Tank – Filth Hounds of Hades [1982]

Tank – Filth Hounds of Hades [1982]

Por Daniel Benedetti

Filth Hounds of Hades, estreia do Tank, chegou às lojas em março de 1982 como um dos registros que melhor traduziram a zona de contato entre o punk britânico, o peso do Motörhead e a explosão da New Wave of British Heavy Metal. Gravado no Ramport Studios, em Londres, entre dezembro de 1981 e janeiro de 1982, o álbum foi produzido por “Fast” Eddie Clarke, então guitarrista do Motörhead, e reúne Algy Ward no vocal e baixo, Peter Brabbs na guitarra e Mark Brabbs na bateria. Com 38 minutos e 25 segundos, o disco não alcançou as principais paradas britânica ou norte-americana, mas conquistou uma recepção positiva entre fãs de punk e metal e, com o passar do tempo, passou a ser reconhecido como um dos trabalhos relevantes da NWOBHM.

A trajetória de Algy Ward ajuda a entender por que Filth Hounds of Hades possui uma identidade tão particular. Antes do Tank, Ward havia participado do The Saints, aparecendo no single “This Perfect Day”, de 1977, e nos álbuns Eternally Yours e Prehistoric Sounds, ambos de 1978. Depois, integrou o The Damned em Machine Gun Etiquette, de 1979, excursionando inclusive pelos Estados Unidos. A passagem por essas bandas lhe proporcionou contato direto com diferentes vertentes do punk e do rock britânico, enquanto a convivência com Lemmy e a admiração pelo Motörhead o aproximaram do universo que posteriormente seria associado à NWOBHM. O Tank nasceu justamente dessa combinação: a urgência do punk, o peso do Motörhead e a crescente velocidade do heavy metal britânico.

O resultado não é um simples exercício de imitação. O baixo de Ward ocupa posição particularmente importante na mixagem, enquanto guitarra e bateria sustentam uma música direta, agressiva e pouco interessada em refinamentos desnecessários. O álbum também revela uma banda ainda em formação, capaz de alternar velocidade, peso, humor negro, temas de guerra e situações deliberadamente absurdas. É justamente essa variedade dentro de uma proposta essencialmente pesada que faz o disco permanecer interessante. Mesmo quando a influência do Motörhead é evidente, existe uma energia punk que impede o Tank de soar como mera cópia de seus principais inspiradores.

“Shellshock” abre o álbum de maneira rápida, pesada e direta, evidenciando a forte influência do Motörhead e a atitude quase punk do Tank, enquanto sua letra aborda os efeitos psicológicos da guerra sobre os soldados. “Struck by Lightning” mantém a intensidade com bateria frenética e ritmo acelerado, trazendo uma temática sexual e deixando evidente a herança punk de Algy Ward. “Run Like Hell” é um pouco mais cadenciada, mas preserva o peso através de guitarras afiadas e uma letra sobre um indivíduo cercado tentando sobreviver. Já “Blood, Guts and Beer” mistura violência, bebida, sexo e humor negro em situações absurdas, apoiadas por um hard/heavy mais cadenciado e um bom riff. “That’s What Dreams Are Made Of” segue essa direção, com outro riff competente e letras marcadas pelo absurdo e pelo humor negro, reforçando o lado mais irreverente da banda.

“Turn Your Head Around” reúne peso de Motörhead, urgência punk e agressividade do heavy metal britânico, apresentando uma temática mais séria sobre sobrevivência e sendo escolhida como single, embora sem repercussão nas paradas. “Heavy Artillery” aproxima-se diretamente da NWOBHM, com bastante velocidade e uma temática voltada para a guerra. “Who Needs Love Songs?” trabalha a decepção amorosa através de bons riffs e um andamento mais cadenciado, ampliando a variedade temática do disco. A faixa-título, “Filth Hounds of Hades”, é uma verdadeira porrada, com sonoridade pesada, excelente solo de guitarra e uma letra que parece criar uma persona para a própria banda, suja e ameaçadora, enquanto seu título foi inspirado na obra de Viv Stanshall. Por fim, “(He Fell in Love with a) Stormtrooper” encerra o trabalho retomando a influência do Motörhead e apresentando um soldado envolvido entre amor e guerra, resumindo a mistura de heavy metal, punk, peso, humor e absurdo que caracteriza o primeiro álbum do Tank.

Filth Hounds of Hades não conseguiu transformar o Tank em um nome de grande alcance comercial. O álbum não apareceu nas principais paradas britânica ou norte-americana, e o single “Turn Your Head Around” também não teve repercussão significativa nas paradas. Ainda assim, a resposta de fãs de punk e metal foi positiva, e o disco ganhou uma reputação consideravelmente maior ao longo dos anos. Sua importância está menos nos números alcançados no lançamento e mais na maneira como documenta um momento específico da música britânica.

Version 1.0.0

O Tank estava exatamente no cruzamento de movimentos que ajudaram a redefinir o rock pesado no início dos anos 1980. Algy Ward trazia consigo a experiência do The Saints e do The Damned, além da convivência com uma cena punk que valorizava velocidade e atitude. Ao mesmo tempo, o Motörhead fornecia uma referência evidente de peso e agressividade, enquanto a NWOBHM oferecia o contexto no qual novas bandas britânicas de heavy metal encontravam espaço para desenvolver suas próprias linguagens.

A participação de Fast Eddie Clarke na produção reforça essa ligação. Mais do que uma curiosidade de créditos, sua presença aproxima diretamente o álbum do universo do Motörhead. O Tank chegou inclusive a excursionar como banda de abertura do grupo, utilizando essa associação para ampliar a exposição de seu primeiro trabalho. É uma circunstância bastante coerente com a posição que Filth Hounds of Hades ocupa historicamente: um disco que parece funcionar como uma ponte entre o punk e o heavy metal em um momento de intensa transformação da música britânica.

A história posterior da banda, contudo, não correspondeu inteiramente à promessa de sua estreia. O Tank continuou ativo por anos, atravessando mudanças de formação e um declínio de sua sorte comercial, até sua primeira separação, em 1989. Nesse sentido, Filth Hounds of Hades acabou assumindo também o papel de registro de um potencial que não seria plenamente concretizado. O primeiro álbum revelou uma banda com personalidade suficiente para estabelecer uma identidade própria, mas essa força não se converteu em uma trajetória comercial proporcional.

É justamente por isso que o disco permanece como um dos trabalhos que merecem ser revisitados dentro da história da NWOBHM. Não se trata de uma obra que tenha redefinido o heavy metal ou alcançado a dimensão de seus nomes mais populares. Seu interesse está em outro lugar: na combinação de punk, Motörhead e heavy metal britânico que Algy Ward e os irmãos Brabbs conseguiram condensar em dez faixas. “Shellshock”, “Struck by Lightning”, “Turn Your Head Around” e “Heavy Artillery” revelam diferentes faces dessa fórmula, enquanto “Blood, Guts and Beer”, “That’s What Dreams Are Made Of” e a própria faixa-título acrescentam humor negro e irreverência.

Filth Hounds of Hades é, enfim, um documento de uma cena em ebulição. O disco não apresenta uma banda perfeitamente acabada, nem precisava fazê-lo. Sua força está justamente na energia de uma formação ainda procurando seu espaço, conduzida por um músico que carregava experiências distintas do punk e do rock pesado. O Tank acabaria ficando pelo caminho, mas sua estreia permaneceu como um daqueles discos cuja importância cresce à medida que a história é reexaminada. Para quem se interessa pela parte menos óbvia do heavy metal britânico, Filth Hounds of Hades continua sendo um daqueles trabalhos que justificam plenamente o resgate.

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