Status Quo – Hello! [1973]

Status Quo – Hello! [1973]

Por Daniel Benedetti

A trajetória do Status Quo até Hello! é, em boa medida, a história de uma banda que precisou abandonar algumas das expectativas criadas em torno de si para finalmente encontrar uma identidade musical mais sólida. Formado no início dos anos 1960 por Francis Rossi e Alan Lancaster, o grupo passou por diferentes nomes, formações e orientações estilísticas antes de consolidar o quarteto que chegaria a um de seus momentos mais importantes. O caminho começou ainda na escola, com os primeiros shows em Londres e a sucessiva entrada de John Coghlan e Rick Parfitt, este último destinado a se tornar uma das figuras fundamentais da identidade sonora e visual do Status Quo. Depois de experiências como The Paladins, The Spectres, Traffic e Traffic Jam, o grupo adotou definitivamente o nome The Status Quo em 1967.

Da esquerda para a direita: Alan Lancaster, Rick Parfitt, Francis Rossi e John Coghlan. Status Quo em 1973

Os primeiros anos foram marcados pela psicodelia, tendência que dominava boa parte do rock britânico da segunda metade dos anos 1960. O álbum de estreia, Picturesque Matchstickable Messages from the Status Quo, lançado em 1968, refletia claramente essa orientação, enquanto Spare Parts, de 1969, não conseguiu repetir o impacto esperado. A resposta do grupo foi uma mudança significativa de direção. Em vez de insistir na psicodelia, o Status Quo passou a explorar com maior intensidade suas raízes no rock’n’roll, no blues e, sobretudo, no boogie. Ma Kelly’s Greasy Spoon, de 1970, representou essa transformação, seguida por Dog of Two Head, de 1971. A saída de Roy Lynes consolidou o formato de quarteto, com Rossi, Parfitt, Lancaster e Coghlan, justamente a formação que desenvolveria uma das sonoridades mais reconhecíveis da banda.

A mudança também coincidiu com uma nova fase comercial. Depois de deixar a Pye Records e assinar com a Vertigo, o Status Quo lançou Piledriver, em 1972, alcançando o Top 5 britânico. O sucesso tardio desse trabalho começou a produzir efeitos em 1973, quando o grupo finalmente passou a ocupar posições mais altas nas paradas. A antiga gravadora, Pye, ainda aproveitou o momento para relançar material anterior, levando “Mean Girl”, de Dog of Two Head, ao 20º lugar. O Status Quo, entretanto, já estava claramente voltado para uma nova etapa. Em agosto de 1973, “Caroline”, composta por Francis Rossi e Bob Young, chegou ao quinto lugar da parada britânica, tornando-se o primeiro single da banda a entrar no Top 5 e preparando o terreno para Hello!.

Pôster que acompanha a edição original do vinil britânico

Lançado em 28 de setembro de 1973 pela Vertigo no Reino Unido e pela A&M nos Estados Unidos, Hello! foi gravado no IBC Studios, em Londres, com produção da própria banda. O álbum representava a continuidade natural da transformação iniciada nos trabalhos anteriores, mas apresentava o Status Quo em uma forma ainda mais segura de suas possibilidades. O boogie continuava sendo a espinha dorsal, mas agora convivia com uma abordagem mais pesada, próxima do hard rock, sem que a banda abandonasse completamente as melodias e referências ao rock britânico dos anos 1960. Era uma combinação particularmente adequada ao quarteto: guitarras em primeiro plano, baixo e bateria funcionando como uma unidade vigorosa e vocais compartilhados que reforçavam a sensação de banda tocando junta, sem grandes artifícios de estúdio.

“Roll Over Lay Down” é um hard rock bem classudo que abre o disco, com as guitarras de Rick Parfitt e de Francis Rossi dando um verdadeiro show, com vocais e solos matadores deste último. A letra retrata, essencialmente, o retorno para casa depois de uma apresentação, nas primeiras horas da manhã. “Claudie” tem uma pegada que remete diretamente ao rock sessentista de bandas como Kinks, por exemplo. A letra gira em torno de um relacionamento terminado, com o narrador refletindo sobre a solidão, a vida depois da separação e a dificuldade de continuar vivendo em uma casa que já não parece verdadeiramente um lar. Rossi faz os vocais. “A Reason for Living” traz vocais de Parfitt e ótimos solos de Rossi, sendo um Blues Rock muito saboroso. A letra não é simplesmente uma canção religiosa convencional. Existe uma trajetória emocional em que há, primeiro, a procura por alguém que possa ouvir seus problemas; depois, a percepção de que existe uma presença que ele não conseguia identificar. “Blue Eyed Lady” traz um riff insinuante, ótimo ritmo e muita malícia, com excelentes vocais de Rossi e Lancaster, tornando-se um ponto muito alto do disco. A letra apresenta uma mulher de olhos azuis sozinha em meio a uma festa. Enquanto todos ao redor estão envolvidos na diversão, ela permanece sentada, aparentemente esperando alguém que nunca apareceu.

Single francês de “Caroline”

“Caroline” foi o single principal para promoção do disco e que atingiu a 5ª posição da principal parada britânica desta natureza, também sendo considerada uma canção assinatura do grupo. Rossi traz ótimos vocais, casando-os com a proposta mais pesada da faixa. Aqui o Status Quo volta ao terreno do rock’n’roll sexual e romântico, mas com uma construção muito mais direta. “Softer Ride” traz de novo uma musicalidade mais boogie, com Rossi perfomando muito bem nos vocais. A letra é divertida, com uma temática de fantasia sobre uma fuga do trabalho. Já em “And It’s Better Now”, o grupo volta ao rock mais sessentista, com uma abordagem mais melódica e menos ‘pesada’, ou seja, pouco agressiva. Rossi canta uma letra que pode ser interpretada como encontrar finalmente alguma coisa para cantar e transformar pensamentos que antes estavam presos dentro da cabeça em uma canção. Maior canção do disco, superando os 9 minutos, “Forty-Five Hundred Times” fica oscilando entre suavidade e intensidade, com ótimos vocais de Rick Parfitt. A letra resvala em temas como solidão, amizade, relacionamento e reconciliação.

O resultado foi o maior sucesso comercial da carreira do Status Quo até aquele momento. Hello! chegou ao primeiro lugar da parada britânica, consolidando a posição alcançada pelo grupo após o sucesso de Piledriver. Nos Estados Unidos, porém, o impacto foi muito menor e não houve repercussão equivalente na parada de álbuns. As primeiras cópias britânicas em vinil ainda traziam um grande pôster em preto e branco da banda, e a própria capa apresentava pela primeira vez o nome Status Quo na tipografia que se tornaria familiar em boa parte dos trabalhos posteriores.

EP contando com “Roll Over Lay Down”

O sucesso de Hello! também não se limitou às vendas imediatas. Em 1975, uma versão ao vivo de “Roll Over Lay Down” apareceria em um EP de três faixas que alcançaria o nono lugar no Reino Unido e o segundo na Austrália. A escolha da música reforçava a importância que aquela composição havia adquirido no repertório de palco. O Status Quo estava se consolidando não apenas como uma banda de estúdio, mas como um grupo cuja força podia ser plenamente percebida na execução ao vivo.

Hello! se mostra representativo do momento vivido pelo Status Quo em 1973. A banda havia deixado para trás a psicodelia que marcara seus primeiros trabalhos e encontrado uma combinação entre boogie, blues rock, rock’n’roll e hard rock que funcionava tanto comercialmente quanto artisticamente. As guitarras de Rossi e Parfitt dominam o álbum, mas não funcionariam da mesma maneira sem o baixo de Lancaster e a bateria de Coghlan, responsáveis por manter a música permanentemente em movimento. Os vocais compartilhados também contribuem para essa identidade coletiva, ainda que Rossi se destaque particularmente pela personalidade de sua interpretação.

Versão em k7

Mais do que um disco de transição, Hello! representa a consolidação de uma fórmula. O Status Quo já não parecia uma banda procurando descobrir qual caminho seguir. A energia, os riffs, o boogie, os elementos de blues e a crescente aproximação com o hard rock haviam se transformado em uma linguagem própria. “Roll Over Lay Down”, “Caroline” e “Forty-Five Hundred Times” sintetizam especialmente bem essa fase, cada uma a seu modo: a primeira pela força de palco, a segunda pela capacidade de transformar simplicidade em clássico e a terceira pela disposição de levar a mesma linguagem a uma estrutura mais extensa.

O álbum também ajuda a explicar por que o Status Quo conquistou tamanha longevidade. Não existe em Hello! uma preocupação evidente em acompanhar tendências ou demonstrar sofisticação a qualquer custo. O grupo parece interessado sobretudo em fazer aquilo que já havia aprendido a fazer muito bem: tocar rock com energia, precisão e uma dose considerável de espontaneidade. A nostalgia do boogie não significa retrocesso, porque é combinada com uma sonoridade mais pesada, enquanto a influência dos anos 1960 continua presente nas melodias e em algumas estruturas.

Lançado em um momento em que a banda finalmente atingia seu auge comercial, Hello! acabou funcionando como uma fotografia bastante precisa do Status Quo naquele período. O álbum chegaria ao número 1 no Reino Unido e seria seguido, em 1974, por Quo, mantendo a sequência de trabalhos bem-sucedidos. Seu legado está menos associado à invenção de novas possibilidades para o rock do que à maneira extremamente eficiente como o grupo refinou uma linguagem própria. É um disco direto, físico e essencialmente baseado na força da execução.

Para quem acompanha o Status Quo com atenção, Hello! representa, portanto, um dos pontos centrais da fase em que Rossi, Parfitt, Lancaster e Coghlan transformaram o boogie rock em uma assinatura. Há simplicidade, mas também há convicção; há repetição de fórmulas, mas elas aparecem executadas com segurança; há peso, mas sem que o grupo abandone completamente suas raízes melódicas. O resultado é um álbum que captura uma banda em plena ascensão e que, apesar de raramente receber no Brasil a atenção proporcional à sua importância dentro da discografia do grupo, permanece como um retrato claro do Status Quo em seu auge inicial.

Contra-capa do vinil

Track list

  1. Roll Over Lay Down
  2. Claudie
  3. A Reason For Living
  4. Blue Eyed Lady
  5. Caroline
  6. Softer Ride
  7. And It’s Better Now
  8. Forty-Five Hundred Times

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