Por Ronaldo Rodrigues

Aos 16 anos de idade, Peter French já se aventurava em cantar com bandas de blues da região sul de Londres. Naquele miolo da década de 60, o blues americano era uma semente em germinação nos territórios ingleses e Peter French dava o melhor de si em pequenos grupos como The Switch e Joe Poe and Erotic Eel. Neste último, seu primo Mick Halls tocava guitarra e o grupo era baseado no Nags Head Pub, local que recebia grupos nascentes como Fleetwood Mac, Chicken Shack e Jethro Tull.

O Erotic Eel teve vida curta e em janeiro de 1968 já não existia mais. Peter e Mick começaram então a buscar novos colegas. Um dos que apareceram foi o baixista Bob Brunning, que veio com uma proposta debaixo do braço – se Peter e Mick topassem ser a banda de apoio dele, Brunning tinha um contrato engatilhado para a gravação de um álbum. A idéia parecia boa, já que além do contrato em vias de ser assinado com o selo Saga, Brunning já tinha uma experiência consistente em passagens pelo Fleetwood Mac e pelo Savoy Brown. Os dois primos toparam e o lineup se completou com Bob Hall (piano, vocais de apoio), que era membro fundador do Groundhogs e também tinha passagens pelo Savoy Brown e pela John Dummer Blues Band. O grupo então lançou o álbum Bullen St. Blues, ainda em 1968.

Brunning e Hall eram mais experientes e acomodados com o blues padrão que se fazia na época; French e Halls, por outro lado, estavam excitados com Cream e Jimi Hendrix Experience e estavam a fim mesmo de eletricidade. Ambos se mandaram do grupo, que não alcançou repercussão, e lançaram um anúncio na Melody Maker. French foi parar em um proeminente grupo chamado Black Cat Bones, que já estava na estrada desde 1965. O Black Cat Bones era uma criação dos irmãos Brook – Derek (guitarrista) e Stuart (baixista) – e teve diversas formações ao longo dos anos. Em uma delas esteve presente Paul Kossof (que depois ficaria famoso com o Free) e em outra delas, Rod Price (que depois ficaria muito famoso com o Foghat). A formação antes da entrada de French foi a que gravou o único álbum da banda, o indispensável e blueseiro Barbed Wire Sandwich, lançado em 1970.

Era início de 1970 quando French se juntou ao grupo e Price ainda estava com eles. A banda fez uma tour pela Alemanha e Price decidiu pular fora. French então indicou o primo e parceiro de outrora Mick Halls para assumir o posto. Completava o lineup dessa nova formação o baterista Keith Young. O ocaso do Black Cat Bones se tornaria o nascimento do Leaf Hound. Halls e French estavam escrevendo canções quentes e sintonizadas com Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath. Assumindo o protagonismo os dois propõem um novo batismo para o grupo, que surgiu inspirado em ficção de terror – Leaf Hound soava mais na pegada do som sujo e distorcido que a dupla buscava.

A banda tinha um agente que descolou um contrato com o renomado selo Decca para a gravação de um álbum. A banda entrou no Spot Studio, em Mayfar, a todo o vapor e em apenas 11 horas de trabalho gravou as nove faixas que integram o álbum Growers of Mushroom, uma jóia cultuada do hard rock do início dos anos 70.

 

O álbum já começa com um arrombo sonoro, a faixa “Freelance Friend”, onde Peter French mostra a voracidade de seu vocal por cima de um riff forte e marcante. Outras ótimas faixas mantém o balanço entre peso e groove como “Sad Road to the Sea”, “Drowning my Life in Fear” e a viajante “Work my Body” até o peso ser novamente despejado em “Stagnant Pool”. O alinhamento da banda ao Led Zeppelin é indiscutível, já que sua fórmula contém vocais agudos, influências fortíssimas do blues, guitarras afiadas e uma cozinha de alto quilate. Um álbum realmente indispensável para os apreciadores do contagiante rock pesado do início dos anos 70.

A banda tinha expectativa de que o lançamento acontecesse com brevidade, a tempo de ser promovido junto com uma tour organizada pela Noruega e Alemanha. Porém isso não aconteceu e frustrou todos os planos e os resultados dessa investida. Nessa clima ruim, Stuart Brooks ressentia-se de seu Black Cat Bones, deixado de lado em prol de um projeto fracassado. Os irmãos se mandaram do Leaf Hound no meio da viagem, e a banda se transformou em um quarteto com o ingresso de Ron Thomas, que ocupou o baixo. O Black Cat Bones não voltou a ativa e Stuart Brook entrou no Pretty Things, onde tocou baixo entre 71 e 74. Na Alemanha, o Leaf Hound foi bem recebido, mas nada do álbum aparecer no mercado. A falta de perspectiva minou a banda, que acabou no fim de 1970. Já na virada de 1971 o álbum foi lançado, meses após estar finalizado e com a banda inativa, em um péssimo exemplo de gerenciamento no show business.

Peter French continuou tentando a vida no meio musical – logo após o término do Leaf Hound foi fazer uma audição com a então banda de Cozy Powell, o Big Bertha. Ambos se tornaram amigos, mas a banda já estava se desfazendo na ocasião; chegaram a dividir um apartamento em Londres enquanto Powell também fazia uma série de audições, até ser descoberto por Jeff Beck. Na mesma época, French também conseguiu uma boa posição – passaria a ser o novo vocalista do Atomic Rooster, que estava em franca ascenção. Com eles, French gravou In Hearing of, álbum de boa vendagem e muito reverenciado entre os fãs do grupo até hoje. O Atomic Rooster rodou pela Europa e EUA promovendo o álbum e na América a banda abriu alguns shows para o Cactus, outra banda de enorme sucesso na ocasião.

No final de 1971, Tim Bogert e Carmine Appice convidaram French para ser o novo vocalista do Cactus, já que Rusty Day estava de partida. Como ambos eram músicos renomados e muito experientes, o convite era algo quase irrecusável para French, que também já tinha se enchido do som denso e cinzento do Atomic Rooster. Para ele, quanto mais o rock n’ roll fosse servido cru, melhor era. Também era atrativa para French a possibilidade de morar nos EUA. Tudo ia muito bem – estar no Cactus permitia a Peter French desfrutar de uma posição destacada em um grupo famoso, viajar e ser bajulado de todas as maneiras. Contudo, o convite de Jeff Beck para que Appice e Bogert se juntasse a ele em um supergrupo fez tudo desmoronar. O Cactus deixou de existir, ainda que os managers do grupo sugerissem que French tomasse as rédeas e reformasse a banda. O vocalista porém entendia que a essência da banda estava nos dois músicos que partiram. Uma tentativa de montar um supergrupo com Mitch Mitchell e Randy California também não deu em nada.

Infelizmente, a sorte nunca mais sorriu para Peter French no mundo do rock – promessas não concretizadas, projetos fracassados e até mesmo uma tentativa de um álbum solo sofreram nas mãos de empresários desinteressados e do apelo que o som que o French deixava de ter com o advento do punk rock e afins na metade da década de 70. Na década de 80 ele finalmente se dá por vencido e desiste da música para trabalhar como comerciante. Já nos anos 2000, deparou-se com uma intensa movimentação de apreciadores da obra fugaz do Leaf Hound através da internet e animou-se a empreender uma nova encarnação da banda. Em 2004, o Leaf Hound foi retomado com músicos da nova geração e lançou um álbum de inéditas resgatando aquela energia, batizado de Unleashed, além de shows que tem rolado até os dias de hoje. Hoje, Peter French também canta em uma versão com remanescentes do Atomic Rooster. Growers of Mushroom recebeu alguns bons relançamentos ao longo dos anos, mantendo o legado da banda disponível para os antigos e novos apreciadores.

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