Por Fernando Bueno

Wagner Xavier é um cara de atitude. Colecionador desde a adolescência, possui uma quantidade enorme de discos – apesar de dizer que é seletivo – que faz todo mundo babar semanalmente nos videos de seu canal de Youtube. Quando buscou livros sobre aqueles discos que ele se interessava e não os encontrou o que ele fez? Escreveu ele mesmo aquilo que estava procurando. O resultado são os dois volumes do Rock Raro: O Maravilho e Desconhecido Mundo do Rock. Aqui mesmo na Consultoria do Rock já fizemos uma edição da nossa sessão Ouve Isso Aí baseados em alguns discos que estão no livro (cliquei aqui para ler). Já fica aqui de antemão para o leitor a indicação tanto do canal (clique aqui), quanto dos livros (como adquirí-los ele mesmo diz ao longo da entrevista).


Olá Wagner, tudo bem? Obrigado por aceitar compartilhar seu amor pela música conosco. Primeiramente se apresente aos leitores da Consultoria do Rock.

Meu nome é Wagner Xavier, sou de SP, trabalho com tecnologia da informação desde muito jovem, sou casado com Eliane, sou pai de um casal de filhos, a Vitoria e o Vicente e sou apaixonado por música e discos desde que conheci o álbum A Night to the Opera do Queen quando tinha cerca de 10 anos de idade. Foi um impacto e tanto para mim.

Qual foi seu primeiro contato com a música? Alguma pessoa em especial o ajudou a guiá-lo por esse caminho?

Primeiro meu pai que já tinha uns discos lá nos anos 70 e me lembro de dançar ao som de Creedence, Beatles, Roberto Carlos e Os Incríveis. Também alguns amigos e primos mais velhos que gostavam de rock e eu pegava carona nas domingueiras.

Pode nos contar sobre o seu primeiro disco? Qual foi? Como o adquiriu? E você o tem ainda até hoje?

Sim, na verdade me lembro de dois. Deep Purple, Made In Europe que fiquei louco quando comprei e um do Raul Seixas, chamado O Segredo do Universo, que comprei com o dinheiro que minha mãe me deu para comprar algo que não lembro mais, mas não era um disco com certeza. Só me lembro da bronca que tomei para comprar o disco sem ela saber. Foi tenso. Só tenho o Deep Purple hoje em dia.

Em que momento você percebeu que estava se tornando mais do que um amante da música, mas também um amante dos discos?

Acho que quando comecei a trabalhar e estava sempre indo em lojas de discos e ficando horas namorando aquelas maravilhas. Isto eu devia ter uns 17, 18 anos de idade.

Quais são os números atuais da sua coleção?

Sabe que me preocupo muito mais da qualidade do que quantidade, agora estou bem mais seletivo quanto ao meu gosto pessoal e ao estado de conservação. Ao todo devo ter por volta de 9.000 títulos entre LPs e CDs. Já fiz algumas limpas, tenho aquilo que gosto e que pretendo ouvir ainda um dia.

Você tem alguma banda que guia seu foco pelo colecionismo? E seria essa banda a que você mais tem discos?

Tenho algumas coleções inteiras, mas sou bem diversificado. O que mais tenho são os clássicos: Deep Purple, Rolling Stones, Beatles, Neil Young, Bob Dylan e outros.

Como sua família lida com essa sua paixão por discos? Afinal ela demanda espaço, dedicação, cuidados e, principalmente, muito tempo para ouvir. Alguém da família também aproveita essa coleção?

Super de boa, tenho um bom espaço para guardar e os filhos gostam sim, principalmente os discos de MPB que também gosto muito.

A busca por discos, principalmente os raros, deve ter gerado muitas histórias curiosas ou engraçadas. Pode nos contar algumas delas?

Nossa, tem tantas. Me lembro por exemplo de comprar álbuns fantásticos de rock dos anos 70 em pleno Pelourinho em 31/12, na casa de um colecionador. Minha esposa ficou mais de 3 horas me procurando achando que havia sido raptado. Ou em New Orleans, quando derrubei várias pilhas de discos e quase apanhei da dona, uma velhinha super simpática. Enfim, tem muitas pois as viagens são sempre para este objetivo principal.

Qual foi a maior loucura que você fez para conseguir um disco? E alguma pechincha inacreditável? Tem algum disco que você procura desesperadamente?

Loucura nunca cheguei a fazer, compro dentro daquilo que acho justo e que eu faça questão de ter na coleção. Pechinchas foram muitas, basicamente em viagens para fora onde comprei centenas de discos baratos. Por exemplo, me lembro de em 2001 comprar mais de 180 discos nos USA na média de 5 US$ cada, esta época o vinil estava em baixa e os preços estavam super baixos. O problema é sempre trazer em diversas malas.

Sei que é difícil falar de um item favorito ou especial, mas você consegue elencar algum, ou mesmo alguns, dessa enorme coleção?

Caramba, que pergunta difícil. Basicamente gosto de quase tudo que tenho, mas vou aqui elencar pelo menos uns 10 clássicos que me ocorrem agora. Astral Weeks do Van Morrison, Forever Changes do Love, In Rock do Deep Purple, Blood on the Tracks do Bob Dylan, Let it Bleed dos Stones, Everybody Knows to Nowhere do Neil Young, Abbey Road dos Beatles, Who’s Next do Who, Led II do Led e Selling England by the Pound do Genesis.  Mas tem milhares de outros que amo de paixão.

Todo colecionador tem alguma mania, seja na organização, na separação e até mesmo no modo como se organiza para ouvir música. Pode nos falar suas particularidades em relação à isso?

Basicamente separo em ordem alfabética Tenho sessões especiais para rock italiano, rock alemão, coletâneas e rock latino. Também tenho espaço reservado para os box set, que tenho muitos.

Certamente você conseguiu muitos de seus discos em compras no exterior. Quais locais já esteve in loco, como foram essas experiências? Pagou muito excesso de bagagem nessas oportunidades?

Nunca paguei excesso, sempre dei uma equilibrada nas malas e pesos os critérios de peso para não dar problema. Te digo que no Brasil, principalmente São Paulo tem muitos lugares legais para comprar como nas Galeria do Rock, Praça Benedito Calixto, entre outros. E de fora, sim, fiz várias viagens. Comprei muita coisa na Amoeba de São Francisco e Los Angeles, uma loucura de loja. Também estive em muitas lojas dos EUA que são bem boas e tem muita coisa dos anos 70 com preços ótimos. Em Paris, Londres e Sevilha também encontrei coisas fantásticas, em Barcelona tem a Wah-Wah Records, uma verdadeira coisa de maluco. Quase quebrei por lá, rs. Outros lugares que trouxe muita coisa foi Santiago.

Vamos falar um pouco dos dois volumes do livro que você escreveu. Primeiramente parabéns pelo resultado e falo isso como alguém que deixa os livros sempre a mão em caso de não saber o que ouvir. Como surgiu essa ideia, como se organizou para que um tema tão abrangente não fugisse do controle e como foi o processo de escrita?

Obrigado pelas palavras. Na verdade, procurei escrever um livro que eu tinha vontade de comprar. Como sempre procurei algo assim, com textos e fotos de raridades e não achei, resolvi então que poderia fazê-los. Basicamente escrevia um texto por dia, sempre ouvindo o disco algumas vezes. Isto realmente não foi difícil, precisa apenas de alguma organização e vontade de fazer.

 

Uma das coisas que talvez tenha sido mais difícil foi o fato de conseguir definir o que é ou não raro. Claro que não encontramos discos de medalhões, ou até mesmo bandas do segundo escalão do rock, então você deve ter criado um critério próprio. Pode nos falar um pouco sobre isso?

Basicamente coloquei como raro aquilo que não tenha sido discos que ficaram nas paradas da época, e que, de alguma forma não tinham na época tanta exposição da mídia e público. Confesso que não me preocupei muito com isto, apenas fui separando aquilo que achava mais raro e que agradava em relação ao som.

Você também mantém um canal em que apresenta discos, não só dos que apareceram nos livros, mas com diversos temas sempre muito interessantes. Uma das coisas que mais me chamam atenção é onde você conseguiu os discos e como eles parecem sempre super zerados. É de encher os olhos! A curiosidade é: você costuma trocar edições antigas por novas ou por edições mais caprichadas?

Sim sempre procuro por edições conservadas. Isto é bem difícil, e já troquei muitas edições sim. Gosto demais dos originais, mas desde que estejam intactos. Sobre as reedições, quando não tem opção eu compro também, sem problema. Capas desgastadas ou discos riscados eu não mantenho, pois o som não é legal e ainda compromete o equipamento.

Sei que você utilizou imagens dos próprios discos para ilustrar o livro, mas naquele seu critério de escolha dos que entrariam, você escolheu somente algo que já estava na coleção ou correu atrás de alguns para só então eles entrarem no livro.

Não me lembro de ter comprado por conta do livro. Acho que foram somente os que realmente tinha na coleção, isto foi um critério desde o início.

Só essa informação já é impressionante, pois não me vejo separando 800 discos da minha coleção pessoal para fazer isso. Mas o contrário também interessa. Algum disco ficou de fora por que você não conseguiu encontrá-lo e incorporá-lo na coleção?

Não que que me lembre. O que aconteceu é que desde o lançamento dos livros já adquiri um bocado para fazer um novo livro rs.

Imagino que esse seu trabalho de pesquisa e curadoria deva ter chamado atenção de mais pessoas. Teve algum contato de fora do país ou algum feedback de alguma banda sobre a inclusão de algum dos discos no livro?

Sim, muitos contatos. Recebi mensagens e fiz amigos em Portugal, Colombia, Israel, Argentina. Recebi inclusive os livros do Hans Pokora que me presenteou com os livros dele. Também o Denys Meyer que escreveu o Hard Rock Anthology e que para mim foi um primeiro passo nas raridades. O livro realmente abriu muitas portas, ainda que não seja algo que me dedique demais por conta da minha atividade profissional. Das bandas sim, fiquei amigo virtual do Danny Shoshan, vocalista do Jericho, inclusive ele me enviou fotos, CDs de outras bandas dele e também do baterista do Moby Dick, grupo italiano.

A sua abordagem é basicamente de material lançado no fim dos anos 60 até os anos 70, com pouquíssimas adições de algo dos anos 80. Podemos dizer então que essa é sua fase preferida da música?

Sim, é a fase que mais gosto, mas ouço e tenho discos de todas as épocas e vários estilos.

Com base na última pergunta gostaria de saber o que mais te interessa nas décadas de 80, 90 e agora das duas décadas de 2000. Consegue nos falar do que mais chamou a atenção em cada uma delas e você acha que a qualidade musical realmente caiu ao longo dos anos?

Adoro o som dos anos 80, foi quando era adolescente e conheci o heavy metal inglês como Iron Maiden, Judas, Saxon, entre outros, depois também passei a curtir muito grupos ingleses como Cure, Echo and Bunnymen, Smiths, Jesus and Mary Chain que também me agradam muito. Como pode ver som bem eclético. Também gosto muito de grupos como Uncle Tupelo, Nick Cave, Waterboys, Pogues entre outros. Dos anos 90, também passei pela fase de Seattle, principalmente Meat Puppets, Mother Love Bone, Nirvana e Alice in Chains e depois british pop de Oasis e Stones Roses.  Nos anos 2000 gosto muito de bandas folk, estilo que aprecio demais. Acho que hoje tem muita coisa legal, mas virou tudo muito independente e fora do mainstream, o que é bem legal, mas a gente precisa ficar atento para não perder grandes grupos. O problema todo é o tempo de ouvir tudo e focar naquilo que a gente gosta.

Se tiver que citar somente três discos que tenham mudado sua vida, quais seriam eles e por que?

Pergunta complexa, mas vamos lá: Acho que Rubber Soul dos Beatles, Made in Japan do Purple e Krig Ha Bandolo do Raul Seixas. Me lembro bem de ficar vidrados neles em alguma fase da vida.

Difícil pedir indicações de discos para você, pois você já fez um trabalho que serve à esse propósito perfeitamente, então queria mudar um pouco o enfoque. Cite uma banda atual que você acha que pode agradar os fãs e cite uma banda que você não gostou num primeiro momento e agora adora.

Uma banda atual que gosto de várias coisas, vou citar 2 que curto muito que são Joe Bonamassa que está aí faz tempo e é um craque, uma obra incrível e também o Gary Clark Jr que é um artista sensacional.  Também gosto muito do Greeta Van Fleet. Quem dera metade das bandas jovens fazerem um som assim tão bacana. De algum que não gostei no começo, acho que Red Hot Chilli Peppers que só fui gostar há poucos anos.

Imagem de seu canal do Youtube

Qual foi sua última aquisição?

Chegou ontem, foram o primeiro das Runaways que ainda não tinha, Wish You Were Here do Badfinger, que só tinha em CD, uma banda chilena chamada KIssing Spell e um grupo americano chamado Merkin. Ainda estou para ouvi-los.

Qual é o futuro da sua coleção? Ela vai crescer ainda mais ou você já chegou num ponto que não precisa de mais nada?

Certamente vai crescer, enquanto estiver por aqui estou atrás de discos que eu goste.

Muito obrigado por participar do Na Caverna da Consultoria. Esse espaço aqui é todo seu para deixar uma mensagem à nossos leitores.

Agradeço demais a todos vocês pela oportunidade, quando estiverem por sampa deem um alô e estamos sempre aqui a disposição. Não esqueçam de adquirir os livros Rock Raro (tem poucas cópias para vender e pode ser feito pelo contato@rockraro.com.br) e curtir o canal Rock Raro no Youtube. Um grande abraço a todos.

5 comentários

  1. André Kaminski

    Bacana a coleção, Wagner. Até fizemos um “Ouve Isso Aqui” baseado nas escolhas do seus livros.

    Abraços!

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  2. LUCIANO DOUGLAS

    como fiel seguidor do canal Rock Raro confesso que foi surpresa saber que, igual a tantos garotos, Raul Seixas foi importante em determinada época da adolescência, afinal, quem de nós nunca curtiu Don Raulzito. Parabéns à Consultoria do Rock.

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  3. Marcelo Pardin

    Parabéns à Consultoria por trazer essa entrevista com o Wagner Xavier, pessoa que já admiro muito por seu profícuo trabalho, tanto em seu canal do YouTube, quanto por essa maravilhosa contribuição cultural que são os dois volumes do Rock Raro! Long live to rock n roll and Consultoria!!

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  4. Vidal

    Parabéns Fernando Bueno pela excelente condução da entrevista, seção q mais curto colecções são sempre motivadoras, Wagner sua coleção e conhecimento são fantásticos, acompanhonseu canal tb, parabéns vc passa a imagem de ser aquelas pessoas q valem a pena um bate papo, experiência q já tivevalfumas vezes com Fernando Bueno um puta cara legal.

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