Por Rafael “CP”
O ano é 2000. Após o término da onda grunge que devastou a cena hard rock, o Skid Row tentou retomar suas atividades, mas o desafio seria maior do que o imaginado, pois eles teriam que lidar com um fantasma muito pior que o das bandas de Seattle: como conseguir substituir um cara como Sebastian Bach, que marcou a ferro e fogo o hard rock e o heavy metal nos anos 90, com seu vocal peculiar e um carisma incomparável, além de um visual que levava a mais puritana das mulheres à loucura. Para suprir sua ausência, recrutaram Johnny Solinger, dono de um estilo completamente diferente de seu antecessor. Não é preciso fazer muito esforço para adivinhar que o vocalista foi prontamente dispensado pelos bachmaníacos de plantão, que se consideram os “verdadeiros fãs do Skid Row”, não recebendo uma boa aceitação.
Mas a vida tem que continuar. Além de Solinger, ocorreu também a entrada de um novo baterista, Phil Varone, substituindo Rob Affuso, que abandonou o barco por problemas de saúde. Depois de excursionar abrindo para o Kiss na turnê “Alive Worldwide Tour”, a banda se trancou no estúdio existente na casa do baixista Rachel Bolan a fim de escrever e executar novas músicas. Dessas sessões nasceu Thickskin, um álbum que sim, ainda trazia alguma coisa do hard rock antigamente praticado pela banda, mas também estava direcionado a outros estilos, como o pop rock, trazia pitadas de grunge, além de uma forte influência punk, intenção antiga de Rachel Bolan, que sempre foi fã do gênero e já vinha dando indícios das modificações que o som da banda sofreria no discutivel Subhuman Race (1995).
O resultado é notável, pois Johnny é um excelente cantor, dono de uma voz potente. Na verdade, sempre recomendo esse álbum para os amigos pedindo a eles que esqueçam o nome Skid Row e se concentrem no som, como se essa fosse uma outra banda, para assim poder apreciar essa obra de arte em toda sua magnitude. Em “New Generation” a banda se reinventa através de uma pegada punk rock contagiante, que dá vontade de balançar a cabeleira. Grande destaque, minha faixa favorita do álbum é “Ghost”, talvez a que mais se aproxime do antigo Skid Row, guardadas as devidas proporções, pois o vocal de Solinger é bem mais grave que o de Bach. Nessa canção o hard rock dá o tom, com uma levada mais pop, oferecendo um pouco de esperança ao mais ferrenho fã do antigo vocalista.
Skid Row em 2003: Phil Varone, Dave “The Snake” Sabo, Johnny Solinger, Scotti Hill e Rachel Bolan
A coisa vai rolando e o Skid Row desfilando mais e mais clássicos da nova fase, como a belíssima balada “One Light”, que na primeira audição me lembrou de Eddie Vedder (sim, isso foi um elogio, o Pearl Jam é uma grande banda), passando por “Born a Beggar”, uma grande salada de grunge e hard pop degustada com sabor de quero mais. “See You Around” é outra linda balada que mostra todo o potencial de composição de Rachel Bolan. “Thick is the Skin” é uma faixa mais pesada bem ao estilo do álbum Slave to the Grind (1991), e foi escolhida com maestria como primeiro single do álbum. Mais duas porradas que merecem um troféu no quesito instrumental e capacidade de colocar o ouvinte para cima são “Hittin’ a Wall” e “Mouth of Vodoo”. Finalizando, o único destaque negativo vai para a ridícula versão do antigo clássico “I Remember You”, aqui rebatizada  como “I Remember You Two”, que além de horrível é desnecessária, pois com a qualidade de todo o trabalho novo, para que relembrar coisas do passado?
Ao fim desta releitura de Thickskin chego à conclusão de que, entre mortos e feridos, a banda conseguiu dar uma nova roupagem à sua sonoridade, agregando tendências mais atuais e consequentemente dividindo muitas opiniões com isso. Por outro lado, me surpreendi como esse álbum caiu nas graças de um cara tradicional como eu; e se funcionou comigo, é sinal de que nem tudo está perdido para o Skid Row.

Track list:

1. New Generation
2. Ghost
3. Swallow Me (The Real You)
4. Born a Beggar
5. Thick Is the Skin
6. See You Around
7. Mouth of Voodoo
8. One Light
9. I Remember You Two
10. Lamb
11. Down from Underground
12. Hittin’ a Wall

8 comentários

  1. diogobizotto

    Lembro bem quando foi liberada na internet a música "Thick Is the Skin", antes do lançemento do disco. Gostei de cara, mas já sabia que ela não cairia nas graças do antigo público da banda.

    Hoje em dia, consigo analisar a recepção do disco com mais propriedade. Que ele seria rejeitado pela parcela de fãs mais estúpida, que se importa mais com o reforço dos clichês do que com a música que brota do CD, e que costuma vestir-se como se vivesse na Los Angeles dos anos 80 e se importa mais com visual que com música, estava na cara. Do mesmo jeito que ele foi rejeitado por aquele tipo de fã que pensa que tem posse da banda e da arte que ela é capaz de fazer. O Skid Row cresceu, não precisa mais de Sebastian Bach. Assim como Bach não precisa do Skid Row e segue bem em carreira solo, cada vez mais metal, ao contrário da sua banda original, que emprega influências externas ao hard rock mais tradicional, do country ao punk.

    Outro fato importante de frisar: o Skid Row não tem que se preocupar em agradar ninguém. Aqueles que nunca gostaram do grupo vão continuar não gostando. Quem detesta a sonoridade hard rock presente em "Skid Row" e "Slave to the Grind" os criticariam caso continuassem praticando o mesmo tipo de som. Praticando algo diferente, são ignorados por esses mesmos. Quero mais que se danem. "Thickskin" pode não ser um álbum maravilhoso, um novo clássico, mas é foda pra caralho, e isso me basta.

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  2. Rafael "CP"

    Não sei de onde esses caras tiram forças, pois depois de ja terem tocado pra 50 mil pessoas no Brasil ,voltarem pra tocar pra 500 pessoas no Manifesto é muito desanimador. Mais como eles tem sua grana , suas profissões , não fazem isso por grana e sim por amor . E SIM , eu relutei muito em ouvir esse Tickskin , e SIM , acho o Revolutions per MInute uma porcaria , mais não acho justo criticarem o Solinger , pois ele é um grande vocalista.

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  3. leonardocastro

    Eu nao curto o Thickskin. Acho que tem um que de rock alternativo que eu nao curto muito.

    Já o seguinte, Revolutions Per Minute, é bem melhor, mais sujo, agressivo e com um pé no punk.

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  4. diogobizotto

    Levando ao pé da letra a expressão "rock alternativo", diria que o Skid Row hoje em dia é muito mais alternativo que essas bandas indies que carregam esse rótulo como se fosse um selo de qualidade para muitos. Gosto mais do "Thickskin", mas também aprecio "Revolutions Per Minute", que é mais escrachado e possui influências ainda mais diversas.

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  5. fernandobueno

    Não ouvi esse disco nem o seguinte por pura falta de interesse. A minha crítica vai para o fato de que mesmo querendo desvincular o som novo do antigo é impossível já que mesmo a banda não deixa. Regravar I Remember You que é totalmente Sebastian Bach foi uma estupidez…Como disse não ouvi e não sei como ficou, mas não dá nem vontade de escutar….

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  6. Mairon Machado

    Eu sou daqueles que gostam (e muito) dos dois primeiros e clássicos álbuns da banda. Depois que saiu o Bsides, eu não conheço o que foi lançado. O Sebastian Bach podia ser o centro das atenções, mas para mim OS CARAS eram o Sabo e o Bolan. Tenho que ouvir esse disco.

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