Por Micael Machado

Trilogias são bastante comuns no mundo das artes. Seja no cinema, na literatura ou na música, é bem fácil encontrar exemplos de histórias ou conceitos divididos em três partes separadas, porém interligadas.
Pois quando Robert Smith, o líder do The Cure, iniciou o processo de composição do que viria a ser o disco Bloodflowers, ele tinha em mente o ambiente e a sonoridade de outros dois discos de sua banda: o subestimado Pornography e o aclamado Disintegration. Junto a eles, o novo álbum veio a compor um conjunto feito de melodias mais melancólicas do que alegres, de letras abordando mais perdas do que ganhos, e de um sentimento mais próximo à tristeza do que à alegria. Para ele, os três discos estavam interligados de muitas maneiras, formando, então, uma trilogia. Aquela que, entre os fãs, ficaria conhecida como a “Trilogia da Depressão”.

Bloodflowers: o encerramento da “trilogia da depressão”

Após assistir a um show de David Bowie onde o Camaleão interpretava na íntegra um de seus álbuns (rumores dizem ter sido o disco Heathen, performado ao lado de dez das onze músicas do seminal Low em uma mesma noite de data incerta), Smith teve a ideia de fazer um show executando a sua trilogia na íntegra. A cidade escolhida para tal feito foi a capital da Alemanha, Berlim, pois, segundo Smith, “o ambiente e o clima da cidade se encaixam com os dos discos da trilogia”.

Assim, em 11 e 12 de novembro de 2002, os membros da banda à época (Robert Smith nas guitarras, violões e vocais, Simon Gallup no baixo, Perry Bamonte nas guitarras, teclados e violões, Roger O’Donnell nos teclados e percussão e Jason Cooper na bateria e percussão) rumaram ao Tempodrom alemão para os dois shows que viriam a gerar o excelente DVD duplo Trilogy, em 2003.

Pornography, o primeiro a ser interpretado na íntegra em Trilogy

Abrindo com “One Hundred Years” (e sua sintomática frase inicial: “não importa se todos nós morrermos”), o grupo inicia a apresentação tocando em sequência as oito faixas de Pornography, de 1982. Denso, pesado (não no som, mas no clima), melancólico e taciturno mesmo para os padrões do The Cure, este álbum foi lançado em uma época onde os membros da banda estavam a ponto da separação. A convivência e o ambiente interno no grupo não eram nada felizes, e o baixista Simon Gallup sairia da banda durante a subsequente turnê, deixando para a dupla remanescente (o eterno líder Robert Smith e o tecladista e baterista Laurence ‘Lol’ Tolhurst) a então nada agradável tarefa de continuar a saga do The Cure.

Gallup e Smith na época de Pornography
Pornography rendeu dois hits, a já citada “One Hundred Years” e “The Hanging Garden”, além de deixar marcadas no coração dos fãs do grupo músicas como “A Strange Day”, “Figurehead”, “Siamese Twins” e “Cold”. Mesmo assim, dificilmente é citado entre os favoritos dos apreciadores de Smith e companhia, em muito devido ao seu clima opressivo e melancólico.
A execução do disco em Berlin é feita sem muitas mudanças nos arranjos originais, e com uma sensível seriedade e preocupação por parte dos membros do grupo, o que é compreensível quando se sabe que três deles (as exceções sendo Smith e Gallup) nunca haviam tocado a maioria daquelas músicas ao vivo. A banda nunca foi muito ativa no palco mesmo (sendo O’Donnell e Bamonte os mais paradões), mas até o sempre agitado Simon está mais contido do que o normal durante este primeiro set.

A primorosa iluminação do palco

A iluminação do palco é primorosa, sempre em tons escuros e sombrios, combinando com as músicas. Já em “Cold”, a iluminação é em tons de azul, dando um ar gélido ao ambiente, mesma sensação que a canção provoca.

Ao final da execução de “Pornography” (a faixa título), a banda deixa o palco, e Smith se despede do público dizendo “vejo vocês em sete anos”, espaço de tempo entre o disco de 1982 e o próximo da trilogia.

Disintegration, um dos melhores álbuns dos anos 80

Lançado em 1989, Disintegration foi gravado em condições totalmente diferentes das de Pornography. O então quinteto (Smith, Gallup, O’Donnell, Porl Thompson – guitarras e teclados – e Boris Williams na bateria e percussão – Lol Tolhurst, apesar de citado no encarte, não participou das gravações) vinha de dois discos muito bem sucedidos (The Head on the Door, de 1985, e Kiss Me Kiss Me Kiss Me, de 1987) onde havia flertado com um até então desconhecido lado pop e alegre do The Cure, porém sem abandonar totalmente sua veia mais melancólica e sombria, que retornava com força nas composições do então novo disco.

Um dos melhores álbuns dos anos 80 (para mim o melhor do grupo), Disintegration foi um grande sucesso comercial, e músicas como “Lullaby”, “Plainsong”, “Lovesong”, “Pictures Of You” e “Fascination Street” tocaram (e tocam) muito nas rádios pelo mundo. Além destas, todo bom fã dos ingleses reconhece o valor de canções como a faixa título, “Last Dance” e “Prayers For Rain”.

The Cure em ação

Apesar de todas as suas doze músicas (eram dez no vinil, com duas extras no CD) terem sido apresentadas ao vivo quando da sua turnê de divulgação, na época do lançamento de Trilogy nem todas tinham sua versão on stage conhecidas do grande público (Entreat Plus, álbum contendo Disintegration na íntegra em versões gravadas em 1989 na Wembley Arena, em Londres, só seria lançado em 2010, quando saiu a edição tripla remasterizada comemorativa dos 21 anos do disco de 1989). Assim, o DVD foi uma grande oportunidade para muitos fãs saberem como soam no palco algumas de suas faixas favoritas. E o resultado é muito satisfatório.

Em Trilogy, a banda parece estar mais confortável ao executar as músicas deste segundo set do que quando da apresentação de Pornography, possivelmente por muitas das canções do disco figurarem frequentemente nos set lists do The Cure desde 1989. Assim, na maioria delas, não havia aquele sentimento de “novidade” que as canções do disco de 1982 apresentavam, sensação substituída por conforto e familiaridade dos músicos para com o material a ser executado.

Roger O’Donnell, Robert Smith, Simon Gallup e Perry Bamonte

Como a refletir o clima menos denso do disco, a própria iluminação é diferente em relação ao primeiro set, sendo mais leve, mais clara, e menos obscura e sombria.

O set de Disintegration é também uma bela oportunidade de conferirmos o lado “guitarrista” de Robert Smith, o qual nem sempre aparece em outros vídeos do grupo (especialmente aqueles que contam com a presença do eterno Cure Porl Thompson). Nesta parte do DVD, Smith assume a maioria dos solos, e conduz muitas das melodias em sua guitarra, mostrando que, além de excelente compositor e de um vocalista marcante, também se sai muito bem como instrumentista – só para lembrar, ele já foi por um tempo um simples guitarrista no grupo Siouxsie and the Banshees, de seus então amigos Siouxsie Sioux e Budgie.

Robert Smith, demonstrando seu lado guitar hero, e Simon Gallup

Quanto às músicas, também não há grandes mudanças nos arranjos em relação às versões de estúdio, mas a possibilidade de conferir a íntegra deste grande disco em uma atmosfera live compensa com sobras eventuais faltas de arroubo criativo por parte do grupo.

“Untitled” encerra um set memorável, e a banda novamente deixa o palco, com Robert Smith se despedindo do público com a frase “outros onze anos”, tempo que levou entre o lançamento de Disintegration e o do próximo disco da trilogia.

Lançado em 2000, Bloodflowers foi, como já dito, inspirado nos dois discos anteriores quando de sua composição. Smith começou a trabalhar no disco em 1998, quando tinha 39 anos (não por acaso, “39” é o nome de uma das faixas). Próximo de completar sua quadragésima década de vida, o músico atravessava uma espécie de “crise de meia idade”, e chegou à conclusão de que não havia mais sentido em manter a banda ativa, preferindo acabar com tudo, fato também explicado pela rejeição do público e da imprensa ao então mais recente disco do The Cure, o incompreendido Wild Mood Swings. Algumas letras do álbum deixam isso bem claro, como as de “Out of This World”, “Maybe Someday”, “39” e “The Last Day of Summer”. Mas mesmo com letras tão óbvias ainda restavam pistas de que o fim não era assim tão certo: “Out of This World” termina com a frase “uma última vez antes de irmos de novo” e a última estrofe de “Maybe Someday” é sintomática: “se eu conseguir fazer isso mais uma vez, talvez só mais uma vez… então talvez algum dia seja a última vez, onde tudo isso irá terminar, ou talvez algum dia tudo isso volte de novo …”.

Robert Smith

Entre suas nove faixas, Bloodflowers rendeu mais algumas canções nas rádios mundiais, como as citadas “Maybe Someday” e “The Last Day of Summer”, além de fornecer aos fãs músicas excelentes como a abertura com “Out of This World”, a épica “Watching Me Fall”, a bela “The Loudest Sound” e a própria faixa título.

Durante a execução deste set em Berlim, a banda toda parece estar mais solta do que em Disintegration, talvez devido às músicas deste disco terem sido gravadas por esta formação, conforme lembra Jason Cooper na entrevista que vem como bônus, o que faz com que o sentimento de familiaridade e conhecimento dos músicos para com elas seja maior. A iluminação nesta parte é mais clara, mais próxima a de um show “normal”, com os membros da banda e os detalhes do palco mais visíveis quando comparados aos dois sets anteriores.

Na maioria das músicas de Bloodflowers, Bamonte assume a guitarra, soltando o seu lado instrumentista (até então meio escondido no DVD), enquanto Robert Smith fica ao violão. O’Donnel também tem uma participação mais efetiva nas melodias e no arranjo das canções, ao invés de ficar restrito às camas de teclados de Disintegration e Pornography. É neste set também que temos a maior alteração nos arranjos de uma canção, no caso “There is No If…”, que ficou mais leve e dançante do que a original de estúdio.

A faixa-título de Bloodflowers encerra com chave de ouro este espetáculo único e inesquecível, e a banda deixa o palco pela terceira vez, retornando para um bis especial, onde são tocadas duas músicas do disco Kiss Me Kiss Me Kiss Me: a claustrofóbica e angustiante “If Only Tonight We Could Sleep” e a desesperadora “The Kiss”, um dos melhores trabalhos de guitarra da história do grupo, mais uma vez conduzido por Smith, e com mais uma frase que demonstra o clima das canções: “eu nunca quis nada disso”. Talvez outras músicas da discografia da banda se encaixassem melhor no clima do show, como, por exemplo, “Faith” ou “The Top”, faixas títulos de outros discos tão depressivos quanto os da trilogia. Mas as duas escolhidas são um fechamento adequado ao DVD, mantendo o ambiente criado pelos três álbuns tocados em sequência.

Show de luzes do palco do The Cure

Como bônus, além do bis, quase 35 minutos de interessantes entrevistas com os membros da banda sobre o conceito da trilogia, a execução das músicas, o passado e o futuro do The Cure e a importância do grupo para os músicos e para seus fãs.

Assistir de uma só vez as quase três horas de show de Trilogy é mergulhar fundo num universo de desesperança, aflição, angústia e sofrimento. Mas a experiência é uma espécie de catarse, da qual se sai renovado, tendo expurgado diversos sentimentos ruins ao longo do caminho.
Por sorte, Robert Smith repensou sua decisão de acabar com o The Cure após Bloodflowers, e a banda seguiu seu caminho, lançando o auto intitulado The Cure em 2004, e, após as saídas de Bamonte e O’Donnell e a volta de Thompson, o bom 4:13 Dream, em 2008. O grupo continua na ativa, e existem rumores de que tocaria no Brasil ainda esse ano. Vamos aguardar, pois seria uma grande notícia, e que muitas músicas da trilogia estejam no set list.
Para terminar, uma dica para aqueles que possuem o DVD ou pretendem adquiri-lo, e que talvez não saibam que existem três easter eggs escondidos em seus menus. Para encontrá-los, faça o seguinte:

Robert Smith

– No primeiro disco, vá até o submenu de Disintegration, vá até “Plainsong” e coloque o cursor do DVD para a esquerda. Você ganhará acesso a um vídeo gravado por Robert Smith com uma câmera de mão durante a entrada da banda no palco para executar o set de Disintegration.além de imagens do público feitas pela mesma câmera durante a execução de “Plainsong”.

– Ainda no primeiro disco, e ainda no submenu de Disintegration, vá até “Same Deep Water As You” e coloque o cursor do DVD para a esquerda. Você ganhará acesso a um vídeo gravado por uma câmera colocada no microfone de Smith (da qual algumas imagens aparecem no DVD) e que mostram o rosto do vocalista e suas expressões durante a execução da música.
– Por último, no segundo disco, no submenu das entrevistas, vá até o último item “End of an Era”, e mais uma vez coloque o cursor do DVD para a esquerda. Você ganhará acesso a mais 90 segundos de entrevistas, com uma pergunta extra para cada membro do grupo.

Capa e contra-capa de Trilogy
Track list:

Disco 1

Pornography


1. One Hundred Years
2. A Short Term Effect
3. The Hanging Garden
4. Siamese Twins
5. The Figurehead
6. A Strange Day
7. Cold
8. Pornography

Disintegration

9. Plainsong
10. Pictures of You
11. Closedown
12. Lovesong
13. Last Dance
14. Lullaby
15. Fascination Street
16. Prayers of Rain
17. The Same Deep Water as You
18. Disintegration
19. Homesick
20. Untitled

Disco 2

Bloodflowers


1. Out of This World
2. Watching Me Fall
3. Where the Birds Always Sing
4. Maybe Someday
5. The Last Day of Summer
6. There Is No If…
7. The Loudest Sound
8. 39
9. Bloodflowers

Encore

10. If Only Tonight We Could Sleep
11. The Kiss

4 comentários

  1. diogobizotto

    Excelente descrição Micael. Mais que primar por aspectos instrumentais, passaste o essencial, que é o clima transmitido por um espetáculo desse gênero. Quisera mais grupos tivessem ideias como a que o The Cure teve, não apenas executando discos clássicos na íntegra, mas buscando um fundo temático para que eles se desvelem com propriedade. Só fico pensando se o Springsteen lançasse DVDs a cada disco que ele executa na íntegra ao vivo, seria o êxtase!

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  2. Groucho KCarão

    Tá aí uma banda que conheço desde pivete, mas que ainda preciso me aprofundar um bocado ainda! Já comecei, já ouvi os dois primeiros, mas ainda falta muuuuito. E me senti encorajado com essa matéria. Depressão é algo com que tenho bastante afinidade, hehe.

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  3. jonas

    Excelente texto, já o conhecia de outro blog e li há muitos anos quando conhecia o Cure e a excelente e heterogênea discografia do grupo.
    As músicas dessa banda de alguma forma já fazem parte da minha vida, são uma profusão de emoções, texturas, lembranças e nostalgia que evocam a cada música ouvida.
    Muito bom ver que por aqui existem apreciadores da banda, uma das mais subestimadas da música pop.

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    • maironmachado

      Obrigado pelo comentário Jonas. Será que você não tinha visto no nosso antigo blog Consultoria do Rock? Estamos como site desde 2013, e é sempre legal ver um comentário de um apreciador de música. Saudações e bom fim de semana

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