Por Davi Pascale

Existe muita gente que só gosta da fase Max Cavalera. Existe gente que só gosta da fase Jairo Guedes. Existe quem prefira a fase Derrick Green, mas todos são unanimes em um ponto: quando se pensa em heavy metal brasileiro, o primeiro nome que surge na mente é… Sepultura!

Hoje, diante de todo o prestígio que conseguiram, parece até loucura afirmar isso, mas os caras passaram por diversos perrengues até chegar onde chegaram. Todas as dificuldades que um artista inicial passa, os caras passaram. Inclusive, a clássica situação de ser destratado pela equipe da banda com quem está dividindo o palco. Por que estou comentando isso? Porque esse registro é exatamente sobre esse tempo.

Beneath the Remains é o ponto de virada. Foi o primeiro trabalho lançado com a Roadrunner. Foi o álbum que abriu as portas para o mercado exterior.  As gravações, no entanto, ocorreram no Brasil. Mais precisamente no Nas Nuvens (Rio de Janeiro), estúdio de ponta, utilizado pelos grandes nomes da música pop e da MPB brasileira. A gravadora, embora tenha disponibilizado uma quantia pequena para as gravações (8 mil dólares), teve a feliz sacada de trazer um produtor de fora, alguém que soubesse tirar o som adequado para uma banda como o Sepultura. Naquela época, o heavy metal engatinhava no Brasil, tudo ainda era muito novo por aqui. O escolhido foi Scott Burns.

No livro Sepultura, a História, Scott comenta: “fui contratado porque aceitei trabalhar quase de graça. A Roadrunner havia convidado vários produtores,  mas ninguém aceitou, porque não toparam trabalhar por tão pouco ou porque não gostaram da banda. Meu salário foi de 2 mil dólares”.

Embora tenha feito um ótimo trabalho com os garotos, as impressões iniciais não foram das melhores. Scott ficou revoltado quando teve suas roupas e seu gravador roubados do seu quarto de hotel, logo nos primeiros dias. Os meninos broxaram com o visual do produtor, quando este chegou ao país. “Quando fomos buscar Scott no aeroporto, estávamos esperando um profissional americano, mas ele chegou de short e sandálias. Pensamos: ‘Esse é o cara errado. Não pode ser ele’. Perguntamos: ‘Você é Scott Burns?’ Ele respondeu: ‘Sim, estou aqui para gravar o álbum com vocês’. Pensamos: ‘Caralho, esse cara parece um turista’, recorda Max Cavalera em sua auto-biografia My Bloody Roots.

Embora tenha tido algumas excentricidades, como pedir para retirar do estúdio o quadro onde Caetano Veloso e Gilberto Gil apareciam dando um selinho, o rapaz mostrou que sabia o que estava fazendo. Quando foram gravar as guitarras, por exemplo, Scott comentou que a sala, embora contasse com boa aparelhagem, não tinha ambientação para uma gravação de rock. Perdeu um bom tempo mudando os equipamentos de lugares, até conseguir a reverberação adequada.

As gravações ocorriam no período da noite. Os garotos dormiam de dia e gravavam de madrugada, De dia, a sala estava reservada para as gravações da banda Taffo. Embora contassem com um baixo orçamento e tempo escasso, os músicos fizeram bonito. Beneath the Remains é hoje um marco dentro do thrash metal. E não me refiro apenas ao brasileiro.

Quando saíram em turnê com o Sodom, o Sepultura começou a dar o que falar. Em alguns lugares, os jornalistas e parte da plateia preferiram a apresentação da banda brasileira aos alemães. Iggor Cavalera, em depoimento ao livro Sepultura: Toda a História, afirma: “Nós estávamos tendo uma aceitação melhor que o Sodom. Na Alemanha eles foram bem, mas daí pintaram dois shows que acabaram com eles: um na Inglaterra, outro na França”.

Não preciso nem dizer que os caras do Sodom ficaram putos e começaram a ferrar o Sepultura. “O único problema naquela turnê foi o empresário do Sodom, que não foi com a nossa cara desde o início. Ele cortava nossa luz pela metade e diminuía o volume do nosso som. Chegava até mesmo a ficar parado diante de nós quando tocávamos, o que era bem estranho. Certa vez, nos disse: ‘Se continuarem a tocar bem, vou tirar as luzes de vocês até ficarem no escuro”, relembra Max.

E é claro que a galera do Sepultura resolveu sacanear o cara. Ao sacarem que era meio maníaco com lance de limpeza, descobriram como ferrá-lo. Decidiram que nenhum deles tomaria banho até o fim da turnê. Iggor chegou, inclusive, a urinar em cima da mala do tal produtor.  A guerra estava lançada.

A gravação que a Rhino resgata é justamente dessa turnê. Para ser mais exato, trata-se da apresentação em Waldseehalle, Forst, na Alemanha em 21 de Setembro de 1989. Justamente por serem um numero de abertura, não precisa nem falar que o set era curto. O LP apresenta 8 faixas apenas. São 5 sons do álbum que estavam lançando, 1 de Schizophrenia, 1 do Morbid Visions e 1 cover do Dead Kennedys.

O material saiu da coleção de cassetes de Monte Conner, diretor artístico da Roadrunner. Na capa, vem um adesivo com os dizeres: official bootleg. Para quem não está por dentro, official bootleg é um termo utilizado para um lançamento oficial do artista, mas com o mesmo tratamento de um bootleg. Ou seja, tratamento zero. Sem nenhum tipo de overdubs, sem nenhum tipo de retoques, a gravação nua e crua.

A apresentação é destruidora. O show começa com “Primitive Future”. Porrada simples e pura. O som da bateria está bem na cara, o vocal também.  Uma das guitarras está bem alta, a outra extremamente baixa. O contrabaixo tem horas que ouvimos com clareza e horas que desaparece. O primeiro momento em que o ouvimos com perfeição é no solo de “Inner Self”, onde é possível notar um Paulo Jr um tanto inseguro.

“Escape To The Void” do álbum Schizophrenia vem na sequencia e deixa claro a mudança que o Andreas Kisser causou na sonoridade da banda à época, apresentando solos mais elaborados do que os do Jairo. A banda soava com bastante energia. É nítido que não deixaram as tretas de bastidor prejudicar a performance. “We are Sepultura from Brazil and we came here to play for you”, anuncia Max Cavalera antes de mandarem “Sarcastic Existence”.

O Sepultura dessa época é bem diferente do Sepultura que a garotada de hoje conhece e bem diferente dos últimos trabalhos que o Max fez com os rapazes. Não tinha ainda aquele lance de misturar percussão, sonoridade brasileira. Era thrash metal simples e puro. Algumas passagens meio Metallica anos 80, mas na maior parte do tempo ainda mais brutal. Bateria veloz,  riffs cadenciados, forte referência de Slayer, um som mais direto. Virei fã deles na época do Arise, então tenho um puta carinho por essa fase.

O lado B inicia com “Lobotomy”, onde Iggor se destaca com um trabalho de bateria mortal, com direito inclusive à quebradas de tempo. Andreas também arrebenta no solo. Sem dúvidas, eram os 2 melhores músicos dessa formação. “Troops of Doom” vem na sequencia. Nunca fui muito fã da fase Jairo Guedes, sempre preferi a banda a partir de Schizophrenia, com o som mais trabalhado, mais pendendo para o thrash, mas não tem como negar que esse som é um clássico. Se bem que essa música, o arranjo já era mais trabalhado.

Nessa época, a banda tinha o costume de mandar um cover no fim do set. A escolhida dessa noite foi “Holiday In Cambodia”, provavelmente a mais famosa do Dead Kennedys. Na introdução temos, mais uma vez, o som do baixo de Paulo Junior bem alto. Mais uma vez, acertando as notas, mas demonstrando uma certa insegurança. Preferia ter ouvido “Mass Hypnosis” à ela, mas não deixa de ser curioso. O set fecha com “Beneath The Remains”, outro classicão.

A qualidade de gravação é muita boa para o padrão. Como assim? Essa gravação é de 1989, o áudio foi extraído de uma fita cassete e não houve aperfeiçoamento no estúdio. Ou seja, você não vai ter aquele som extremamente encorpado, com os volumes dos instrumentos perfeito, sem deslizes. É o inverso, mas ainda assim possui uma boa qualidade. Dá para ouvir todos os instrumentos, não tem chiado e é aquela história, trata-se de um registro histórico. É um documento de quando uma das maiores bandas do Brasil deixou de ser uma promessa e se tornou, de fato, um nome de prestígio dentro e fora do país.

O investimento desse disco não é muito baixo. Trata-se de um LP simples e aqui, no Brasil, está sendo vendido entre R$250 e R$320 reais (sim, o disco é importado). No entanto, quem é muito fã, dê um jeito de comprar. Trata-se de uma edição limitada, o disco é super bonito (Lp vermelho) e a tendência desse produto é que o preço suba cada vez mais com o passar dos anos. Afinal, é meio que um ítem de colecionador. Portanto, se você for muito fã, não marque bobeira. Como não sou bobo, aproveitei o fim de ano e pedi ele de Natal, mas ainda dá para encontrar de boa. Ataque no ultimo volume e boa diversão.

Faixas:

Lado A:

  • Primitive Future
  • Inner Self
  • Escape To The Void
  • Sarcastic Existence

Lado B:

  • Lobotomy
  • Troops of Doom
  • Holiday In Cambodia
  • Beneath The Remains

12 comentários

  1. Mairon

    ” Existe gente que só gosta da fase Jairo Guedes” – Esse sou eu, apesar de também apreciar o Arise e o Beneath the Remains. Os discos com Jairo T são os clássicos

    E a primeira banda de Metal brasileira que sempre me vem à mente não é o Sepultura, e sim o Viper. Mas acho que sou realmente minoria.

    Quanto ao disco, fiquei curioso de ouvir Davi. A qualidade de gravação é boa mesmo? Nada abafado? E outra, só saiu em vinil?

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    • Davi Pascale

      Oi Mairon,

      Bacana… Gosto muito do Viper também. Inclusive, o Felipe Machado é brother meu. O que quis dizer, contudo, é que eles são a banda mais popular da cena brasileira. Tudo bem que o Krisiun está crescendo, o Nervosa está crescendo, o Angra tem uma grande popularidade, mas o Sepultura acho que ainda é a unica banda de heavy metal brasileira que até quem não é da cena sabe que a banda existe.

      Quanto ao som, eu gostei. Foi bem melhor do que eu esperava. Claro, não dá para comparar com os official bootlegs de hoje, que os caras gravam direto da mesa de som, com tecnologia de ponta e tal, mas não achei o som abafado, não. Achei que falta um pouquinho de grave, mas isso é normal nesse tipo de lançamento.

      Até onde eu saiba, só saiu em vinil. Nunca vi CD disso. O LP é importado, prensado pela Rhino.

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    • Anônimo

      Compartilho da mesma opinião sua Mairon. Eu também sempre achei o ep Bestial Devastation e o álbum Morbid Visions muito melhores do que o material que eles lançariam depois. Apesar de curtir muito o Schizophrenia também, já que muitas músicas do álbum foram compostas ainda com o Jairo Guedes na banda. Entre o Beneath e o Arise, sou mais o segundo. A produção é infinitamente melhor e os riffs do Max são incríveis no Arise, sobretudo Dead Embryonic Cells.

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      • davipascale

        “Dead Embryonic Cells” é um puta som. Perdi as contas de quantas vezes assisti o clipe dessa música…

  2. Anônimo

    O Sepultura foi muito bom até o Chaos A.D., depois eles perderam a mão legal e botaram tudo a perder, sobretudo por culpa de um pouco do egocentrismo do Andreas que nunca deu o braço a torcer de que a fase antiga da banda era melhor. E fora que com a saída do Max todo aquele peso que a banda tinha foi embora, e somado também ao fato do Andreas não ser um bom riffmaker. Como já disseram uma vez, a melhor coisa que o Sepultura teria feito após a saída do Max, teria sido mudar o nome da banda para preservar o passado glorioso dessa grande banda. Mas o nome Sepultura é muito forte, e os caras precisam viver. Enquanto o Iggor ainda estava na banda tudo bem, porque ele criou a banda junto com o irmão, mas depois que ele saiu era praticamente ridículo o Andreas continuar usando o nome de uma banda da qual ele não criou. Pelo menos é a minha opinião, não estou dizendo que eu estou certo. Quem discordar, fique a vontade.

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    • davipascale

      O Paulo Jr está desde o começo. O Andreas e o Derrick se tornaram nomes fortes. O que ferrou com a banda não foi o Andreas. Foi a saída do Max. Os caras se ferraram na época. Sem empresário, sem gravadora, sem cantor. A gravadora não apoiou a escolha do Derrick. Foi difícil pros caras também. Assiste o documentário do Sepultura. Eles explicam bem esse período de transição. Tem na Netflix.

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  3. Anônimo

    Gosto é gosto, porém sempre achei um pouco de arrogância do Andreas desmerecer os discos do Sepultura com o Jairo na guitarra. Ele sempre costuma dizer que eram discos ruins, mal tocados e mal gravados. Podiam ser mas soavam mais honestos do que aquilo tudo que ele gravou com a banda desde o horrendo Against, o primeiro álbum com o Derrick nos vocais. E outra coisa, o Andreas e o Max deveriam deixar de infantilidade e fazerem alguns shows especiais tocando só o material clássico da banda. O Max podia aproveitar inclusive e fazer as pazes com o João Gordo. Seria lindo de ver tudo isso! Mas não custa nada sonhar!

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    • davipascale

      Também gosto mais da fase do Max, mas gosto bastante do Andreas. Puta cara bacana e um ótimo músico. Esse lance do Jairo é questão de gosto. E os discos realmente eram mal gravados. Não apenas os primeiros do Sepultura, mas uma boa parte dos discos de metal da época. O orçamento era baixo e a galera de estúdio não tinha muito conhecimento de como gravar álbum de heavy metal no Brasil. Poucos discos eram bem gravados. Infelizmente…

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      • Anônimo

        E mesmo com produções toscas, foram gravados discos excelentes naquela época como o “Silêncio Fúnebre” do Armagedom, Harppia “A Ferro e Fogo”, o disco de estréia do Golpe de Estado. E não podemos esquecer da produção tosquérrima do Crucificados pelo Sistema do Ratos de Porão, mas essencial.

  4. Micael

    Ano passado perdi de comprar esse disco relativamente barato por não saber do que se tratava! Baita arrependimento! Agora, esta pelos olhos da cara no Mercado Livre! Mas, mesmo assim, seu texto me incentivou a tentar conseguir, Davi! Valeu pela dica!

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