Por Fernando Bueno

Randy Bachman é conhecido por ter participado durante a segunda metade da década de 60 do The Guess Who, banda bastante importante para o desenvolvimento do rock no Canadá. Foram os primeiros canadenses a terem singles em altas posições na Bilboard americana, mas após seu álbum de maior sucesso, American Woman (1970), Bachman, então o principal compositor tem que deixar o grupo por questões de saúde. A faixa título de American Woman voltaria às paradas décadas depois com uma versão de Lenny Kravitz que resgatou o nome do The Guess Who na época.

Randy participou de uma banda pós-The Guess Who chamada Black Belt que não emplacou, mas manteve seu nome em evidência e ajudou a tornar um amigo seu, C.F. “Fred” Turner também conhecido. Após dois discos quase sem repercussão nenhuma ele conseguiu que um executivo da Mercury Records chamado Charlie Fach ouvisse a demo do que seria o terceiro disco da banda. Porém foi aconselhado por Fach que abandonasse o nome Black Belt e tentasse recomeçar do zero. Essa demo havia sido recusada por outras gravadoras não uma, duas ou três vezes, mas tiveram quase que três dezenas de recusas. Ou seja, foi praticamente a última chance dos caras. Curioso que eles já eram artistas da Mercury Records, mas a gravadora não tinha intenção de continuar com eles.

A formação do grupo era então Randy Bachman na guitarra e voz, Fred Turner no baixo e voz, Tim Bachman na segunda guitarra e Robin Bachman na bateria. Decidiram-se pelo nome Bachman-Turner Overdrive, usando também a sigla B.T.O., e lançaram o primeiro disco autointitulado em 1973. O disco se tornou um grande sucesso nos Estados Unidos o que propiciou o lançamento de Bachman-Turner Overdrive II ainda no final do mesmo ano. Randy e Fred revezavam os vocais em algumas faixas ou até mesmo em conjunto em outras, com certa predominância desse último, porém até mesmo Tim Bachman tinha sua hora para soltar a voz. Logo depois Tim Bachman deixa o grupo e sua saída não fica muito bem explicada. Ele diz que saiu para se dedicar aos estudos de engenharia de som, enquanto seu irmão Robin disse que ele não era bom o suficiente para o grupo. Climão familiar!!!

Para substituir Tim foi chamado Blair Thornton e com ele na guitarra o B.T.O. gravou em seguida seu disco de maior sucesso Not Fragile (1974). O álbum ficou em primeiro lugar nas paradas tanto no Canadá, quanto nos Estado Unidos. No ano seguinte dois álbum são entregues Four Wheel Drive e Head On.

Freeways é o sexto disco do Bachman-Turner Overdrive e é bastante criticado por ser o álbum mais “progressivo” do grupo. Porém essa definição é um completo exagero. A banda vinha de 4 discos em que o hard rock era sua essência, daí em seu quinto disco, Head On (1975), algumas pitadas de jazz e soft music apareceram, sem descaracterizar em nada o som da banda. Quando chegou Freeways os fãs estranharam pois todas essas influencias apareceram em um grau talvez um pouco maior, daí a argumentação de que o disco tendeu para o progressivo. Pode ser um pouco mais diversificado, até por que tivemos a adição de instrumentos de sopro e cordas ao longo do disco, o que não era comum na música da banda, mas repito que essa história é pura bobagem.

Na primeira vez que eu ouvi esse disco – era a primeira vez que ouvia o BTO –, me assustei com a voz na primeira faixa “Came We All Come Together” e tive que olhar o encarte para ter certeza que não era Ozzy Osbourne quem estava cantando. Claro que com o decorrer da música essa impressão se dispersou, mas é impossível não lembrar disso toda vez que a ouço de novo. Seu andamento desacelera no refrão em que todas as vozes participam dando um clima épico, com bastante influência do country americano, muito bacana para a música. “Shotgun Rider” é uma das faixas mais legais do disco. E aqui vai uma pergunta para todos os fãs que ouviram o disco lá em 1977: é sério que vocês acharam isso “muito progressivo”? A música é um baita rock que poderia animar qualquer churrascão à beira da piscina, novamente trazendo o country, mas agora em dedilhados e levadas de guitarra.

Em “My Wheels Won’t Turn” chama atenção os instrumentos de sopros que fazem parte da melodia principal em que suas notas são tocadas em escalas mais graves e dão um peso bastante interessante para a música. A seguinte “Down Down” chegou a tocar aqui nas rádios do Brasil e pode ser que alguém tenha aquela sensação de “já ouvi isso aí” e isso pode ser verdade.

A faixa título repete a estratégia da faixa de abertura, um rockão em suas estrofes e uma desacelerada no refrão deixando a faixa mais leve. O trabalho de baixo de C.F. Turner aparece bastante. O soft rock surge também como já tinha acontecido em seu disco anterior. Não sei se foi intencional, mas “Easy Groove” tem cara de tentativa de emular alguma coisa da Bossa Nova ou algo do tipo. Seu riff principal, por sinal, se não foi sampleado, foi chupado mesmo, pela dupla Claudinho & Bochecha (quem diria que esses nomes um dia apareceriam na Consultoria do Rock??), na música mais conhecida deles “ Quero Te Encontrar”.

No geral Bachman acabou aparecendo mais em Freeways, sendo que Fred canta em apenas duas das faixas – “Life Still Goes On (I’m Lonely)” e “Frewways”. Fred se sentiu um pouco escanteado durante as gravações e quase nem quis participar da sessão de fotos para o encarte. Outro exagero! Conhecendo a história de milhares de bandas ao longo das décadas você poderia imaginar o que aconteceu depois disso: a saída de Fred Turner. Porém que acabou pedindo o boné foi mesmo Randy Bachman que estava cheio de problemas pessoais. O nome do grupo acabou ficando o mesmo pois Randy não era o único Bachman ali no line up; Robin ainda estava lá. Lançaram dois discos com uma nova formação – Fred Turner assumiu a guitarra base e Jim Clench foi incluído para tocar o baixo. Em 1984 Randy Bachman volta para a banda, gravam um álbum, Bachman-Turner Overdrive e continuam fazendo shows sem uma frequência muito grande até os dias de hoje com formações sendo trocadas toda hora. Durante o tempo que ficou fora da banda um divórcio deixou-o com sérios problemas financeiros. Ele chegou a falar o seguinte em uma entrevista: “Foram necessários quatro anos com o BTO para me tornar um milionário e quatro curtos anos para eu perder tudo e um pouco mais”.

Caso queiram tem uma visão maior do que foi a banda sugiro a coletânea de 1993 chamada The Antology, que vem com CD duplo e trinta e uma músicas, incluindo duas inéditas. É um belo resumo desse grande combo canadense.

4 comentários

  1. amyr cantusio jr

    Não é só voce não amigo!!São nossos tempos de mediocridade/ostracismo/boçalidade /indiferença à arte e cultura!!
    The Guess Who e B.T.O. são clássicos imperdíveis!!
    abs!!

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    • Daniel

      Eu gosto desse também. Meu favorito é mesmo o Not Fragile, mas esse Freeways é bem legal.

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  2. Diego S. A.

    O nome correto da banda anterior ao BTO é Brave Belt, e não Black Belt como mencionado no texto hehehe Bom, curto demais os dois trabalhos do Brave Belt, o primeiro é mais voltado para o Country e Blues, já o segundo é uma porrada certeira, curto muito ambos. Esse trabalho do BTO da matéria, pra mim é o mais fraco da fase áurea do grupo, porem fraco no sentido de não ser tão excelente quanto os demais, mesmo assim ainda o considero um grande álbum. O BTO é uma das minhas cinco bandas favoritas de Rock, então sou suspeito pra falar deles, principalmente durante a década de 70, curto muito todos os trabalhos, BTO é banda de cabeceira.

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    • Fernando Bueno

      Diego…vc está certo no seu comentário. Confiei na minha memória e nem na revisão notei que escrevi o nome da banda errado. Vou até ajustar direto no texto. Obrigado pela ajuda e, pelo seu comentário, noto que o título do texto é, no geral, adequado. Para falar a verdade só o Not Fragile fica acima desse no meu gosto pessoal.

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