Ouve Isso Aqui: Efemérides 6 por André Kaminski

Ouve Isso Aqui: Efemérides 6 por André Kaminski

Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Mairon Machado, Marcelo Freire e Marcello Zapelini

Diferente de outras vezes que oreferi trazer destaques do ano mas que não entraram em nossas listas por falta de votos ou de espaço, resolvi desta vez apresentar discos mais obscuros e/ou de bandas mais desconhecidas que eu tenho quase certeza que a maioria dos caras nunca ouviu ou ouviu algum outro trabalho das bandas em questão (geralmente os discos mais famosos). O único padrão que segui em termos de estilo foi ser lançado mesmo nos anos de final “seis”, porque e estilo mesmo são todos diferentes um dos outros. Apesar de muitos não gostarem de ouvir coisas fora do padrão ou discos mais esquecidos, tenho certeza que uma ou outra boa surpresa meus colegas aqui do site irão encontrar. Também recomendo à você leitor dar uma checada nesses trabalhos que eu imagino que um ou outro cairá no seu gosto particular! (André Kaminski)


The Leaves – Hey Joe [1966]

André: Tenho ultimamente gostado muito daqueke rock mais do início da década de 60, com aquela pegada mais pop, dançante e com aquelas baladinhas para arregaçar os corações apaixonados. Junte a uns ótimos covers de excelentes músicas da época e temos aqui um belo registro em 1966 do que estava na moda uns poucos anos antes. Curioso como o rock mudaria completamente de direção em poucos anos e o The Leaves parece ter chegado um tanto “tarde”.

Anderson: Creio que o mais interessante desse álbum é tentar entender como uma banda, ainda em 1966, fazia um material tão diversificado. O Folk-Rock é nítido e faz muito sentido com o contexto geral da época, porém algo mais intenso aparece trazendo um som “Garage Rock”, e “Hey Joe” é o maior símbolo, mas é possível encontrar talvez até um R&B em “Back on the Avenue” (?), obviamente o blues não poderia falta e surge principalmente nos covers gravados. Outra ponta solta, ou incipiente, é distinguível em “War of Distortion” e sua pegada com elementos psicodélicos. Por fim, é um álbum inconstante e com muitas variações, se o ouvinte estiver em um dia animado isso pode funcionar.

Davi: A única coisa que tinha escutado dessa banda é a versão deles de “Hey Joe”, que eu tenho em um box set chamado Nuggets, que reúne bandas de rock de garagem e psicodélicas dos anos 60. Não me recordava de ter escutado o álbum deles na íntegra. O disco, em si, é bonzinho, mas fica perfeitamente plausível o porquê deles não terem conseguido destacar-se na cena. Durante a audição, fica nítida a falta de um bom produtor, faltava um foco. Ainda que os músicos não fossem ruins, o grupo não tinha direção e saía atirando para tudo quanto é lado. “Dr Stone” abre o disco utilizando-se da batida Bo Diddley, as baladas “Just a Memory” e “Girl From The East” pareciam querer reviver os Beatles em sua fase inicial, “War of Distortion” trazia uma aproximação com a psicodelia, enquanto “Tobacco Road”, uma releitura de um blues de John Loudermilk, atacava naquela sonoridade rock/blues que Rolling Stones e The Animals faziam com maestria. Quanto à “Hey Joe”? A gravação apostava em um rock de garagem, conseguiu um destaque na época, mas está à anos luz de distância da versão imortalizada por Jimi Hendrix. A audição é interessante mas, de fato, eles estavam longe do nível das grandes estrelas da época.

Mairon: Banda quase obscura entre os gigantes da Califórnia, o Leaves lançou somente dois álbuns, sendo este o primeiro. Diferente da psicodelia que prevalece nas demais bandas da região, o som aqui se aproxima mais do pop britânico, fazendo do grupo um tanto quanto deslocado no tempo e geograficamente. Por exemplo, é muito estranho ouvir as baladinhas “Girl From The East” e “Just a Memory” em pleno 1966 (dois anos antes, elas seriam sucesso, certamente). Aquela guitarrinha de acordes abertos, com boas harmonias vocais e arranjos dançantes, se fazem presentes em “He Was A Friend Of Mine”, “Words” e na ótima “Tobacco Road”, que me lembrou um pouco Yardbirds. “Too Many People” tem ares dos Stones, e também é uma ótima faixa. Gosto da agressividade de “Hey Joe”, da gaitinha em “Dr. Stone”, e principalmente, os solos sem sentido algum da instrumental “Back On The Avenue”, onde a gaitinha também se faz presente. Um disco legalzinho de se conhecer, só que bem estranho para californianos de 1966.

Marcelo:

Marcello: Primeiro da lista, primeiro “quem?” de vários… Fui me informar sobre a banda e só reconheci o nome de Jim Pons, que foi do Turtles e do Mothers of Invention. Achei legal que os vários membros da banda escreveram metade das músicas do disco. Após a abertura com “Dr. Stone”, com sua Bo Diddley beat, veio a baladinha meio beatle “Just a Memory”, que não me impressionou – mas a versão de “Get Out of My Life, Woman”, é muito legal, rivalizando com a de Al Kooper e Mike Bloomfield (aliás, o guitarrista Bobby Arlin faz um trabalho de responsabilidade nessa música. Outra baladinha inocente, “Girl from the East”, também falhou em me chamar a atenção, enquanto outra cover, “He Was a Friend of Mine”, remete à versão dos Byrds, especialmente pela bela harmonia vocal entre Pons e o vocalista John Beck. O que seria o lado A se encerra com a versão de “Hey Joe”, que teria sido a primeira a fazer sucesso na parada, antes de Hendrix; não adianta, Jimi fez a única versão que presta dessa música (a do Deep Purple é uma bobagem, a dos Byrds é um saco e esta do Leaves parece misturar a música com “Feel a Whole Lot Better”, também dos Byrds). “Words”, dos hitmakers Boyce e Hart, prepara para “Back on the Avenue”, uma instrumental que me fez lembrar “2120 South Michigan Avenue”, dos Stones – mas com guitarras melhores e um ritmo mais acelerado. “War of Distortion” é cheia de efeitos e acaba sendo a pior música original do disco, um experimento meio tolo. Outra versão para uma música bem conhecida, “Tobacco Road”, também não funciona (particularmente, prefiro a versão de Eric Burdon & War). Outra baladinha com sabor de Beatles, “Goodbye My Love”, vem na sequência – mas essa foi a que mais gostei nessa seara. O álbum se encerra com “Too Many People”, delicioso rock de garagem tipicamente sessentista. Apesar de ser um disco recheado de covers que outros fizeram versões melhores, gostei do The Leaves.


Celeste – Celeste [1976]

André: Os italianos eram diferenciados demais nos seus progs setentistas. Havia uma riqueza em suas composições, quase que como se quisessem soar como seus antigos compositores clássicos à uma nova onda de admiradores. Tudo aqui neste disco soa leve, bonito, é pintar uma linda paisagem utilizando sons ao invés de tintas. É assim que me sinto quando ouço “Favole Antiche”, por exemplo.

Anderson: É impossível não perceber que essa obra é algo diferenciado, feito com cuidado e com maestria. É progressivo, mas não soa como o que predominava no rock inglês e toda escola que este fazia no período em questão, aqui o som é bem mais calmo e menos virtuoso. Predomina uma sonoridade clássica e acústica, sem aquela crescente progressão que culmina, muitas vezes, no ápice do rock progressivo mais tradicional. Cria-se um clima bucólico, um ar de tranquilidade e contemplação, o que faz sentido inclusive com a capa do álbum e nome da banda. Não é o tipo de música que me agrada, mas achei muito interessante de ouvir. Agora, se pretende fazê-lo, tenha muita calma e paciência no espírito.

Davi: O Celeste é uma banda de rock progressivo italiana. A sonoridade aqui é bem calma, bem relaxante. Os arranjos fazem bastante uso de violões, mellotron, violinos, flautas, pianos… Eu, particularmente, não gostei do trabalho vocal, achei bem morto. Do lado instrumental, não há como negar a qualidade do trabalho apresentado aqui, embora esse não seja, de fato, o tipo de rock progressivo que eu gosto. O disco não chega a ser ruim, mas é aquele trabalho que tem um momento certo para ouvir. Se tivesse que pinçar uma música daqui, certamente seria a faixa de abertura: “Principe Di Un Giorno”.

Mairon: Ah o rock progressivo italiano e suas diversas facetas, coisa boa. O Celeste é (mais uma) banda pouco conhecida advinda do país da bota, sendo uma irmã gêmea da gigante Museo Rosenbach. O som deles é voltado mais para passagens acústicas, típicas de um Genesis da era Trespass/Nursery Crime, onde o violão de Mariano Schiavolini e os instrumentos de sopro de Leonardo Lagorio são o grande destaque. “Principe Di Giorno”, faixa que acabou tornando o álbum mais conhecido mundialmente, após um resgate feito em um relançamento japonês, é uma faixa belíssima, com exploração dos instrumentos supracitados e muito mais (o piano e o mellotron são instrumentos brilhantes também). Só que nem só disso vive Celeste. O que é aquele piano e todo o arranjo instrumental de “Giochi Nella Notte”? Simplesmente de chorar de tão belo. Ou as alternâncias entre violões e sintetizadores de “La Danza Del Fato”?? Arrepiante. Os instrumentos de sopro se sobressaem na fantástica “Eftus”, levada por uma condução extremamente peculiar de baixo e violão. Aliás, Schiavolini brilha no dedilhado e nos harmônicos de “Favole Antiche”, com um excelente arranjo de teclados novamente. Um baita disco, e uma belíssima lembrança do André. Parabéns pela indicação!

Marcelo:

Marcello: Outro ilustre desconhecido para mim – mas não me surpreende porque não conheço quase nada do rock italiano. O disco (único gravado por eles nos anos 70) como um todo faz a festa dos fãs do Premiata Forneria Marconi em seus momentos mais leves e pastorais, mas embute mais influências. “Principe di Giorno” abre o álbum com flautas, mellotron e violões, vocais suaves e uma ótima bateria, mas no todo é meio monótona. “Favole Antiche” tem uma introdução no mellotron que me lembrou King Crimson – acho que os italianinhos ouviam muito a banda de mestre Fripp, mas infelizmente não tinham um guitarrista do mesmo naipe, já que o que se ouve mais nesse departamento é o violão – e melhorou bastante a impressão do disco (e de novo a bateria é interessante). “Eftus” traz de novo o violão em destaque, até a entrada do mellotron, e, no interlúdio instrumental, um sintetizador; aqui, em alguns momentos, a música me fez pensar no Genesis dos primeiros discos, embora não seja propriamente uma semelhança. “Giochi della Notte” é bem diferente, mais aventureira, com um sax meio dissonante, mais jazzístico, e quase inteiramente instrumental (os vocais entram nos últimos dois minutos), a música que mais gostei. Infelizmente, na sequência, veio “La Grande Isola”, que me soou bem desinteressante, parecendo uma mistura do que as músicas anteriores tinham de mais fraco (apesar do bom trabalho de baixo de Giorgio Battaglia). “La Danza del Fato” começa com efeitos sonoros até que o piano e a flauta desenvolvem a melodia, outra bela música, rica em texturas, mas infelizmente curta. O disco se encerra com “L’Imbroglio”, com sabor medieval, música que teria dado algo a pensar para Ritchie Blackmore e Candice Night, interessante, mas basicamente uma vinheta. Os músicos se dividiam entre vários instrumentos, com destaque absoluto para Leonardo Lagorio, que tocava teclados diversos, flautas e saxofones, e Ciro Perrino, responsável pela percussão, flauta, mellotron e xilofone. Se os vocais não chegam a impressionar, o instrumental é bom. Uma surpresa agradável, sem dúvida, mas não é um disco que irei revisitar com frequência


Aviator – Aviator [1986]

André: Já disse muitas vezes por aqui o quanto adoro a sonoridade AOR oitentista, e o disco que os apresento o possui desde o primeiro riff de guitarra até o último toque de teclado. Uma banda que só durou este disco, mas cuja sonoridade tinha tudo para o sucesso na época em que bandas como esta surgia em cada canto dos Estados Unidos. Som típico de Los Angeles, mas feito em New York. “Wrong Place Wrong Time” é um exemplo perfeito de canção com aqueles refrões grudentos chacoalhadores de cabelos.

Anderson: Baita Hard Rock, com a cara da década de 1980, aquela sonoridade AOR com muita melosidade, solos inspirados de guitarra e teclados proeminentes e que criam um clima específico a cada momento, refrões pegajosos e um Ernie White inspirado nos vocais. Receita de sucesso, sucesso que não obtiveram com este lançamento nos anos 1980. De qualquer modo foi relançado por duas vezes, o que indica sua qualidade. Gostei muito da inicial “Front Line” com seu refrão fácil, do mesmo modo “Comeback” se encaixa. Destaco, ainda, as boas e animadas “Back on the Street” e “Can’t Stop”, sendo esta muito legal em sua atmosfera de “filme de ação”. Há, e não poderia ser diferente, baladas como “Don’t Turn Away”, “Wrong Place Wrong Time” bem melódicas, mas é “Magic” que assume o posto de “balada do álbum”, me lembrou Mr. Big de alguma forma. Enfim, um bom álbum.

Davi: Não conhecia nada dessa banda. Fui buscar informações sobre eles e descobri que esse é o único disco deles. Embora a capa seja bem sem graça, diria até brega, o disco é excelente. Claro… Esse não é um trabalho recomendado à fãs de metal extremo, nem de rock progressivo. O que temos aqui é uma banda típica de hard/AOR com aquela sonoridade característica dos anos 80. Imagine, sei lá, uma mistura do Survivor do meio dos anos 80 com o primeiro álbum do Bon Jovi. Se você curte esse tipo de som que conta com teclados em evidência, refrãos chiclete, bons riffs de guitarra e solos virtuoses, pode ir sem medo. “Front Line”, “Back On The Street”, “Wrong Place Wrong Time” e “Can´t Stop” se destacam.

Mairon: Desconhecia totalmente esta banda, e quando vi a capa, logo de cara imaginei um som oitentista típico dos piores filmes estadunidenses da Sessão da Tarde. E não é que acertei? Dito isso, músicas datadas que soam numa espécie de um Bon Jovi da shopee através do vocal tenebroso de Ernie White, ou os solos de guitarra fritativos, tentando emular Eddie Van Halen sem o mínimo de qualidade, de Richie Cerniglia. Quando chegou na quinta música, encerrando o lado A, eu já não aguentava mais. Daí demoraram dois dias para eu terminar de ouvir isso aqui e chegar a uma conclusão triste de que havia perdido meu tempo. André, eu não merecia ter ouvido “Magic”, buda que partiu! Disco chatíssimo, para adolescentes branquinhos cheio de sardas curtirem com uma Pepsi Cola na mão …

Marcelo:

Marcello: Terceiro disco desconhecido da lista. Fui buscar informações no Discogs e tomei um susto com o visual poodle dos quatro músicos – típico do pavoroso ano de 86. Começando a ouvir o disco, não fiquei desapontado: basicamente um AOR um pouco mais hard, com um pouco mais de distorção na guitarra e refrões que me fizeram pensar em um “sabor Bon Jovi” – se o original não é lá essas maravilhas, imagina o genérico. “Front Line” tem todos os clichês possíveis e imagináveis da época, mas “Back on the Street” é bem legal, com refrão grudento ao extremo. Essa merecia um pouco mais de sucesso. “Don’t Turn Away” é mais leve e cadenciada, mas também não chega a entusiasmar, e “Wrong Place, Wrong Time” é aquela música que te dá sensação de deja vu de tanto que recicla o som da época (mas gostei do solo de guitarra). “Never Let the Rock Stop” parece ter uma letra que cairia bem em disco do AC/DC, mas não deu de engolir de jeito nenhum (o vocalista aqui deixou muuuuuito a desejar…). “Come Back” lembrou um pouco o Kiss oitentista – e quem conhece bem sabe que isso não chega a ser elogio – mas o refrão voltou ao terreno bonjoviano da primeira música. “Magic” é uma semi-balada muito enjoadinha, que me fez pensar que o Aviator não fez sucesso não por ser azarado, mas porque não merecia. Pelo menos, “Can’t Stop” melhorou bastante o nível, e junto com “Back on the Street” preencheu a lista de destaques do disco – mas teria sido melhor deixar a guitarra de Richie Cerniglia sem o coro repetindo o título o tempo todo no final. Quando vi o nome da música seguinte, “Too Young”, pensei em pedir socorro ao Chapolin Colorado; ao ouvi-la, percebi que nem ele poderia me salvar. O pior estava por vir: “Every Schoolboy Knows” tem um teclado pavoroso na introdução, e daí piora. “Through the Night” é um pouco melhor, mas nada muito marcante. A edição que ouvi tinha 13 músicas, o original, 11 – uma reedição em CD colocou duas músicas de bônus, provavelmente por pressão popular. Conclusão: eu até gosto de farofa, mas tem que ser bem feita, senão tudo o que acontece é a gente ficar engasgado…


Skyclad – Oui Avant-garde á Chance [1996]

André: Um dos meus favoritos deles e até o tenho em cd. Fazia uns anos que eu não o escutava e me lembrei o porquê gosto tanto dos ingleses do Skyclad. É uma banda de folk metal divertida e que não se leva muito a sério, cheia daquelas passagens com referências medievais junto a guitarras do metal que meio que acabaram por os tornar uma das bandas pioneiras no estilo que influenciaria muitas outras. MArtin Walkyer tem um jeito e um vocal muito diferente da maioria dos cantores e sempre que o ouço, reconheço de cara ser o Skyclad. O meu favorito deles é o A Semblance of Normality de 2004, mas como queria há tempos indicar algum disco deles, veio esta oportunidade.

Anderson: Melhor material que ouvi nessa leva de recomendações, trata-se de um rock que flerta fortemente com o heavy metal (impossível não lembrar do Alestorm, cujos membros devem ter ouvido muito esse álbum), porém com muito folk e algo de psicodélico. Algumas passagens são mais sombrias e cadenciadas, outras mais leves e animadas, no geral tudo muito bom de ouvir. Como dito, algumas coisas pesadas como em “A Badtime Story”, “Postcard From Planet Earth” ou “Jumping My Shadow” que possui uma atmosfera maravilhosa, estão presentes e dão peso ao material. Porém, outras músicas como “Come on Elileen” com seu jeito de balada ou “If I Die Laughing”, “It’ll Be an Act of God” dão ao álbum um ar mais leve e até bobo. O mais interessante é que tudo isso misturado funciona muito bem, ao mesmo para mim. Muito bom.

Davi: Esse foi difícil de chegar até o fim e, honestamente, esperava outra coisa. Os arranjos aqui apostam mais em violões do que em guitarras e mesmo quando essas aparecem soam sem peso, sem vida. Não sei se é uma característica do estilo, mas por serem vendidos como uma banda de folk/metal, esperava arranjos mais viscerais. Também não gostei do trabalho vocal. Não gosto da voz do Martin Walkyier, e as linhas vocais são chatíssimas. As composições não me chamaram a atenção e o cover de “Come On Eileen – hit divertidíssimo do Dexys Midnight Runner – é extremamente desnecessário, muito longe do original. O único ponto que achei interessante foi o modo em que os violinos foram utilizados.

Mairon: Lembro até hoje da empolgação que um colega me apresentou o Skyclad, ali pelos anos 2000, e de quanto eu achei o som da banda ruim. Hoje, passados mais de 25 anos sem ouvir eles, tive que fazê-lo por conta do respeito ao André e ao site. Uma mistura de rock com heavy metal e elementos folk que em nada conseguem me soar agradável. A ideia até que é interessante, principalmente pela presença marcante do violino em faixas como “Great Blow for a Day Job” e “Master Race”. Quando eles resolvem fazer música de verdade, daí a coisa muda de figura, como por exemplo a bonita “Jumping My Shadow”, a boa instrumental “Bombed Out” e principalmente “Constance Eternal”, sendo esta a melhor faixa do disco. Mas é só.

Marcelo:

Marcello: Quando fui buscar informação sobre o grupo fiquei meio assustado com o fato de terem uma discografia bem fornida e ser outro que nunca tinha ouvido falar. Mais ainda, não sabia que existia um estilo de folk metal. O resultado é que a primeira audição me causou tanto estranhamento que não consegui sequer concluir se tinha gostado ou não do disco. As seguintes não mudaram muito a minha situação, mas pelo menos me permitiram formar opiniões sobre as músicas do disco; gostei da abertura com “If I Die Laughing, It Will Be an Act of God”, da versão de “Come On Eileen”, do Dexy’s Midnight Runners, da instrumental “Bombers Out (Instrumental)” e de “History Lessens”, que foi provavelmente a minha favorita, com um clima épico ajudado pelo violino de Georgina Biddle. “Postcard from Planet Earth” e “Jumping my Shadow” são bem diferentes do resto do disco, com menos influência de folk, mas, embora tenha gostado da primeira, a segunda não me atraiu. A versão de “Master Race” ficou mais hard/heavy do que folk, mas também é bem interessante. Agora, por outro lado, “Great Blow for a Day Job” soa como se o Fairport Convention tivesse decidido adotar distorção nas guitarras – e como adoro o FC, não consegui apreciar a música (o título é hilariante, aliás). Um clima semelhante permeia “Constance Eternal”, que achei mais próxima do som do Fairport. “Bombjour” foi uma música que em cada audição precisei voltar, porque não tinha prestado atenção nela (e continuo sem me lembrar da bendita). “A Badtime Story” precisava de um vocalista melhor para realizar seu potencial. No todo, o disco não chega a ser ruim, mas também não me impactou. É bem melhor que o do Aviator, mas fica numa posição intermediária na lista, e provavelmente não voltarei a ele.


Steve Hackett – Wild Orchids [2006]

André: Não é um disco fácil de digerir, mas é aqui que se percebe claramente o quanto Hackett é um músico diferenciado devido o tamanho imenso de influências exóticas que se nota claramente que o velho guitarrista britânico ouve e que ele quis referenciar tudo de uma vez neste solo. É nesse tipo de trabalho que os caras podem experimentar e Steve não fez por menos. Seus lindos solos junto à orquestrações, folk, prog e ambient fazem uma salada mista que muito me agrada. É o típico disco “muderninho” que me agrada.

Anderson: Creio que não consegui captar a proposta desse álbum, pois suas várias facetas e construções musicais me causaram estranheza. Quando você pensa que ele vai seguir um caminho, vem outra música e destrói tudo (ou até na mesma música). Gostei muito de “Man in the Long Black Coat” e “A Dark Night in Toytown”, mas ao mesmo tempo tem umas músicas que não consegui digerir, como “Until the Last Butterfly”. Algumas orquestrações interessantes aqui e ali, outras que destoam totalmente…e de repente algo mais folk seguido de um solo altamente técnico e com cara de metal. Não há um contexto musical definido, coisa que aprecio no geral. É como sempre escrevo por aqui, o rock progressivo não é minha praia.

Davi: Que o Steve Hackett é um puta músico, é indiscutível, portanto ouvi esse álbum com grandes expectativas. Infelizmente, não gostei do resultado. Aqui, ele aposta em diferentes direções. Há músicas mais rocks, há composições mais clássicas, há vocais declamados. É um disco que tem de tudo um pouco e, na minha opinião, apresenta um tracklist que não se sustenta. Gostei das orquestrações em “To a Close” e “She Moves In Memories”, achei o rock “Ego and Id” interessante, curti “Man in The Long Black Coat” com sua linha vocal àla Mark Knopfler. No entanto, a única composição que considerei realmente forte foi “Waters of The Wild”, onde ele usava e abusava de influência indiana, chegando até a utilizar sítara. Infelizmente, muito pouco para um artista dessa dimensão.

Mairon: A carreira solo de Steve Hackett tem muitos pontos baixos, mas neste século, ele vem lançando bons e ótimos discos, dentre eles este aqui. Seu 18° (!) disco solo é bastante experimental, com destaque para a presença fundamental da The Underworld Orchestra, a qual é a peça central da lindíssima “She Moves In Memories” e comanda o ritmo insano de “A Dark Night in Toytown”. Peguei a edição especial para ouvir (com 17 canções) e o disco roda tranquilo, tendo excelentes passagens em “Transylvanian Express”. Confesso que as canções com vocais não me chamam tanto a atenção, apesar de ser legal ouvir as influências orientais em “Waters of the Wild”, a ótima revisão para “Man in the Long Black Coat”, de Bob Dylan, e o peso de “Ego and Id”. Ao mesmo tempo, faixas que remetem ao início solo de Hackett (“The Fundamentals of Brainwashing”, “Set Your Compass”, “To A Close”), são extremamente bem-vindas. Por outro lado, quando Hackett sola brilhantemente, daí não há como não gostar de ouvir sua guitarra, principalmente em “Blue Child”, fácil a melhor canção do disco, e no apavorante dedilhado ao violão de “Until the Last Butterfly”, uma barbaridade musical espetacular. Não lembraria desse disco na minha lista, mas foi uma baita lembrança do André aqui.

Marcelo:

Marcello: Quando recebi a lista, vi este álbum e pensei, “pelo menos alguém que eu conheço“. Steve Hackett é um daqueles músicos que acompanho a carreira menos do que deveria, então não posso colocar este álbum contra o pano de fundo de seus outros lançamentos. Mas, considerando-o em relação aos poucos discos-solo de material original que conheço do mestre, não posso deixar de considerar Wild Orchids uma decepção. Músicas fracas, arranjos ruins, poucas guitarras de destaque (o que não seria problema se as músicas fossem boas) e poucas músicas memoráveis. “Blue Child” (bela balada), “Ego and Id” (bem rocker), “She Moves in Memories” (com linda melodia orquestrada) e os violões de “Until the Last Butterfly” estão entre as raras exceções. Por outro lado, há coisas absolutamente ridículas como “Down Street” (que desperdício de um bom solo de guitarra), completamente desconjuntada e, para piorar, com vocal em deadpan, os efeitos sonoros irritantes de “Transylvanian Express”, os vocais eletronicamente tratados da infantilóide “A Girl Called Linda”, a suspeitamente parecida com música de Natal “To a Close”, e a completamente sem direção “Cedars of Lebanon”. E depois disso perdi a vontade de comentar as músicas individualmente. Para resumir: se tivesse conhecido a carreira-solo de Hackett por este disco, teria pensado que Collins, Banks e Rutherford tinham demitido o guitarrista por incompetência. O disco que pensei que seria o melhor de todos acabou se revelando uma completa perda de tempo e me fez pensar que fiz certo em nunca ter me aprofundado na discografia solo de Steve Hackett.


bonus track

The Lemon Twigs – Look for Your Mind! [2026]

André: Quando você coloca um disco de uma banda como o The Lemon Twigs, você deve estar preparado para reouvir velhas sonoridades dos anos 60 com um “quêzinho” de atual. Aqui é bem claro que os caras amam Beatles pop, Beach Boys e The Mamas & The Papas. Ou seja, sonzinho pop delicioso, rockzinho bonito e animado, harmonias vocais aos montes e aquela vive cheia de vida de uma época em que parecia que o povo vivia sem se preocupar muito com o stress diário. Relaxa e curta o que havia de bom nos rocks dos tempos de seus avós criado por caras que possuem um incrível bom gosto musical.

Anderson: Impossível não atrelar o álbum aos anos 1960, muitas referências a Beach Boys ou Beatles (no início de carreira). Existe algo mais sofisticado no som, até por estarmos em 2026, como a presença de metais e flautas que soam bem modernos. O álbum tem uma primeira metade mais animada e com momentos de destaque como a boa “Gather Round”. Posteriormente, surgem músicas menos intensas e com aspecto melódico, porém são músicas um tanto enjoativas como a enfadonha “Joy” ou a sem sal “Mean to Me”. No final, uma luz com a divertida “My Heart In Your Hands Tonight”. No mais, é um material interessante, mas sem muita pretensão, não chega a soar datado, mas peca nos detalhes.

Davi: Conheço a banda, mas ainda não tinha parado para ouvir o novo álbum. Gosto deles. Para quem está por fora, a proposta do grupo é reviver o início dos anos 60, reproduzindo aquele pop/rock mais inocente, característico da época. O disco traz fortíssimas influências de Beatles (fase beatlemania para trás), umas vocalizações bem na onda dos Beach Boys e, sim, eles conseguem reproduzir direitinho a sonoridade daquela era. “Yeah I Do” foge um pouquinho e resgata o (ótimo) Raspberries (do saudoso Eric Carmen). E realmente é bem pouquinho, já que o próprio Raspberries tinha influência dos quatro rapazes de Liverpool. “Look For Your Mind”, “2 or 3”, “Nothing But You”, “I Just Can´t Get Over Losing You”, “Bring You Down” e a já citada “Yeah I Do” se destacam. Esse e o Aviator foram os que mais gostei dessa lista.

Mairon: Mais uma banda que eu não tinha nem ideia que existia, e que quando coloquei para rodar, me surpreendeu. Certeza que isso é 2026? Sonzinho que lembra muito The Who ou Stones dos anos 60, e que é muito bom. “Look For Your Mind” foi uma grata surpresa de apresentação da banda, com aquela guitarrinha sem distorção, ótimas harmonias vocais e um solo de guitarra simples, direto, e divertido. E o disco segue surpreendendo, com um lindo arranjo orquestral em “2 or 3” e na linda “Joy”, a forte influência beatle em “Gather Round”, ou a baladaça Beach Boys de “Mean To Me”, banda que também é efervescente e visível no rockaço de “Bring You Down”, e mais belas harmonias vocais em “My Heart Is In Your Hands Tonight”. E para completar as surpresas, os caras são estadunidenses!! Músicas curtinhas, divertidas, de um passado que ainda se faz presente. Em resumo, pegaram o melhor do rcok nos anos 60 e compilaram com a cara dos anos 60 em pleno ano de 2026. Sensacional indicação, valeu André!

Marcelo:

Marcello: Outra banda que não conhecia, e que tive que ir pesquisar para saber de quem se tratava – e aí que descobri tratar-se de uma dupla de irmãos que já tem uma farta discografia desde 2015. Botei o disco para rodar e de cara a primeira música, “Look For Your Mind” me lembrou “Disguises”, do The Who, mas com harmonias vocais como a dos Beach Boys. Ela me deixou ótima impressão, mas na sequência o disco não confirmou a promessa. “2 or 3”, “Nothin’ But You”, “Bring You Down”, “You’re Still My Girl”, são músicas que me soaram como uma mistura de Beach Boys com Beatles, mas os irmãos D’Addario não são Lennon, McCartney ou Brian Wilson – eles são sem dúvida bons instrumentistas e excelentes cantores, e compõem músicas que parecem saídas diretamente dos anos 60, mas elas não são memoráveis como as de quem os influenciou. “Fire and Gold” foge um pouco desse padrão, é legalzinha, mas você esquece dela quando acaba. “Mean to Me” é Beach Boys puro, mas quem vai querer a cópia se o original coloca boxes cheias de material inédito para explorar? “Joy” é bonitinha, com seu violão e cordas, lembrando Paul McCartney solo, mas Macca faz bem melhor. “My Heart is in Your Hands Tonight” me trouxe Byrds da época do Gene Clark à cabeça por causa das guitarras e foge um pouco do padrão do disco. Também tem umas coisas difíceis de aguentar, como “Gather Round”, que ficaria melhor num disco da Turma do Balão Mágico, “I Just Can’t Get Over Losing You”, que poderia soar bem num With the Beatles em 1963, mas não tem lugar em 2026, a ridícula “Yeah I Do”, “Hurt You”, que só consigo lembrar que não gostei em nenhuma das três audições e “Your True Enemy”, que anda em círculos até acabar de forma infeliz. Para sintetizar: The Lemon Twigs tem talento para compor pop sessentista, os dois irmãos são músicos muito bons, mas o disco como um todo é bem chatinho, um desperdício de talento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.