Por André Kaminski

Participações de Alisson Caetano e Mairon Machado

O The Enid foi formado em 1973 por Robert John Godfrey, após este sair do Barclay James Harvest por motivos um tanto nebulosos. Robert é o cabeça do grupo e apesar de funcionar como uma banda, está mais para um projeto solo dele. Sundialer [1995] é em sua maioria instrumental, com algumas pouquíssimas passagens vocais. A ideia nos anos 70 era fazer rock com muita sinfonia, que foi mudando aos poucos com o passar dos anos. Nos anos 90, época desse álbum, Robert inclui até mesmo uma certa batida “dance” de forma a deixar a sonoridade do The Enid um pouco mais palatável ao público. Robert deixou a banda em 2014 devido a um diagnóstico de Alzheimer e esta continuou fazendo shows mesmo sem seu principal líder. Porém, ele voltou no início deste ano depois de mais uma ressonância magnética em que desta vez, nada acusou em relação a doença. Logo, o The Enid continuará com o velho britânico novamente comandando as rédeas da banda. Veja como nossos consultores avaliaram o disco!


01 Sundialer

André: Início fortemente orquestrado, amo esse tipo de introdução.

Mairon: Conheço esse disco há um bom tempo. Barclay James é daquelas bandas que estão no segundo, talvez terceiro escalão das minhas audições. Aprecio bastante os discos do grupo, e alguns de seus galhos musicais também são igualmente admiráveis, como é o caso do The Enid. Em especial, esse álbum traz como diferencial uma sonoridade mais “dance”, o que pode assustar aos fãs da banda, mas tem lá seu charme

Alisson: Essa intro me lembrou os trabalhos do Prince pra trilha sonora. Aliás, não tem a ficha técnica do disco no RYM, quem toca os synths?

André: Quem toca é o próprio Robert, Alisson.

Mairon: O que eu curto mesmo são esses trechos viajantes, meio Vangelis. Adoro!!

Alisson: Você pesou a descrição com sendo Prog Sinfônico mas — tudo bem que não tem tanto tempo de play — mas esse tá sendo longe de ser o definidor do disco. Dance eletrônico, as guitarras indo e vindo, paisagens futuristas e tal, tá ruim não. Beberam da fonte certa (RIP Prince).

André: A orquestra aparece bastante, Alisson, daqui a pouco vai ver muito mais dela.


02 Chaldean Crossing (remix)

Mairon: Aqui o disco realmente”COMEÇA”. Até então, era só uma pequena amostragem. Agora a doideira irá exalar das caixas de som.

Alisson: Eu ia falar da produção antes mas acabei empolgando por lembrar do rei do pop lá atrás.

Mairon: Esse disco >>>>>>>>>>>>>>> abismo >>>> Prince

Alisson: Enfim, parece que não tem abertura pros instrumentos “ressoarem”, saca? O grave é bem definido, quase saturando. Mas tipo, é tudo muito comprimido. Noob demais.

Mairon: As orquestrações surgindo timidamente, junto a um andamento suave, sintetizadores viajantes. Sinto-me no show do Kitaro, mas com dignidade ao menos.

André: Não me incomoda esse grave, por enquanto as melodias mesmo estão ao fundo surgindo aos poucos. Agora o baterista começa a aparecer um pouco mais com as batidas nos bumbos.

Alisson: Instrumentação indo e vindo, apesar de “sutil” fica até previsível de saber quando e como vem os ápices.

Mairon: Para quem conhece a carreira do The Enid, vale ressaltar que nem todos os discos tem essa vibe. Acho que aqui eles aproveitaram a onda New Age e fizeram algo nessa linha. Buddha’s Bar é outra referência que me vem à cabeça ouvindo “Chaldean Crossing (remix)”. Aliás, nunca descobri se existe uma “Chaldean Crossing”.

André: Acho esse instrumental viajante excelente. Há espaço para os outros integrantes aparecerem mesmo que por alguns poucos segundos.

Alisson: Vocês focaram bastante no sinfônico da coisa mas eu só aproveitei mesmo durante os espaços de repetição. Quando o sinfônico surge, fica meio caricato e plástico.


Robert John Godfrey (tecladista e líder do The Enid).

03 Dark Hydraulic (remix)

Mairon: Mas não considero sinfônico. Não esse disco.

André: Essa é a minha música favorita da banda.

Mairon: A melhor faixa de Sundialer surge.

André: O baixo que virá é maravilhoso. O The Enid em sua maioria faz composições de início calmo que vai crescendo aos poucos em nossos ouvidos.

Alisson: Tem algo parecido em alguma OST de algum jogo antigo…

Mairon: Essa retorna ao clima Vangelis, com um adendo das trompas e metais, mas principalmente, um baixo fudidamente chocante. Sonzeira.

Alisson: Não comprei esse timbre de teclado não.

Mairon: Imagina a galera que em 1995 ouvia É O Tchan e Mamonas, chegando numa loja de discos de um roots prog que estivesse ouvindo esse “lançamento”, o pânico da criatura, ahuahuaha.

Alisson: O que uma coisa tem a ver com a outra, bicho? o.O

Mairon: As passagens de guitarra, o ritmo da bateria, orquestração, teclados, tudo encaixando perfeitamente.

André: Bastante reverb nessa guitarra. Aliás, eu adoro o efeito reverb.

Alisson: Esses “sopros” também, viu… tá difícil.

André: Orra, acho que dá de chamar essa faixa de sinfônica não é mesmo?

Alisson: Continuo achando o lance bem mais pra um Prog Eletrônico mesmo, bicho.

Mairon: Acho que não André. É experimental. Concordo com o Alisson.

Alisson: Aliás, alguém botou tag no RYM como Alternative Rock…

Mairon: O que não impede de ser uma boa audição. Virada sensacional!!! Sonzeira do cão.

André: Ah, vocês estão considerando pelos rótulos, eu considero pelo uso das orquestrações em grande parte das canções.

Alisson: Se pegar e ver que os synths e teclados são centrais e dão até a estética retrô do disco, puxa bem mais pro Eletronico/prog.

André: Sim, o disco está mesmo muito mais para prog eletrônico, mas independente disso, acho melhor não ficarmos restritos a classificações. Vão nos considerar uns malas nos comentários hahahahahahahaha.

Alisson: E tá errado?

Mairon: Alisson, tira os teclados e vai dizer que essa guitarra não lembra o Belew em seus melhores dias???

Alisson: Quem é Belew?

Mairon: Adrian Belew.

Alisson: Ah…. nope. Agora que associei o nome.

Mairon: Lembra né?

Alisson: Eu lembro mais dele no Discipline e tipo: “TALKING HEADS”. Mas sério, nem é forçando a barra nem nada, mas o estilo de guitarra lá na primeira faixa eu fiquei “caramba, o cara toca bem parecido com o Prince”.

Mairon: Pior que não achei. Final de faixa para cair o cu da bunda.

André: Conheço pouquíssimo do Prince, logo, não vou opinar para não falar bobagem.


04 Ultraviolet Cat

Alisson: Kraftwerk na área.

André: Uma canção de início mais espacial, misturada a algo levemente industrial.

Alisson: Poxa, tava tão bom quando era só uma vibe Trans Europe Express… agora entrou esse clima meio lounge.

Mairon: Voltamos a um som mais pop. Lounge é uma bela definição. Parabéns Alisson.

Alisson: Foi pejorativamente.

Mairon: Eu curto esse tipo de som, ainda mais em um dia chuvoso como hoje aqui em São Borja. Dá um clima legal.

Alisson: Lounge só funciona ironicamente pra vaporwave.

Mairon: Acho que to chapado de mais.

Alisson: Peste dum zé droguinha…

André: Dorgas.

Mairon: Ando assistindo muito programa partidário

André: Que riff de guitarra! Simples mas eficiente!

Mairon: Cara, som muito bom. Vocais bem encaixados, guitarra com timbres legais. Gosto bastante.

Alisson: Nem to considerando as passagens com voz porque eles surgem esporadicamente e meio que não me acrescentaram nada. E essa vibe de música africana?

Mairon: Mas se encaixam legal.

Alisson: Destaque da faixa: didjeridu ao fundo, pena que dura pouco.

André: Para ir de Kraftwerk até a África, é uma viagem meuito louca, não Alisson?

Alisson: Fala isso pro cara que compôs a música kkkk.

Mairon: kkkkkkkkk.

André: Mais louco sou eu que vou ficar tendo que fazer essa postagem daqui a pouco para entrar amanhã.


05 Salome 95

Mairon: Essa é uma nova versão para a faixa de 86, do álbum homônimo. Foi mantida a linha de piano e algumas passagens aqui e acolá. É a mais fraca do álbum, em minha humilde opinião.

Alisson: Se é a mais fraca, nossa senhora…

André: A primeira versão é melhor, mas eu gosto desta também. O que eu gosto dela são as constantes trocas de notas do baixo.

Mairon: Eu acho que exageraram aqui. Não me soa no mesmo nível que as demais do álbum. Mas longe de ser ruim.

André: Por outro lado, os vocais líricos femininos não ficaram bons nessa canção, apesar de que imagino que o Robert quis trazer a “Salomé” para o disco.

Alisson: Harmonizar os vocais na faixa não ajudou em nada, pra ser sincero. O ritmo hipnótico de fundo funciona, mas quando entra o protagonismo dos teclados, não fica legal.

Mairon: Concordo fortemente.

Alisson: Tem horas que soa brega e piegas. Estendo isso para todas as faixas.

Mairon: Daí eu discordo.

André: Aí eu já penso diferente porque tirar o teclado da sonoridade descaracterizaria toda a banda.


Considerações Finais

Mairon: Bom, jamais esperaria que o André indicasse esse disco. Aprecio a Barclay James Harvest, e os discos do The Enid são misturas de engodos, enganações, obras primas e bras muito boa de serem audíveis. Sundialer se encaixa nessa última. Não ouço com tanta frequência, mas sempre que o ouço, curto a sensação. Passa rápido nas caixas de som.

Alisson: Prog eletrônico/sinfônico bem do operante. Apesar de ter sido lançado nos anos 90, faria bem mais sentido ter sido lançado nos anos 70. A influência de Vangelis é óbvia, mas não sei se por falta de criatividade ou coisa do tipo, mas as composições não encaixam. Seja por evolução batida e previsível, ou seja até pela produção saturada. Se você curte muito o estilo e quer continuar garimpando os “perdidos”, vai fundo.

Mairon: Da banda, recomendo também In The Region Of The Summer Stars (1976), Aerie Faerie Nonsense (1977) e Six Pieces (1979).

André: Eu sempre gostei muito do The Enid e mesmo eu estando já há 4 anos escrevendo para a Consultoria do Rock, eu vi que andei adiando demais em trazer uma matéria que enfatizasse a banda. Recomendei este Sundialer porque vejo a banda soando muito diferenciada em misturar as batidas eletrônicas, quase dance, junto a orquestrações e elementos do rock e do prog. O disco me agrada muito e sinto que o The Enid precisa ser mais conhecido.

Mairon: Entra amanhã, André?

André: Sim, vou editar daqui a pouco, Mairon.

Mairon: Senhores, necessito deslocar-me do meu recinto, mas foi uma alegria inquestionável a audição desse álbum com vossas presenças. Grato de ❤.

Alisson: Valeu galera, abraços ae.

André: Até mais, e obrigado pelos comentários.

 

Créditos da imagem: Paul Michael Hughes Photography

2 comentários

  1. Marcello

    Boa iniciativa, trazendo uma banda difícil de se encontrar no Brasil. Até hoje só consegui um CD deles, “Touch Me”, lançado em 1979. Não sabia que o Godfrey tinha se afastado da banda – aliás, não imaginava que ainda estavam na ativa.

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    • André Kaminski

      Marcello, segundo uma das últimas postagens da banda, o Robert retornou à banda porque viu que o direcionamento dela não estava de acordo com o esperado. A ideia dele é, digamos, botar novamente a banda nos eixos e depois passar o bastão para o guitarrista Jason Ducker que seguirá com ela mesmo sem a sua presença.

      E o The Enid esteve ativo todos esses anos (apenas um hiato entre 2000 e 2006). Inclusive, lançaram três discos nos últimos cinco anos. Todavia, boa parte das músicas são remixagens ou novas versões de canções antigas. Infelizmente não com a mesma qualidade das originais. Último disco que eu gostei deles foi Arise and Shine de 2009.

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