Melhores de 2025: Por Marcelo Freire

Melhores de 2025: Por Marcelo Freire

Ao longo de 2025, alguns discos se destacaram não apenas por sua qualidade imediata, mas por algo mais raro: resistem ao tempo antes mesmo de o tempo passar. Essa resistência não veio somente da novidade em si (entre os meus 10 melhores do ano, há uma estreia de uma banda com apenas 1 ano de existência) mas da maturidade com que certos artistas – 7 dos meus 10 melhores de 2025 são álbuns de veteranos cinquentões, sessentões, setentões e um octogenário – souberam  transformar experiência em obras-primas, técnica em contenção e o passado em impulso criativo.

Se comparado a 2024, 2025 perde em volume de grandes lançamentos. Isso não é um juízo apressado, tampouco um gesto de desdém: é um dado que se impôs ao longo do ano. Se em 2024 cheguei a listar 88 discos dignos de figurar entre os melhores, um número que por si só já dizia muito sobre um ano absolutamente fora da curva, em 2025 esse contingente caiu para 41. São 47 discos a menos – e isso não é pouca coisa. Ainda assim, é importante frisar desde já: 2025 não foi um ano ruim. O problema é que 2024 foi excepcional em um nível difícil de ser replicado.

A consequência direta disso foi curiosa: se houve menos lançamentos realmente memoráveis, por outro lado os cerca de vinte e poucos discos que chegaram ao topo das minhas audições são todos plenamente defensáveis como candidatos a um Top 10. Isso tornou o processo de seleção, paradoxalmente, mais difícil. Não pela escassez, mas pelo equilíbrio. Tirando os três primeiros colocados, cujas posições chegaram a ser invertidas ao longo do ano, mas que sempre permaneceram como um bloco destacado à medida em que cada um ia sendo lançado – enquanto o 2º lugar foi lançado no dia 7 de março, o 1º e o 3º colocados foram lançados, coincidentemente, no mesmo dia(!): em 5 de setembro –, o restante da lista foi fruto de uma verdadeira batalha de escutas, reescutas, comparações e reavaliações.

Outro aspecto que merece destaque é a presença mais significativa de álbuns nacionais entre os meus melhores do ano, algo raro nas listas aqui da casa e que na minha de 2024 só tinha um, o do Pobre Orfeu (Duas Recompensas Sem Nome). Não saberia afirmar com precisão se a produção brasileira foi objetivamente superior à de 2024 ou se, diante de um calendário internacional menos congestionado, abriu-se espaço para que eu escutasse com mais atenção o que foi lançado por aqui. O fato é que o resultado está diante de vocês: três dos meus dez melhores discos de 2025 são brasileiros (sendo o 4º colocado a estreia que mencionei no início), algo que não pode ser tratado nem como concessão nem como exceção. Quando o disco é bom, o passaporte do artista é o detalhe menos relevante da equação.

Do ponto de vista metodológico (seja lá qual for o sentido que essa palavra tenha em listas como esta) para compor minhas escolhas de 2025, a escuta reiterada foi o critério decisivo. Confesso sem culpa: ainda que mantenha, ao longo das últimas 4 décadas, o amor incondicional pelos formatos analógicos (vinil, CD e fita-cassete), sou um usuário contumaz do Spotify, tanto pela praticidade quanto pela liberdade de criar listas intermináveis, e foi justamente o histórico de audições que serviu como fiel da balança nos empates mais renhidos. Não por acaso, o algoritmo da plataforma indicou que ouvi mais alguns discos posicionados na parte inferior do Top 10 do que outros melhor colocados. Houve momentos, inclusive, em que cogitei abandonar completamente a hierarquia e apresentar tudo em ordem alfabética – ideia rapidamente descartada por ir frontalmente contra os princípios desse gênero textual que eu tanto admiro.

Então, preparem-se: após a lista dos dez melhores, apresento mais dez discos – do 11º ao 20º lugar – que, em algum momento, ocuparam posições entre o 7º e o 10º da lista principal. Saíram não por demérito, mas por detalhes. Em seguida, listo outros 21 lançamentos que, embora não tenham figurado na disputa direta, tocaram bastante aqui em casa ao longo do ano. Por fim, inauguro que, a partir deste ano, há uma lista dedicada aos 15 melhores álbuns ao vivo lançados em 2025, sem a limitação arbitrária de apenas dez títulos (costumeiramente, são lançados no mercado álbuns com apresentações de anos anteriores), porque sempre achei que deixar esse tipo de registro de fora era um pecado recorrente em listas do gênero – e roqueiro que é roqueiro sabe o valor de um bom disco ao vivo.

Encerrando, deixo uma lista de sites e blogs que acompanho regularmente e aos quais dedico meu agradecimento sincero, pois, cada um à sua maneira, ajudam a manter viva não apenas a minha escuta atenta, mas também o desejo de escrever melhor sobre música. Alguns deles, como vocês notarão, nem sequer orbitam exclusivamente o rock, o que diz muito sobre como este gênero sempre cresceu ao dialogar com outros territórios (no meu caso, sobretudo com música clássica).

Fica, por fim, o convite: leiam, discordem, concordem, apontem ausências e/ou inserções indevidas. Listas só fazem sentido quando provocam conversa. Os comentários, afinal, continuam sendo o nosso combustível!


Os 10 melhores álbuns de 2025

10º. DeWolff – Fuego!

Sim, eu sei: trata-se de um álbum de covers, e isso, por si só, já basta para que alguns de nossos leitores torçam o nariz diante de sua presença em uma lista de melhores lançamentos do ano. A minha decisão para a inclusão desse lançamento (que entrou aos 45 do 2º tempo, pois foi lançado dia 4 de dezembro e, por sorte, acabei ouvindo semana passada, o que me fez tirar o Marca Passo do Azymuth desta 10ª posição), porém, é simples e direta, afinal como permanecer imune a um disco tão bem resolvido, tão apaixonado e tão carregado de identidade quanto Fuego!? Ignorá-lo apenas por não ser autoral seria perder de vista exatamente o que ele celebra e que todos nós que amamos o bom e velho rock and roll amamos: as nossas referências pessoais! E se é para quebrar protocolos, vamos fazer isso para valer, pois vou transcrever na íntegra o texto do site oficial da banda holandesa sobre o álbum, ainda que isso torne o tamanho desta resenha bem maior do que de praxe: “Fuego! é uma homenagem às músicas e aos artistas que nos ajudaram a moldar desde os primórdios do DeWolff. Em vez de compor novas canções, revisitamos algumas (muitas) músicas que acenderam a chama. As faixas menos conhecidas que definiram quem somos como músicos e como banda. Essas seis (ou melhor, oito) músicas podem não ser muito conhecidas, mas para nós são clássicos inestimáveis. Cada uma delas nos ensinou algo: sobre ritmo, sobre composição, sobre alma, o poder de um timbre de guitarra marcante ou de uma voz sincera que toca fundo na alma. Aqui está: uma carta de amor aos nossos heróis e a vocês: os fãs que estiveram conosco em cada riff, cada grito e cada quilômetro percorrido. Obrigado por manterem a chama acesa! Para completar, nosso amigo Joe Bonamassa entrou na brincadeira e mandou um solo de guitarra incendiário que eleva nossa homenagem a ‘The Fan’, do Little Feat, a outro patamar.” Difícil pensar em uma definição mais honesta do espírito do disco. Em vez de recorrer aos clássicos mais óbvios (à exceção de “Fire and Water”, música do Free que dez em cada dez roqueiros conhecem), o trio holandês mergulha fundo em um repertório que passa por Redbone, Leon Russell, Lowell George, Free, Link Wray, Dr. John e outros nomes menos imediatos, mas absolutamente fundamentais para entender a gramática do blues, do soul e do rock psicodélico dos anos 60 e 70. São músicas que talvez não sejam amplamente conhecidas hoje, mas que, como a própria banda afirma, foram decisivas para formar seu senso de ritmo, timbre, composição e alma. E aqui reside a magia do disco: essas canções soam incrivelmente como DeWolff! Se você ainda não ouviu esse petardo (e te perdoarei, pois como já disse, ele saiu há menos de um mês), faça-o imediatamente enquanto lê esta postagem. O amálgama entre os teclados de Robin Piso (que estão o puro veneno da psicodelia neste disco) e os riffs de Pablo van de Poel é tão orgânico que faixas como “Judgement Day” do Redbone poderiam facilmente figurar como composições originais do grupo. Ouvindo-a, veio me à mente “Hard To Make A Buck” do excelente “Muscle Shoals” lançado ano passado (se não ouviu, já sabe…). Dessa forma, fica claro o propósito da banda, já que não se trata apenas de revisitar essas músicas, mas de reimaginá-las, reestruturá-las e incorporá-las ao próprio DNA da banda, revelando o quanto sua sonoridade sempre esteve profundamente conectada a essa tradição. O ponto alto fica por conta de “The Fan”, de Lowell George, recriada aqui com a participação especial de Joe Bonamassa. O encontro é explosivo: guitarras em estado de ebulição, teclados incendiários e uma sensação rara de que todos os envolvidos estão tocando não por obrigação, mas por puro prazer. Gravado em poucos dias no estúdio da própria banda, Fuego! captura um som cru, quente e visceral, um lançamento, portanto, respira groove, suor e reverência. Assim, pouco mais de um ano após o excelente Muscle Shoals, Fuego! não soa como apêndice ou curiosidade, mas como afirmação estética. É um álbum que celebra a música “real”, feita por pessoas reais, e que nos lembra de algo essencial: entender de onde se veio é, muitas vezes, a melhor forma de reafirmar quem se é. Por isso, mesmo sendo (ou talvez justamente por ser) um disco de covers, Fuego! ocupa com pleno mérito seu lugar entre os melhores de 2025.


9º. Arnaldo Antunes – Novo Mundo

Ouvi muita música nacional em 2025 e confesso que ainda me incomoda a necessidade quase automática de justificar a presença de um disco brasileiro em uma lista como esta, especialmente em um site como o nosso, voltado majoritariamente ao rock. Mas quando um artista do quilate de Arnaldo Antunes lança um novo trabalho, a justificativa é simples: trata-se de um artista que jamais se acomodou (o que sempre nos garante a curiosidade) e que sempre manteve coerência com sua veia poética (o que me agrada imensamente, dado que sou constantemente atento às letras de música – quem tem o hábito de ler minhas publicações aqui sabe que, com frequência, destaco as que merecem mais atenção). Nesse sentido, Novo Mundo é mais uma prova disso. O disco transita com naturalidade entre canção, experimentação, poesia falada e arranjos que fogem do óbvio, mantendo a inquietação que sempre marcou sua trajetória, pois poucos artistas, brasileiros ou não, envelheceram de forma tão inventiva quanto Arnaldo Antunes (nosso eterno titã já está com 65 anos). Em vez de se acomodar na condição confortável de “autor consagrado” – ainda mais após o sucesso estrondoso e retrospectivo da turnê “Titãs Encontro” –, Arnaldo faz exatamente o movimento oposto, porém coerente com sua trajetória, em Novo Mundo: olha para frente, tensiona a própria linguagem e reafirma sua recusa a qualquer forma de nostalgia. A turnê dos Titãs foi um marco histórico das turnês no Brasil, evento que reuniu a formação clássica dos Titãs (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Charles Gavin, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto) para celebrar os 40 anos da banda, passando por diversas cidades do Brasil, EUA e Portugal entre 2023 e 2024, com um sucesso estrondoso, e que teve sua despedida oficial no Lollapalooza Brasil 2024, com a promessa de novos encontros para celebrar outros marcos, como os 30 anos do Acústico MTV em 2027. Se a reunião dos Titãs funcionou como uma celebração bem-sucedida do passado, Novo Mundo (atente ao uso do adjetivo “Novo” no título…) surge como um gesto complementar e necessário: a reafirmação de que esse passado não é um destino, mas um ponto de partida. Não há aqui concessões ao saudosismo, tampouco a tentativa de repetir fórmulas. O disco é inquieto, exploratório e profundamente atento ao presente, tanto na sonoridade quanto no discurso. Musicalmente, Arnaldo se cerca novamente de novos parceiros e estímulos, algo que sempre marcou sua trajetória. As bases rítmicas, as ambiências eletrônicas e o flerte com uma estética mais dançante não soam como ornamento, mas como extensão natural de um artista que nunca separou palavra, corpo e som. As participações reforçam essa lógica de diálogo: David Byrne acrescenta camadas de estranhamento e elegância em “Body Corpo” e “Não Dá Para Ficar Parado Aí Na Porta”; Marisa Monte traz delicadeza e intimismo em “Sou Só”; Ana Frango Elétrico (na ótima faixa “Pra Não Falar Mal”) e o rapper Vandal na faixa-título ampliam o espectro geracional e estético do álbum. Mas, como quase sempre em sua obra, o grande trunfo de Arnaldo Antunes continua sendo a escrita. As letras de Novo Mundo são afiadas, por vezes distópicas, por vezes irônicas, sempre atentas às fraturas do presente. Há jogos de linguagem, sim, marca registrada do compositor, mas agora inseridos em um contexto mais áspero e fortemente contemporâneo, em que corpo, tecnologia, deslocamento e desconforto se impõem como temas centrais tanto de sua visão poética quanto dos estranhos tempos que estamos vivendo. Arnaldo observa o mundo sem idealizá-lo, mas também sem cinismo: há crítica, mas há curiosidade; há inquietação, mas não paralisia. Portanto, Novo Mundo soa menos como um “novo capítulo” e mais como a continuidade coerente de um artista que nunca se permitiu virar estátua. Após revisitar o passado com milhões de pessoas cantando em uníssono, Arnaldo Antunes escolhe o caminho mais difícil e mais honesto: seguir em movimento. É exatamente por isso que este disco não apenas se justifica nesta lista, como se destaca nela. Curiosamente, apesar de figurar em posições modestas em listas exclusivamente nacionais, Novo Mundo praticamente não aparece em rankings gerais – o que torna ainda mais significativo vê-lo aqui, bem colocado em 9º lugar, em um panorama que mistura lançamentos brasileiros e internacionais.


8º. Lenine – Eita

Depois de uma década sem lançar um álbum de inéditas em estúdio, Lenine (maduro como artista do alto de seus 66 anos) retorna com Eita como quem aprofunda um caminho para um Nordeste íntimo, menos do folclore (ainda que ele esteja no disco) e mais de uma geografia da condição humana. E adentramos nesse Nordeste que há em nós já a partir da capa, uma linogravura assinada pela artista pernambucana Luiza Morgado, que não apenas apresenta o disco, mas já o inscreve numa linhagem imagética da região. Rica em referências afetivas e simbólicas do Nordeste, a imagem dialoga com a cultura popular e presta homenagem a mestres como Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Hermeto Pascoal, Letieres Leite e Naná Vasconcelos. Mais do que ilustrar, a capa funciona como um mosaico visual que antecipa o universo poético do álbum, reafirmando Eita como obra pensada de forma integral: som, palavra e imagem operando ao mesmo tempo, em sons e palavras locais sem deixar de serem universais. A interjeição que dá título ao álbum, tipicamente nordestina, sintetiza espanto, celebração, ironia e afeto, sentimentos que atravessam as canções e as letras. Lenine canta o chão de onde veio, mas sem idealizá-lo: há memória, há crítica, há consciência histórica, inclusive do débito que o Brasil mantém com essa região que tanto moldou sua cultura. Ritmos nordestinos, eletrônica, soul, pop e experimentação convivem sem hierarquia, como se sempre tivessem pertencido ao mesmo corpo sonoro. A produção de Bruno Giorgi reforça essa fluidez, criando uma sonoridade que pulsa, respira e se transforma a cada faixa e nos dá tanto o desejo de sair dançando um bom forró quanto de ficarmos quietos, apenas ouvindo. As participações – Maria Bethânia, Maria Gadú, Siba, Arnaldo Antunes, Lula Queiroga – não foram escaladas com potencial mercadológico, mas como extensões possíveis desse universo compartilhado. As letras, como se espera de Lenine, também são um dos grandes trunfos do álbum. Há poesia, humor, observação social e uma atenção constante à dimensão humana por trás dos símbolos. O sertão que aparece em Eita não é apenas geográfico: é emocional, ético, existencial. Trata-se de um disco que fala de pertencimento, deslocamento e sobrevivência, temas que ultrapassam qualquer fronteira regional. Como se não bastasse, Eita também se desdobra em imagem: concebido como “um disco para se ver, um filme para se ouvir”, um média-metragem visual, dirigido pelo próprio Lenine, acompanha todas as faixas e está disponível no YouTube, ampliando ainda mais a experiência estética pensada em múltiplas camadas (capa, músicas e o audiovisual), coerente com uma obra de arte que se recusa a caber em um único formato, tempo ou território.


7º. Robin Trower – Come And Find Me

A carreira de Robin Trower sempre exigiu tempo e atenção do ouvinte. Não é apenas o virtuosismo de sua guitarra – que, como escrevi em outra coluna, se aproxima de uma abordagem semelhante à de Hendrix, mas com uma sensibilidade composicional própria, que privilegia a canção e o clima em vez da exibição técnica gratuita –, mas o modo como ele construiu um universo sonoro que combina psicodelia contida, grooves hipnóticos e um blues-rock atmosférico absolutamente singular. Come And Find Me não se limita a repetir fórmulas clássicas (coisa que Trower, com 80 anos, já não faz há décadas); ele expande essa linguagem histórica neste que é seu 27º álbum. Robin Trower é um selo de qualidade e neste seu novo lançamento isso não é diferente: ele mantém o controle estético sobre o que faz – desde a capa, que é uma pintura sua, até a produção que ele, mais uma vez, assina sozinho, bem como escreveu todas as letras e compôs todas as músicas. Além disso, o disco reafirma que o guitarrista sempre soube se cercar de ótimos músicos: os vocais ficam a cargo do eficaz Richard Watts (exceto em “Tangled Love”, para a qual Trower, sabiamente, traz uma voz feminina recém-surgida no cenário do blues rock, a cantora, guitarrista e compositora Jess Hayes) e o discreto Chris Taggart na bateria; o próprio Trower toca baixo em todas as faixas, exceto na já mencionada “Tangled Love” e em “I Fly Straight To You”, nas quais o instrumento ficou a cargo do experiente Glenn Letsch (76 anos e músico das bandas Gamma, Montrose e New Frontier). Com o time certo, sua guitarra continua sendo o centro gravitacional, explorando timbres e texturas em que cada nota carrega peso expressivo, sem excessos ou concessões – sabe aquelas músicas com climas etéreos e psicodélicos que só Trower sabe fazer? Quem conhece “Bridge of Sighs” vai reconhecer imediatamente ao ouvir “Time Stood Still”. Nesse sentido, o álbum constrói climas que evocam o que sempre foi característico de sua obra: aquela sensação de introspecção estendida, alternando momentos de tensão e liberação com uma elegância que apenas músicos de longa trajetória conseguem alcançar. O diferencial deste trabalho, no entanto, é justamente a sua capacidade de soar como Trower hoje, não apenas revisitando o passado, mas reinterpretando seu legado sob uma luz madura e sensível. Come and Find Me soa afinado com o que se lança hoje em termos de blues rock, com o mesmo frescor de Christone “Kingfish” Ingram (agradeço ao Marcello Zapelini por ter me chamado a atenção para ele), Joe Bonamassa, Gary Clark Jr., Derek Trucks, Eric Gales e Joanne Shaw Taylor, e você certamente vai sentir muito prazer em ouvir o disco inteiro, sem pular nenhuma faixa. A guitarra ainda canta, mas com uma profundidade emocional que reflete não só técnica, mas experiência, memória e presença. É esse encontro entre tradição e atualidade que torna Come And Find Me um dos melhores lançamentos de 2025.


6º. Styx – Circling From Above

Se o rock nasceu como grito juvenil, o 18º lançamento do Styx mostra como a maturidade pode redefinir o sentido de revolução dentro do gênero. Poucas bandas veteranas conseguem chegar a este ponto da carreira com algo realmente relevante a dizer – menos ainda com tamanha clareza de como dizer –, e Circling From Above se insere justamente nesse território raro em que experiência não se traduz em acomodação, mas em depuração. Ao longo das 13 faixas (serão os 41 minutos mais rápidos em um disco dos últimos tempos, vá por mim), este álbum conceitual articula temas como tecnologia, natureza, desumanização e sobrevivência, comprovando que o rock não é apenas um território da juventude, mas um espaço onde a longevidade pode redefinir a grandeza de uma obra de arte. Se, historicamente, a rebeldia jovem foi a força motriz do gênero, vários lançamentos dos últimos anos atestam que é a lucidez acumulada que sustenta a ousadia. Com integrantes que chegam aos 77 anos (o baixista Chuck Panozzo) e nenhum abaixo dos 53 (o novato guitarrista Will Evankovich, recém incorporado à banda), o Styx prova que a experiência não é sinônimo de acomodação. Cada escolha parece resultado de décadas de escuta, erros, acertos e, sobretudo, de uma compreensão lúcida do que a banda é e do que ainda pode ser. Assim como Arnaldo Antunes, Lenine e Robin Trower (e outros artistas que ainda aparecerão nesta lista), o grupo confirma que, em 2025, a maturidade não apenas convive com o rock, ela o reinventa. Um dos grandes trunfos do disco está na sua qualidade técnica irrepreensível – o que o torna um dos álbuns mais agradáveis de se ouvir repetidas vezes desta lista. A produção é nítida, precisa e profundamente musical: nada soa excessivo, nada disputa atenção de forma gratuita. Cada camada vocal, cada arranjo e cada detalhe instrumental aparecem com clareza, mas sempre a serviço da harmonia da canção. Em um cenário em que muitos discos contemporâneos soam comprimidos e homogêneos, com os mesmos timbres calibrados por algoritmos, este trabalho traz um frescor genuíno da sonoridade típica do Styx, o que é parte essencial de sua força estética e o garante na 6ª posição com louvor. Os vocais de Tommy Shaw merecem destaque especial. Impressionam não apenas pela potência preservada do alto de seus 72 anos, mas pela inteligência interpretativa. Shaw canta com autoridade, mas sem exibicionismo, entendendo exatamente quando conduzir a melodia, quando se recolher e quando deixar que as harmonias façam o trabalho. Sua voz funciona como eixo emocional do álbum, sustentando tanto os momentos mais introspectivos quanto os de maior expansão melódica. No centro do disco está “Build and Destroy”, não apenas a melhor faixa do álbum, mas uma das composições mais impactantes do rock em 2025. A canção se constrói lentamente, por acúmulo de tensão e atmosfera, em uma lógica que remete menos ao progressivo clássico e mais à densidade crítica e estrutural dos sons e timbres do Pink Floyd de Animals. É o tipo de música que só artistas plenamente conscientes de sua linguagem conseguem criar, quando já não precisam provar nada. “Míchigan” e “It’s Clear” seguem por outro caminho, mas com a mesma força. São canções de grande sofisticação melódica, que apostam na emoção direta, na clareza estrutural e em arranjos meticulosamente pensados. Aqui, o Styx demonstra um domínio absoluto do formato da canção e herdeiro direto da escola dos Beatles, oferecendo composições que estão muito acima da média não apenas do gênero em 2025, mas de grande parte do que se produziu nos últimos anos. E por falar no Fab Four, ao longo do álbum, surgem homenagens a uma tradição que passa pelo quarteto de Liverpool, especialmente no uso refinado das harmonias vocais e na maneira como as melodias são arquitetadas (a deliciosa “Everybody Raise A Glass”, por exemplo, parece saída de alguma sessão dos últimos álbuns dos Beatles). Há também momentos que evocam a riqueza orquestral da ELO, a teatralidade contida do Queen (a própria “Everybody Raise A Glass” é Queen em estado puro, dá para imaginá-la tocada em um estádio com Fred Mercury à frente) e, em passagens mais atmosféricas, uma sensibilidade que dialoga com o Pink Floyd. Essas influências, no entanto, nunca soam como citações explícitas: estão assimiladas, integradas a uma identidade que permanece inequivocamente Styx. O que torna este disco realmente especial é justamente essa capacidade de soar contemporâneo sem negar o passado. Ele não tenta competir com a urgência do mercado atual, mas tampouco se refugia na nostalgia. Em vez disso, propõe algo mais raro: um trabalho em que maturidade, técnica e emoção coexistem em equilíbrio. Talvez seja essa a grande lição que os veteranos desta lista têm oferecido em 2025: quando o tempo é bem atravessado, ele se transforma em clareza, economia e profundidade. Este álbum do Styx não é apenas um retorno consistente; é uma demonstração de como a experiência pode se converter em arte viva, relevante e plenamente conectada ao presente. Um disco que se oferece de imediato, mas que cresce com o tempo – exatamente como as obras feitas por artistas que aprenderam a atravessá-lo.


5º. Stereolab – Instant Holograms on Metal Film

O que uma banda tem a dizer após 15 anos sem lançar um álbum de estúdio? No caso do Stereolab, a resposta é clara: ainda há muito a explorar dentro de seu estilo retrofuturista. Instant Holograms on Metal Film, seu 11º trabalho em 35 anos de carreira, não soa como um retorno calculado, tampouco como um exercício de nostalgia. É um disco que reafirma a identidade do grupo, seus grooves hipnóticos, o diálogo entre o krautrock, o pop experimental e a música eletrônica, ao mesmo tempo em que soa surpreendentemente atual. O disco inclui 13 faixas, todas escritas por Tim Gane e Lætitia Sadier (exceto “Mystical Plosives” e “Electrified Teenybop!”, de autoria de Gane), a dupla fundadora do grupo (com 61 e 57 anos, respectivamente). Elas são interpretadas ao lado de Andy Ramsay, Joe Watson e Xavi Muñoz, integrantes da formação da turnê de 2025 do grupo, além de contar com participações de Cooper Crain e Rob Frye (Bitchin Bajas) , Ben LaMar Gay (International Anthem), Ric Elsworth e Holger Zapf (Cavern of Anti-Matter), Marie Merlet e Molly Hansen Read. Há aqui uma sensação curiosa de atemporalidade: o Stereolab parece existir fora das urgências imediatistas da contemporaneidade, criando música no próprio ritmo, com ideias bem resolvidas e uma estética que se mantém singular, mas sem se desconectar do mundo ao seu redor. “Aerial Troubles”, por exemplo, explora temas de consumismo, ansiedade moderna e a repetição cíclica da história com um tom de sarcasmo e crítica, convidando à reflexão sobre o futuro indefinido. O hiato de uma década e meia, portanto, não enfraqueceu a banda; ao contrário, parece ter depurado sua linguagem. Instant Holograms on Metal Film é um retorno elegante, consistente e artisticamente coerente com a trajetória do grupo. Enquanto outros discos desta lista enfrentam o tempo, o atravessam ou o reinventam, o Stereolab escolhe um caminho mais raro: permanecer fiel a si mesmo.”


4º. Papôla – Esperando Sentado, Pagando Pra Ver

Há muitos anos – talvez duas décadas, à época do lançamento de Budapeste – assisti a uma entrevista em que Chico Buarque, ao ser perguntado sobre o que estava lendo, mencionou apenas autores nacionais estreantes. Diante da surpresa do entrevistador (que nitidamente esperava ouvir algum nome consagrado e demonstrou total desconhecimento do que Chico mencionara), ele respondeu algo simples e definitivo: “Alguém precisa ler os autores novos”. Essa lembrança voltou com força ao ouvir Esperando Sentado, Pagando Pra Ver. Em um cenário frequentemente acomodado, a estreia totalmente independente (alô, gravadoras!) do grupo pernambucano Papôla surge como um impacto real, pela qualidade estética com que as faixas se apresentam desde a primeira audição. Trata-se de um álbum que reflete o Recife de hoje, mas também conecta-se com quem vive o turbilhão emocional das grandes cidades. No Instagram do trio, formado em 2024 por três mentes criativas: Matheus Dalia (Dersuzalá), Pedro Bettin e Beró (Qampo), eles próprios definem o disco como “um mergulho na melancolia nostálgica: caminhar pela cidade grande à noite, sentir a solidão, mas também o desejo de se perder nas ruas iluminadas”. A banda, que assina também os arranjos, produção e mixagem, pode ser considerada como indie tropicalista – com claros diálogos com o citypop –, em uma mistura que parte da tradição do pop brasileiro dos anos 1970 e 1980 – Djavan, Marcos Valle, Mutantes – e se projeta em diálogos contemporâneos com nomes como Tame Impala e Shintaro Sakamoto, além de referências mais diretas (ouça “Jardim das Delícias Terrenas” e diga se ela não poderia constar tanto em um disco do Steely Dan quanto em um da Rita Lee), num som psicodélico, pop e cheio de brasilidade retrô. O disco impressiona já no plano visual, com uma das capas mais marcantes de 2025, mas é na escuta agradável que suas qualidades se revelam com maior precisão. As canções são construídas a partir de um equilíbrio sofisticado entre groove, psicodelia e forma pop, sustentadas por arranjos que demonstram atenção minuciosa aos timbres e à dinâmica interna de cada faixa. São 10 músicas acessíveis e lisérgicas, com certo ar glam, sustentadas por guitarras solares, sintetizadores discretamente nostálgicos e uma base rítmica que cria uma atmosfera contínua, envolvente e sem excessos. Faixas como “Baby Mistério” evidenciam a inteligência rítmica do grupo, com baixo e percussão dialogando de maneira quase funkeada, enquanto a já mencionada “Jardim das Delícias Terrenas” aposta em um clima mais soturno, conduzido por camadas instrumentais que reforçam tensão e densidade. Em “Luzes da Cidade”, os arranjos se colocam a serviço da narrativa, traduzindo musicalmente a pulsação urbana evocada pela letra. Já “Quintal”, ponto alto do álbum, condensa com precisão essa capacidade de transformar intimidade em experiência universal: é uma canção que cresce com naturalidade, sem grandiloquência, e se impõe como uma das melhores músicas, sejam nacionais ou internacionais, de 2025. O que chama atenção, sobretudo, é o grau de consciência estética que atravessa todo o álbum. Trata-se tanto de um registro autêntico e sofisticado da cena independente recifense quanto de uma estreia segura e consciente, que já entende a forma que habita sem fechar o horizonte do que ainda pode vir, livre da ansiedade típica de quem precisa se afirmar a qualquer custo. Se os veteranos desta lista lidam com o tempo como travessia, reinvenção ou depuração, o Papôla surge de outro ponto: o de quem estreia não apenas como uma promessa, mas já com um dos discos mais consistentes e significativos de 2025.


3º. Faetooth – Labyrinthine

Confesso: Labyrinthine, 2º álbum da banda americana Faetooth, me pegou desprevenido. Não apenas pela posição elevada na lista, mas pelo caminho absolutamente acidental que me levou até uma banda que eu desconhecia, de um gênero que raramente ouço; não cheguei ao disco por afinidade estética, conhecimento prévio do artista ou mesmo curiosidade pelo gênero. Cheguei pela capa e pelo nome. Vi uma menção breve em um site americano de música, a imagem da lindíssima capa me chamou atenção, com aquela floresta densa, fechada sobre si mesma e habitada por uma figura feminina de aparência arcaica, empunhando uma foice. A imagem não aponta saída, assim como o álbum não oferece alívio ao longo de seus 59 minutos. É um espaço sombrio, em que o ouvinte é convidado a entrar e permanecer. Essa atmosfera visual – quase litúrgica, fora do tempo imediato, que parece saída de uma ilustração de livro – dialoga com o som do Faetooth, que constrói peso não pela agressividade frontal, mas pela insistência, pela lentidão e pela sensação de um mundo que se fecha aos poucos ao redor de quem escuta, totalmente traduzido pelo nome do álbum, que significa labiríntico. Fui pesquisar o disco no YouTube e aqui estamos nós, no 3º lugar de nosso pódio. Tal qual nosso 4º colocado, por não conhecer a banda previamente, empreendi uma pesquisa em torno do grupo (coincidentemente, também um trio) e, da mesma forma, trago uma definição de seu site sobre eles: “Somos um trio de ‘fairy doom’ de Los Angeles, conhecido por misturar heavy doom, black metal e shoegaze com temas míticos e inspirados no folclore, formado por Ari May (guitarra/vocal), Jenna Garcia (baixo/vocal) e Rah Kanan (bateria). Formada em 2019, nossa banda combina riffs impactantes com vocais etéreos, explorando a vulnerabilidade e a natureza através de paisagens sonoras ricas e cinematográficas”. As três integrantes (anteriormente, a banda contava com uma quarta integrante, Ashla Chavez Razzano, que também era guitarrista e vocalista, e que fez seu último show com o grupo em 2024) estrearam em 2019 com o EP An Invocation e, em 2022, lançam seu primeiro disco, Remnants of the Vessel. Historicamente, o metal mais extremo – especialmente esse que, na infinidade de gêneros e subgêneros, orbita em torno do death metal e seus desdobramentos – sempre me manteve a uma certa distância. Se por um lado, o peso e as melodias sempre me agradaram (e as partes com vocais de melodias limpas me atraíam), os vocais e gritos guturais não me despertam interesse e me fazem, quase sempre, abandonar as audições. Quase sempre: Labyrinthine, ainda que tributário a esse gênero e recurso, o faz de modo a não o tornar a força motriz do som da banda, equalizando-o um pouco abaixo dos vocais mais limpos. O disco é construído sobre guitarras de afinação grave, riffs longos e arrastados, andamentos lentos e uma sensação constante de massa sonora em deslocamento. Não há pressa, não há catarse imediata: o peso aqui é persistente, quase físico, como uma pressão contínua sobre o ouvinte. A bateria atua menos como motor de impacto e mais como sustentação ritualística, enquanto o baixo reforça essa sensação de chão instável, espesso, sobre o qual as guitarras se arrastam. Tudo soa denso, envolto em camadas que se sobrepõem como neblina. É um disco que não busca agressão frontal, mas desgaste emocional. O elemento decisivo, contudo, está na escolha vocal. Em vez do death growl dominante, surgem vocais limpos, etéreos, por vezes quase líricos, que não aliviam o peso – ao contrário, o aprofundam muito mais do que os gritos guturais. Quanto mais melódicas e fantasmáticas são as vozes, mais opressiva se torna a base instrumental. Essa tensão entre brutalidade sonora e fragilidade vocal cria um efeito hipnótico e  melancólico. É aqui que a imagem da capa deixa de ser mero invólucro e passa a funcionar como chave de leitura: Labyrinthine soa como caminhar por uma floresta escura, úmida, silenciosa demais. Um espaço onde a tristeza não é explosiva, mas sedimentada; onde a melancolia não pede saída, apenas permanência. O disco conduz o ouvinte a outros mundos e outros ambientes, sombrios, introspectivos, quase oníricos, como poucos conseguem fazer. Não há luz no fim da floresta, apenas a consciência de estar dentro dela ao lado da figura da capa. Nada em Labyrinthine foi feito para seduzir ouvintes externos a esse universo. O Faetooth não dilui linguagem, não suaviza forma, não negocia identidade. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, o disco atravessou minhas fronteiras estéticas pessoais e se impôs pela força da experiência que constrói. Ao romper com um padrão que sempre me afastou desse território, a banda não apenas me puxou para dentro, como me fez permanecer ouvindo em um looping que parecia não ter fim as músicas “Iron Gate”, “Death of Day” e “It Washes Over”, a melhor e mais melódica faixa do álbum. Em uma lista majoritariamente ocupada por artistas que lidam com o tempo como legado, maturidade ou reinvenção, Labyrinthine ocupa outro lugar: o da obra que se impõe pelo ambiente sonoro que constrói. E é essa capacidade rara de deslocar o ouvinte para dentro da música, para dentro da sombra, que justifica plenamente sua presença no pódio.


2º. Adrian Smith & Richie Kotzen – Black Light / White Noise

Há discos que parecem destinados a ocupar posições altas em listas de fim de ano; outros, a dominá-las. Black Light / White Noise pertence claramente à segunda categoria – e o fato de eu não o ter colocado no topo desta lista diz mais sobre a força do primeiro colocado do que sobre qualquer limitação aqui presente. O que penso com mais detalhes sobre esse magistral álbum eu já disse aqui. Dei, à época, nota 8,5 para o lançamento; creio que hoje, certamente eu melhoraria essa nota. O grande mérito do álbum de Adrian Smith e Richie Kotzen está na naturalidade com que dois músicos de trajetórias tão marcantes e longevas (Kotzen tem 55 anos e Smith, 68) constroem algo que não soa como soma de egos. Não há aqui o clima de “projeto paralelo” nem a sensação de encontro ocasional entre virtuoses. O disco soa coeso, orgânico e pensado como obra, não como vitrine. As canções respiram, os arranjos têm espaço e a química entre guitarra, voz (e que voz!) e a qualidade das composições é evidente do início ao fim. Outro ponto que impressiona é o equilíbrio raro entre sofisticação e comunicabilidade. Black Light / White Noise é um álbum que dialoga com o hard rock clássico, o blues e o rock setentista sem cair na caricatura ou no exercício de estilo. Ele soa experiente, mas jamais cansado; técnico, mas nunca frio. É música feita por quem conhece profundamente a tradição em que está inserido e, justamente por isso, sabe quando simplificar. Se não fosse o peso simbólico, histórico e quase filosófico do disco que ocupa o primeiro lugar, este seria, sem qualquer constrangimento, o melhor álbum de 2025. Em outra lista, em outro ano, talvez estivesse no topo. Aqui, fica com uma segunda colocação que não diminui sua grandeza, apenas a contextualiza. Por fim, vale destacar “White Noise” e “Blindsided”, duas das melhores músicas de 2025 e verdadeiros rockões desses de autoestrada.


1º. Glenn Hughes – Chosen

O primeiro lugar de 2025 só poderia estar nas mãos de alguém como Glenn Hughes. Não apenas por sua história no rock, que, por si só, já o colocaria em um patamar diferenciado, mas, sobretudo, pelo tempo. Pelo corpo que carrega essa história. Pelo que significa lançar um disco com a qualidade indiscutível de Chosen neste momento da vida. Hughes não lança apenas um álbum acima da média; ele oferece uma afirmação artística de permanência ao nos entregar 10 músicas poderosas de sua autoria. O disco também foi produzido por ele mesmo em parceria com Søren Andersen, que além disso toca guitarra no álbum. As músicas foram gravadas no estúdio de Andersen, em Copenhague, com Ash Sheehan na bateria e Bob Fridzemae nos teclados, músicos que tocam com coesão tudo o que Hughes compôs. Assim, a banda que o acompanha – com destaque para Søren – não funciona como coadjuvante, mas como extensão de sua linguagem. Os riffs são densos, os grooves pulsantes, e tudo soa vivo, presente, sem concessões ao excesso de compressão que domina tantas gravações atuais. É um disco que pede volume alto, pois é roqueiramente impossível ouvir a pedrada que é “In the Golden” sem colocar seus alto-falantes para trabalharem. Ao mesmo tempo em que a canção é uma paulada, Glenn Hughes canta, quase em uma oração, que “Senhor, eu acredito, eu estava perdido na confusão / Agora eu recebo, conto o preço e eu pago / Muitos caíram, os sem fé e sábios / Não há divisão, tolo disfarçado / Minha profecia da alma / Nenhum lugar que eu preferiria estar / Estranho, eu não conseguia ver / Todo esse tempo, eu estava quebrado / Mudança, eu quero ser livre / Eu quero viver em uma era dourada”. A passagem do tempo perpassa todas as faixas. Em um ano em que veteranos como Styx, Robin Trower, Adrian Smith, Richie Kotzen, Arnaldo Antunes e Lenine (e até o retorno tardio do Stereolab) reafirmaram a relevância de trajetórias longas, Chosen surge como o gesto mais impressionante de todos. Não há aqui acomodação, nem tentativa de atualização artificial. Há uma intensidade e uma entrega emocional que muitos artistas décadas mais jovens não conseguem sustentar, sem mencionar a criatividade das composições e as variações vocais de um artista que, aos 74 anos, preserva uma potência rara: canta com a mesma autoridade de sempre, como poucos no rock. O que impressiona em Chosen é sua vitalidade. Nada aqui soa como “obra tardia” ou exercício nostálgico. As 10 faixas respiram energia, peso, groove e melodia com uma naturalidade que desafia qualquer expectativa associada à idade ou à trajetória cheia de altos e baixos que, inacreditavelmente, não o derrubaram. Hughes canta como alguém que ainda tem algo vital a dizer – e talvez seja exatamente isso que o coloque acima de todos os outros em 2025, pois se ouvíssemos o disco como se fosse de uma banda estreante, ele seria perfeitamente plausível em termos sonoros, porém inverossímil em termos de reflexão, de vivências, das letras. Nelas, temos mais do que um eu-lírico: temos o dono do que nos é liricamente cantado e a matéria-prima de seus versos é o tempo. Sua voz incendiária e intacta é o eixo emocional do disco, sustentando tanto os momentos de peso quanto as passagens mais melódicas. Em “Chosen”, ele canta que “Bem dentro de mim / No sol da meia-noite / Eu só quero ser escolhido / Nós existimos através do tempo e do espaço / Perdidos na graça / Você sabe como eu me sinto?”. Não há como sabermos como ele se sente, mas sentimos toda a intensidade de quem, muitas vezes, tinha tudo para estar no topo mas não “era o escolhido”, como se cada frase carregasse décadas de história sem se tornar refém delas. Na lindíssima balada “Come and Go”, ele canta com suavidade e dor: “Sonhe na sua memória coisas que estavam destinadas a ser”. A dura realidade de quem não vive seus sonhos tem um grau de veracidade na voz de Hughes. Em seguida, continua “Neste país das maravilhas, a gente vem e vai / Segue em frente, entramos na luz / Tem um sinal, é hora de te avisar / Neste país das maravilhas, a gente vem e vai”. Quem melhor do que Glenn Hughes para nos emocionar com essas idas e vindas? Em “Heal”, mais meditações sobre o tempo: “Oh, tempo / Oh, é hora de curar / Senhor, é hora de curar”. É difícil não se emocionar com a virada de ritmo e a intensidade da interpretação na voz de Hughes enquanto ele avança no lamento de dor e cura e canta “Estou tão sozinho para estar aqui vivo”. Se esta lista, como toda lista, é também uma reflexão sobre o tempo, Chosen se impõe como seu ponto máximo. Glenn Hughes não celebra o passado, ele medita sobre o que lhe resta de sua jornada no presente — e faz isso com uma intensidade que poucos artistas, de qualquer idade, conseguem alcançar. Por isso, mais do que merecido, seu primeiro lugar não é apenas justo: é inevitável.


Menção honrosa (em ordem de preferência)
(11 álbuns que jogaram partidas de igual para igual na disputa pelas posições  do 7º ao 10º lugar, porém acabaram perdendo por detalhes)

11º. Azymuth – Marca Passo
O Azymuth segue sendo um caso raro de longevidade com identidade preservada. Marca Passo soa elegante, orgânico e contemporâneo, provando que groove, sofisticação e curiosidade musical não envelhecem. Esteve na lista oficial desde o seu lançamento, porém na semana retrasada ouvi o recém-lançado Fuego! do DeWolff, e a memória afetiva das covers escolhidas pelos holandeses mexeu comigo.

12º. Biffy Clyro – Futique
O trio escocês domina a arte de fazer o chamado “Rock de Arena” e segue apostando em grandes refrões e dinâmicas inesperadas. Ao longo do álbum, a banda alterna explosão sonora e momentos introspectivos, em que melancolia e energia pop se unem em 11 faixas que podem ser cantadas a plenos pulmões ou apreciadas em silêncio – e “Two People In Love” é séria candidata a uma das melhores músicas do ano. Futique é uma aula de como fazer rock contemporâneo relevante e emocional.

13º. Orquestra Afro-Brasileira – 80 Anos (Remixes)
Um absurdo em termos de qualidade e relevância. A lista de ótimos músicos envolvidos é um atestado da importância e do respeito que a Orquestra Afro-Brasileira conquistou ao longo de sua trajetória.

14º. John Cafferty & The Beaver Brown Band – Sound of Waves
Estava sentindo falta de um som novo para tocar no toca-fitas do seu carro? John Cafferty surge como o companheiro ideal para a estrada, com canções diretas, refrões certeiros e aquele espírito clássico de rock americano que nunca sai de moda.

15º. Jethro Tull – Curious Ruminant
Ian Anderson continua explorando com qualidade seu próprio universo sem concessões (a exemplo de Stereolab e Lenine) – e isso é tudo o que os fãs da banda amam. Curious Ruminant é mais um capítulo coerente de uma trajetória que nunca se guiou por expectativas externas, mas por convicção artística.

16º. Pelados – Contato
Eis o disco mais ousado de 2025 (e outro que permaneceu por um bom tempo na minha lista oficial). Em um mercado cada vez mais confortável com fórmulas prontas, Contato se impõe pela inquietação, pelo risco e pela recusa explícita ao caminho mais fácil ditado pelos algoritmos. Se gosta de pop rock, indie e letras inteligentes e bem sacadas, é obrigatório.

17º. Terno Rei – Nenhuma Estrela
Melancólico, atmosférico e cuidadosamente produzido, o 4º álbum da banda é sem dúvidas o melhor da carreira do grupo de SP e reafirma a maturidade dos músicos (olha o tempo operando mais uma vez…). Um trabalho que cresce na escuta prolongada e se sustenta mais pelo clima do que por excessos. Outro que demorou a sair da lista oficial.

18º. The Night Flight Orchestra – Give Us the Moon
Aqui, o AOR é tratado com respeito, energia e melodias irresistíveis. Um disco que entende perfeitamente sua função: soar grande, acessível e honesto, sem cinismo ou cálculo excessivo.

19º. Buddy Guy – Ain’t Done With The Blues
O título não poderia ser mais apropriado. Buddy Guy segue provando, aos 89 anos, faixa após faixa, que o blues não é apenas um gênero histórico, mas uma linguagem viva quando interpretada por quem realmente a domina.

20º. FBC – Assaltos e Batidas
Para você que cresceu ouvindo Cypress Hill, Public Enemy, Pavilhão 9 e meus conterrâneos aqui do DF do Câmbio Negro e sentia falta de um som novo para seguir nessa linha, encontrou um novo álbum para chamar de seu. Um resgate potente do rap de confronto, de batida pesada e de crítica social sem verniz.

21º. Perfume Genius – Glory
Introspectivo, sofisticado e emocionalmente intenso, Glory expande o universo estético de Mike Hadreas sem perder sua essência. Um disco que exige atenção e recompensa o ouvinte com camadas sutis. Sinto muito por não ter conseguido deixá-lo na lista oficial.

20 lançamentos que ficaram de fora, mas merecem a sua audição (em ordem alfabética)
Arcade Fire – Pink Elephant
Bad Bunny – DeBÍ TiRAR MáS FOToS
BaianaSystem – O Mundo dá Voltas
Babymetal – Metal Forth
Beirut – A Study of Losses
Djo – The Crux
Dream Theater – Parasomnia
Gaby Amarantos – Rock doido
Garbage – Let All That We Imagine Be the Light
Ghost – Skeletá
Halestorm – Everest
Hyldon – JID023
Christone “Kingfish” Ingram – Hard Road
Little Feat – Strike Up the Band
Mammoth – The End
Mdou Moctar – Tears of Injustice
Robert Plant – Saving Grace
Seu Jorge – Baile à la Baiana
Steve Morse Band – Triangulation
Steve Porcaro – The Very Day

Os 15 melhores álbuns ao vivo lançados em 2025 (em ordem alfabética)
Enquanto muitas listas de “melhores álbuns do ano” se concentraram em álbuns de estúdio, os álbuns ao vivo listados abaixo, independentemente de serem de shows de 2025, porém todos lançados neste ano, merecem a sua atenção por suas performances e qualidade de gravação.

Cypress Hill & The London Symphony Orchestra – Black Sunday: Live at the Royal Albert Hall
David Gilmour – The Luck and Strange Concerts
Def Leppard – Diamond Star Heroes: Live from Sheffield
Dirty Honey – Mayhem and Revelry Live
Duff McKagan – Lighthouse: Live From London
Fleetwood Mac – Live 1975
Frank Sinatra – At the Hollywood Bowl 1943-1948 Highlights
Jimmy Whitherspoon & Robben Ford – Jump Blues Live 1972
Lettuce – Lettuce with the Colorado Symphony
Siena Root – Made in Kuba
Slash – Live At The S.E.R.P.E.N.T. Festival
Sly & The Family Stone – The First Family: Live At The Winchester Cathedral 1967
The Cranberries – MTV Unplugged
Wall of Voodoo – The Lost Tapes Live
WAR – Live in Japan 1974

Lista de 10 sites e blogs (em ordem alfabética) aos quais agradeço sinceramente, pois considero-os colegas que, assim como nós, dedicam seu precioso tempo para escreverem com qualidade sobre música e aos quais, quase sempre diariamente, dedico um tempo de qualidade de leitura:

https://albumsthatshouldexist.blogspot.com/
https://www.goldminemag.com/
https://hitsperdidos.com/
https://www.hominiscanidae.org/
https://musicainstantanea.com.br/

Home


https://oserdamusica.blogspot.com/
https://pqpbach.ars.blog.br/

Homepage


https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/

9 comentários sobre “Melhores de 2025: Por Marcelo Freire

  1. Lista bastante variada, e como as análises são bastante detalhadas, facilita quem não conhece algum dos discos decidir o que ouvir primeiro!
    Dois dos discos da lista (Robin Trower e Smith/Kotzen) chegaram perto de entrar na minha lista, mas acabaram ficando de fora. E os discos ao vivo são muito interessantes, vários deles preciso conferir!
    E já que o Marcelo incluiu o Robin Trower, vou aproveitar para corrigir uma injustiça: a box comemorativa dos 50 anos de For Earth Below merecia ter sido mencionada na minha lista.

  2. Injustiça corrigida com louvor, Marcello!
    Espero que curta os discos que não conhece e, depois, volte para dar sua opinião! E quanto à “Lista bastante variada”, até mesmo para mim, que ouço de tudo, ela foi uma verdadeira miscelânea… Mas reflete fielmente o que foram as audições me mais me marcaram em 2025.

  3. sobre Faetooth – Labyrinthine: é um album sensacional. foi uma garimpada das boas , um doom lindo é um diamante lindo , eu acho que não precisa lapidar essa pedra com grandes produtores, a pedra em estado bruto é melhor , é só dá uma limpadinha que fica bonita. quanto a capa ela chama a atenção, eu olhei com mais detalhes , essa mulher com a foice tem uma asa de anjo por trás dela(pode ser um anjo da morte), nos pés dela tem um carneirinho (ou uma ovelha tosquiada) e o portão parece ser de art noveau(não entendo de artes ) , tem toda característica de um portão de Cemitério, eu imagino que existe um Cemitério escondido nessa floresta e que essa mulher seria a guardiã desse Cemitério rsrsrsrsr.
    a lista no geral está surpreendente, maravilha.

    1. Fico feliz demais que tenha curtido o “Labyrinthine”, Gugu! Como eu disso no início, cheguei a tê-lo, em alguns momentos, como o 1º lugar da lista… E a capa é realmente sensacional, não? Curti demais a sua leitura dela como uma entrada de cemitério! E, por fim, estou contigo, é um disco lindo, um (como você mesmo denominou) “um doom lindo”.

  4. esaa é minha lista final de 2025:
    1° messa (the spin)
    2° epica (aspiral)
    3° howling giant (crucible&ruin)
    4° mammoth (the end)
    5° kal-el(astral voyager vol. 1)
    6° warbringer(wrath and ruin)
    7° king witch (III)
    8°spiritbox (tsunami sea)
    9°coroner(dissonance theory)
    10° sodom(the arsonist)
    menção honrosa
    11°lacuna coil (sleepless empire)
    12°wytch hazel (lamentations)
    13°paradise lost (ascencion)
    14° the night Flight orquestra (give us the moon)
    15°dream theather (parasomnia)
    16° gruesome (silent echoes)
    17°the vintage caravns(portals)
    piores albuns:
    helloween( giant & monters)
    the lunar effect (fortune always hidding)
    pigs pigs pigs pigs pigs( pigs pigs pigs pigs pigs)
    agriculture (the spiritual sound)

  5. Que lista boa, Gugu, muito obrigado por compartilhar!

    Quanto aos seus 10 melhores, fiquei feliz em ver o Mammoth com o seu “The End” em quarto lugar, gostei bastante desse disco também! Ao mesmo tempo, fiquei triste quando vi que se lembrou do excelente “Astral Voyager Vol. 1” do Kal-El… Eu achei esse disco muito, mas muito bom mesmo, ouvi-o absurdamente quando saiu, lá em maio, ao longo de uns 3, 4 meses, mas por relapso nas minhas anotações, esqueci-me dele para compor a minha lista, valeu demais por me relembrar dele e fazer, de certa forma, essa retificação, pois ele certamente brigaria para estar entre os meus 10 melhores. Em tempo: está sabendo que o Vol. 02 sairá agora em março de 2026? Outro que deixei de fora em minhas menções (também por descuido meu) foi o ótimo “Lamentations” do Wytch Hazel – não entraria na minha lista dos melhores, mas eu deveria tê-lo listado, sem dúvida alguma.

    Quanto aos que eu não cheguei a ouvir, anotei aqui todos os que mencionou e os ouvirei conforme a sua posição deles na sua lista e nas suas menções honrosas.

    Seu comentário me acendeu um alerta para 2026: não posso deixar de ter no meu bloquinho de anotações essas coisas mais organizadas… Por isso, sinta-se sempre à vontade para trazer suas indicações, Gugu!

    1. esse volume 2 eu vou ter que ter tomar cuidado pra não esquecer rsrsr. mas eu descobri uma lista de lançamentos que se chama -se : realese calendar loudwire. lá eu vejo as bandas conhecidas e desconhecida através da data de lançamento.

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