Do Pior Ao Melhor: Jethro Tull (Parte II)

Do Pior Ao Melhor: Jethro Tull (Parte II)

Por Marcello Zapelini

Aqui nosso Do Pior ao Melhor entra naqueles discos que muitos dos fãs do Jethro Tull consideram os melhores, mas ainda assim, acredito que alguns irão se surpreender com a posição de alguns dos discos – e provavelmente outros devem estar desapontados porque seus discos favoritos estavam na primeira parte. Mas  gosto é assim mesmo, todo mundo tem o seu. Essa lista atual reflete o momento presente, portanto, nenhuma surpresa se daqui a algum tempo eu a revisitar e concluir que fui injusto com alguns discos e condescendente com outros, mas, honestamente, faz anos que os seis primeiros se alternam em suas posições – um deles foi o primeiro colocado por anos. E agora, senhoras e senhores, as obras-primas do Jethro Tull na modesta opinião deste que vos escreve!


12) Crest of a Knave (1987)
Em 1987, reduzido a Anderson, Barre e Pegg (com os bateristas Doane Perry e Gerry Conway em algumas músicas), o grupo lançou este álbum que começava com sintetizadores e bateria eletrônica em “Steel Monkey”, um bom hard rock que engata “Jump Start”, “Mountain Men” e “Raising Steam”, e muda de sonoridade com “Farm on the Freeway”, “Said She Was a Dancer” (duas músicas em que o vocal de Anderson soa curiosamente parecido com o de Mark Knopfler) e “Budapest” (com o violino de Ric Sanders, colega de Pegg no Fairport Convention), que remetem à
segunda metade dos anos 70. A edição em CD trazia “Dogs in the Midwinter” e “The Waking Edge”, a primeira mais próxima das eletrônicas, a segunda mais no espírito das outras três e com Anderson mais uma vez com vocal parecido do vocalista do Dire Straits. Crest of a Knave daria ao grupo o Grammy de melhor performance de hard rock/heavy metal em 1989, vencendo o Metallica – ninguém entendeu coisa nenhuma, mas Anderson não se incomodou com a controvérsia. Em 1988 a box set 20 Years of Jethro Tull deu aos fãs muita coisa inédita, e uma música gravada para o projeto (“Part of the Machine”) acabou entrando na reedição em CD.


11) Heavy Horses (1978)
Este álbum se assemelha um pouco a Songs from the Wood, mas sem o mesmo impacto. Anderson começava a experimentar alguns problemas de saúde que lhe afetavam a voz, mas instrumentalmente ele e a banda estavam em plena forma. Como destaques, tem-se a épica faixa-título, uma das melhores músicas do grupo, a bela “One Brown Mouse” (com letra cheia de duplos sentidos inspirada em poema de Robert Browning) e a excelente “No Lullaby” (que coloca em primeiro plano a guitarra de Barre); por outro lado também tem coisas pouco memoráveis como “…And the Mouse Police Never Sleeps”, com a letra falando de gatos e ratos (Anderson estava assistindo muito Tom & Jerry, hehehe) e “Acres Wild”, bem como a horrenda “Journeyman”. E como ainda tem “Moths” (boa música que poderia estar em Songs from the Wood), sobre as mariposas do verão, e “Rover” (outra boa música meio esquecida), que fala de um cachorro, mais da metade das músicas tinham letras sobre animais. Ainda tem “Weathercock”, dedicada àquele cata-vento em formato de galo. No cômputo geral, Heavy Horses acaba não ranqueando alto; a banda tinha feito – e ainda faria – coisa melhor. A box set é bem legal, com um show da turnê para comparar com o de Bursting Out.


10) Stormwatch (1979)
O último dos três discos de som folk-rock é melhor que Heavy Horses, mas fica abaixo de Songs from the Wood. Glascok, doente e bebendo muito, foi sacado da banda (com a promessa de ter o posto de volta quando se recuperasse), e Ian Anderson tocou baixo na maior parte do disco. O álbum começa com duas boas músicas, “North Sea Oil” e “Orion”, e tem na épica “Dark Ages” seu grande momento. Outras duas boas músicas, “Home” e “Dun Ringill”, soam bastante como os discos anteriores, e a segunda é quase um clássico do grupo. No lado B, “Flying Dutchman” e “Something’s on the Move” são os destaques, a primeira, uma bela melodia muito bem elaborada (adoro o refrão e o interlúdio instrumental, com Anderson descascando a flauta) e a segunda com um riff de guitarra instigante e pesado; “Old Ghosts” não é tão boa quanto essas duas, mas não compromete. É interessante que os dois lados do vinil se encerravam com duas boas instrumentais, “Warm Sporran” e “Elegy”, esta última composição de David/Dee Palmer (e uma das poucas músicas gravadas pelo Jethro Tull sem a participação de Anderson). No final das contas, Stormwatch seria destaque em muitas discografias por aí, mas, como a banda tem discos melhores, acaba não ficando tão alto no ranking. Outro álbum que se saiu bem na reedição em box set, sobretudo graças a um bom show em dois CDs.


9) A (1980)
A trazia Anderson e Barre acompanhados por Dave Pegg (baixo, participara da turnê de Stormwatch), Mark Craney (bateria) e um convidado especial, Eddie Jobson (teclados e violino). Deveria ser um álbum-solo de Anderson, mas foi creditado ao grupo por pressão da gravadora; o som é cheio de sintetizadores, com pouco ou nada do passado, mas de ótima qualidade, já desde a faixa de abertura (“Crossfire”). Na sequência, uma das músicas mais conhecidas dessa formação, “Filyngdale Flyer”, mostra que a mudança era real. “Working John, Working Joe” já tem um arranjo mais convencional, e os vocais (que incluem Anderson, Pegg e Jobson) acabam impressionando. Mas o que vem a seguir eclipsa todo o resto: “Black Sunday”, uma música que fica no meu top 10 das melhores do Tull; o piano de Jobson e o solo de Barre são de arrepiar. Outra ótima composição, “Protect and Survive”, abre o lado B, mas a sequência com “Uniform” (essa tem o charme do violino de Eddie), “Batteries Not Included” e “4WD (Low Ratio)” acaba soando mais fraca do que as cinco anteriores. Felizmente, o disco volta a subir de nível com “Pine Marten’s Jig”, outra música que remete ao passado recente e a bela “And Further On”. A é um disco controverso na carreira do Jethro Tull, mas é na minha opinião um clássico pouco valorizado. Outro álbum valorizado pela box, que traz em DVD o especial de TV feito à época e um show completo da turnê.


8) Benefit (1970)
Um álbum que não gostava muito e ganhou destaque quando comprei o CD; posteriormente, a box set o colocou entre os melhores deles. John Evan aparece como convidado no piano e órgão, e posteriormente entraria em definitivo. As edições americana e britânica são ligeiramente diferentes, com a primeira incluindo “Teacher” no lugar de “Alive and Well & Living In”. A flauta de Anderson abre a primeira música, “With You There to Help Me”, uma das melhores do disco. E daí em diante tem-se uma sequência impressionante, com a exceção de “Play in Time”, que nunca me disse muita coisa. Destaco em especial “Inside”, “To Cry You a Song” e “Sossity: You’re a Woman”, e em segundo plano, “Nothing to Say”, “A Time for Everything” e a curiosa “For Michael Collins, Jeffrey and Me”, sobre o astronauta que não pisou na Lua na primeira missão Apollo. Glenn Cornick saiu da banda após esse álbum, e posteriormente formaria o Wild Turkey (ele faleceria em 2014) e integraria o grupo Paris com Bob Welch após este sair do Fleetwood Mac. O substituto seria o velho amigo de Anderson, Jeffrey Hammond-Hammond.


7) Broadsword and the Beast (1982)
Um dos primeiros discos do Jethro Tull que ouvi na minha vida, e um dos que mais gosto até hoje, mesmo soando pouco como a banda dos anos 70. A banda recebia dois novos membros, Peter-John Vettese (teclados) e Gerry Conway (bateria), e as sessões renderam material para um álbum duplo, mas no final foram lançadas dez músicas. O som continuava a tendência eletrônica do álbum anterior, mas também incorporava melodias com influências folk. Gosto mais do lado B do disco do que do A – mas não é exagero dizer que o disco como um todo é muito bom. De “Beastie” a “Cheerio”, não há música ruim; a menos marcante para mim é “Clasp”, mas gosto do contraste da flauta com o sequenciador na introdução, e mesmo os vocais tratados – algo que não curto muito – não causam problema. ”Fallen on Hard Times” (com Barre na slide guitar), “Broadsword” (segunda melhor música do Tull nos anos 80, perde apenas para “Black Sunday”), “Flying Colours” (com a bela introdução de Vettese ao piano), a folksy “Slow Marching Band” (uma balada de cortar o coração) e “Watching Me Watching You” (com seu gostinho de new wave e outra introdução memorável) são as minhas favoritas no LP. A box set trouxe muito material inédito ou pouco conhecido, bem como uma montagem de gravações ao vivo na Alemanha, e é a maior que a banda já lançou, com 5 CDs e 3 DVDs.

6) Aqualung (1971)
Primeiro grande sucesso do Jethro Tull, e uma boa introdução ao som clássico do grupo. John Evan se torna membro permanente, e Clive Bunker se despede do grupo após esse disco. O álbum inicia com duas de suas músicas mais conhecidas, “Aqualung” e “Cross-Eyed Mary” – o fato do personagem Aqualung aparecer na segunda música fez todo mundo pensar que o disco era conceitual, algo que Anderson sempre negou. “My God” fez parte do setlist por décadas e “Locomotive Breath” leva a um medley que encerra os shows do grupo até hoje. “Hymn 43” é outro destaque, um quase heavy metal com flauta, e “Mother Goose” traz Anderson, Barre e Hammond-Hammond tocando flautas-doces. O álbum traz duas vinhetas, “Slipstream” e “Cheap Day Return”, e uma terceira música com menos de dois minutos (“Wond’ring Aloud”) que, como ficaria nítido na coletânea “Living in the Past”, era parte de algo maior. A única música que não me agrada muito é “Up to Me”, que não chega a ser ruim, mas não se destaca. O encerramento com “Wind Up” mantém o alto nível deste disco, que não surpreende ninguém quando é apontado como o favorito – mas não é o meu. Já saiu em box set duas vezes, uma delas acompanhada pelo LP remasterizado.


5) Songs from the Wood (1977)
David/Dee Palmer entra como segundo tecladista e a banda se torna um sexteto. O som se modifica e se torna um pouco mais folk, ainda que a guitarra distorcida de Martin Barre continue dando as caras aqui e ali. Anderson e John Glascock cantam em harmonia várias músicas, e ao vivo a faixa-título incluía vocais de Palmer, Evan, Barre e até do baterista Barlow. As músicas são bastante elaboradas, e os destaques incluem “Velvet Green”, “Jack-in-the-Green", “Hunting Girl”, “The Whistler” (ainda que, para mim, a versão instrumental na box set comemorativa do 25º aniversário da banda seja insuperável), “Pibroch (Cap in Hand)”, que tem um riff memorável de Barre, e a própria “Songs from the Wood” – mas não é exagero dizer que o disco não tem música ruim. O Jethro Tull entrava numa nova fase, quase dez anos depois de seu primeiro disco, e mostrava que não estava nem aí para o punk ou a disco music – e o resultado foi um álbum primoroso, um dos que sempre recomendo para quem quer conhecê-los. Novamente, a box set é fantástica.


4) Stand Up (1969)
Após um período complicado, em que David O’List (ex-The Nice) e Tony Iommi (aquele) quase assumiram a vaga de Abrahams, Martin Barre entrou na guitarra e flauta. Anderson dominou o disco (é o primeiro em que compôs todas as músicas, à exceção de “Bourée”), que é um dos meus favoritos da banda, e que começa com a blueseira “New Day Yesterday” e depois envereda por músicas mais próximas do som “clássico” do Jethro Tull, como “Bourée” (uma peça de Bach arranjada por Anderson, e presença obrigatória nos shows por décadas), “Nothing is Easy”, “We Used to Know”, “Back to the Family” e “For a Thousand Mothers”. O álbum ainda traz as belíssimas “Reasons for Waiting” (com arranjo de cordas de David/Dee Palmer, futuro integrante da banda) e “Look into the Sun”, bem como as divertidas “Fat Man” (que seria uma tirada de sarro com Mick Abrahams) e “Jeffrey Goes to Leicester Square”, em que Anderson toca bandolim e balalaica, respectivamente – e ainda toca harmônica, piano e órgão. Um grande trabalho embalado numa ótima capa gatefold, em que os quatro músicos se erguem ao abri-la. A box set traz dois shows da época e é imperdível.


3) Thick as a Brick (1972)
Anderson compôs “Thick as a Brick” como um trabalho conceitual, uma única música de quase 44 minutos sobre um poema de “Gerald Bostock”, um garoto que ganha um concurso de poesia somente para ser desclassificado. Se você não conhece, pare de ler imediatamente e vá atrás da música. O grupo (que estreava o baterista Barriemore Barlow) está em plena forma, a música consegue manter o interesse do ouvinte o tempo todo e o resultado é um trabalho essencial para entender o que era o prog do começo dos anos 70 – uma das poucas vezes que o Jethro Tull abordou o gênero. Do começo ao final, com Anderson e o seu violão, num tema que se repete como abertura e encerramento, “Thick as a Brick” é uma obra complexa e bela que mostra a incrível musicalidade de Anderson, Barlow, Barre, Evan e Hammond-Hammond – com um pequeno interlúdio orquestral perto do final, cortesia do então David Palmer. Ao longo dos anos, a música foi resumida para ser apresentada ao vivo – somente na turnê de lançamento e na de 40º aniversário ela foi tocada na íntegra, quando Anderson a apresentou a continuação “Thick as a Brick 2” acompanhado de sua banda solo (uma gravação ao vivo na Islândia está disponível em CD e DVD). Outro disco que não me surpreende quando é apontado como o melhor do grupo, mas acho que eles fizeram coisa melhor ainda. Infelizmente, a box set é bem fraca, com apenas o CD original remixado e um DVD.


2) A Passion Play (1973)
Um álbum que se materializou num período complicado para a banda; a formação do disco anterior estabilizara-se neste, mas o projeto original, que seria uma música dividida nos quatro lados de um álbum duplo, acabou fracassando (os famosos “Chateau D’Isaster Tapes” que seriam lançados em 1993 em Nightcap e, em versão mais fiel, na box do 40º aniversário), “A Passion Play” é uma composição mais densa e complexa do que “Thick as a Brick” – e mais difícil de gostar à primeira audição, mas se você insistir no álbum, vai ser recompensado, porque há ótimos trechos instrumentais e boas sacadas nas letras. Preciso adicionar que é um disco que cada vez que ouço eu gosto mais. Os cinco (Anderson, Barlow, Barre, Evan e Hammond-Hammond) estão extremamente afiados e Ian, inclusive, se aventura mais no sax que na flauta. Como Thick as a Brick, A Passion Play liderou a parada americana. Tempos diferentes aqueles, em que álbuns com uma só música lideravam paradas…


1) Minstrel in the Gallery (1975)
Na minha humilde opinião, a obra-prima do Jethro Tull. O último disco a contar com Jeffrey Hammond-Hammond é praticamente perfeito, e marcou a transição para os discos mais folk que se seguiram. Uma cacofonia de vozes introduz a faixa-título, com Anderson no violão e flauta, até que entra Martin Barre com uma guitarra ultradistorcida que leva ao riff principal da música, dando um tratamento rock à melodia da música. As maravilhosas “Cold Wind to Valhalla” e “Black Satin Dancer” seguem mantendo o nível do disco nas alturas, e, embora “Requiem” não me agrade muito (uma versão alternativa na box set do álbum é, na minha opinião, melhor que a definitiva), “One White Duck/ O 10 = Nothing at All”, duas baladas acústicas, repõem o disco nos eixos. A épica “Baker Street Muse” é uma música injustamente esquecida quando se fala do melhor do Jethro Tull, pois encapsula tudo o que o disco tem de melhor, e o álbum se encerra com “Grace”, vinheta de 37 segundos que soa como um pós-escrito. Infelizmente, a box set traz apenas parte de um show da turnê, e não muito bom em termos de qualidade sonora.

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