Datas Especiais: 40 Anos de The Final Countdown
Por Mairon Machado
Há 40 anos, o mundo da música voltava seus olhos para a Suécia. Depois de 5 anos do fim do ABBA, o país escandinavo conseguia novamente colocar sua bandeira entre as maiores nações da música, batendo de frente com Estados Unidos e Inglaterra, através de um disco que marcou época: The Final Countdown. O terceiro álbum do Europe foi lançado em 26 de maio de 1986, e alcançou nada mais nada menos que a oitava posição na parada da Billboard estadunidense, bem como primeira posição em diversos países europeus, além de várias posições altas em inúmeros charts mundo afora.
O Europe era uma banda de relativo sucesso dentro do mercado sueco. Com dois discos lançados (Europe, de 1983, e Wings of Tomorrow, de 1984), em 85 ocorre uma grande mudança na formação. Sai o baterista Tony Reno e entra Ian Haughland, além do tecladista Mic Michaeli, tornando o quarteto Europe agora um quinteto. Ao mesmo tempo, o grupo já estava começando a preparar o novo álbum, que tinha como principal objetivo tentar conquistar o – complexo – mercado estadunidense.
As primeiras canções escritas foram “Rock the Night” e “Ninja”, as quais surgiram durante a turnê de divulgação de Wings of Tomorrow. Porém, ainda em 1985, algo acontece que muda totalmente a história do Europe. O diretor Staffan Hildebrand convida Joey Tempest, vocalista do grupo (vale aqui lembrar os outros músicos da banda, John Norum na bateria e John Levén no baixo, além de Haughland e Michaeli, sendo esta a chamada formação clássica dos suecos) para fazer a trilha sonora do filme On The Loose. Tempest entregou a faixa solo “Broken Dreams”, que junto com “Rock the Night” e “On the Loose”, saíram em um EP, em abril de 1985, que era vendido nos cinemas suecos antes da apresentação do filme, e hoje tornou-se uma raridade cobiçada pelos fãs, principalmente fora da Escandinávia. O grupo também aparece no filme, interpretando ao vivo “Rock the Night”, que também saiu em um single exclusivo (com uma regravação de “Seven Doors Hotel”, faixa do primeiro disco da banda, no lado B), e isto fez grande sucesso, levando o single de “Rock the Night” a alcançar número 4 nas paradas suecas.
Devido ao enorme sucesso de On the Loose e “Rock the Night”, o Europe saiu para uma grande turnê em sua terra natal durante todo 1985, apresentando três novas canções: “Danger on the Track”, “Love Chaser” e a balada “Carrie”, que inicialmente era apenas com teclados e vocais. Ao mesmo tempo, novas canções começavam a surgir. Eis que então, após a longa turnê, e com mais algumas canções na bagagem, o grupo entra nos estúdios para gravar seu terceiro e grandioso disco, em setembro de 1985, no Powerplay Studios de Zurique, Suíça, tendo como produtor o estadunidense Kevin Elson, o qual tinha no currículo o Journey, e sabia a receita de como “conquistar” o mercado dos EUA.
Com mixagem no Fantasy Studios dos Estados Unidos, a cargo de Elson e Wally Buck, durante o março de 1986, além da masterização de Bob Ludwig na clássica Masterdisk, The Final Countdown chegou às lojas, como citado acima, exatamente em 26 de maio de 1986, e já abre com aquele que para mim é o maior clássico do grupo (não necessariamente a melhor música), a faixa-título “The Final Countdown”. Tenho esta música como “Anna Julia” é para o Los Hermanos, ou “White Rabbit” é para o Jefferson Airplane, ou seja, uma canção atemporal de uma banda, mas que nada tem a ver com a banda em si, sendo basicamente totalmente diferente de tudo o que foi feito antes ou depois, mas que mesmo assim, é inegável sua importância, goste ou não.
“The Final Countdown” começa com os barulhos de sintetizadores que levam para um dos mais conhecidos riffs de teclados de todos os tempos, em um crescendo mágico (na linha do que é a introdução de “Mr. Crowley”, de Ozzy Osbourne), trazendo então o Europe no ritmo cavalgante, para a repetição do riff intodutório. Esse riff havia sido criado anos antes por Tempest, em uma brincadeira de estúdio provavelmente no final de 1981, início de 1982 que acabou evoluindo para algo que seria a faixa de abertura dos shows do Europe. Levén sugeriu que Tempest deveria escrever uma canção baseada naquele riff e assim, inspirado por “Space Oddity”, de David Bowie, o vocalista criou o maior clássico da história dos suecos. Os vocais de Tempest rememoram a história de Bowie, pegando exatamente da contagem final. É impossível não se contagiar pela canção, com backing vocals bem encaixados que facilmente nos fazem reproduzi-los, assim como a ampla citação ao nome da canção, que gruda literalmente na cabeça.
Norum manda ver no seu solo, o qual considero ainda hoje o mais bonito de sua carreira, e voltamos para a intro, repetindo o refrão e concluindo uma das melhores músicas do hard oitentista com a voz de Tempest sendo repetida em sua mente, e o jogo já ganho a partir daqui. Uma nota adicional é que durante as gravações do álbum, Tempest teve uma reação alérgica a produtos com trigo, forçando o vocalista a mudar sua dieta para conseguir completar o álbum. Para se ter uma ideia, “The Final Countdown” teve os vocais gravados em Estocolmo, enquanto a banda permaneceu na Suíça, e os vocais das demais canções foram regravadas, de última hora, na Califórnia. De qualquer forma, se tornou um baita sucesso! A canção tornou-se obrigatória desde então nas apresentações do grupo, tendo sido apresentada pela primeira vez no show realizado em Gävle, Suécia, em 29 de abril de 1986. Eu acho que ouvi essa música pela primeira vez quando tinha três, no máximo quatro anos. Tenho uma vaga lembrança de sair – ou entrar – de um cinema na minha cidade, Pedro Osório, levado pelas mãos de minha mãe, e de ficar impressionado com aqueles teclados, e ainda hoje, passados 40 anos, me emociono sempre que ouço a canção, que automaticamente me traz uma saudosa memória de minha falecida mãe. Onde quer que ela esteja, além de minhas memórias, certamente ela foi uma das responsáveis por me tornar o colecionador de discos e aficcionado por música que me tornei.
Seguindo com o disco, Norum comanda o riff pesado e as alavancadas da intro de “Rock the Night”, já presente no citado On The Loose. Para The Final Countdown, o Europe fez pequenas mudanças sonoras, tirando a parte mais crua do que foi gravado em 1985, e um pouco mais “limada”. O baixo pulsa ao invés de cavalgar como em “The Final Countdown”, e aqui, Tempest não está exagerando nos vocais, tornando a canção bem mais agradável do que está presente na bolachinha. Mais um refrão contagiante e grudento, e Norum fazendo dois solos bem virtuosos, com boa velocidade nos dedos. Se o jogo estava ganho em “The Final Countdown”, aqui o Europe já está controlando totalmente o campo, e com apenas 15 minutos de audição, decreta a goleada sonora deste disco com a baladaça “Carrie”.
Como ela era uma canção apenas para teclado e voz, para The Final Countdown ela recebeu o time completo. O piano elétrico de Michaeli surge com outro riff inesquecível e mágico, para acompanhar a voz dolorida de Tempest, comentando sobre o fim de um relacionamento, lembrando que Carrie, a menina, nunca existiu de verdade – ao menos com este nome – segundo o vocalista. A entrada do Europe vai crescendo a canção, que explode no refrão entoando o nome de “Carrie”, e pronto, estamos já fãs de Europe. Três canções que são a melhor representação do que foram os anos 80 musicalmente, com teclados e sintetizadores dominando as camadas sonoras, bases quadradas e simples de baixo e bateria, guitarristas fillers e repletos de virtuose, e um vocalista exageradamente gritante, e que para muitos, é exatamente o que torna os anos 80 terrível, mas para mim, é o espetáculo musical extremamente excelente. Ouçam o solo de Norum em “Carrie” e deleitem-se com algo simples, mas belíssimo, e a faixa encerra-se com uma bonita partipação dos teclados.
Voltamos aos hards mais tradicionais em “Danger on the Track”, com um riff combinado de teclados, guitarras e baixo, sem ser no ritmo pulsante, e um ótimo trabalho vocal. Para quem ainda não pegou, o trabalho de construção do Europe mostra-se novamente simples mas grudento, com estrofe-refrão-estrofe-solo construídos perfeitamente para o fã cantar. Admirem o solo de Michaeli aqui, lembrando bastante Jon Lord nos anos 70, já que ele utiliza um hammond para o tal, e também o bom solo de Norum, com muitos bends e velocidade. O lado A fecha com “Ninja”, faixa mais veloz, cujo riff rapidamente me remete à “Lights Out” (UFO), em uma canção bastante animada, que também poderia figurar como trilha de Animes como Demon Slayer ou Naruto. Segunda faixa mais antiga do disco, eu curto bastante o solo de Norum aqui, utilizando notas mais agudas e vibratos. Podem me chamar de louco, mas tenho muita certeza que há forte inspiração em Michael Schenker para esta canção.
O lado B surge com as batidas e o refrão grudento de baixo, guitarra e teclados para “Cherokee”, faixa inspirada nos nativos americanos (mais um indicativo de quem eles queriam conquistar), sendo um hardão tipicamente oitentista, com os exageros vocais de Tempest tomando conta das caixas de som, e destacando o baixo marcante de Levén, além do forte refrão e dos belos solos de Norum e Michaeli, este último me remetendo facilmente ao solo de Eddie Van Halen em “Jump”. Esta foi a última canção criada para o álbum, ficando pronta uma semana antes das gravações na Suíça, e acabou se tornando o quarto single a ser lançado daqui. Seguimos com os teclados e as vocalizações que abrem “Time Has Come”, uma bonita balada inicialmente, que ganha bastante dramaticidade com a entrada do violão, mas, com a entrada da guitarra, baixo e bateria, torna-se outro potente hard oitentista, onde o solo de Norum não é recheado de fillers, mas sim mais pegado e com belos bends e vibratos, como uma boa balada farofa exige.
“Heart of Stone” mantém o padrão oitentista de refrão forte e muito teclado, mas aqui, com Norum fazendo mais estripulias em seu ótimo solo, até com uma pegada mais bluesy no início, detonando notas rápidas na sequência. A veloz “On the Loose” nos leva para a reta final do álbum, e também ao já citado filme, com outro magnífico solo de Norum, exalando virtuosismo em notas muito velozes e o nome da canção grudado na nossa mente, fechando com “Love Chaser”, iniciando com os teclados que nos remetem a “The Final Countdown”, mas logo após, a entrada da guitarra e do baixo cavalgante modificam essa ideia, sendo uma faixa mais simples, onde os teclados e as vocalizações se sobressaem junto de mais um refrão marcante.
Cinco singles foram lançados de The Final Countdown: “The Final Countdown”, “Love Chaser”, “Rock the Night”, “Carrie” e “Cherokee.”. Tempest sugeriu a faixa título como primeiro single, apesar dos demais quererem “Rock The Night”, já que achavam que a canção, por ser diferente das demais do grupo, jamais se tornaria um hit. Porém, a gravadora concordou com Tempest, e então, o compacto da faixa-título atingiu o primeiro lugar em 25 países, incluindo os charts britânicos, onde permaneceu na primeira posição por duas semanas, França e Alemanha, chegando a oitava posição nos Estados Unidos. Já seu vídeo tem mais de 1,3 bilhões de visualizações no YouTube.
O single de “Rock the Night” também saiu-se relativamente bem, conquistando segunda posição na Bélgica e Holanda, décima segunda no Reino Unido e vigésima segunda nos Estados Unidos, país onde o single de “Carrie” é o que atingiu a maior posição, chegando no terceiro lugar, e curiosamente atingindo como máximo apenas a décima posição na Irlanda e Suíça, fracassando nos demais países. “Cherokee” não conseguiu emplacar na Europa, e atingiu a modesta posição 72 nos Estados Unidos. Por fim, há também o raro single de “Love Chaser”, lançado apenas no Japão, e que não emplacou por lá. Além disso, a canção está na trilha do filme World Grand Prix Pride One, em versões cantada e instrumental, assim como “Carrie” surge na trilha da mesma forma.
A banda começou a turnê de promoção de The Final Coundown no citado show de 29 de abril. O álbum era para ter saído um pouco antes disso, mas acabou atrasando devido a problemas com a capa. No dia do lançamento do disco, há 40 anos, o Europe encerrava a parte sueca da turnê com a segunda apresentação em dois dias (25 e 26) na cidade de Solna, no Solnahallnen, os quais foram filmados para uma transmissão televisiva que acabou culminando no clássico VHS/DVD The Final Countdown Tour ’86 (que originalmente, saiu somente – obviamente – no Japão).
Na sequência, foi a vez dos nipônicos receberem o Europe, onde eram tratados como deuses. O grupo aterrisou por lá em setembro de 1986, fazendo quatro show em Tóquio e ainda concertos em Nagoya e Osaka. Porém, apesar do sucesso, nem tudo era festa nos camarins do Europe. Norum sentia-se cada vez mais incomodado com as diferenças musicais que o Europe havia criado e com o que a banda havia se tornado, bem como mostrava grande insatisfação com os caminhos que o empresário, Thomas Erdtman, estava dando para os suecos. Em comum acordo, Norum decidiu ficar para a segunda parte da turnê sueca, a qual começou em Örebro no dia 26 de setembro de 1986, assim como a perna europeia, que incluiu apresentações em TVs locais e entrevistas. Porem, em 31 de outubro de 1986, após um show em Amsterdam, Holanda, Norum pulou da barca, alegando insatisfação com a quantidade de teclados no som do grupo, os quais, segundo ele, enterraram as guitarras.
Norum foi então substituído por Kee Marcello (ex-Easy Action), o qual estreia nos clipes de “Rock the Night”, “Cherokee” e “Carrie”, surgindo oficialmente ao público na apresentação de 12 de dezembro de 1986 na Alemanha, durante o Peters Popshow de Dortmund. Ainda na sequência da turnê, a apresentação no Hammersmith Odeon de 1987 acaba tornando-se o cobiçado VHS/Laser Disc The Final Countdown World Tour. Norum voltou à banda somente no início dos anos 2000, mais precisamente no anúncio oficial de retorno das atividades do Europe em 2 de outubro de 2003. Como curiosidade, anos depois, em 2007, oito das dez faixas do LP aparecem no filme Hot Rod.
E para encerrar, The Final Countdown vendeu muito. Conquistou a primeira posição na Suécia (platina, com 100 mil cópias vendidas), Espanha (platina quádrupla, com 400 mil cópias vendidas), Finlândia (platina, com 70 mil cópias vendidas), e Suíça (platina, com 50 mil cópias vendidas), segunda posição na Itália, terceira posição na Austrália (platina dupla, com 140 mil cópias vendidas), Holanda (ouro, com 80 mil cópias vendidas) e Nova Zelândia, quarta na Noruega (platina, com 100 mil cópias vendidas), quinta na Áustria, sexta no Canadá (platina dupla, com 200 mil cópias vendidas) e Alemanha (ouro, com 250 mil cópias vendidas), oitava nos Estados Unidos (platina tripla, com 3 milhões de cópias vendidas) e nona no Reino Unido (ouro, com 100 mil cópias vendidas). O aniversariante já ultrapassa a marca de 12 milhões em vendas ao redor do mundo, e com certeza, ainda terá muitas histórias para serem contadas com o passar dos anos. Não é nem de longe o melhor disco do grupo, mas com certeza, é o mais importante. Ouçam sem preconceito, e divirta-se!
Track list
1. The Final Countdown
2. Rock the Night
3. Carrie
4. Danger on the Track
5. Ninja
6. Cherokee
7. Time Has Come
8. Heart Of Stone
9. On The Loose
10. Love Chaser
