se de uma das melhores músicas escritas a respeito das dificuldades nos relacionamentos, em especial na separação. Composta majoritariamente pelo guitarrista Mike Campbell e com letra de Don em conjunto com J.D. Souther, antigo parceiro do Eagles, “The Heart of the Matter” dá mostras de por que o vocalista é tão respeitado a ponto de ter superado a barreira do público e conquistado a admiração da crítica. Sua interpretação da belíssima letra é não menos que magistral, constituindo um dos pontos mais altos de sua carreira. Assim como “New York Minute”, essa é outra que foi executada posteriormente por sua ex-banda, inclusive sendo registrada em disco.

Em 1994, o Eagles se reuniria, lançando o exitoso Hell Freezes Over, que mistura uma performance acústica com algumas músicas inéditas, colocando a banda de volta no circuito. A partir de então, os músicos alternariam entre o Eagles e trabalhos solo, além de outras participações, culminando com o lançamento de Long Road Out of Eden (2007), álbum duplo, e o primeiro disco completo de estúdio a ser lançado pelo grupo em 28 anos. O último registro de Don Henley como artista solo é Inside Job (2000), onde demonstra maturidade e confiança na execução de seus temas. No entanto, se você ainda não conhece a carreira de Don, recomendo fortemente que sua escolha seja The End of the Innocence.

Tracklist:

1. The End of the Innocence
2. How Bad Do You Want It
3. I Will Not Go Quietly
4. The Last Worthless Evening
5. New York Minute
6. Shagri-la
7. Little Tin God
8. Gimme What You Got
9. If Dirt Were Dollars
10. The Heart of the Matter

2 comentários

  1. Mairon Machado

    Cara, pelas participações especiais desse disco parece que realmente para ruim não serve. Ouvi apenas The Heart of the Matter, mas essa capa não me é estranha, e eu acho que já ouvi esse disco anos atrás. Agora o Wayne Shorter é brincadeira: o cara já tocou desde o free jazz mais insano com Miles Davis até o jazz rock do Weather Report, mas nos anos 80-90, se vendeu para diversos estilos que não servem para mostrar como o cara é bom no saxofone. Não ouvi a musica com ele desse disco, mas o comentário é apenas esse, o cara flertou com tudo, hehehe

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  2. diogobizotto

    Falando em participações especiais, sempre gosto de frisar quão fantástico é Jeff Porcaro, e muitas vezes pouco lembrado, em detrimento daqueles mesmos de sempre, encabeçando listas. Esse cara ajudou a definir os caminhos da bateria na música pop, com um toque preciso e elegante. Baita!

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