Por Mairon Machado
Como as trilhas sonoras dos desenhos de Hanna Barbera podem se tornar uma maravilha do mundo prog? Simples, basta que essas trilhas sonoras, aliadas a canções típicas alemãs, atormentem os sonhos de um guitarrista canadense, de origem iugoslava, com o nome de Alex Lifeson, e que faça parte de um dos maiores power trios da história da música, o grupo Rush.
Fundado em 1969, o Rush passou cinco anos cavalgando em busca de uma gravadora, tendo na formação, além de Lifeson, o baixista, vocalista e tecladista Geddy Lee e também o baterista John Rutsey. O primeiro LP da banda, Rush (1974), trazia um hard rock pesadíssimo, que logo foi comparado ao Led Zeppelin. Rutsey acabou tendo que sair do Rush por problemas de saúde, e para seu lugar, o baterista Neil Peart foi convocado.
Peart incrementou a sonoridade do Rush logo no segundo disco, Fly By Night (1975), adicionando pitadas de progressivo ao hard do grupo, que se tornaram ainda mais salientes em Caress of Steel (1975) e no aclamado 2112 (1976), onde o grupo passou a ser aclamado como um dos principais nomes do rock progressivo mundial.
Com a boa aceitação de 2112, o Rush passou a experimentar muito em estúdio, utilizando mais e mais instrumentos em uma mesma canção, que agora poderiam passar dos dez minutos facilmente, como podemos conferir nas clássicas “Xanadu” e “Cygnus X-1”, ambas maravilhas pertencentes ao LP A Farewell to Kings (1977). Guitarras e baixo de dois braços, Lee e Lifeson tocando teclados com os pés, além de um monstruoso kit de bateria com quase uma centena de peças utilizado por Peart, agigantavam ainda mais as complicadas peças criadas pelo trio.
Rush em 1978: Lifeson, Peart e Lee
Mas é exatamente no álbum seguinte que o Rush consolidou de vez sua carreira no progressivo. Hemispheres, lançado em 1978, apresentava a sequência de “Cygnus X-1”, através de “Cygnus X-1 Book II: Hemispheres” que ocupa todo o lado A do vinil e é uma incrível experiência tanto lírica quanto musicalmente falando. Mas é no encerramento do lado B que o Rush registrou a nossa maravilha desta semana.
“La Villa Strangiato” é uma longa peça inteiramente instrumental divida em 12 (!) partes. Com o subtítulo de “An Exercise in Self-Indulgence”, ela foi inspirada justamente em sonhos que Lifeson estava tendo com personagens como Pernalonga, Gaguinho e também em canções alemãs que ele ouvia quando criança. Nos poucos mais de 9 minutos de duração, o Rush registrou uma maravilha  cuja magnitude é muito difícil de encontrar par dentro da carreira da banda.
A canção abre com “Buenas Noches, Mein Froind!”, onde Lifeson apenas com o violão de nylon, faz algumas notas, que levam ao acorde de F, e então Lifeson sola velozmente na escala do acorde, começando então o belo dedilhado em C de “To Sleep, Perchance to Dream…”, onde sintetizadores são jogados aleatoriamente junto com sinos tubulares, e Peart fazendo a marcação no chimbal e bumbo, junto com o baixo de Lee.
Lifeson tocando sintetizador com os pés
A marcação vai ganhando volume, e então Lifeson despeja o acorde da marcação (C), mudando para um segundo acorde (A) sempre com o sintetizador (tocado por Lifeson) repetindo os acordes das viradas, e assim, recheado de arpejos, começando o tema principal da canção, singelamente batizado de “Strangiato Theme”, onde Lifeson e Lee fazem as mesmas notas enquanto Peart faz um acompanhamento preciso ao fundo.
Os arpejos aparecem mais uma vez, levando então para “A Lerxst in Wonderland”, onde o que Peart faz com a bateria é difícil até para profissionais. Apesar de ser um trecho lento, a complexidade das batidas de Peart é imensa, utilizando de forma incrível o chimbal, a caixa e o bumbo.
Enquanto isso, Lee faz marcações no baixo, e Lifeson começa a solar lentamente utilizando o pedal de volume. Com a guitarra limpa, e tendo também o acompanhamento de um sintetizador (tocado por Lee) repetindo as notas de Lee, Lifeson sola em uma escala menor, e a canção vai ganhando corpo a medida que Lifeson adiciona distorções na guitarra, bem como Peart e Lee aumentam o ritmo das marcações.
Lifeson destrói com escalas muito rápidas, o que nesse ponto me leva a pensar por que dificilmente encontramos Lifeson nas listas de melhores guitarristas do mundo, já que o que ele faz aqui é simplesmente sensacional, e saindo das complicadas escalas, chega em um tema com as cordas abafadas, começando o riff que leva a “Monsters!”, onde baixo, guitarra e bateria encobrem uns aos outros. 
Apresentação do Rush na turnê de Hemispheres
Lee faz um mágico e jazzístico solo em “The Ghost of the Aragon” e Peart começa sua sequência de viradas indescrítiveis, alternando batidas na caixa, chimbal, pratos e bumbo. Então, chegamos ao segundo solo de Lifeson, intitulado “Danforth and Pape”, e que é construído praticamente em cima de improvisos sobre o tema criado por Lee.
Entramos em “The Waltz of the Shreves”, onde baixo, bateria e guitarra fazem marcações juntamente, com as cordas variando em cima de três acordes, e assim, surge a pesada “Never Turn Your Back on a Monster!”, com o tema dessa parte sendo repetido em “Monsters! (Reprise)”, porém em uma velocidade mais rápida.
Finalmente, voltamos ao acorde de C, começando novamente “Strangiato Theme (Reprise)”, com os mesmos solos da versão inicial, e novamente com a presença dos sintetizadores, com a canção encerrando-se com o tema de “Monsters!”, mas com mais velocidade ainda, no que foi chamado de “A Farewell to Things”.
Diferentes versões ao vivo apenas comprovam para o que os que não acreditam na capacidade de o trio fazer tudo isso ao vivo que sim, eles realmente fazem todas as partes sem nenhuma gravação, com algumas mudanças, como a introdução sendo tocada na guitarra (ao invés do violão de nylon) e, em algumas apresentações, com Lifeson fazendo estranhas vocalizações, como a que podemos conferir no vídeo Rush in Rio (2003). Na última turnê, a abertura da canção se dava com o som de uma polca nos acordes iniciais.
De acordo com Lee, o grupo investiu mais tempo gravando “La Villa Strangiato” do que gravando os dois primeiros álbuns, sendo necessário mais de 40 sessões para chegar em uma versão final, o que comprova toda a dificuldade dessa composição, que a maioria dos músicos acreditam (como podemos ver em declarações do DVD Beyond the Lighted Stage, de 2010) ser a canção do Rush mais difícil de ser executada, com alguns inclusive declarando que só se é músico de verdade depois que você consegue tocar ela na íntegra.
Lindo vinil colorido de Hemispheres

Eu demorei algumas semanas para tirar as partes de guitarra, e posso afirmar que, apesar de serem doze partes, é possível sim tocar o que está nos sulcos de Hemispheres. Porém, o fato não está  em saber tocar. É tocar como Lee, Lifeson e Peart tocam, e principalmente, no fato de uma maravilha como esta só poder ter sido concebida através da genialidade desses grandes músicos, algo que nem eu nem muitos outros que sabem tocar essa canção possuem em seu sangue.
Essa foi a primeira canção completamente instrumental do Rush. Depois, viriam “YYZ”, “Where’s My Thing”, “Leave that Thing Alone”, “Limbo”, “The Main Monkey Business”, “Hope” e “Malignant Narcissism”, sendo “YYZ” outra possível candidata a maravilha, mas é em “La Villa Strangiato” que o mundo conheceu a potência sonora instrumental do principal grupo de rock progressivo da história do Canadá.

9 comentários

  1. fernandobueno

    Essa música é realmente fantástica. A exemplo do Mairon eu tentei tirá-la na guitarra, mas provei que não sou um músico de verdade…hehehe
    Os comentário do DVD são legai mesmo. O Portnoy fala que os amigos disputavam para ver quem tocava o que das músicas do Rush e todo mundo queria tocar YYZ, mas eles falavam "vc consegue tocar YYZ, mas vc consegue tocar La Villa Strangiato"?…hehehe

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  2. Mairon Machado

    Pois é Fernando, eu consegui tirar, a ainda hj vez em quando eu toco ela, mas não me considero um músico de verdade tb.

    O Rush fez muita coisa boa dentro do progressivo. Foi difícil escolher a primeira Maravilhas, mas com certeza, mais surgirão

    Abraços

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  3. Mister

    Rush não está entre as minhas bandas do coração (nem mesmo do rim ou do fígado). Nunca escondi isso, mas ignorar que essa música é fodástica seria no mínimo imbecil.
    Interessante é o ano, né? 1978. Segundo toda a imprensa entendida, o progressivo estava acabado, morto e enterrado. No entanto, O LP do Genesis, lançado nesse ano, “And Them There Was Three”, foi o terceiro mais vendido na Inglaterra. No ano seguinte, o Pink Floyd lançou The Wall e dominou as paradas. O Heavy Horses, do Tull, um disco meia boca na discografia da banda, lançado em 78, foi disco de ouro nos EUA e prata na Inglaterra. O Tormato, do Yes, outro meia boca, foi ouro e platina, alcançando no ano o 8º lugar nas paradas inglesas e 10º nos EUA. Queria eu estar no testamente desse defunto.

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  4. diogobizotto

    Hehe, eu posso até dizer que existe a turma de "YYZ" e a Turma de "La Villa Strangiato", e eu faço parte da segunda. Admito que "YYZ" tem o grande mérito de conseguir ser uma música instrumental e ao mesmo tempo grudenta, mas "La Villa Strangiato" é absurda. Não à toa, como está bem explícito no DVD lançado no ano passado, resolveram de comum acordo nunca mais levar sua música a tais extremos.

    O que o Marco disse é muito importante e um bom exemplo do porquê devemos em primeiro lugar seguir nossos instintos, dando muito mais importância ao que se ouve do que ao que se lê. Como citei em meu recente artigo sobre o Boston: em 1976 o punk estava em elevação e a disco music dominava, mas quem foi lá e fez um disco tão importante que chegou a vender mais de 17 milhões de cópias apenas nos EUA? Uma banda que praticava o rock clássico, movido a muita guitarra, inclusive com influências progressivas.

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  5. micaelmachado

    Segundo a lenda, a banda tentou gravar essa música em um único take, mas Peart não aguentou o tranco e ficou dois dias sem tocar com dores nas articulações…

    No DVD citado, a banda explica que tentou gravar em uma única sessão, mas, devido à complexidade da música, acabaram gravando em três sessões.

    Sou muito fã do Rush, muito, e, como muitos, acho essa a melhor fase da banda. Para mim, só é fácil dizer que acho o "A Farewell To Kings" o mais fraco da segunda fase (se é que dá para chamar de fraco um disco como esse), mas escolher o melhor entre "Hemispheres", "Waves" e "Pictures" é impossível…

    E se alguns tentaram tirar ela na guitarra, quero declarar que a única parte dela que eu sei fazer são os vocais da versão de estúdio. E tirei fácil, fácil…

    Baita texto de novo!

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  6. Groucho KCarão

    Ainda não conheço esse disco, mas se o lado A é uma continuação da FODÁSTICA "Cygnus X-1" (até o momento, minha favorita do Rush), deve ser fudidamente bão!

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  7. micaelmachado

    Groucho, você não conhece esse disco e ainda se diz fã de progressivo? "O senhor é um fanfarrão, Seu KCarão"…

    Esse disco é inteiro bom. Só não é perfeito porque perfeição em música é difícil…

    E "Cygnus X-1 Book II: Hemispheres" é uma das minhas favoritas dentre a carreira da banda… serve como indicação?

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  8. gunnerforever

    Eu era fã de heavy metal, mas quando ouvi La Villa Strangiato, passei a ser fã incondicional de prog, principalmente rush.

    veio num tem como não gostar dessa banda, principalmente dessa música. Ela é simplesmente impressionante

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