Por André Kaminski

Dentre os inúmeros subgêneros do heavy metal, o thrash talvez seja aquele que menos agrega influências diferentes em relação as bandas que se propõem a tocá-lo. Há mistura de tudo quando se fala de heavy metal mas o thrash é talvez aquele que seja o “porto seguro” dos que querem nada mais do que ouvir um som pesado sem muitas firulas. Porém, mesmo esse estilo têm lá suas bandas que desejam sair do “mesmo de sempre” e fazer suas diferentes influências refletirem em sua sonoridade.

Esse é o caso dos canadenses do Voivod. Vindos de Quebéc, os caras estão aí desde o começo dos anos 80 a lançarem discos, inclusive com o seu mais novo The Wake [2018] que saiu há poucos dias.  Eles são mais conhecidos como “a banda que o Jason Newsted se juntou após chutar o pau da barraca no Metallica”. Todavia, o que eu queria mesmo é falar um pouco mais sobre o quarto trabalho deles, intitulado Dimension Hatröss, em que há exatas três décadas já misturava a velocidade e fúria do thrash a elementos progressivos. São chamados por uns até de “technical thrash metal” por isso. Podemos ver neste disco que de fato, Snake (vocais), o falecido Piggy (guitarras), Blacky (baixo) e Away (bateria) começaram a incluir elementos mais futuristas dando um ar meio sintetizado em alguns momentos de suas canções. Isso gerou um álbum que é bastante apreciado pela turma “cult” do thrash, com muitas avaliações positivas de ouvintes que pesquisei internet afora. Em pouco mais de 40 minutos, somos bombardeados com guitarras pesadas misturadas com uma certa influência espacial. Mesmo as letras refletem esse tom de sci-fi, junto aos tradicionais temas de protesto e críticas sociais.

Inicio destacando a longa introdução já espacial de “Experiment” seguida de riffs pesados e os vocais de Snake. Confesso que os vocais de Snake estão longe de me agradarem neste disco, soando limpo demais como um adolescente ainda em puberdade.  Entretanto, como eu nunca fui lá tão fissurado por vocais, preferindo muito mais o instrumental, eles passam sem problemas. O que me impressiona mesmo é a bateria de Away. O cara é um monstro nas baquetas. Batidas furiosas intercaladas com momentos de grande técnica fariam muitos que amam o instrumento se arregalarem por aqui. De longe, é o melhor integrante do Voivod.

Acima: Blacky (baixo) e Away (bateria). Abaixo: Piggy (guitarra) e Snake (vocais) Credit: Ebet Roberts / Redferns
Agency: Redferns

 “Tribal Convictions” dá ainda mais destaque a Away e sua bateria incrível. A produção também o ajudou bastante. A bateria soa forte e imponente, ao contrário das guitarras um pouco mais tímidas. A velocidade da canção impressiona principalmente durante o solo de guitarra. Esta aliás, apresenta até um pouco de efeito reverb bem legal no terço final da canção. “Chaosmöngers” é mais um thrash mais veloz no início, ao estilo dos primeiros discos da banda, quando esta ainda tocava muito mais no velho estilo speed metal. Ainda assim, da metade para o final é curioso como Piggy escolhe riffs bem exóticos e monta uma parede sonora muito fora do comum, lembrando muito o que as bandas de prog metal fariam na década seguinte.

“Technocratic Manipulators” novamente inicia speed e depois passa por uma metamorfose de riffs diferentes, quase como se pegasse uma banda prog metal como o Symphony X e os acelerassem. “Macrosolutions To Megaproblems” me lembra algo que eu já tenha ouvido dos suíços do Coroner. Com momentos até de “paradinha” do baixo e da bateria, temos mais uma faixa que varia do thrash tradicional a momentos de quebra rítmica que lembra o que o Dream Theater faria muito alguns anos depois. “Brain Scan” é a mais sintética das canções, com Snake cantando em alguns momentos com efeitos eletrônicos em seus vocais e um instrumental com alguns momentos um tanto quanto “robóticos/espaciais”. “Psychic Vacuum” é a única música inferior, que parece uma maçaroca instrumental da qual não curti. Acho que viajaram demais nessa canção. O bom é que a banda finaliza com a ótima “Cosmic Drama”, última canção do álbum, que lembra muito os melhores momentos do Megadeth misturado com uma pitada de King Crimson. Há ainda a faixa bônus que nada mais é do que a canção tema do Batman mais pesada. Bobeirinha que não faz falta no tracklist.

O Voivod continua na ativa, mas além da morte do Piggy em 2005 por câncer de cólon, o baixista Blacky também deixou a banda por duas vezes (uma em 1991 para retornar em 2008 e depois saiu de novo em 2014) devido a discordâncias quanto ao gerenciamento da banda. Snake e Away são os integrantes originais que ainda persistem. Apesar de ser uma das bandas de metal mais conhecidas do Canadá, é fato que o  Voivod ainda tem a pecha de ser uma banda da “Série B” do estilo. Mesmo assim, é um disco e uma banda que vale a pena ser conhecido. Não é para a turma mais tradicionalista do estilo, mas se você curte algumas experimentações em um estilo como o thrash, os recomendo fortemente.

Tracklist

  1. Experiment
  2. Tribal Convictions
  3. Chaosmöngers
  4. Technocratic Manipulators
  5. Macrosolutions To Megaproblems
  6. Brain Scan
  7. Psychic Vacuum
  8. Cosmic Drama
  9. Batman Theme (bonus)

Away (bateria), Blacky (baixo), Piggy (guitarra) e Snake (vocais).

1 comentário

  1. Adriano Martins

    Esse disco é maravilhoso…
    o trabalho de baixo do Blacky também é muito consistente.
    Se não me engano, a temática do álbum trata de uma viagem a um universo paralelo, onde o Voivod trava contato e conhecimento com o desconhecido … grande trabalho dessa banda fantástica…
    Tribal Convictions é o clássico, uma das melhores faixas thrash de todos os tempos.
    A maioria da crítica prefere o posterior, Nothingface, mas Dimension é muito melhor, na minha humilde e sincera opinião.
    Ainda conservo este vinil importado, adquirido na historica Woodstock Discos no Vale do Anhangabaú…

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