Por Mairon Machado
Introdução por Diogo Bizotto

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Tendo como nome “Consultoria do Rock”, é bastante óbvio que o grande destaque de nosso blog e maior paixão dos colaboradores seja o mais universal entre os gêneros musicais, o rock. É a partir dele que pautamos nossas colunas, artigos, resenhas, podcasts… É ele que ocupa porção tão grande de nossas vidas a ponto de motivar a criação de um blog para que possamos apresentar nossos pontos de vista e discutir com outras pessoas a respeito de música.

No entanto, é claro que outros estilos musicais também fazem parte de nosso espectro musical e são importantes em nossas vidas. Dessa maneira, a partir de hoje contamos com a coluna “A Little Respect”, que, como a música do Erasure de mesmo nome, pede mais respeito, mas dessa vez para os gêneros que possam diferir do rock. Synth pop oitentista, disco music, sonoridades eletrônicas, pop rock do mais safado… tudo isso e muito mais pode vir a figurar nessa coluna que primará pela diversificação.

Nessa estreia, trazemos o pop rock de um dos principais grupos do estilo, que talvez tenha sido o primeiro a fazer uma sonoridade nesses moldes chegar ao sucesso e conquistar milhares de fãs pelo mundo, tendo principal concentração de adoradores na Europa. Estou falando do The Buggles.

Sempre quando entramos na história do grupo britânico Yes, nos deparamos com a saída do vocalista Jon Anderson e do tecladista Rick Wakeman no ano de 1979. Ambos foram substituídos pela dupla Trevor Horn (vocais) e Geoff Downes (teclados), que eram membros do The Buggles. Mas afinal, por que eles foram convidados a entrar no Yes?

Bom, isso se deve a muitos fatos da história dessa importante dupla. Na estreia dessa coluna temos o objetivo de homenagear e ressaltar a importância do The Buggles no cenário musical pós-anos 80, já que ele foi um dos pioneiros na arte do videoclipe e também na utilização de sintetizadores e vozes computadorizadas, ainda no final da década de 70, além de ter sido o primeiro grupo a ser apresentado no canal MTV, no dia 1º de agosto de 1981, exatamente às 00:01.

Trevor Horn e Geoff Downes

O grupo consistia apenas de Trevor (voz, baixo, guitarra e violão) e Downes (teclados, sintetizadores, bateria e percussão), dupla que encontrou-se pela primeira vez ainda em meados da década de 70, quando ambos integraram o conjunto vocal que acompanhava a cantora disco Tina Charles, apesar de ambos nunca terem participado de algum lançamento da mesma.

Após esse primeiro encontro, Trevor virou baixista do grupo Tracks, ao lado do baterista Roger Odell, que depois faria sucesso no grupo Shakatak, bem como Bill Sharpe (teclados) e Keith Winter (guitarra). Esse grupo realizou entre 50 e 100 shows, além de ter gravado um raríssimo álbum com produção caseira, que era vendido durante o horário de almoço dos domingos. O som do grupo era um jazz fusion na linha do que Herbie Hancock e Chick Corea estavam fazendo na época.

Apresentação do Tracks (Trevor no baixo, a esquerda)

 
Em uma apresentação do Tracks no Hammersmith Odeon, Trevor conheceu o cantor Bruce Woolley, que lhe ensinou técnicas de produção e de voz. Trevor começou a trabalhar em busca de novas sonoridades, ouvindo principalmente krautrock e a onda disco que surgia pela europa, mas estava cada vez mais frustrado por não encontrar ninguém que colabora-se da forma como ele pensava.

A solução para o problema da busca pela nova sonoridade foi sugerida por Bruce, que incentivou Trevor a encontrar algum músico que estivesse sobrando no mercado, e transformá-lo em uma espécie de suporte para o que estava fervilhando no cérebro de Trevor. O primeiro nome que veio a cabeça do vocalista foi exatamente o de Downes, que estava encostado trabalhando como músico de estúdio.

Surgia assim o trio The Bugs, com Trevor, Bruce e Downes, que começou a compor na mesma linha de bandas como Kraftwerk e também inspirados pela fase Berlin de David Bowie. Nesse período, o destaque foi para o desenvolvimento do aparato de sintetizadores que Downes começou a usar, o qual classifica a sonoridade do The Bugs como sendo única para a época.

Início da carreira do The Buggles (1979)

A medida que as composições surgiam, o nome foi mudado, e assim, adotam “The Buggles”, segundo Horn por ser o nome mais nojento que ele podia pensar para uma banda, segundo Downes, como uma superstição, para ser uma sequência do nome e do sucesso dos The Beatles. Os Bugs (“erros” em português) eram insetos imaginários que viviam na cabeça e nos estúdios de gravação do trio, surgindo sempre quando algo não dava certo – “a culpa é dos bugs” – e um determinado dia, alguém passou pelo lugar e falou que os The Bugs nunca seriam maior que os The Beatles, surgindo assim a fusão The Buggles.

O maior sucesso comercial do The Buggles

O trio começou a fazer suas gravações, e o primeiro registro se tornou um marco na história da música. No verão de 1979, uma fita demo foi enviada para a Island Records, apresentando apenas uma canção, a clássica “Video Killed the Radio Star”. Bastou chegar o refrão dessa canção para a Islands entrar em desespero, e vendo a capacidade de dinheiro que aquele som poderia atingir, assinou com os The Buggles no dia seguinte.

Dessa demo, participaram Tina Charles (vocais), Trevor (baixo, vocais, guitarra), Bruce (vocais, teclados) e Downes (bateria, teclados). Embora seja uma composição de Bruce, o vocalista acabou largando o The Buggles para seguir carreira com o grupo The Camera Club. Ficava nas mãos de Downes e Trevor a tarefa de levar o contrato com a Islands adiante. A possibilidade de colocar um substituto no lugar de Bruce logo foi descartada, e dessa forma, a dupla lançava em  sete de setembro de 1979, o single de “Video Killed the Radio Star”, poucas semanas depois de Bruce ter lançado a canção no álbum English Garden do grupo The Camera Club.

Compacto do English Garden com “Video Killed the Radio Star”

Como previsto pelos diretores da Island, a canção estourou entre os jovens, sendo curiosamente o single de número 444 a alcançar a posição número 1 das paradas britânicas, onde permaneceu a frente de diversos outros artistas como The Who, Talking Heads, Led Zeppelin, Yes, Pink Floyd e David Bowie por mais de uma semana, levando o nome The Buggles a meteórica exposição dentro da Grã-Bretanha.

Com o sucesso na terra da Rainha, a Island expandiu o lançamento de “Video Killed the Radio Star” para o resto do mundo, e o sucesso novamente foi obtido, chegando ao primeiro lugar em mais 16 países. Para completar o sucesso da canção, um vídeo-clip foi produzido e dirigido pelo australiano Russell Mulcahy, que também dirigiu vídeos para Duran Duran, Elton John, The Tubes, Bonnie Taylor, Queen entre outros.

O primeiro álbum do The Buggles

Ao mesmo tempo que “Video Killed the Radio Star” aumentava a popularidade do The Buggles, a pressão para o grupo não se tornar mais um one-hit band era grande. Em poucas semanas, Downes e Trevor escreveram mais canções, que foram registradas e lançadas no primeiro álbum da dupla. The Age of Plastic foi lançado em 4 de fevereiro de 1980, durante a excursão europeia do The Buggles, e foi carregado pelo sucesso de “Video Killed the Radio Star”.

Single de “Living in the Plastic Age”

Moderno, e ao mesmo tempo experimental e bastante envolvente na primeira audição, o LP é um álbum conceitual, que explora temas de intensa nostalgia e a ansiedade do novo mundo com o avanço da tecnologia e dos aparatos eletrônicos, o que é bem retratado nas duas canções que abrem o LP. “Living in the Plastic Age” é a primeira, onde vozes e uma espécie de despertador apresentam os sintetizadores com o riff principal, seguido pela bateria eletrônica fazendo a marcação no bumbo, e com a adição de mais e mais sintetizadores, Trevor começa a cantar, com a letra fazendo alusão as cirurgias plásticas e também ao stress da vida moderna, embalando em uma interessante canção, que apesar do andamento quadrado, possui um bom arranjo, principalmente no refrão e no solo de Downes, que conta com muitos efeitos eletrônicos.

Single de “Video Killed the Radio Star”

A segunda faixa do LP é a clássica “Video Killed the Radio Star”, uma crítica ao que o próprio The Buggles iria fazer, que era investir nos vídeos e acabar com a fama das canções que apenas tocavam em rádios. Acordes de piano, acompanhados pelo baixo, trazem a voz com efeitos de Trevor, tendo intervenções das famosas vocalizações femininas de Debi Doss e Linda Jardim, com seus “oua-oua“. As vocalizações então entoam o nome da canção durante o grudento refrão, enquanto Trevor canta a sequência da letra, seguido de mais vocalizações. A sequência de estrofes é repetida após o refrão, e Downes faz um curto tema no piano elétrico, para os acordes de guitarra apresentarem o refrão, com as vocalizações femininas cantando o nome da canção e com um breve solo de guitarra ao fundo, encerrando apenas com o tema inicial feito pelo sintetizador. Clássico pop! Simples, direto e grudento, que facilmente conquistou a geração saúde da nova década.

Horn e Downes no auge do sucesso (1980


“Kyd Dinamo” possui a melodia do piano elétrico seguida pelo baixo. A entrada da guitarra e bateria apresentam uma quadrada mas pesada canção (para o estilo), que lembra trilhas de heróis japoneses. A voz destorcida de Trevor está presente, tendo novamente as vocalizações femininas durante o refrão, onde as notas são uma imitação do “Fantasma da Ópera”.

Por fim, “I Love You (Miss Robot)” fecha o lado A com sleps no baixo e a bateria acompanhando as vozes computadorizadas de Downes cantando o refrão. Trevor então canta a primeira estrofe, seguido pelo refrão com as vozes computadorizadas. A sequência é repetida, com a canção sempre no mesmo andamento, encerrando o lado A sem muita empolgação.

Single de “Clean Clean”

O lado B abre com “Clean Clean”, onde os bonitos acordes do órgão de igreja são seguidos por guitarras e sintetizadores, com a bateria fazendo o tradicional ritmo bumbo-caixa, que apresenta os vocais de Trevor. As vozes computadorizadas novamente estão presentes, levando ao grudento refrão que entoa o nome da canção, onde o tema dos teclados grudará por horas no seu cérebro. Destaque também para o solo em ritmo de marcha russa feito por Downes.

“Elstree” já apresenta acordes de piano em sua introdução, mas a entrada dos vocais com efeitos apresenta outra quadrada canção, que chama a atenção pelo trabalho de sintetizadores. “Astroboy (and the Prolen on Parade)” é uma viajante canção  pop, com baixo e marcação percussiva seguidos de sintetizadores que trazem a voz de Trevor sobre camadas de sintetizadores, com diversos momentos instrumentais interessantes que vão se alternando aleatoriamente.

Single de “Elstree

The Age of Plastic encerra com “Johnny on the Monorail”, onde o piano elétrico faz um rápido tema, e assim, o andameno bumbo-caixa leva os vocais de Trevor, com destaque novamente para o bom trabalho de Downes, além da dançante levada do baixo e da guitarra.

Downes tocou teclados, bateria e percussão, enquanto Trevor  cantou e tocou guitarra e baixo. Além disso, a dupla contou com a participação de Paul Robinson e Richard James Burgess na bateria, bem como Bruce tocando guitarra em “The Plastic Age” e “Video Killed the Radio Star”. O nome do álbum é baseado na novela The Plastic Age, lançada no ano de 1924 como livro, e como um filme em 1925.
 
Três singles foram lançados do álbum (além de “Video Killed the Radio Star” / “Kid Dynamo”): “Living in the Plastic Age” / “Island” (02 de julho de 1980), “Clean Clean” / “Technopop” (04 de outubro de 1980) e “Elstree” / “”Johnny on the Monorail (A Very Different Version)” (27 de outubro de 1980). “Living in the Plastic Age” foi gravada ainda em 79, e alcançou a décima sexta posição nas paradas britânicas. Já “Clean Clean” alcançou a posição 38, e “Elstree”, uma homenagem aos estúdios Elstree,  não obteve sucesso comercial.

Downes e Horn

A versão de “Video Killed the Radio Star” lançada pelo Camera Club foi sucesso apenas no Canadá. Em compensação, o The Buggles conquistou o mundo, sendo número 1 na Austrália, Suécia, Suíça e Reino Unido, além de ter chegado na segunda posição nas paradas da Nova Zelândia. Somente na Alemanha o desempenho não foi tão bom, atingindo a décima sexta posição, e nos Estados Unidos, onde estreiou em 10 de novembro de 79 e chegou na tímida quadragésima posição.

O grande destaque para esse período foi a produção dos vídeos de divulgação dos singles. Para “Living in the Plastic Age“, o The Buggles criou um vídeo futurista e repleto de ilusionismo, algo incomum até então, que apareceu ao grande público em janeiro de 1980. Empregando cores brilhantes, vestimentas provocativas, jogo de imagens e de luzes muito fortes, o vídeo apresenta algum lugar do futuro com 3 jovens vestidos como demônios, usando capas pretas e saindo de uma sombria caverna. Com o passar do vídeo, mulheres “de quatro” são mostradas como teclados, bem como outra mulher esta com uma insinuante vestimenta de um telefone, e a maior atração para os saudosistas e a famosa cena onde o jogo de Atari, Space Invaders, é destacado.

Para o vídeo de “Clean Clean“, Downes e Trevor comportam-se como astros em um show de rock, e nada mais. Já em “Elstree“, Trevor aparece como um velho zelador da BBC limpando um cemitério que foi cenário de alguma gravação de um filme-B do Elstree Studio, fazendo uma espetacular mistura de imagens preto-e-branco com imagens coloridas.

Número 1 no Reino Unido (1979)

Já o clip para “Video Killed the Radio Star” é nostálgico,  sendo este o que foi apresentado na MTv. Também envolvendo imagens em preto-e-branco com imagens coloridas, destaca uma criança, a qual vê a decadência do rádio (tratado no vídeo como uma espécie de máquina de lavar roupas quebrada) e que depara-se com os novos ídolos através do crescente sucesso da TV, tendo a participação de Hans Zimmer nos teclados e de Debi Doss na dança. 

Mas, é o vídeo da participação no programa DISCO que mais chama a atenção, com a dupla acompanhada de duas garotas fazendo os backing vocals, uma simulando o astro do rádio que foi assassinado, permanecendo triste e praticamente imóvel durante todo o vídeo, enquanto outra, loiraça e feliz, com um vestido insinuante, canta e dança saltitante, fazendo a estrela vídeo que assassinou a estrela do rádio. Outro fato curioso é que se o clip de “Video Killed the Radio Star” inaugurou a era de vídeos na MTv em 1980, em 2010 ele foi o último clip a ser apresentado pela MTv filipina, que fechou as portas em 15 de fevereiro daquele ano, as 23:49.

Dos clips do The Buggles, ficou a forte imagem de Trevor, com seus grandes óculos e praticamente a ausência de presença de palco, além do clip de “Video Killed the Radio Star” ser rotulado como o quadragésimo melhor vídeo dos anos 80. Durante o período em que os vídeos foram produzidos e estavam sendo divulgados, a dupla apareceu duas vezes no programa BBC Radio 1, interpretando “The Plastic Age” (02/07/1980) e “Clean Clean” (04/10/80).

Voltando para The Age of Plastic, o relançamento em 2000 contou com três bônus, que são exatamente os lados B dos singles lançados pós-“Video Killed the Radio Star”: “Island”, “Technopop” e “Johnny on the Monorail (A very different version)”. Depois, em 24 de fevereiro de 2010, os japoneses lançaram uma versão remasterizada para o relançamento de 2000, contando ainda com mais 6 canções inéditas: “Video Killed the Radio Star” (Single version); “Kid Dynamo” (Single version); “Living in the Plastic Age” (Single version); “Elstree” (Single version); “Elstree” (Special DJ edit version) e “Clean Clean” (12-inch version).

O Lp alcançou melhor posição nos países escandinavos, ficando em vigésimo terceiro na Noruega e vigésimo quarto na Suécia, enquanto que no Reino Unido, foi vigésimo sétimo. Nos Estados Unidos, o The Buggles chegava a quadragésima posição com as vendas de The Age of Plastic.

A dupla começou a trabalhar no segundo álbum, enquanto que no estúdio ao lado, o Yes começava a planejar seu futuro sem Anderson e Wakeman. Tanto Downes quanto Trevor eram fãs assíduos do Yes, sendo que nos tempos vagos, a dupla brincava interpretando canções como “Long Distance Runaround”, “Roundabout”, “Sweet Dreams”, “Survival” e outras. Com a sorte batendo ao lado, tomaram coragem e bateram nas portas do estúdio do Yes, onde foram recebidos por Chris Squire (baixo, vocais), Steve Howe (guitarra, vocais) e Alan White (bateria).

A aproximação entre Yes e The Buggles começou tímida, com a dupla oferecendo uma canção para o trio remanescente, chamada “We Can Fly from Here”. A ideia era tentar ampliar o nome The Buggles através de um grande nome do rock progressivo. Porém, Brian Lane, que era o empresário de ambas as bandas na época, sugeriu a Squire que convidasse a dupla para ingressar no Yes. Surgia assim a formação mais temida pelos fãs do grupo, com Trevor Horn (vocais), Geoff Downes (teclados, efeitos), Steve Howe (guitarras, voz), Chris Squire (baixo, voz) e Alan White (bateria).

Drama, o único e excelente LP do Yes/Buggles

O Yes entrou em estúdio com a nova formação, e a imprensa batizando a mesma de Yes/Buggles. De lá, em 22 de agosto de 1980, saíram com o álbum Drama. Os comentários sobre as canções desse álbum fogem do escopo pretendido nessa matéria. Apenas resumindo a ópera, é um dos melhores trabalhos do Yes, destacando um trabalho forte dos teclados de Downes e da pesada distorção empregada por Howe na guitarra. Canções como “Machine Messiah” (e um dos riffs mais pesados da história do progressivo), “Into the Lens”, “Does it Really Happen?” e “Tempus Fugit” são dignas de nota 10 em termos de composição, e mesmo sendo um álbum diferente dos clássicos Fragile (1971), Close to the Edge (1972), Tales from Topographic Oceans (1973) e Relayer (1974), não deixa nada a dever para os mesmos.

Single de “Into the Lens”

Drama atingiu a segunda posição no Reino Unido, e a décima oitava nos Estados Unidos. O single de “Into the Lens“, com seus mais de oito minutos, foi lançado em uma edição limitada em vinil de 12 polegadas. Posteriormente, uma versão editada com apenas quatro minutos chegou as lojas. Essa foi a segunda canção do The Buggles a ser apresentada para o Yes, originalmente com o nome de “I Am a Camera”. Já “We Can Fly from Here” ficou de fora do vinil, mas foi apresentada na turnê do mesmo.

Apesar do sucesso comercial de Drama, o bicho começou a pegar nas apresentações da nova formação. A fraca presença de palco de Trevor, bem como a visível distinção de tonalidades de voz entre ele e Anderson, levaram os fãs a vaiar o grupo quando da apresentação de clássicos da era Anderson. Mesmo tendo o apoio da gravadora e dos próprios Howe, Squire e White, a pressão da mídia e dos fãs (principalmente na Inglaterra) foi tão grande que derrubou Trevor do posto de vocalista após o término da turnê de Drama, em 1981. O Yes encerrou suas atividades enquanto Downes e Trevor voltaram-se para a conclusão do segundo álbum, que ficou estacionado durante o período Yes/Buggles.

Yes/Buggles: Steve Howe, Alan White, Geoff Downes, Chris Squire e Trevor Horn

A dupla retomou canções que não foram aproveitadas pelo Yes ou que ainda estavam em processo de composição, e entrou nos estúdios novamente. Mas, Downes decidiu abandonar o projeto, alegando diferenças musicais com Trevor e indo fundar o Asia ao lado de Howe, John Wetton (baixo, vocais) e Carl Palmer (bateria). Trevor decidiu concluir o álbum, chamando diversos novos parceiros para ajudá-lo, entre eles, o tecladista John Sinclair.

O último LP do The Buggles

Em 11 de novembro de 1981, chegava as lojas o segundo álbum do The Buggles, Adventures in Modern Recording, através também de uma nova gravadora, a Carrere Records. Bem diferente do álbum de estreia, Trevor adotou ritmos e efeitos inovadores para as novas canções, e teve a ajuda de Squire para a produção e criação de várias partes instrumentais das canções do álbum.

Single de “Adventures in Modern Recording”

“Adventures in Modern Recording” abre o LP com o barulho de público, sintetizadores e bateria fazendo a introdução, para Trevor cantar com o acompanhamento da bateria eletrônica de Sinclair. O refrão conta com a participação dos backing vocals de Squire (Yes) e o solo central, com muitos sintetizadores e eletrônicos, tem como destaque Simon Darlow na guitarra, em uma canção dançante e muito próxima ao que o Asia faria meses depois.

Single de “Beatnik”

Depois, “Beatnik” surge com Trevor cantando a estrofe central a capela, para guitarra, sintetizadores e bateria comandarem o ritmo rock/reggae anos 80 (uma espécie de Oingo Boingo), com um grudento refrão entoando o nome da canção, que conta com a participação de Downes, Sinclair (agora na guitarra), Anne Dudley (teclados) e Louis Jardim (percussão), e o momento principal é o solo de Downes.

A viajante “Vermilion Sands” tem a bateria eletrônica trazendo a voz de Trevor, com Downes comandando os sintetizadores enquanto Trevor toca guitarra. O refrão é bem característico para a época. A canção modifica-se na sua metade final, com Downes executando um bom solo sobre um andamento jazzístico dos sintetizadores, que depois de passos e uma porta fechando transforma-se em uma big-band de sintetizadores, além do baixo e bateria eletrônica, fazendo um jazz anos 30 para acompanhar o solo de clarinete-sintetizado.

Single de “I Am a Camera”

O lado A encerra com “I am a Camera”, a versão original de “Into the Lens”, onde o piano entra no conhecido tema central registrado pelo Yes, trazendo os vocais de Trevor na mesma melodia do que está registrado em Drama mas com pequenas diferenças na letra. É claro que não da para comparar uma com a outra, principalmente pela forte predominância dos eletrônicos na versão do The Buggles, mas não da para negar que a levada dançante é perfeita para uma festa anos 80, ou seja, temos uma boa canção feita pela dupla Horn/Downes, fechando o lado A sendo impossível não cantar a frase que dá nome a canção.

Single de “On TV”

“On TV” abre o lado B na mais pop das canções deste álbum, recheada de bateria eletrônica e vocalizações que cantam o nome da canção. Assustadora! Para passar longe e digna de apenas uma única audição. Para registro apenas, participam da mesma Simon Darlow (guitarra, teclados), Sinclair (programação, vocais) e Bruce Wooley (voz)

“Inner City” possui o mesmo time de “On TV”, apenas sem Bruce, em mais uma canção repleta de eletrônicos, mas não assustadora quanto sua antecessora. O andamento desta é mais sombrio, saindo de alguma tumba aberta pelo New Order, e com uma das melhores melodias vocais dentro do pop que está sendo apresentado nessa sessão, além do bom arranjo de teclados feitos no refrão.

Single de “Lenny”

Downes volta a participar de “Lenny”, ao lado de, Rod Thompson (teclados), Danny Schogger (teclados) e Trevor, em mais  uma gigantesca bomba, cujo único comentário é o interessante clima new age, e nada mais.

Por fim, “Rainbow Warrior” começa com vento e barulhos de flauta trazendo os teclados de Simon. Trevor canta suavemente, tendo o acompanhamento do teclado. A bateria eletrônica e os sintetizadores entram na canção, marcando o tempo para uma pop-ballad com guitarras sintetizadas, que se fosse melhor trabalhada, poderia ser a melhor canção do álbum, principalmente pelo bom início da mesma. Destaque para o solo de guitarra e para Trevor mostrando seus dotes de baixista durante boa parte da canção.

Cinco singles foram extraídos do LP: “I Am a Camera” / “Fade Away”, lançado em outubro de 81; “Adventures in Modern Recording” / “Blue Nylon”; “On TV” / “Fade Away”; “Lenny” / “Blue Nylon” e “Beatnik” / “Fade Away”, todos de fraco desempenho nos charts britânicos. “Adventures in Modern Recording”, lançado em janeiro de 82, ainda alcançou a posição 27 na Itália, e os demais, viraram suporte de poeira nas lojas.

O LP foi relançado no Japão em CD, no ano de 1993, pela Jimco Records. Em 97, mais um relançamento, agora pela gravadora Japanese Flavour of Sound, e tendo três bônus: “Fade Away”; “Blue Nylon” e a versão do single para “I Am a Camera”. Em 15 de fevereiro de 2010, a Salvo Records lançou Adventures in Modern Recording em uma edição especial com mais 10 faixas bônus: as três do lançamento de 97 mais “We Can Fly From Here – Part1”, “Dion”, “Videotheque”, “On TV”, “Walking on Glass”, “Riding a Tide” e “We Can Fly From Here – Part 2”.

A performance também foi muito fraca no reino Unido, atingindo a posição 50 na Suíça e a baixíssima 161 nos Estados Unidos. Apesar do investimento em “I Am a Camera”, que inclusive ganhou um vídeo-clipe com outra grande produção, de onde Trevor surge de dentro dos óculos que marcou sua carreira, minúsculo, e desenvolvendo o filme com muitos efeitos especiais, como espelhos móveis, muitas lentes e imagens de óculos aparecendo, imagens projetadas em câmera lenta e tendo Trevor como único personagem da canção, Trevor viu o fundo do poço, e decretou o fim do The Buggles.

Trevor em seu estúdio particular (1987)

Assim, partiu para uma carreira de produtor musical, onde inclusive veio a trabalhar novamente com o Yes, produzindo o aclamado 90125 (1983) e também Big Generator (1987). Trevor se tornou um dos mais conceituados produtores da música, trabalhando com nomes fortes como Paul McCartney, Tina Turner, Seal, Cher, Pet Shop Boys, Jeff Beck e Belle & Sebastian.

Downes fez carreira com o Asia, sendo o único a permanecer em todas as formações do grupo, que também conquistou primeiro lugar nas paradas de diversos países principalmente com seus dois primeiros álbuns: Asia (1982) e Alpha (1983). Além disso, teve participação especial no álbum GTR (1986), projeto entre Steve Howe, Steve Hackett e outros membros.

Downes e Trevor (1981)

Depois de 16 anos, em 3 de dezembro de 1998, a primeira apresentação oficial do The Buggles ocorreu, isso graças a uma breve reunião entre Downes e Trevor, sendo acompanhados por Tessa Nilesnos backing vocals e também pelo grupo The Marbles, formado por Jonathon McGlynn (baixo), Seamus Simon (bateria) e Justin Whelan (guitarra). A apresentação surpresa ocorreu exatamente durante um show do The Marbles, com Trevor e Downes subindo ao palco para interpretar “Video Killed the Radio Star”.

Em 2004, o trio original reuniu-se pela primeira vez em 24 anos, durante um concerto beneficente para a Prince’s Trust Charity, que homenageou a carreira de Trevor. O vocalista/baixista, ao lado de Downes, Bruce Woolley, Paul Robinson, Debi Doss e Linda Jardim, interpretou “Video Killed the Radio Star” e “Living in the Plastic Age“.

Já em 2006, Trevor fundou o The Producers, ao lado de Lol Creme (guitarra, vocais), Steve Lipson (guitarra), Chris Braide (teclados, vocais) e Ash Soan (bateria), cujo primeiro álbum está programado para ser lançado em 2011. Em 2009, Trevor produziu o álbum Reality Killed the Video Star, do cantor Robbie Williams, que foi uma homenagem ao primeiro grande single do The Buggles, com os dois interpretando a canção no BBC Electric Proms, em 20 de outubro daquele ano.

Trevor em 2004

Em 28 de setembro de 2010, depois de 30 anos do sucesso de “Video Killed the Radio Star”, o The Buggles se reuniu para realizar a primeira apresentação de longa duração da história do grupo, no Ladbroke Grove’s Supperclub, em Notting Hill. O dinheiro arrecadado foi doado para o Royal Hospital for Neurodisability. No palco, Downes, Trevor e Wooley interpretaram The Age of Plastic na íntegra, e com convidados, canções como “Rubber Bullets” (com Lol Creme, do 10cc), “I’m Not in Love” (com Chirs Braide), “Slave to the Rhythm” (com Alison Moyet), “Hard to Handle” (Gary Barlow) e Richard O’Brien interpretando “Johnny on the Monorail“. Este show, que teve a abertura de outro grupo seminal do pop britânico, o Orchestral Manoeuvres in the Dark, encerrou com um grande encore, com todos cantando “Video Killed the Radio Star” tendo o vídeo promocional projetado ao fundo.

Atualmente, Downes está excursionando com o Asia, enquanto Horn mantém seu trabalho de produção de discos de sucesso. O The Buggles permanece como um dos grupos que mais vendeu na história do rock, e apesar de todo o preconceito musical que possa existir sobre a sonoridade do grupo, gostando ou não da música feita pela dupla Horn/Downes, o sucesso nos anos 80 de bandas seminais do estilo pop como Erasure, Pet Shop Boys, Tears for Fears, Alpha Ville entre outros está diretamente ligado ao nascimento do The Buggles, e apenas isso é um fato digno de se merecer um pouco de respeito.

2 comentários

  1. Groucho KCarão

    Enfim, terminei de ler o texto!
    Essa banda eu preciso conhecer. Esse é um período da música que eu conheço muito pouco. O que eu conheço não me agrada muito, mas tenho certeza que podem ser encontrados bons momentos mais inovadores, ousados. Aquele primeiro disco do Devo, por exemplo, é bem interessante.
    Quanto ao Drama, é um ótimo disco, bem melhor que o 90125, mas não fica entre os melhores do Yes, de forma alguma. Ponho ele no nível do Tormato, que não é ruim como dizem.
    Agora, vem cá: sou só eu que acho os visuais do true metal e do hard/glam rock bem menos ridículos que o dessas bandas de synth-pop/new wave e afins? Aliás, não só o visual, mas a estética como um todo. Vi uns clipes do INXS uma época e foi uma tortura!

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  2. diogobizotto

    Aí varia conforme os "óculos" com os quais você enxerga o mundo. Para mim ambos parecem hoje em dia ridículos, mas talvez, se eu vivesse na época, pensasse diferente. Honestamente, eu preferiria me vestir como um mebro do Mötley Crüe na época de "Shout at the Devil" do que como o Devo.

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