Discos que Parece que Só Eu Gosto: Tigres de Bengala – Tigres de Bengala [1993]

Por Marcelo Freire

O disco homônimo da banda Tigres de Bengala, lançado em junho de 1993 pela PolyGram / Philips, e que contou com a produção do tarimbado Mayrton Bahia, pertence a um tipo de obra que costuma desaparecer da memória coletiva do rock brasileiro. Nesse território do esquecimento, claro, há muita coisa ruim – discos que desapareceram porque realmente não havia muito a salvar. Não é o caso aqui. O álbum insere-se naquele grupo mais raro de trabalhos consistentes: discos de produção cuidadosa, bem tocados, bem compostos e realizados por músicos experientes.

A presença de Mayrton Bahia à frente da produção também não é um detalhe irrelevante nesse processo. Ao contrário: trata-se de um nome profundamente ligado à consolidação do rock brasileiro nos anos 1980, responsável por trabalhos importantes de artistas que ajudaram a definir a sonoridade daquela geração. Figura central na mediação entre MPB, pop e rock brasileiro desde o início dos anos 1980, Mayrton teve passagem decisiva (seja como produtor principal, coprodutor, diretor artístico, produtor executivo e mesmo engenheiro de som) por discos de (vou separar somente os trabalhos principais) Elis Regina, Djavan, Gonzaguinha, Simone, 14 Bis e Nana Caymmi de um lado, e Os Paralamas do Sucesso, Blitz, Capital Inicial, Biquini Cavadão e, sobretudo, pela obra da Legião Urbana de outro. Com isso, trazia ao projeto não apenas experiência técnica, mas uma visão curatorial (sei que essa palavra está na moda de todo mundo que se acha metido a besta em qualquer assunto, mas aqui ela está em seu stricto sensu) capaz de articular trajetórias já consolidadas em um único gesto coletivo.

Raro K7 da Finis Africae

Além disso, antes de produzir Tigres de Bengala, Mayrton Bahia já havia desempenhado papel decisivo na legitimação do pós‑punk brasiliense ao produzir o álbum Finis Africae (1987), da banda de mesmo nome e próximo trabalho que trarei para esta seção. Sua atuação nesse disco evidencia uma capacidade rara de transitar entre projetos alternativos e o mainstream sem descaracterizar nenhum dos dois – um traço essencial de sua trajetória como produtor e curador (de verdade). Ter alguém com essa experiência à frente do estúdio significava, em princípio, que o disco nascia cercado de condições bastante favoráveis – estrutura profissional, escuta refinada de repertório, entendimento claro do que funcionava dentro daquele universo musical. Em outras palavras, Tigres de Bengala não era um projeto improvisado tentando encontrar espaço no mercado, e sim um álbum feito dentro da engrenagem profissional da indústria fonográfica.

O curioso é que, mesmo assim, com tudo dando certo, o disco acabou escapando do radar. E isso apesar de ter nascido dentro de uma grande gravadora, o que, no século passado, fazia toda a diferença. À época do lançamento de Tigres de Bengala, a PolyGram ocupava um lugar central no cenário fonográfico brasileiro: uma major historicamente ligada à MPB, com forte tradição em direção artística e capaz de sustentar projetos autorais de médio alcance comercial. Diferentemente de gravadoras mais orientadas ao pop juvenil, a PolyGram oferecia o espaço institucional necessário para discos que apostavam menos no impacto imediato e mais na solidez estética – condição fundamental para a existência de um álbum como este.

Ao escutá-lo novamente esses dias, lembrei-me de quando os ouvi pela primeira vez no SBT, no programa Jô Onze e Meia (outro que faz muita falta), em uma dessas madrugadas lá pelos idos de 1993. Eu tinha exatos 18 anos quando vi esses caras, só feras dos anos 70 e 80, mandando ver nessa versão ao vivo envenenada de “Elefante Branco”, em que a letra reflete como é chegar aos 40. No dia seguinte, corri para uma loja de discos que tinha aqui da cidade, a Discodil, e perguntei sobre o disco da banda; depois que descobri quanto era (tinha acabado de ser lançado), esperei juntar a grana e, dois meses depois, comprei essa bolacha já na bancada dos LP’s em promoção – por ironia do destino, hoje é difícil de achar. Ouvia-os e curtia essa banda que, já nessa época, era deslocada no tempo para mim, afinal imagina se eu estava preocupado, recém-ingresso na Universidade, com a chegada dos 40… Hoje, depois dos 50, me veio a vontade de trazê-lo para esta nossa seção (que, confesso, é uma das minhas favoritas aqui da casa), não apenas para defender as razões pelas quais gosto dele, mas também para refletir sobre os próprios mecanismos da passagem do tempo e do esquecimento – os meus poucos e fiéis roqueiros leitores, que acompanham meus textos aqui no site, sabem que esse é um tema que me apraz. E tenho a impressão de que, no caso dessa banda efêmera, o problema foi simples: eles nasceram no momento errado e, por isso, não vingaram, sequer, um segundo disco. Em outras palavras, essa obra, provavelmente, não é apenas um daqueles que parecem que só eu gosto: é também um daqueles que parece que só eu lembro.

Os Tigres em 1993: Claudio Zoli, Vinícius Cantuária, Ritchie, Dadi, Billi Forghieri e Mu Carvalho (esquerda para direita)

Há ainda um detalhe curioso que também merece alguma atenção: o próprio nome da banda. Tigres de Bengala não é exatamente um nome neutro dentro do imaginário animal. Diferentemente de outros tigres, o tigre-de-bengala carrega consigo uma aura muito particular – é uma criatura rara, imponente, quase mítica dentro do imaginário popular. Não é difícil perceber como essa imagem acaba dialogando, ainda que involuntariamente, com a própria trajetória do grupo (não esqueça do nome da música que reflete sobre a passagem do tempo: “Elefante Branco”, tão raro quanto o tigre-de-bengala). Há algo de majestoso e ao mesmo tempo de fugaz na história dos Tigres de Bengala: um projeto formado por músicos experientes, que surge com força, deixa um único registro consistente e depois desaparece da paisagem do rock brasileiro como um animal que atravessa rapidamente a mata e volta a se esconder. Talvez seja exagero procurar metáforas zoológicas para falar de um disco de rock, mas confesso que, ao revisitar o álbum hoje, é difícil não pensar que há algo de tigre-de-bengala também nesse disco: raro, elegante e, por alguma razão histórica, quase invisível (ou quase extinto, já que pouquíssima gente se lembra de colocá-los para tocar).

O ano de 1993 não era um momento particularmente generoso para o rock brasileiro. A grande explosão do chamado BRock dos anos 1980 – aquela geração que havia colocado bandas como Blitz, Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Kid Abelha, Capital Inicial e Os Paralamas do Sucesso no centro da cultura pop do país – já havia passado. Muitas bandas que haviam dominado as rádios poucos anos antes enfrentavam mudanças internas, buscavam novas direções estéticas ou simplesmente já não ocupavam o mesmo espaço cultural. Ao mesmo tempo, a indústria fonográfica começava a reorganizar suas apostas, abrindo espaço para outras linguagens populares, do pop radiofônico ao crescimento vertiginoso da música sertaneja. O rock ainda estava ali, claro, e com excelentes discos lançados, mas já não ocupava exatamente o mesmo lugar simbólico que havia ocupado poucos anos antes.

É justamente nesse momento que aparece o disco de estreia dos Tigres de Bengala. E talvez seja por isso que ele tenha passado quase despercebido. Não se tratava de um álbum que dialogasse com o novo cenário musical que começava a se desenhar no país, mas também não era um produto direto daquela primeira onda do rock brasileiro que havia dominado as rádios na década anterior. Olhando hoje em perspectiva, três décadas depois, o disco pertence claramente a uma categoria de obras que gosto de chamar de clássicos deslocados: trabalhos que poderiam agradar tranquilamente a quem cresceu ouvindo aquela geração do BRock, mas que chegaram aos nossos ouvidos justamente quando o momento histórico dessa linguagem já começava a se encerrar (ou pelo menos era o que muitos de nós imaginávamos naquele momento), pois em 1993 estávamos começando a descobrir Skank, Planet Hemp, O Rappa, Raimundos…

Encarte do vinil

Ao ouvir atualmente as canções do disco, é possível perceber nelas a presença daquela tradição do rock brasileiro que se consolidou nos anos 80 – não tanto pela energia mais crua das guitarras que marcava algumas bandas daquela geração, mas pela atenção à construção melódica, pelos arranjos cuidadosos e por um tipo de canção que parece se desenvolver com calma, privilegiando atmosfera e sensibilidade musical. Tudo aparece, no entanto, sem o peso do fenômeno cultural que sustentava aquelas bandas maiores. O resultado é um disco que soa familiar e deslocado ao mesmo tempo, um caso bem peculiar do que eu chamaria de pop rock melódico / AOR brasileiro. E ali, naquele momento de nossa música, o mais próximo dessa linhagem seriam coisas como algumas baladas do Rádio Táxi, os Heróis da Resistência, banda do compositor, cantor e músico Leoni, um dos maiores hitmakers deste país (e coautor, em parceria com Vinícius Cantuária, de “Nessa espera”), e o som sofisticado dos precursores do new romantic no Brasil, a banda Zero, o que deixa claro que, provavelmente, não estivéssemos preparados para o que, na minha opinião, foi o único supergrupo que o rock brasileiro já produziu.

No universo do rock anglo-americano, a formação de supergrupos sempre foi quase um gênero em si mesmo. Desde os anos 60, bandas como Crosby, Stills, Nash & Young, Emerson, Lake & Palmer, Cream, Blind Faith, Asia, Traveling Wilburys, Audioslave, Temple of the Dog, Chickenfoot, Velvet Revolver e Them Crooked Vultures (para ficar em alguns apenas) nasceram justamente desse encontro entre músicos que já haviam construído carreiras relevantes (longevas ou não) em outros grupos. No Brasil, porém, esse tipo de formação é rara: à exceção, talvez, de A Cor do Som – que também reunia Mú e Dadi – poucos projetos no Brasil se encaixam nesta seara. Quem sabe porque o mercado seja menor, ou porque as trajetórias das bandas aqui costumem se organizar de maneira diferente. Seja como for, os Tigres de Bengala parecem se encaixar justamente nessa categoria pouco comum dentro do nosso rock: a de um supergrupo que surgiu, deixou um único registro consistente e depois desapareceu quase tão rapidamente quanto havia aparecido.

E se a ideia de supergrupo pode soar exagerada à primeira vista, basta olhar com um pouco mais de atenção para quem estava reunido ali. Os Tigres de Bengala não surgiram como uma banda formada por jovens músicos tentando gravar seu primeiro disco, pelo contrário: todos já estavam com mais de 40 anos, o que, naquela época, já era considerado velho para o rock (graças a Deus o tempo passou, leia a minha postagem sobre os melhores do ano passado e entenderá). Tratava-se, portanto, de um encontro entre trajetórias já consolidadas dentro da música brasileira e cada integrante chegava trazendo consigo uma história própria, construída ao longo dos anos 1970 e 1980 em diferentes projetos, bandas e carreiras solo. Não há autoria coletiva da banda em nenhuma das faixas: os créditos são sempre individuais ou em pequenas parcerias, o que indica um projeto de convergência de carreiras, não de dissolução das identidades autorais – algo muito revelador para ajudar a sustentar a tese de supergrupo.

Ritchie nos anos 90, já com cabelos grisalhos

À frente do grupo estava Ritchie (voz/flauta), cantor britânico radicado no Brasil que havia se tornado um fenômeno de rádio e TV na década de 1980 com sucessos como “Menina Veneno”. Como aparece como coautor em 7 das 11 faixas, justamente nas canções mais melódicas e radiofônicas, sua presença já colocava o projeto em outro patamar: era um artista que conhecia profundamente o funcionamento do pop brasileiro e que havia experimentado de perto o auge comercial daquela geração. Antes mesmo do sucesso solo, Ritchie já trazia uma trajetória longa e pouco comum dentro do rock brasileiro. Radicado no país desde o início dos anos 1970, ele passou por grupos fundamentais da cena carioca daquele período, como A Barca do Sol e o Vímana – este último, vale lembrar, também um verdadeiro “pré-supergrupo”, reunindo músicos como Lulu Santos e Lobão. Essa vivência no rock progressivo e na música instrumental antecede e explica, em parte, a sofisticação harmônica e melódica que ele levaria mais tarde ao pop. Quando estourou como artista solo a partir de 1983, Ritchie não era um iniciante, mas alguém que já conhecia profundamente o funcionamento do estúdio, da indústria fonográfica e do circuito de shows. Seu sucesso não foi apenas comercial: ele ajudou a definir um certo padrão de pop adulto que dominaria as rádios brasileiras ao longo da década. Ao chegar aos Tigres de Bengala, portanto, trazia não só fama, mas também a experiência de quem havia vivido todas as etapas do sistema pop brasileiro, do underground setentista ao estrelato oitentista.

Claudio Zoli, no final dos anos 80

Ao seu lado aparecia Cláudio Zoli (voz/guitarra), músico cuja trajetória vinha do soul e do pop sofisticado que marcou parte importante da música brasileira dos anos 80. Ex-integrante da banda Brylho – responsável pelo clássico “A Noite do Prazer” –, Zoli já havia construído uma carreira como compositor respeitado e intérprete de voz inconfundível, transitando com naturalidade entre o pop e a música negra brasileira e fortemente influenciado por Tim Maia, Marvin Gaye e Stevie Wonder. A banda Brylho teve vida curta, mas suficiente para inscrever seu nome na história do pop brasileiro. Após o fim do grupo, Zoli construiu uma carreira sólida como cantor e compositor, emplacando músicas próprias e parcerias gravadas por artistas como Marina Lima e Elba Ramalho. Mesmo quando sua presença como intérprete diminuiu no final da década, seu prestígio como compositor permaneceu alto. Ao entrar nos Tigres de Bengala, Zoli representava, portanto, essa linhagem do pop elegante e da música negra brasileira filtrada pelas rádios FM – um contraponto sofisticado tanto ao rock quanto à MPB mais tradicional.

Vinicius Cantuária

No entanto, o nome fundamental do grupo foi Vinícius Cantuária (voz/bateria), músico de formação muito mais ampla, que já havia passado por experiências diversas dentro da música brasileira. Sua presença trazia ao projeto uma bagagem que atravessava tanto o rock quanto a MPB. A trajetória de Cantuária talvez seja a mais transversal de todas. Iniciou a carreira como baterista do grupo O Terço, uma das principais bandas do rock progressivo brasileiro no início dos anos 1970, e depois integrou a Banda Atômica, que acompanhava Jorge Mautner. Essa formação roqueira conviveu desde cedo com a MPB, já que Cantuária também atuou na segunda metade da década de 70 como músico ao lado de Luiz Melodia, Gilberto Gil e Caetano Veloso, transitando com naturalidade entre universos distintos. Nos anos 1980, consolidou-se como compositor e cantor de grande alcance popular, com canções como “Lua e Estrela” (gravada por Caetano) e, sobretudo, “Só Você”, um dos maiores sucessos radiofônicos da década. Ao chegar aos Tigres de Bengala, Cantuária já havia ocupado tanto o espaço do músico experimental quanto o do hitmaker, trazendo ao grupo uma sofisticação melódica e harmônica que dialogava com a MPB sem abandonar o formato pop. Como Vinícius Cantuária assina todas as faixas do disco – sozinho ou em parceria – ele funciona, na prática, como eixo autoral do álbum.

A base instrumental do grupo era igualmente impressionante. Dadi Carvalho, baixista de enorme reputação entre músicos brasileiros, trazia consigo décadas de experiência em estúdio e nos palcos, sendo reconhecido como um dos instrumentistas mais refinados de sua geração. Dadi é um caso raro de músico cuja importância atravessa diferentes gerações e estilos da música brasileira. Começou nos Novos Baianos, participando da formação clássica que gravou Acabou Chorare (1972), e depois integrou a banda de Jorge Ben Jor. Em 1977, fundou A Cor do Som, grupo que se tornaria referência na fusão entre rock, MPB, jazz e música instrumental ao longo dos anos 1980. Além das bandas, Dadi construiu uma carreira extensa como músico de estúdio e de bandas de grandes nomes em shows, trabalhando com nomes como Caetano Veloso, Rita Lee, Marisa Monte e até Mick Jagger. Ao entrar nos Tigres de Bengala, sua presença conferia ao projeto não apenas solidez instrumental, mas uma espécie de legitimidade histórica: Dadi era o elo vivo entre os anos 1970, a MPB pós-tropicalista e o pop dos anos 80.

Vinícius e Dadi, em foto de divulgação de apresentação da dupla em 2024

Ao lado dele estava Mú Carvalho, seu irmão, tecladista e compositor ligado a diferentes projetos importantes da música pop brasileira, que também veio do núcleo fundador de A Cor do Som, banda em que se destacou não apenas como tecladista, mas como compositor de enorme sucesso. Canções como “Sapato Velho” (gravada pelo Roupa Nova) ajudaram a definir o pop brasileiro da virada dos anos 1970 para os 80. Paralelamente, Mú construiu uma carreira sólida como produtor e autor de trilhas sonoras para cinema e televisão, tornando-se uma figura central na arquitetura sonora da música pop brasileira.

Por fim, o quase sempre esquecido – além de subestimado – Billy Forghieri (teclados), músico e programador ligado ao universo da música pop brasileira dos anos 80 (fizera parte da Blitz, banda que simplesmente parou o Brasil em 1982 para todo mundo cantar “Você Não Soube Me Amar”) e que ajudava a incorporar ao som do grupo elementos eletrônicos e texturas mais modernas. Ou seja, Forghieri representava uma ponte com a tecnologia e os recursos eletrônicos que se tornavam cada vez mais presentes no início dos anos 1990 e sabia o caminho das pedras das rádios dos anos 80. Sua atuação ajudava a atualizar a sonoridade do grupo, evitando que o projeto soasse apenas como uma reunião nostálgica de veteranos e, mais de 30 anos depois, um dos responsáveis por manter a escuta do LP extremamente agradável.

Encarte do LP

Quando se observa esse conjunto de nomes reunidos em um único projeto, a palavra supergrupo deixa de parecer exagero. Cada um deles chegava trazendo um pedaço diferente da música brasileira daquela época: o pop radiofônico de Ritchie, o soul elegante de Cláudio Zoli, a sofisticação composicional de Vinícius Cantuária, a solidez instrumental de Dadi e a arquitetura sonora construída pelos teclados de Mú Carvalho e pela programação e arranjos de Billy Forghieri – ouça a programação eletrônica e, sobretudo, o solo de teclados de “É Melhor Parar” para entender o seu refinamento sonoro. Era, em certo sentido, um encontro entre várias vertentes do pop brasileiro dos anos 80 – reunidas justamente no momento em que aquela linguagem começava a perder espaço no cenário musical do país. Talvez a pergunta inevitável seja: por que um disco feito por músicos tão experientes, dentro de uma grande gravadora e com produção qualificada, desapareceu tão rapidamente do radar?

Certamente por isso, Tigres de Bengala soa, ainda hoje, menos como um disco de estreia e mais como o registro de um lugar de convergência, um ponto em que diferentes trajetórias se encontram brevemente, deixam ali seu testemunho e depois seguem caminhos separados novamente. Assim, o álbum parece reunir todas as qualidades de um clássico, mas acabou ficando parado em uma espécie de estação entre dois momentos do nosso rock: tarde demais para embarcar no trem que levou a geração do BRock aos anos 1980 e cedo demais para seguir viagem com a leva de bandas que começaria a redesenhar o cenário do rock brasileiro na década seguinte. A belíssima “Miragens”, assinada em parceria por Ritchie e Vinícius Cantuária, condensa bem o espírito do projeto: uma canção melancólica, construída no encontro entre a sensibilidade pop de um e o lirismo refinado do outro, ocupa um lugar central no disco como o exemplo mais claro da convergência autoral que sustenta todo o projeto. A canção, que é o maior tesouro escondido do disco, traduz com rara clareza o espírito do projeto: urbana, contida e melancólica, ela abandona o dramatismo fácil em favor de uma observação quase cinematográfica da ausência em sua letra, que eu arriscaria ser do Ritchie, justamente aquele que o grande público conheceu nos anos 80 e que construiu sua identidade a partir de canções fortemente ancoradas em personagens (mas repito, isso é só um palpite): “Eu já não me lembro / Quanto tempo faz / Que não te esqueci / As noites, eu acordo / Procurando alguém / Que não está aqui / Eu saio nas ruas / E juro que te vejo / Andando pela multidão / Em rostos / Em risos, olhares / Miragens da minha solidão / Se ficar será / Imaginação / Se deixar será / No meu coração”. Nos demais versos, nosso observador atento de seu tempo reflete sobre algo que se torna ainda mais impressionante: a própria letra parece comentar, de maneira involuntária, a condição histórica do disco: “O trem para o futuro / Já passou, de vez / Pela estação / Rolando no escuro / Sem nenhum sinal / Na imensidão / Te vejo acenando de longe / Como um velho filme / Na televisão / E o vento levou / o passado / E o lenço azul / Entre tuas mãos”. Se a história dos Tigres de Bengala só puder contar com uma canção como sua trilha sonora, sem dúvida é essa.

Trilha sonora da novela Olho Por Olho, com “Agora ou Jamais”

Não deixa de ser revelador que o próprio disco pareça comentar essa condição. Todas as vezes em que coloco o álbum no toca-discos, tenho a certeza de que é nas próprias canções que o projeto revela sua verdadeira dimensão. O primeiro detalhe que sempre me chamou a atenção, e que ajuda a dar personalidade ao disco, é a presença de três ótimos vocalistas se alternando ao longo das faixas. Ritchie, Cláudio Zoli e Vinícius Cantuária trazem timbres muito distintos, o que faz com que cada canção ganhe uma cor própria sem que o álbum perca sua unidade. Se a reunião desses músicos já seria, por si só, motivo suficiente para despertar curiosidade, logo na abertura, “Agora ou Jamais”, a banda toda, surpreendentemente coesa, apresenta com clareza o espírito do disco: uma canção conduzida por melodias que se desdobram com naturalidade, sustentadas por arranjos elegantes e por um senso de equilíbrio que denuncia a experiência de quem está tocando. Nada soa excessivo ou apressado. Há, nessa composição de Ritchie e Vinícius Cantuária, um tipo de pop calmo, construído com atenção quase artesanal aos timbres, às vozes e às pequenas inflexões melódicas que fazem a música avançar com suavidade, ainda que a letra dela trate de uma certa urgência acerca do tempo: “Como a chuva que vem te molhar / Tirar as tuas dúvidas do ar / Espero, sincero e acho tão normal / Que o sol ainda há de brilhar / Sei que tudo que eu queria era não dar explicação / Nem ficar aqui pedindo por favor / Não há nada de mistério, é tão claro, tão claro / Amor é melhor tirar a tua dúvida / Agora ou jamais, agora ou jamais / Bem melhor tirar a tua dúvida / Agora ou jamais, agora ou jamais”. Como ela foi incluída na trilha nacional da novela das 7 Rede Globo Olho no Olho, acabou tornando-se um grande hit radiofônico no segundo semestre de 1993.

Raro 12″ de “Elefante Branco”

Em “Elefante Branco”, uma das faixas que chegou a circular com mais força nas rádios naquele período, no primeiro semestre do mesmo ano, revela talvez o lado mais imediatamente comunicativo do grupo. A letra inicia com “Você já pensou em chegar / Numa boa aos 40? / Por que você não tenta? Por que não experimenta? / Você quer dançar / Ao som do som dos anos 60? / Então porque não reinventa? / Por que não experimenta?”, mostrando, já na abertura do disco, a verdadeira “missão”, digamos assim, de nosso time de “veteranos”. Eles falam para os ouvintes, mas, quase em uma metapoética, também para si mesmos. Em seguida, o longo refrão se fixa com facilidade e, quando menos se espera, o cantamos junto: “Não tenha medo da loucura / Do escuro da solidão / Nem do elefante branco da contra mão / Se o mundo da tanta volta / Não há tempo de olhar pra trás / Repetindo os velhos erros dos nossos pais”. Genialmente, Zoli, Cantuária e Ritchie cantam essa música, cada um com sua estrofe e todos juntos no refrão. É inevitável pensarmos em cada um deles nos contando suas histórias. A letra segue com essa reflexão: “Às vezes a vida voa / Às vezes vai lenta / E às vezes arrebenta / Por que não experimenta? / E tudo que a gente não fez / E agora lamenta / Por que você não tenta? Por que não experimenta?” Quando ouvimos o disco, entendemos que eles responderam “sim” à própria pergunta que fizeram. Os arranjos dialogam com aquela linhagem sofisticada do pop melódico brasileiro que havia dominado as FM’s na década anterior (a presença de Evandro Mesquita, que a compõe juntamente com Ritchie e Vinícius Cantuária, mesmo que não cante ou toque na faixa, provavelmente contribuiu para isso) e, ainda assim, tudo aparece revestido por uma elegância que impede a canção de soar simplesmente como produto radiofônico.

“Só Eu e Mais Ninguém”, talvez seja o exemplo mais evidente da sofisticação musical que atravessa todo o projeto. Não é coincidência essa faixa ser apenas de Vinícius Cantuária: a canção se apoia em uma arquitetura harmônica refinada, dessas que parecem revelar novas nuances a cada audição, e evidencia o quanto aquele encontro entre músicos experientes permitia tratar o formato pop de Cantuária com um grau de elaboração pouco comum no rock brasileiro da época. Há nessa faixa um cuidado evidente com cada detalhe – da condução melódica ao desenho dos arranjos – que transforma a canção em uma pequena aula de elegância musical. Atente ao trabalho sutil e elegante de Billy Forghieri – sugiro ouvi-la com bons fones de ouvido.

Mu, Vinicius, Dadi e Ritchie, em reencontro nos anos 2000

Mas é quando o álbum se aproxima do fim que aparecem algumas de seus verdadeiros tesouros escondidos. Em “Estrela do Mar”, antepenúltima faixa, o disco desacelera e abre espaço para outra atmosfera. Trata-se de uma balada maravilhosa de clima sereno, em que teclados, vozes e texturas instrumentais parecem se organizar em torno de uma paisagem sonora delicada, quase contemplativa. É o tipo de faixa que revela a maturidade de quem a compôs. Na parceria da composição de Ritchie e Vinícius Cantuária, a canção avança com calma, sem pressa de nos convencer. Melodia e arranjos parecem encontrar naturalmente o seu lugar até que, quando se percebe, estamos cantando junto o refrão “Me chama que eu vou / Eu vou te procurar / Me chama que eu vou / Eu venho te buscar / Me chama que eu vou / Pode me esperar / Me chama que eu vou / Eu quero te levar”. Mais uma vez, ter três ótimos vocalistas fez a diferença em uma canção que, seguramente, é uma das melhores baladas de todos os tempos de nosso pop. O encontro entre os dois compositores funciona ali com uma precisão quase silenciosa: de um lado, a sensibilidade pop de Ritchie; de outro, o refinamento harmônico de Cantuária. Em vez de competir, essas duas linguagens se encaixam com naturalidade, dando à canção uma elegância que dificilmente surgiria da assinatura de apenas um deles.

E quando o disco chega ao encerramento com “Melhor Parar” (outra composta somente por Vinícius Cantuária), o que se escuta é algo próximo de um gesto de despedida. A música se desenvolve com uma melancolia suave, sem dramatizações, como se reconhecesse que aquele encontro entre trajetórias tão distintas produziu um momento especial, ainda que breve. O refrão, o mais bonito do disco, cantado por Ritchie na voz principal e Cantuária em um sutil backing vocal, e com (sempre ele) um lindíssimo arranjo de teclados de Forghieri, é de ouvir de joelhos: “Não vá dizendo / Que não sente nada / É melhor parar / Dizendo que não sente nada” O resultado é um final bonito e de uma tristeza serena, que encerra o álbum deixando no ar uma sensação curiosa: a de que aquele supergrupo improvável ainda tivesse muito mais a dizer – se a história lhes tivesse concedido um pouco mais de tempo.

Contra-capa do vinil

Track list

  1. Elefante Branco
  2. Agora Ou Jamais
  3. Não Desista
  4.  Só Eu E Mais Ninguém
  5. Miragens
  6. Maria Alice
  7. Nessa Espera
  8. Estrela Do Mar
  9. Arrastão (Ao Teu Lado)
  10. Melhor Parar
  11. Dani

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.