Por Fernando Bueno

Em 1976 o Deep Purple via sua carreira acabar. Depois de tentar continuar com o americano Tommy Bolin nas guitarras, substituindo o então chefão Ritchie Blackmore, a banda sofreu bastante com os problemas com drogas do guitarrista e também de Glenn Hughes. A situação chegou ao ponto de ter John Lord fazendo todos os solos em um show devido a um problema no braço que Bolin teve por conta de uma aplicação de heroína que atingiu um nervo do braço que quase o paralisou completamente. Toda essa situação gerou um pesadelo para a banda que culminou em sua dissolução.

Essa última formação do Deep Purple ficou bastante marcada por um disco que aos poucos foi ganhando maior atenção dos fãs, Come Taste the Band (1975), que tinha elevado ainda mais a adição das influências de soul e funk ao som da banda que havia iniciado com as entradas de Coverdale e Hughes. Com o fim do Deep Purple David Coverdale montou sua banda solo, a qual seria o embrião do Whitesnake, Glenn Hughes reuniu novamente o Trapeze e partiu para uma errática carreira solo e Bolin, infelizmente, não viveria por muito tempo mais depois disso, morrendo de overdose oito meses depois do fim da banda.

Sobraram Ian Paice e Jon Lord. Os dois músicos resolveram se reunir à um amigo de Lord que já tinha trabalhado com ele em um projeto chamado First of the Big Bands de 1974, o vocalista/tecladista Tony Ashton. Olhando sua carreira pregressa o leitor talvez não se anime tanto, pois não há bandas de peso em seu currículo, porém não dá para dizer que ele nunca tinha trabalhado com grandes músicos antes. Formou-se assim o Paice Ashton Lord – completavam o line up Paul Martinez no baixo e Bernie Marsden na guitarra. O resultado foi o álbum Malice in Wonderland, produzido por Martin Birch, lançado em fevereiro de 1977. Um disco que partiu do ponto em que o Deep Purple chegou em Come Taste the Band e foi além nas influências extra rock (jazz, funk, soul e blues). Estou certo que este seria o disco dos sonhos de Glenn Hughes.

O groove feito no teclado de “Ghost Story” abre o disco e é um bom resumo do que o álbum como um todo traz. Já no meio da faixa somos introduzidos à toda mistura e influencias de estilos citadas acima com a inclusão de naipe de metais e backing vocals que eleva o clima da música, fazendo a gente lembrar do Chicago. Em seguida a faixa mais aclamada do disco, “Remember the Good Times” em que os backing vocals femininos aparecem muito e dão um charme todo especial à música. Falei do naipe de metais e backing vocals e aproveito para falar que além dos cinco integrantes da banda, participam do disco mais seis músicos, sendo duas cantoras e quatro instrumentistas. Uma das faixas preferidas é “Dance With Me Baby” que tem em seu ponto alto solos de sax e trompetes que fazem uma espécie de duelo.

Abria o lado B do LP “On the Road Again, Again” que tem o melhor solo de guitarra do disco. O clima fica um pouco mais pesado com a densa e lenta “I’m Gonna Stop Drinking”. Para fechar o disco a faixa título que abre com várias camadas de teclados e guitarra. Talvez a faixa que mais se aproxime o som da banda com o que o Deep Purple fazia.

O início de tudo

A banda apareceu em um daqueles especiais da BBC que saiu em disco e, mais recentemente, em DVD. Porém, em um show, Tony Ashton caiu do palco e quebrou a perna fazendo com que a banda ficasse na geladeira por um tempo. Sem obrigações, Jon Lord e Bernie Marsden se juntaram à David Coverdale para formar o Whitesnake, sendo seguidos por Ian Paice pouco tempo depois. A ideia de se gravar um segundo álbum já era presente, mas o sucesso radiofônico do Whitesnake e todos os compromissos que isso gerou acabou atrapalhando e pôs um fim na continuidade do grupo. No relançamento de 2001 do disco, pelo selo do próprio Deep Purple, foram incluídas oito faixas bônus que estavam preparadas para entrar no segundo disco. Vale a pena, para quem ainda não tem o álbum, buscar essa edição. Para quem se interessou em ouvir esse disco sugiro também que procure o First of the Big Bands já citado aqui, pois ele funciona como uma bela preparação para o que se tem em Malice in Wonderland, além do álbum solo de Jon Lord, Before I Forget (1982) em que ele traz quase todo mundo de volta para tocarem juntos de novo.

1 comentário

  1. Mairon

    Curiosamente estava ouvindo o PAL esse fim de semana, no relançamento de bônus com as faixas do “segundo CD”, que é o relançamento da Purple records. Tinham muito potencial no segundo disco, uma pena que não levaram adiante. Se bem que daí veio o Whitesnake né … E sobre o relançamento, tem um outro, da Repetoire, que traz uma versão de 10 minutos para Ballad Of Mr. Giver, e é bem legal. Mas o da Purple vale mais por conta das liner notes, que contam em detalhes a história do PAL.

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