Cinco Discos Para Conhecer: Templos do Rock – BBC [Parte 2]

Cinco Discos Para Conhecer: Templos do Rock – BBC [Parte 2]

Por Marcello Zapelini

Para esta segunda parte, escolhi discos gravados ao vivo em um único concerto. No máximo se aceita que a BBC tenha generosamente incluído músicas de outro show gravado pelo grupo ou músico como bonus tracks. Alguém mais mal-humorado provavelmente vai apontar que o Deep Purple traz dois shows em vez de um e me perguntar por que não incluir o fabuloso Live in London; como esse já foi objeto de resenha minha aqui mesmo no site, preferi trazer In Concert – e ainda há um aspecto pessoal: foi o primeiro disco que comprei na vida que trazia músicas gravadas pela BBC, uns 40 anos atrás.

Alguns dos discos que tinha pré-selecionado para essa parte 2 acabaram ficando de fora, como é o caso do Wishbone Ash, que tem o seu show de 1972 (diga-se de passagem, um concerto simplesmente maravilhoso) incluído numa box set e o Live at Hammersmith ’84 do Jethro Tull, que recentemente foi disponibilizado como quinto CD da edição em box set de Under Wraps depois de décadas fora do catálogo. Mas acredito que tem coisa boa o suficiente para gerar uma boa discussão! E, claro, se você que está lendo lembrar de um bom disco com as características dos escolhidos, manda ver nos comentários!! No próximo mês a BBC volta aos Templos do Rock por meio das boxes lançadas por vários músicos contendo múltiplos shows e sessões nos estúdios.


DEEP PURPLE – In Concert 1970 1972 (1981)

Em 1980, a coletânea Deepest Purple vendeu muito bem e provou que havia espaço para no mercado para o então extinto grupo inglês. A EMI preparou, então, um belo álbum duplo contendo dois shows (1970 e 1972) da Mark II; além da “longa metragem” (mais de 108 minutos de música no original), o álbum trazia várias fotos inéditas e um pequeno texto sobre os shows. O concerto de 1970 trazia apenas quatro músicas: “Speed King” (para mim, em sua melhor versão ao vivo) e a imensa instrumental “Wring That Neck” (com solos memoráveis de Lord e Blackmore e uma bateria jazzística de Paice), além de uma “Child in Time” com Ian Gillan engasgando num dos gritos e “Mandrake Root” com longa improvisação instrumental (onde Lord reafirma seu status como um dos melhores tecladistas do rock inglês) formavam o disco 1, ao passo que o segundo LP trazia uma apresentação que destacava o recém-lançado Machine Head, cujo grande destaque era a única versão ao vivo conhecida de “Never Before” e a primeira aparição de “Lucille”, que a banda costumava tocar no bis; no resto, “Highway Star”, “Strange Kind of Woman”, “Lazy” e “Space Truckin’” aparecem em versões ligeiramente mais fracas do que as de Made in Japan, mas, ainda assim, memoráveis. Posteriormente, a reedição em CD acrescentaria “Smoke on the Water” e outra raridade ao vivo na época, “Maybe I’m a Leo” – ou seja, Machine Head é apresentado praticamente na íntegra, faltando apenas “Pictures of Home”. In Concert é um álbum que mostra a evolução do Deep Purple em pouco mais de dois anos, com o show de 1970 sendo um dos últimos em que Blackmore usou sua Gibson ES335 semiacústica e o de 1972 mostrando uma banda já madura, mas ainda com grande potencial de crescimento. É pena que nenhum dos dois shows traga um solo de Ian Paice, mas ninguém é perfeito; quando comprei esse disco em 1985-86, ele rolou muito no toca-discos, e me lembro de muitas vezes ouvir o LP1, depois Made in Japan (à exceção de “Space Truckin’”) e voltar ao LP2 de In Concert para ouvir “Never Before” e o lado 2 inteiro (bons tempos…) só para ter uma experiência “mais completa”! Algumas edições trazem apenas o segundo disco, com uma versão gravada no soundcheck para “Maybe I’m a Leo” como bônus.

Ian Gillan (vocais), Ritchie Blackmore (guitarras), Jon Lord (teclados), Ian Paice (bateria), Roger Glover (baixo)

  1. Speed King
  2. Wring That Neck
  3. Child In Time
  4. Mandrake Root
  5. Highway Star
  6. Strange Kind Of Woman
  7. Lazy
  8. Never Before
  9. Space Truckin’
  10. Lucille

ROBIN TROWER – BBC Radio 1 Live in Concert (1995)

Gravado em 29/1/1975, ou seja, quatro dias antes do monumental Robin Trower Live!, este show registrado no Paris Theatre tem muita sobreposição com o repertório de seu “irmão” mais famoso, mas nem por isso deve ser desprezado – pelo contrário, nenhum fã de Trower poderia ficar sem esse belíssimo disco, que comprova que o guitarrista e seu trio estavam passando por uma fase excepcional. Diferentemente do ao vivo “oficial”, este álbum traz as músicas na ordem em que foram apresentadas, e apresenta dez músicas, sendo cinco (“Bridge of Sighs”, “Gonna Be More Suspicious”, “Day of the Eagle”, “Twice Removed from Yesterday” e “Fine Day”) diferentes das apresentadas em Live! (infelizmente, duas das melhores desse disco não aparecem no da BBC, “Too Rolling Stoned” e “I Can’t Wait Much Longer”). É verdade que as versões das músicas repetidas se diferenciam relativamente pouco das de Live!, mas algumas audições cuidadosas revelam que Trower modificava um detalhezinho aqui e acolá nos seus solos, e, em alguns casos, como “Lady Love”, a banda soa ainda mais enérgica do que no disco mais famoso. A abertura explosiva com “Day of the Eagle” mostra que essa música específica fez falta em Live! O encarte é bem pobre e cita Jeff Griffin como produtor e o local da gravação, e indica que se trata de produto oficial licenciado pela BBC. Na época, o único álbum de Trower que tinha era justamente o ao vivo, então, este foi o primeiro em que ouvi ele tentando cantar com Dewar em “Twice Removed from Yesterday” (do Procol Harum só tinha o primeiro e uma coletânea – ou seja, não conhecia a voz do guitarrista), e isso só confirmou o acerto em deixar o baixista cantar. Se Deep Purple In Concert foi meu primeiro vinil gravado na BBC, BBC Radio 1 Live in Concert foi meu primeiro CD registrado nela. Hoje não é muito fácil de obter, mas a recente reedição de Robin Trower Live! traz mais músicas.

Robin Trower (guitarra, vocais) James Dewar (baixo, vocais), Bill Lordan (bateria)

  1. Day Of The Eagle
  2. Bridge Of Sighs
  3. Gonna Be More Suspicious
  4. Fine Day
  5. Lady Love
  6. Twice Removed From Yesterday
  7. Daydream
  8. Alethea
  9. A Little Bit Of Sympathy
  10. Rock Me Baby

FOCUS – Live at the BBC (2004)

Gravado no Victoria Theatre em 21 de março de 1976, este álbum traz o guitarrista Philip Catherine e o baterista David Kemper (que participara de Mother Focus – último disco com Jan Akkerman) ao lado do fundador Thijs Van Leer (teclados, flauta e vocal) e do já veterano Bert Ruiter (baixo e vocal), numa formação que não durou muito tempo – quando a banda gravou com P. J. Proby em 1977, Eef Albers tinha entrado como segundo guitarrista e o futuro Journey Steve Smith era o baterista. Mas é um álbum imperdível de um Focus menos prog e mais fusion, com cinco músicas (uma delas, essencialmente o solo de flauta de Van Leer) que não apareceram em outros lançamentos (“Maximum” e “Sneezing Bull” seriam lançadas em Focus Con Proby, e “House of the King” e “Hocus Pocus” são as únicas músicas dos discos anteriores apresentadas). Por mais que eu seja um grande apreciador de Jan Akkerman (um guitarrista um tanto injustiçado, pois poucas vezes é lembrado nas listas de melhores), Catherine é um monstro das seis cordas, e se sai muito bem nas bases e solos, e ainda trouxe duas composições, “Angel WIngs” e a já citada “Sneezing Bull”. “Blues in D”, do baixista Ruiter, é um dos destaques entre as músicas novas, e a versão de “House of the King” não perde em nada para a original. Um medley inédito é, entretanto, o grande destaque: “Little Sister” começa suave e traz inclusive belo desempenho vocal, e ganha vigor em sua segunda parte, “What You See”, em que Ruiter puxa a música com seu baixo e Catherine brilha com um solo primoroso, até “Little Sister” voltar. Naturalmente, o programa se encerra com “Hocus Pocus”, que começa direto no yodel, e mantém o peso e a velocidade insanos das versões com Akkerman, mas a guitarra está bem mais discreta – Ruiter acaba aproveitando para ocupar os espaços deixados por Catherine. Neste Live at the BBC, Thijs Van Leer toca menos flauta do que o recomendável e na maior parte do tempo substitui o órgão pelo piano elétrico, mas não deixa de impressionar sempre que tem a oportunidade. Hesitei inicialmente em incluir o álbum, pois meu exemplar é uma edição pirata, mas como o disco saiu oficialmente pelo selo HUX, decidi que precisava incluí-lo.

Thijs Van Leer (teclados, flauta e vocal), Philip Catherine (guitarras), Bert Ruiter (baixo), David Kemper (bateria)

  1. Virtuous Woman
  2. Blues In D
  3. Maximum
  4. Sneezing Bull
  5. Sonata For Flute
  6. House Of The King
  7. Angel Wings
  8. Little Sister / What You See
  9. Hocus Pocus

DIRE STRAITS – Live at the BBC (1995)

Um dos poucos lançamentos de arquivo do Dire Straits (algo que parece estar finalmente mudando com o recente lançamento de uma box para o clássico Brothers in Arms), Live at the BBC traz cerca de 35 minutos de um show registrado no ubíquo Paris Theatre em 19 de julho de 1978 para o programa Live in Concert da rádio, com a formação original (Mark e David Knopfler nas guitarras, John Illsley no baixo e Pick Withers na bateria), e um bônus gravado em 1981 para o programa de TV Old Grey Whistle Test, uma versão de “Tunnel of Love” já com Hal Lindes na guitarra no lugar de David Knopfler e Alan Clark nos teclados, que acrescenta mais 11 minutos ao CD. Seis das nove músicas do primeiro LP autointitulado são registradas nesse show em versões superiores às de estúdio, na minha opinião – e ainda há uma raridade, “What’s the Matter Baby”, parceria entre os irmãos Knopfler que não aparece em nenhum outro álbum deles (uma música mediana, que não prejudica e nem entusiasma mais do que o “gostinho” de novidade). Diante disso, seria possível afirmar que, se você não gosta do primeiro disco, não valeria a pena ouvir este álbum, mas a verdade é que a banda funciona melhor ao vivo – ainda que a reação do público seja, na melhor das hipóteses, morna. Também é verdade que “Sultans of Swing” empalidece em relação à versão definitiva registrada em Alchemy, mas aqui aparece numa forma um pouco mais contida, sem tantos floreios quanto à do duplo ao vivo de 1984, mas ainda assim dando espaço para Mark brilhar nos solos – coisa que, aliás, ocorre em praticamente todas as músicas (inclusive na slide guitar em “Water of Love”). A bela “Wild West End” (em que os backing vocals de David e John destacam ainda mais sua delicadeza) e “Six Blade Knife” (outra com belo solo do chefe) são outros highlights do mais antigo dos lançamentos do Dire Straits ao vivo – e, considerando a escassez de lançamentos, provavelmente nunca teremos nada anterior.

Mark Knopfler (guitarra, vocais), David Knopfler (guitarra), John Illsley (baixo), Pick Withers (bateria)

  1. Down To The Waterline
  2. Six Blade Knife
  3. Water Of Love
  4. Wild West End
  5. Sultans Of Swing
  6. Lions
  7. What’s The Matter Baby?
  8. Tunnel Of Love

NEW ORDER – BBC Radio 1 Live in Concert (1992)

Gravado no festival de Glastonbury pela BBC em junho de 1987, este álbum traz aproximadamente uma hora do New Order (uma das minhas bandas favoritas da década de 80) ao vivo perante uma plateia nitidamente apreciativa. Bernard Sumner, Stephen Morris, Gillian Gilbert e Peter Hook estavam no auge, em minha opinião, tendo lançado em 1985 o ótimo Brotherhood, e em 1986, o single “True Faith” (talvez minha música favorita da banda). Nesse ano, a coletânea Substance trouxera os singles do grupo em uma forma bem mais conveniente para os fãs brasileiros, e quando a ouvia, imaginava como a banda soava ao vivo. Este álbum não me decepcionou; embora a banda não seja muito aventureira nos shows, o fato de Stephen bater pesado em sua bateria me chamou muito a atenção (ainda que em algumas músicas a bateria eletrônica diga “presente”). O programa inclui hits como a já citada “True Faith”, “Temptation”, “Bizarre Love Triangle” e “Perfect Kiss”, músicas um pouco menos conhecidas como “Age of Consent”, ‘Your Silent Face” (com Bernard na harmônica no início e sua guitarra rítmica em destaque na coda estendida) e “Every Second Counts”, e ainda me rendeu duas músicas que ainda não tinha quando comprei o CD, “Touched by the Hand of God” e a versão para “Sister Ray”, do Velvet Underground, que só era apresentada nos shows da banda. Peter Hook, como se imagina, é um destaque no instrumental, e Gillian pilota os sintetizadores com segurança, aproveitando a tecnologia eletrônica da época para incluir efeitos adicionais com seu sequencer. A elegíaca “Every Second Counts” traz algumas brincadeiras vocais de um entusiasmado Bernard, o que a transformou bastante – e finalmente pude ouvir o final da música, que em Brotherhood terminava com o efeito de uma agulha arranhando o vinil. BBC Radio 1 Live in Concert é um álbum bem diferente dos demais que selecionei para essa série de Templos do Rock, mas não podia deixar de fora – afinal, o New Order foi por muito tempo a melhor banda dos anos 80 (fora da cena metal) para mim, e poucas vezes tem espaço aqui na Consultoria.

Bernard Sumne (guitarra, vocais), Gillian Gilbert (teclados), Peter Hook (baixo), Stephen Morris (bateria)

  1. Touched By The Hand Of God
  2. Temptation
  3. True Faith
  4. Your Silent Face
  5. Every Second Counts
  6. Bizarre Love Triangle
  7. Perfect Kiss
  8. Age Of Consent
  9. Sister Ray

Bonus track:

Para trazer um bônus, escolhi um “híbrido”, com um disco trazendo gravações de estúdio e outro trechos de dois shows; sei que foi um pouco fora do padrão que me impus, mas não poderia deixar de recuperar o grande Free.


FREE – Live at the BBC (2006)

Escolhi este CD duplo para bônus porque o primeiro CD traz sessões nos estúdios da rádio (feitas entre 1968 e 71), enquanto o segundo é a cereja do bolo trazendo duas apresentações ao vivo para o John Peel’s Sunday Concert em janeiro e julho de 1970. Vou me ater ao segundo disco, apenas observando que, no primeiro, há vários petiscos para os fãs, bem como uma oportunidade de ouvir a banda testando diferentes versões para “Be My Friend” e “Ride On A Pony” até acertar. Há algumas raridades, como “Sugar for Mr. Morrison”, “Mouthful of Grass” e “Get Where I Belong” em versões ao vivo no estúdio no CD1. Mas a última bolacha do pacote é realmente o CD2; as quatro primeiras músicas foram extraídas de um tape gravado por um fã na época, pois as fitas originais se perderam. Embora a qualidade sonora não seja das melhores, temos uma “Hunter” sensacional (melhor do que a de Free Live!, na minha opinião), e duas músicas pouco executadas ao vivo, “Free Me” (em que a harmonia vocal de Andy Fraser e Simon Kirke ressalta a tristeza e a dor da música original e complementa a interpretação sofrida de Paul Rodgers) e a alegrinha “Remember” (que me soa como Bad Company depois do terceiro disco). As sete seguintes, gravadas no show de julho, confia nos hits como “All Right Now”, “Fire and Water”, “Mr. Big” e “Ride On A Pony”. A qualidade de gravação é um pouco melhor do que as anteriores, mas aquém dos padrões da BBC. A banda está no topo da forma, e em especial Paul Kossof está incendiário em sua Les Paul. Andy Fraser até dá uma erradinha em “Mr. Big” (pelo menos é o que me disseram; como não sou músico, convido um eventual leitor que saiba tocar baixo a identificar e comentar!), mas seu desempenho é soberbo. Simon Kirke compensa a técnica simples com um entusiasmo incomum, e Paul Rodgers confirma o elogio de Rod Stewart, que uma vez o chamou de o melhor cantor de rock da Inglaterra. Mesmo que alguém tenha a coleção completa do Free, vale a pena procurar este álbum; e se eventualmente alguém acabou de aterrissar neste planeta e não conhece a banda, Free Live at the BBC é uma boa introdução.

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