Datas Especiais: 40 Anos de Thick As a Brick (Jethro Tull)

3 de março, 2012 | por Mairon
Datas Especiais
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Por Mairon Machado
Em 1972, o rock progressivo era o principal estilo em voga dentro do rock, principalmente na Europa, onde países como Inglaterra, Itália, Bulgária e França geravam grupos com a sonoridade ligada ao gênero quase diariamente. A onda progressiva atingia inclusive bandas que em nada tinham a ver com longas suítes elaboradas, técnica aguçada, intrincações instrumentais e letras que contavam histórias sobrenaturais e inovadoras.
Um desses grupos era o Jethro Tull. Formada em 1967, a banda sempre teve como presença marcante a figura de seu líder, o vocalista, flautista, violonista, letrista e faz-tudo Ian Anderson. Desde o início, Anderson era quem mandava e desmandava no então quarteto, formado por ele, Mick Abrahans (guitarras), Glenn Cornick (baixo) e Clive Bunker (bateria). O primeiro álbum, This Was (1968), é uma bela representação da sonoridade hardeira que surgia forte no Reino Unido do final dos anos 60, privilegiando influências do blues através da harmônica de Anderson (“A Song for Jeffrey”) e dos licks de guitarra em “Dharma for One” e “My Sunday Feeling” A flauta era apenas um instrumento complementar.

Páginas 2 e 3 do jornal que forma Thick As a Brick

No álbum seguinte, Abrahans deu lugar a Martin Barre (Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath, chegou a ocupar o posto por alguns dias), e assim nasceu Stand Up (1969), confirmando ainda mais o peso blueseiro do primeiro registro, apesar da flauta surgir com mais destaque, como na versão para “Boureé” (original de Johann Sebastian Bach), na qual Anderson dá um show particular, além de Barre esbanjar uma técnica pegada e suja, com destaque para “A New Day Yesterday” e “Nothing is Easy”.
Em Benefit (1970), a flauta tomou conta de vez, mas o som ainda era o mais puro e simples rock ‘n’ roll. Canções como “Teacher”, “To Cry You a Song” e “Nothing to Say” apresentavam um Jethro Tull um pouco distanciado do blues, com músicas um pouco mais longas, que fez com que alguns críticos aguçassem os ouvidos para o que viria a partir de então. Esse foi o último disco a contar com Cornick no baixo, substituído por Jeffrey Hammond-Hammond.

Páginas 4 e 5

Foi com Aqualung (1971) que a crítica finalmente os colocou no hall dos principais nomes do rock progressivo. Apesar do álbum não ter nada de progressivo, sendo mais um grande disco de rock pesado, no qual inclusive está gravado “Cross Eyed Mary”, uma das canções que o Iron Maiden mais adorava tocar em seus shows em função de seu peso, a flauta viajante de Anderson, mesclada com a introdução de um novo membro, o pianista John Evan, deram um ar pomposo e clássico ao som do Jethro Tull, erroneamente rotulado como progressivo.
Páginas 5 e 6

Faixas como “Aqualung”, “Wind Up”, “My God” e “Locomotive Breath”, só para citar algumas, eram novidades para os críticos, que não percebiam a sutil diferença entre tocar violão, flauta e piano como o Jethro Tull estava fazendo com o que realmente era feito no rock progressivo, com muito mais técnica e influências diretas do jazz e da música clássica.

Obviamente, a definição como progressivo, e ainda de que Aqualung era um álbum conceitual, não agradou em nada ao líder Anderson. Foi então que o músico pirou e resolveu lançar um disco realmente do gênero. Para isso, contratou o arranjador e maestro David Palmer, além de chamar o excelente e virtuoso baterista Barriemore Barlow para o lugar de Bunker. Como um quinteto (Anderson, Hammond, Barre, Barlow e Evan), o Jethro Tull começou a moldar o disco que mudou de vez o rock progressivo, tornando-o ainda mais gigante e elevando ainda mais o sucesso obtido por Aqualung, apesar de ser uma crítica direta ao rock progressivo, mas que ninguém entendeu assim.

A definição de Anderson é sintomática: “Se os críticos queriam um álbum conceitual, nós demos a mãe de todos os álbuns conceituais, e nós fizemos isso tão bombástico e tão grandioso quanto poderíamos fazer. Como todo mundo dizia que éramos uma banda de rock progressivo, decidimos viver essa reputação e escrever um álbum progressivo, mas feito como uma paródia ao gênero”.

Anderson juntou ideias durante semanas. Com muito trabalho, passou a desenvolver a canção que acabou tornando-se a faixa-título e única do quinto álbum do Jethro Tull, que completa 40 anos hoje, 3 de março.

Capa (página 1) e vinis originais

Lançado em 1972, Thick As a Brick é um dos mais belos discos da carreira do Jethro Tull, e sua importância para o rock progressivo não está somente na beleza da canção que ocupa os dois lados do vinil simples, mas nas grandes mudanças que o álbum proporcionou para o estilo.

Muito do que está no LP demorou tempos para ser concebido, ainda mais vindo da cabeça inventiva de Anderson, tanto que, quando de seu lançamento, muitos acharam que a história sobre o poema do garoto Gerald Bostock era real.

Sem entrar nos detalhes da faixa-título, que será explorada na próxima quinta-feira, no retorno da sessão “Maravilhas do Mundo Prog”, a descreverei para aqueles que nunca tiveram contato com essa obra prima. “Thick As a Brick” narra um poema escrito por um garoto de oito anos, o tal Gerald Bostock. Mesmo sendo um menino, Bostock começa a se deparar com diversos fatos que o levam a pensar sobre como é envelhecer, passando das brincadeiras de infância – como pinturas e liga-pontos -, à adolescência – girando em torno da escola, namoro e prática de esportes -, à fase adulta – com casamento, questões de trabalho e viagens – até chegar à velhice e, finalmente, à morte.

Páginas 8 e 9

Tudo isso está escrito em um poema que foi o vencedor de um prêmio em uma cidadezinha fictícia chamada St Cleeve. Porém, a capa do jornal da cidade, datada do dia 7 de janeiro de 1972, trazia uma manchete revelando que havia uma fraude na composição do poema: a princípio, quem o teria escrito seria uma amiga de Gerald. A controvérsia acaba sendo desvendada, com o próprio Gerald assumindo que a tal amiga o ajudou no poema. Contudo, paira então uma nuvem no ar, sobre se a tal moça não teria sido quem fez Gerald pensar a respeito do assunto, tendo assediado o coitado do menino. Basta pensar no próprio título (“espesso como um tijolo”) para que se faça essa ligação com o órgão genital do garoto, apesar da expressão referir-se originalmente a alguém que tem dificuldades em assimilar os fatos ao seu redor. No popular, um cabeça-dura.

A história é desenvolvida através de uma canção muito compĺexa, com grandes mudanças de andamento, caracterizando essencialmente o melhor que o rock progressivo pode oferecer, através de pequenos e marcantes temas, bem como as várias partes da faixa. Além disso, Anderson investiu em novos instrumentos, como o cravo, xilofone, tímpano, violinos, alaúde, trompete e saxofone, além de arranjos de cordas.

Páginas 10 e 11

A viagem não para por aí, e se torna ainda mais profunda quando se tem em mãos a capa original do LP, no formato de um jornal de verdade (inclusive em papel jornal), contando com 12 páginas nas quais observamos tudo o que está presente em um noticiário tradicional, desde a seção de esportes e classificados até a seção de óbitos e nascimentos, passando inclusive pelo próprio poema.

A leitura de todo o jornal (sim, todo) acaba revelando fatos que passam desapercebidos no poema. Basicamente, cada página contém exatamente um ponto que está na música, tratando exatamente dessa evolução criança-adulto, mostrando praticamente todos os fatos que nos cercam desde o nascimento até a morte, que assombraram a cabeça do garoto. Um dos fatos mais hilários é uma resenha sobre o próprio LP, apresentando Ian Anderson como o autor do review e com uma crítica um tanto quanto “especial” para a bolacha.

Capa e contracapa (páginas 1 e 12)

 
A turnê para o álbum, ocorrida entre 1972 e 1973, foi ainda mais inovadora, com o Jethro Tull mostrando ao mundo que não era necessário um cenário enorme ou inúmeras luzes e lasers coloridos para atrair a atenção do público, mas sim investir no disco que estavam lançando, decifrando para a plateia o que estava escondido nos sulcos do vinil.

Como um espetáculo teatral com a presença de fantasias, encenações e outros fatos adicionais, que você pode conferir nesse artigo do blog Baú do Mairon em detalhes, o Jethro Tull logo de início decidiu tocar o álbum na íntegra, sem se preocupar com as demais composições que já faziam parte do cotidiano dos fãs. Essa ideia acabou amadurecendo e aos poucos ficou claro que era impossível reproduzir algumas partes ao vivo. Anderson resolveu então modificar seus planos, aceitando incluir outras músicas (a saber: “Cross-Eyed Mary”, “A New Day Yesterday”, “Aqualung”, “Wind-Up”, um solo de guitarra de Martin, “Locomotive Breath”, e “Wind-Up (Reprise)”), além de decifrar com precisão cerca de 80% do material contido no jornal-capa de Thick As a Brick. Mesmo assim, ampliando a versão original do álbum para mais de uma hora, podendo inclusive beirar 80 minutos de muitos improvisos.

Um dos vários hilários momentos do show de Thick As a Brick, quando um
gorila invade o palco (John Evan à esquerda)

O resultado foi uma hilária turnê, que passou por países da Europa, Austrália, Canadá e Estados Unidos, agradando tanto aos fãs quanto à mídia especializada, além de influenciar alguns dos grandes nomes do progressivo da época, como Yes e Genesis, que se inspiraram na obra e na turnê para criar os principais discos de suas carreiras.

Do Yes nasceu Tales From Topographic Oceans (1973), um álbum duplo com apenas uma canção, a faixa-título, dividida em quatro longas suítes que ocupam cada um dos lados do vinil, cuja turnê apresentava, além desse álbum na íntegra, seu antecessor, Close to the Edge (1972), também na íntegra, adicionado de mais duas canções, tendo no palco vários instrumentos inéditos, como uma cobra que soltava fumaça, um portal em formato de esqueleto de baleia e outros adereços.

Ian Anderson, o gênio criador de Thick As a Brick

Da parte do Genesis, foi lançado em 1974 The Lamb Lies Down on Broadway, obra prima do vocalista e flautista Peter Gabriel inserida em um álbum duplo com diversas canções interligadas, formando uma música única, densa e esplêndida, também apresentada na íntegra durante sua turnê de divulgação, com muitas fantasias utilizadas por Gabriel, além de um gigantesco projetor de imagens.

Anos depois, o Pink Floyd aproveitou-se das ideias de Yes e Genesis para construir The Wall, mais um disco duplo conceitual no qual as faixas unem-se para formar uma história complexa, já contada  aqui.

Ian Anderson, Jeffrey Jammond-Hammond, Martin Barre,
John Evan e Barriemore Barlow

Thick As a Brick vendeu muito, atingindo a primeira posição nas paradas da Billboard ainda em 1972. Também não foi o único disco progressivo do Jethro Tull, já que, no ano seguinte, Anderson e cia. lançaram o também excelente A Passion Play, constituído apenas da faixa-título, na qual Anderson estende ainda mais seus dotes musicais para novos instrumentos, com destaque para a ênfase maior no saxofone em detrimento da flauta.

Posteriormente, o grupo estabeleceu-se em uma zona de profunda repetição, afundando-se pesadamente nos elementos eletrônicos dos anos 80. Em 1988, recebeu o prêmio de melhor performance vocal/instrumental de hard rock/heavy metal daquele ano (ganhando do Metallica, que concorria com …And Justice For All), graças ao álbum Crest of a Knave. Era apenas a comprovação daquilo que Anderson sempre defendeu, ou seja, o grupo não era progressivo.
Manchete no site oficial do Jehtro Tull,
anunciado a turnê Thick As a Brick em 2012
Recentemente, o site oficial do grupo anunciou que neste ano será realizada uma turnê mundial, na qual “Thick As a Brick” será interpretada na íntegra. Será uma belíssima oportunidade para todos os jovens que não tiveram a chance de ver a turnê original e, principalmente, consolidar ainda mais o nome Jethro Tull como um dos mais importantes grupos da história do rock britânico.

Passados 40 anos de Thick as a Brick, o disco (e a canção) permanece incólume entre os mais importantes lançamentos da história da música. Ouvir a suíte “Thick As a Brick” e descobrir detalhes enriquecedores colocados estrategicamente por Anderson, Barre, Hammond, Evans, Barlow e Palmer, é uma aula essencial para conhecer o rock progressivo, apesar do grupo que criou essa obra-prima de progressivo não ter nada.



13 Comentarios

  1. micaelmachado disse:

    Um dos melhores álbuns da história da música, e, sem dúvidas, uma obra prima!

    Ainda hoje me divirto com alguns incautos que não acreditam que exista um disco com apenas uma única música de mais de quarenta minutos! A reação deles ao saberem disso é simplesmente hilária!

    Fico no aguardo do "maravilhas do mundo prog" com a faixa!

  2. Ansioso e torcendo para que esta turnê passe pelo Brasil

  3. fernandobueno disse:

    Não creio que essa turnê passe pelo Brasil, mas vamos torcer. Esse álbum já rodou muito em casa. O fato de ter apenas uma música é algo que realmente chama atenção de muita gente e demonstra um pouco de preguiça de todo mundo. Aliás…quem reclama da duração das músicas do progressivo é idiota. Afinal escutar um disco de cabo a rabo é normal, então o que importa se é uma, duas ou vinte duas músicas?

  4. fernandobueno disse:

    Não creio que essa turnê passe pelo Brasil, mas vamos torcer. Esse álbum já rodou muito em casa. O fato de ter apenas uma música é algo que realmente chama atenção de muita gente e demonstra um pouco de preguiça de todo mundo. Aliás…quem reclama da duração das músicas do progressivo é idiota. Afinal escutar um disco de cabo a rabo é normal, então o que importa se é uma, duas ou vinte duas músicas?

  5. Oi, Mairon

    Mais uma vez,excelente artigo e Thick as a Brick é realmente um clássico do Prog Rock.Meu Top 5 do Jethro Tull,na minha modesta opinião e sem ordem de preferência é:

    -Thick as a Brick
    -Minstrel in the Gallery
    -Songs From the Wood
    -Benefit
    -Stand Up

    Gostaria também de lhe sugerir uma série de artigos sobre álbuns que estão completando 40 anos.Alguns exemplos:

    -Banco(same e Darwin)
    -PFM(Storia di un Minuto e Per un Amico)
    -Quella Vecchia Locanda
    -New Trolls – UT e Searching for a Land
    -Le Orme – Uomo di Pezza

    Abs
    André RJ

  6. diogobizotto disse:

    Se há uma grande banda que eu vergonhosamente quase desconheço, muito provavelmente esta seja o Jethro Tull. =/

    Quando voltar a bater uma fase setentista, juro que vou correr atrás dos discos de Ian Anderson e cia.

  7. Que vergonha Diogo, ahuahaua

    André, infelizmente eu não tenho o conhecimento suficiente para se quer pensar sobre fazer uma data especial sobre os discos citados, mas com certeza, eles entrarão como uma maravilha do mundo prog de alguma forma. Outros discos do progressivo irão receber homenagem. Siga nos acompanhando que em abril dois irão fazer parte dessa lista (um completando 40 anos e o outro 45)

    Meu top 5 do Jethro:

    A Passion Play
    Thick as a Brick
    Minstrel in the Gallery
    Songs from the Wood
    War Child

  8. Thick As a Brick é CRÁSSICO DOS CRÁSSICOS, Mairon! Parabéns!!
    Darwin! é otro que merece todas as reverências! Uomo di Pezza é muito bom, mas acho que fica num patamar abaixo dos dois. Só faltou citarem a dobradinha Three Friends e Octopus..
    Agora, me permita discordar do que vc falou: quer o Ian Anderson concorde ou não, o Tull era prog, sim. Talvez isso dependa mais da sua definição de prog. Na minha, o JT era prog pelo menos desde o Benefit, no mínimo desde o Aqualung. Um prog muito do bom, diga-se! Se ele preferia se ver como um metaleiro acéfalo, azar o dele. KEKE

  9. Olha o Groucho voltando ai geeeeeeeeente. Valeu pelo comentário meu caro. O Three Friends vair rolar em seguida uma homenagem, assim como outros petardos progs lançados em 72.

    E desculpa, mas Benefit e Aqualung não tem nada de prog. É hard puro com influências celtas, e nada mais que isso.

    Abração

  10. Igor Maxwel disse:

    Segundo melhor disco de 1972 pra mim (o primeiro é Foxtrot, do Genesis).

  11. O Lp de uma faixa so do Jethro Tull, a letra bem longa!O meu predileto e “Songs for the Wood” de 1977. Este ajudou a definir o Folk-Metal, Folk Celta!Meu album de cabeceira predileto da banda!!!

    • Igor Maxwel disse:

      Já eu gosto mais deste TAAB por ser um trabalho bastante influente, e superior ao anterior, o mediano “Aqualung” (1971) que eu ouvi e não achei lá essas coisas. Este “Songs for the Wood” que você citou eu ainda não o ouvi… Me desculpe…

    • Mairon disse:

      Valeu Marcio. Obrigado pelo comentário. Abraços

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