Datas Especiais: 25 Anos de Magnification

Datas Especiais: 25 Anos de Magnification

Por Mairon Machado

No dia 10 de setembro de 2001 (um dia antes do fatídico 11/09), o mundo do rock progressivo recebia aquele que se tornou o último álbum de estúdio do Yes com o vocalista Jon Anderson: Magnification. O 19° disco da banda – em termos de álbuns em estúdio – completa hoje, portanto, 25 anos, e é para mim um dos grandes discos dos já veteranos Anderson, Steve Howe (guitarra, vocais), Chris Squire (baixo, vocais) e Alan White (bateria, piano). Além disso, é o único em uma carreira de quase 60 anos, a ter apenas um quarteto na formação do grupo, graças ao ineditismo de gravar o disco ao lado da Orquestra Sinfônica de San Diego, com arranjos de Larry Groupé, que também conduziu a Orquestra.

Yes durante a Masterworks Tour

Voltando no tempo, em 1999 o Yes lançava The Ladder. O álbum trouxe como novidade o tecladista russo Igor Khoroshev, que já havia excursionado com o grupo na turnê de Open Your Eyes (lançado em 1997, e que trouxe o grupo ao Brasil inclusive com um show inesquecível em Porto Alegre). A turnê de The Ladder, batizada Masterworks, durou três meses, passando por 31 cidades dos Estados Unidos. Nela, o Yes caprichou em resgatar suítes dos anos 70, incluindo no repertório “Close to the Edge”, “The Gates of Dellirium” e “Ritual”.

Porém, a turnê foi encerrada com polêmicas envolvendo o russo, o qual foi acusado de assédios sexual e moral com policiais femininas. Segundo elas, durante o show realizado em 22 de julho de 2000, na cidade de Hartford, ele se aproximou de uma delas, que fazia a segurança próxima da grade de proteção e tentou beijá-la à força. Como foi afastado, acabou por cravar os dentes no seu pescoço. Logo após o espetáculo avançou em outra policial, dizendo palavras de baixo calão e se afastando, não sem antes alisar as nádegas da mulher. Ele foi acusado de duas contravenções, sendo liberado com uma fiança de mil dólares. Khoroshev também possuía comportamento barulhento em hotéis, e assim, pouco depois do último show da turnê, realizado em Cincinatti no dia 04 de agosto de 2000, ele foi demitido. Sem um tecladista, Anderson, Howe, Squire e White começaram a pensar sobre o que fazer, e uma ideia que surgiu era a de tocar com uma orquestra no palco. Vamos às palavras de Howe na época de lançamento de Magnification:

Igor e Jon em estudio
Steve Howe durante a gravação de Magnification

Nos encontramos com um cara chamado Larry Groupé, que trabalha com a Orquestra Sinfônica de San Diego, e começamos a conversar com ele sobre esse projeto. Inicialmente ele estava muito empolgado em fazer as músicas antigas, para tocar todas as noites, e ele vai reger. Nós vamos sair em turnê, e ele vai reger uma orquestra diferente em cidades diferentes, tocando a partitura dele do Yes enquanto nós tocamos. Me pareceu que, já que estávamos procurando uma orquestra em parte para substituir um tecladista, um dia sugeri, por que não fazemos isso com o disco; em vez de ter um tecladista, por que não usamos instrumentos de verdade quando quisermos, se quisermos cordas, por que não ter cordas de verdade. Eu não levo todo o crédito por ter pensado na ideia de colocar a orquestra, ela meio que veio através de discussões, e eu meio que percebi que era uma opção; e quando eu apontei, os caras disseram, bem, é uma ideia muito boa.

Anderson ficou surpreso que Squire e White concordaram, pois sentia que os dois sempre preferiam um som de rock mais pesado. Em janeiro de 2001, uma votação online foi publicada no site oficial do grupo perguntando se os fãs desejavam ver a próxima turnê com uma orquestra, e a resposta foi “SIM” (ou melhor, “YES”). Com a confirmação da turnê, em fevereiro a banda entra em estúdio para começar as gravações de Magnification, título escolhido pelo próprio Anderson.

Larry Groupé e Chris Squire

O álbum abre com uma das melhores canções do disco, a faixa-título, tendo o violão e a guitarra trazendo a orquestra para abrir a faixa-título. A marcante voz de Anderson surge, e “Magnification” vai ganhando força com as entradas das cordas, baixo e bateria, além de Anderson dividir os vocais com Squire. O refrão é pulsante, entoando o nome da canção, e a orquestra da um espetáculo a parte ao fundo. Além dela, Howe está impecável, e é impossível não cantar junto de Anderson o nome da canção, que abre o álbum lá em cima.

“Spirit of Survival” traz um clima bastante sombrio para letras do Yes, levada peo violão de Howe e o baixo de Squire. Os vocais de Anderson são agressivos, e a participação da orquestra é igualmente agressiva. Além disso, o baixão Rickenbacker de Squire explode as caixas de som, em uma faixa muito diferente do que estamos acostumados a ouvir no Yes, e que acabou gerando uma série de teorias, pois no dia seguinte ao lançamento do álbum, ocorreu o famoso atentado das torres gêmeas. O álbum segue com “Don’t Go”, a canção mais comercial do disco, que se fez presente nos shows de divulgação do disco, e lembra algo na linha do que foi registrado na era Trevor Rabin. Confesso que acho ela a mais fraca do disco, e portanto, passo para a próxima.

Steve Howe, Alan White, Jon Anderson e Chris Squire. Yes em 2000

“Give Love Each Day” surge com as orquestras em um clima de trilha sonora de filmes de ficção científica. A introdução orquestral é linda, nesta que é a terceira faixa mais longa do álbum, com quase 8 minutos. Após a presença de apenas orquestra por mais de dois minutos, entram guitarra, percussão e o baixo, o qual contracena com a voz de Anderson, em algo muito próximo à carreira solo de Anderson nos anos 70. Ótima faixa, com a orquestra dando um ganho sensacional para o instrumental criado pelo Yes. Impressionante como o vocal cristalino de Anderson brilha aqui, principalmente no belíssimo refrão.

Squire faz os vocais principais da próxima canção, “Can You Imagine”, a qual foi originalmente escrita para o supergrupo XYZ, que contava com Squire, White e Jimmy Page, e que chegou a gravar algumas canções demo em 1981. Aqui, com apenas três minutos de duração, ela ganha vida através do piano de White, cordas e o lap steel guitar de Howe, podendo tranquilamente ser uma faixa do aclamado Fish Out of Water. Chega então a vez de Howe brilhar ao violão na linda introdução de “We Agree”. Quem que não curte as criações acústicas do velhinho, simples mas complexas de se tocar, e que se tornam arrepiantes com a presença de um oboé que conduz aos doces vocais de Anderson. Esta é uma canção que considero muito injustiçada, pois além de bela, e com a orquestra marcando presença, “We Agree” apresenta uma das melhores performances de Howe no violão dentro do Yes. Como é bom ouvir ele acompanhando os vocais de Anderson na virada central da canção, muito Yes, e muito, muito bom.

Imagens no encarte de Magnification

Os vocais de Anderson e o violão de Howe dividem o espaço com flautas, harpa, violoncelo e violinos na bela “Soft as a Dove”, outra linda faixa, que peca apenas por ser curta. Mas mesmo assim, com apenas 2 minutos, é de uma grandiosidade que somente gênios como Anderson e Howe conseguem criar, levando à longa “Dreamtime”, uma faixa complexa, de 11 minutos, cuja introdução frenética ao violão, tendo um dramático violino solando, e a forte presença orquestral, nos coloca em uma espécie de ansiedade e curiosidade pelo que virá pela frente.

A alternância de ritmos, instrumentos e a percussão que assola “Dreamtime” fazem dela uma mini-suíte que inicialmente causa um impacto estranho, do tipo “mas o que é isso que os caras fizeram?”. Somente após várias audições que entendemos a complexidade magnifica dela, principalmente de como Howe e Squire alternam-se como o centro das atenções durante o trecho instrumental onde Howe sola ora ao violão, ora na guitarra, enquanto o Rickenbacker ressoa pelas caixas de som, e a orquestra, junto de White, comandam o ritmo numa espécie de locomotiva sem freios, cujo final é espetacular, um show orquestral sensacional, que encaminha para outra forte candidata a melhor do álbum.

Ela é a mini-suíte “In The Presence Of”, com suas quatro partes: “Deeper”; “Death of Ego”; “True Beginner” e “Turn Around And Remember”. Com White ao piano, fazendo o riff inicial, entra então a voz de Anderson, embriagante, seguido do baixo de Squire, vocalizações e o mandolim de Howe. Orquestra, bateria e guitarra surgem na sequência, dando ritmo para “Deeper”, a qual avança pelas caixas de som hipnotizando os ouvidos de uma forma singular, seja pelos vocais de Anderson, seja pelo arranjo orquestral, seja pela base vocal de Squire, seja pela guitarra de Howe.

Yes em show na Suécia, em 6 de novembro de 2001

A canção vai crescendo mais e mais, apresentando o primeiro solo de Howe, chegando então em “Death of Ego”, agora com os violões mais presentes, além do lap steel guitar de Howe. Este trecho é tenso, e tem a orquestra em maior destaque na parte instrumental, além de Howe fazer seu segundo solo, abusando da lap steel. “True Beginner” então aparece com fortes vocalizações e marcações como só o Yes sabe fazer, e cara, que coisa magnífica é a harmonia vocal que os caras criam aqui. Finalmente, “Turn Around And Remember” encerra com baixo, lap steel e orquestra conduzindo a voz de Anderson falando “Turn around and remember that …“, alternando os fins de cada frase, e fechando com “Standing on sacred ground“, para mais um belíssimo solo de Howe, naquilo que pode ser facilmente definido como uma Maravilha Prog. O álbum fecha com “Time is Time”, pequena canção de apenas dois minutos, que serve como uma despedida digna de Anderson, lembrando a saudosa “We Have Heaven”, de Fragile.

A capa do álbum apresenta a arte criada por Bob Cesca, depois de quatro artes criadas pelo genial Roger Dean. Ela traz o logo criado por Dean =em 1972, que não agradou a Howe, que afirmou que “é uma imagem sem brilho, sem graça e sombria que não fez nada além de decepcionar os fãs e a mim.”

O EP YesSymphonic, com canções que acabaram saindo em lançamentos com extras

Entre 2001 e 2004, saíram relançamentos do álbum, trazendo como bônus um CD com faixas ao vivo inéditas, registradas nas turnês Masterworks (ainda com Khoroshev nos teclados) e na turnê promocional de Magnification (que falarei a seguir). Aos completistas, vamos para as edições, com as respectivas canções bônus gravadas ao vivo:

– Edição dupla com CD-Rom: “Deeper (In The Presence Of)”; “Gates Of Delirium” e “Magnification”, além de entrevista com Jon Anderson, o clipe de “Don’t Go” e o vídeo de “Gates Of Delirium” ao vivo;

– Edição dupla normal: “Ritual-Nous Sommes Du Soleil” (com Igor Khoroshev) e “Long Distance Runaround”;

– Edição dupla normal: “Close To The Edge” (com Igor Khoroshev) e “Long Distance Runaround”;

– Edição dupla normal: “Gates Of Delirium” (com Igor Khoroshev) e “Long Distance Runaround”;

– Edição dupla normal: “Long Distance Runaround”, “Don’t Go” e “Magnification”;

– Edição dupla normal: “Gates Of Delirium”, “Starship Trooper”, “And You & I” e “In The Presence Of”;

– Edição dupla normal: “Close To The Edge”, “Long Distance Runaround” e “Gates Of Delirium / Soon”;

Steve Howe e Tom Brislin, em ensaio para a Symphonic Tour

A turnê de promoção de Magnification foi – como quase toda turnê do Yes – audaciosa, com a banda tendo no palco a companhia de uma orquestra e o tecladista estadunidense Tom Brislin (futuro Camel, Renaissance, Kansas, entre outros).

Ela foi batizada de Symphonic Tour, e o show em Amsterdam, no Heineken Music Hall, em 22 de novembro de 2001, acabou sendo registrado no CD, DVD e LP Symphonic Live, um dos grandes ao vivos da banda. Felizmente, no track list há três faixas (“Magnification”, “Don’t Go” e “In The Presence Of”) do aniversariante de hoje, deixando para a posteridade o brilhantismo ao vio daquilo que o Yes criou há 25 anos em estúdio, em um de seus melhores trabalhos. Ouça sem medo!

Track list

1. Magnification

2. Spirit Of Survival

3. Don’t Go

4. Give Love Each Day

5. Can You Imagine

6.We Agree

7. Soft As A Dove

8. Dreamtime

9. In The Presence Of

10. Time Is Time

Machado

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