Por Emerson Mello

Quando recebi o convite do meu amigo Thiago Reis e da Consultoria do Rock pra falar deste disco pra comemorar seus 40 anos de lançamento, confesso que achei a ideia bem interessante. Afinal de contas seria bem fácil falar do Volume 4, do Sabbath Bloody Sabbath ou do Heaven and Hell, álbuns que de uma certa forma, tem opiniões unânimes, pois são inegáveis clássicos não só na discografia da banda, mas da história do Rock. Então bancar o advogado do diabo me pareceu mais divertido e também uma oportunidade de expor minha opinião sobre o disco. Falar de um álbum que divide opiniões é um desafio. O álbum foi lançado dia 28 de setembro de 1978, e foi o último disco de estúdio do Black Sabbath a contar com Ozzy Osbourne nos vocais, até 13, mais de 35 anos depois.

Em primeiro lugar, tenho plena consciência que o disco não está no mesmo nível dos citados anteriormente e de álbuns como o auto intitulado disco de estreia, Paranoid, Mob Rules só pra citar alguns. Mas isto também não quer dizer necessariamente que o álbum seja ruim e não justifica o massacre que ele sofreu ao longo do tempo. Já pude observar que muitas pessoas que dizem não gostar do disco, sequer o ouviram.

Palco da turnê de Never Say Die!

Uma das coisas que acredito que tenha prejudicado à aceitação do álbum foi a declaração do Ozzy na época dizendo que não gostou do disco, entre outros motivos por achá-lo “jazz demais”. Outra crítica comum associada ao disco é que o mesmo ficou com uma sonoridade “muito parecida com a do Queen”. Mais outra crítica é de que neste disco a banda tinha “perdido o peso” e não estava “soando como o Black Sabbath”.

Concordo que o disco não seja tão pesado quanto um Master of Reality ou Volume 4 da vida, mas o fato é que o Black Sabbath veio evoluindo e com o passar do tempo foi incluindo outros elementos em sua música. Músicas como “Changes”, “Laguna Sunrise”, “Planet Caravan”, “Fluff”, “Supertzar” pra citar algumas, mostram que a banda nunca teve medo de ousar. Os que falam isso do Never Say Die! talvez não tenham prestado atenção no álbum anterior, Technical Ecstasy, aonde a banda já havia flertado com elementos diferentes, como em “All Moving Parts (Stand Still)” que tem uma levada funky.

Geezer Butler, Tony Iommi, Dave Walker e Bill Ward. Formação que não durou muito.

O clima interno da banda na época realmente estava tumultuado, tanto é que Ozzy saiu, voltou gravou o disco, fez a turnê e depois foi demitido. O cenário musical da época era dominado pelo punk, que já tinha chegado aos EUA. Iommi confessou que se sentiu pressionado a compor neste clima, pois o meio musical já não curtia tanto os “riffs” de guitarra e o que estava em alta eram os acordes simples e diretos do punk. A banda alugou o Sound Interchange Studios em Toronto, mas ainda estavam sem vocalista, isto foi na época da primeira saída de Ozzy. Recrutaram o ex-Fleetwood Mac Dave Walker, com quem fizeram 03 músicas e ele chegou a registrar seu vocal em “Junior’s Eyes”. A versão e a melodia vocal ficaram totalmente diferentes da que ficou gravada no álbum, além de Geezer Butler ter reescrito a letra. Mas a coisa não funcionou com Walker e Ozzy acabou voltando.

“Never Say Die” abre o álbum em grande estilo, um rock de respeito e que poderia ter tido uma melhor chance no repertório da banda ao longo dos tempos. Ela foi lançada como single, o que não acontecia desde Paranoid, e entrou nas paradas inglesas e eles chegaram a se apresentar no Top of the Pops. Como curiosidade foi na turnê desde álbum que Iommi e Van Halen se conheceram e se tornaram amigos. Na música seguinte, “Johnny Blade”, os teclados de Don Airey fazem o prelúdio do que está por vir e o uso do moog dá um clima meio progressivo no início da música. Logo depois entra um riff bem característico de Iommi e seguido de uma melodia vocal no melhor estilo Ozzy e um refrão que fica na cabeça dão o tom da música.

Black Sabbath e a turma do Van Halen

“Junior’s Eyes” é uma das melhores músicas do álbum e também uma grande música no repertório do Sabbath. Uma linha de baixo envolvente de Geezer vem na introdução e pontua a música enquanto Iommi brinca com o wah-wah em cima. “A Hard Road” tem um riff que me lembra o clima da “Lonely is the Word” gravado no álbum seguinte, Heaven and Hell. Aqui foi a primeira fez que Iommi fez backing vocals. Mas ele foi tão zuado pela banda que nunca mais quis cantar em nenhuma música.

“Shock Wave” abre o lado B, seguida de “Air Dance”, pra mim é uma das melhores músicas da banda. Don Airey fez um belíssimo trabalho ao piano nesta música enquanto Iommi faz uma bela base ao violão e entra com belas intervenções na guitarra. Sem contar na parte do solo, primoroso. Ozzy também fez uma bela interpretação vocal. Uma música realmente diferenciada na discografia da banda, mas que realmente funcionou muito bem. “Over to You” é outro ponto alto do disco. Um som mais direto com o órgão de Airey fazendo cama para os riffs de Iommi. Airey usou o piano com muita criatividade em cima das guitarras.

Sabbath on stage, 1978

A instrumental “Breakout” é o que mais se aproxima do jazz no disco. Aproxima-se, porque apesar de ter sopros ela não chega a ser jazz. Algumas histórias de bastidores dão conta que Ozzy não teve nenhuma ideia vocal para ela, então eles chamaram um saxofonista pra “tapar” o buraco. Coisa semelhante aconteceu em “Swinging the Chain”. Eles haviam composto esta música com Walker e Ozzy não quis cantá-la. Com o impasse gerado Ward se ofereceu pra cantá-la. Ele realmente tem uma boa voz. Já havia mandado bem em “It’s Allright” (Technical Ecstasy) e aqui manteve o nível nesta interpretação.

Never Say Die! definitivamente é um álbum pra ser apreciado nos detalhes. O melhor mesmo é ouvi-lo disco com calma, desprovido de qualquer preconceito e desarmado para ter sua própria opinião, e poder apreciar um álbum que considero diferenciado na discografia da banda.

Contra-capa

Track list

  1. Never Say Die
  2. Johnny Blade
  3. Junior’s Eyes
  4. A Hard Road
  5. Shock Wave
  6. Air Dance
  7. Over To You
  8. Breakout
  9. Swinging The Chain

20 comentários

  1. André Kaminski

    Curioso que escutei ontem mesmo este disco com bastante atenção. Na minha lista Do Pior ao Melhor do Sabbath, eu o havia colocado em 15º. Pois agora acho que o colocaria em 9º. Realmente é um bom disco deles, como dito não ao nível dos considerados mais “clássicos” da era Ozzy ou Dio, mas ainda assim melhor do que eu esperava.

    “Never Say Die” e “A Hard Road” são muito boas. Daria para tocarem tranquilamente nos shows meio direto.

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    • Mairon

      “Air Dance” é atípica. Muito melhor que qualquer coisa que o Sabbath gravou depois do Dio. “Junior’s Eyes” e “Johnny Blade” são de chorar!! E “Never Say Die” merecia ser a música de abertura eternamente em tudo que é show de qualquer banda!!!

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    • Emerson Mello

      Estão duas músicas são muito boas mesmo André. Mereciam melhor sorte no repertório da banda.

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  2. Mairon

    Melhor disco da banda, disparado. Um dia o mundo irá dar valor para essa obra-prima!!

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    • Emerson Mello

      Mairon, acho que o disco merece melhor oportunidade sim. Valeu pela participação!

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  3. José Carlos Araujo de Paula Souza

    Eu gosto muito desse disco! Demorei pra comprá-lo, exatamente pela má fama… mas acho bem superior ao anterior e apesar de ser bem diferente do auge da banda com o Ozzy, é um disco bem interessante com ótimas músicas! Parabéns pelo belo texto!

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  4. Marcello

    Tenho sentimentos confusos quanto ao álbum. Quando o comprei em vinil, gostei bastante da faixa-título, de Junior’s Eyes, Hard Road e Over to You. Ao longo do tempo, fui aprendendo a gostar mais do disco como um todo, exceto de Swinging the Chain, que nunca me disse nada (à exceção da harmônica de Lee Brileaux, que merecia mais volume na mixagem final). Posteriormente, quando comprei o CD, foi mais para completar a coleção do que qualquer outra coisa. Hoje em dia, continuo achando um bom disco, embora inferior aos que vieram imediatamente depois (Heaven and Hell e Mob Rules), e melhor do que o imediatamente anterior. Na minha opinião, a qualidade sonora do disco deixa um pouco a desejar: Never Say Die merecia mais peso nas guitarras e Johnny Blade, destaque para a bateria matadora de Bill Ward na introdução. Goste-se ou não, o Sabbath aqui ousou mais e variou mais o seu som do que em qualquer álbum gravado com Ozzy (e só voltaria a ousar tanto em Seventh Star). Se fosse listar os discos do Sabbath por ordem de preferência, acho que ele seria o 10º.

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    • Emerson Mello

      Meu ponto é justamente este Marcello. A banda ousou e o resultado ficou interessante. Trazer o disco à tona pra discussão foi legal , pois muitas pessoas puderam refletir melhor sobre ele e repensar seu ponto de vista a respeito.

      Valeu pela participação!

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  5. Thiago Reis

    Na minha opinião é um disco mediano para os padrões do Sabbath, mas diga-se de passagem que o mediano para o Sabbath já é de extrema qualidade. Disco diferente e criativo. Parabéns pela bela resenha, meu amigo Emerson. Um grande abraço.

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  6. Ronaldo

    O som da bateria desse disco é qualquer coisa…potente, demais!
    gosto das composições, tem ousadia, criatividade…algumas até não funcionam integralmente, e são diferentes do que o Black Sabbath vinha apresentando anteriormente. Gosto bastante do álbum!
    Ótimo texto, abraço!

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  7. Anônimo

    Dizer o que sobre esse álbum chato e sem graça? Que a saída de Ozzy e a entrada de Dio salvaram a banda. Mas não podemos culpar Ozzy pelas músicas, já que foi Iommi quem embarcou nessas viagens jazzísticas e músicas insossas. O mais legal foi que tanto o álbum de estréia do Ozzy quanto o primeiro do Sabbath com Dio são duas obras primas inquestionáveis. Ozzy provou que poderia seguir uma carreira solo e o Sabbath provou que a entrada de um novo vocalista deu um sangue novo na banda e expandiu os horizontes musicais da banda, tocando um estilo completamente diferente da que a consagrou. As fases Dio, Ian Gillan, Glen Hughes e Tony Martin foram tão marcantes quanto a fase Ozzy.

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    • Emerson Mello

      Agradeço à sua participação e por trazer sue ponto de vista pra somar nas opiniões sobre o álbum!

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  8. Anônimo

    A coisa já estava fedendo no Technical Ecstasy porém aquele disco ainda possui algumas músicas interessantes. Never Say Die é aquele típico disco que fica empoeirando na estante e tu não faz nem questão de escutá-lo, se duvidar a gente até se desfaz dele dando de graça para algum amigo ou parente. É o mesmo sentimento que nutro pelo Combat Rock do The Clash, outro álbum horrendo e medíocre. Ou então In Through the Outdoor do Led Zeppelin. E vale frisar que essas bandas citadas antes de gravarem esses álbums pavorosos já vinham mal das pernas muito tempo antes de gravarem seus respectivos álbuns em questão. Nenhuma banda se desintegra musicalmente de um dia para o outro, é um processo lento, de desinteresse, preguiça, má vontade, vaidade, orgulho, estrelismo e algo que eu sempre fiz questão de destacar, mudança de vida. O sujeito começa pobre e fudido no mundo do rock, conforme vai enriquecendo vai perdendo o tesão pela música, afinal já conseguiu dinheiro, fama, status e respeito. De repente o sujeito perde o objetivo, ele deixa a música em segundo plano. Alguns acabam cometendo atrocidades musicais como foi o caso do Sabbath e do The Clash. Os caras acabam pirando e achando que precisam mudar o estilo de som que os consagrou e embarcam em ciladas perigosas que acabam por destruir tudo o que construíram de valoroso ao longo da carreira. Sim, o Sabbath mudou o estilo com o Dio nos vocais mas tocando uma música forte e consistente, não em viagens jazzísticas como desse álbum medonho Never Say Die. O Clash então teria sido preferível terem durado apenas no primeiro disco, já que o que veio depois salvo raríssimas exceções vale a pena ouvir. Em suma FUJA!

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    • Anônimo

      Corrigindo já que o que veio depois salvo raríssimas exceções não vale a pena ouvir. Em suma FUJA!

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