Minhas 10 Favoritas: O Rock Encontra a Economia

Minhas 10 Favoritas: O Rock Encontra a Economia

Por Marcello Zapelini

13 de agosto (tinha que ser um dia 13, e tinha que ser em mês de cachorro louco…) é o Dia do Economista no Brasil – e este que vos escreve é economista de profissão e professor na área – ou seja, é o dia dedicado àquela que o escritor britânico Thomas Carlyle chamou “a ciência terrível”. Azar o dele: a Economia é uma ciência fascinante. E parte desse fascínio se estende aos músicos de rock, já que temos diversas composições que tratam de temas econômicos. E não poderia ser diferente, porque a Economia é uma ciência que lida com uma parte do comportamento humano, e essa parte gera tanto interesse quanto repulsa. Mais ainda, a vida humana é fortemente influenciada por decisões econômicas, portanto, muito do que fazemos tem relação com o que ela define e descreve.

É claro que algumas questões econômicas têm a ver com a política, e por isso nem sempre é fácil definir o que há de puramente econômico nelas – essa confusão se estende às letras das músicas. Mas, ainda assim, alguns conceitos da Economia acabam se materializando aqui e ali em canções de rock, e por isso decidi homenagear a minha profissão destacando dez músicas que lidam com coisas que ela estuda. O resultado? A maioria das músicas trata da moeda – algo natural, afinal se trata de uma das variáveis mais importantes estudadas pelos economistas. E só sobre a moeda acabei com uma lista preliminar de 37 músicas! Para chegar à lista final, o critério básico é a preferência pessoal, claro; mas confesso que para escolher a primeira usei mais do que o gosto musical, e isso ficará bem claro no comentário sobre ela.


10. GRATEFUL DEAD – “Money Money” (From the Mars Hotel, 1974)
Animado rock’n’roll cantado por Bob Weir (que escreveu a música para a letra de John Perry Barlow), e uma das poucas músicas que o Grateful Dead baniu de seus shows (foram poucas apresentações, todas em 1974), “Money Money” fala das atribulações de um sujeito comum que está apaixonado por uma mulher materialista, que deseja mais do que ele pode pagar. Dinheiro é tudo o que ela quer, e o protagonista afirma que irá roubar um banco (e o fez, porque pede para que ela não o faça roubar novamente) ou falsificar dinheiro se com isso puder pagar o que sua gata deseja. No final, nosso herói exorta a mulher a não pedir um Cadillac, pois isso é só dinheiro, nada mais. Donna Jean Godchaux faz os backing vocals com Jerry, cuja guitarra não ganha o merecido destaque, e Keith Godchaux toca um piano rocker sensacional. Em alguns momentos as guitarras tocam o riff principal do clássico da Motown, “Money (That’s What I Want)”, regravado por muita gente (notadamente, Beatles e Stones). Jerry, Bob e Phil Lesh detestavam a letra, que consideravam machista demais e convenceram os demais a aposentarem “Money Money” depois de apenas oito apresentações oficiais em shows. De fato, a música não é nenhuma obra-prima e a letra é meio cheia de clichês, mas não deixa de ser uma crítica ao consumismo, e musicalmente era bem divertida, fazendo os Deadheads dançarem ao som do rock’n’roll nas poucas vezes que foi tocada ao vivo.


9. BOB DYLAN – “Union Sundown” (Infidels, 1983)
Bob Dylan aborda o declínio dos sindicatos de trabalhadores após o início da globalização; os bens que ele consumia vêm de todo o mundo e ele pagvaa mais barato por eles, mas os trabalhadores americanos perdiam seus empregos. O carro que ele dirige é um Chevrolet, mas foi montado na Argentina por um cara que ganha 30 cents por dia. Offshoring (produção no exterior) e outsourcing (compra de matérias-primas no exterior) pareciam boas ideias, diz mr. Zimmermann, até que a ambição tomou conta. Para Dylan, os sindicatos estavam em declínio, afinal, custava mais barato comprar do exterior do que produzir localmente – e com isso, o emprego que se tinha nos EUA foi parar em El Salvador; pior, os sindicatos não se davam conta da perda de poder e nada faziam para proteger os trabalhadores americanos. Musicalmente, “Union Sundown” mostra as guitarras de Mark Knopfler, Mick Taylor (na slide guitar) e do próprio Dylan se entrelaçando incessantemente, e os backing vocals de Clydie King ganham destaque, harmonizando e às vezes se sobrepondo aos de Bob. “Union Sundown” mostra uma faceta que os economistas conhecem bem: todo mundo quer pagar mais barato pelo que compra, e ao mesmo tempo lamenta que as indústrias se transfiram para o exterior para aproveitar os preços mais baixos da mão-de-obra. O protesto de Bob é mais político do que econômico, mas os fenômenos que ele descreve são explicados mais profundamente pelos economistas.


8. THE BEATLES – “Can’t Buy Me Love” (A Hard Day’s Night, 1964)
Dizem que um economista é alguém que sabe o preço de tudo, mas não conhece o valor de nada. Lennon e McCartney aqui brincam com o fato de que o dinheiro pode comprar muita coisa, mas não o amor de uma garota – e é isso que o protagonista da música deseja. O sexto single da banda foi escrito sobretudo por Paul, e nele Macca diz que não se importa muito com dinheiro porque $$$$ não compra o amor. Assim, ele está bem tranquilo em dar à sua garota o que ela desejar, mas espera que ela queira dele as coisas que o dinheiro não pode comprar; o anel de diamantes (tema recorrente ao longo da letra) é algo que ele poderá dar de presente, mas se ela quiser amor, tanto melhor (ou seja, dá para concluir que para o protagonista da letra, dinheiro não é problema)! A música é animada e traz George num daqueles solinhos curtos que faziam a festa dos fãs da banda nos shows, além de John discreto no violão e um Ringo para lá de animado na bateria. O vocal é praticamente só cantado por Paul, e no todo “Can’t Buy Me Love” é uma música perfeita para a febre da Beatlemania. Presente em A Hard Day’s Night (tanto no filme quanto no LP), “Can’t Buy Me Love” rendeu um bocado de dinheiro para os Beatles (foi o quarto single mais vendido de 1964), e ilustra bem o fato de que a moeda é um meio para satisfazer necessidades humanas, mas só pode comprar bens escassos – pode comprar um anel de diamantes, mas não vai comprar o amor de quem o recebe se essa pessoa não o sentir.


7. RUSH – “Big Money” (Power Windows, 1985)
A alta finança é o que movimenta o mundo real nessa ótima composição do Rush, que abre “Power Windows”, um bom disco oitentista meio subestimado do Rush. Os sintetizadores de Geddy Lee são o principal destaque, mas a guitarra de Alex Lifeson não deixa por menos – e, claro, Neil Peart faz bonito na bateria como sempre. A grana alta está por todo lugar e faz um bocado por aí, transforma um zé-ninguém em figura importante, faz viver uma história de Cinderela, faz alguém ser o otário na TV, constrói uma torre para você se enclausurar e derruba um castel, e vai por aí afora. Neil deixa bem claro que, pelo dinheiro, uma nulidade pode se tornar respeitada, pois a bufunfa pode fazer o trabalho de Deus; ele deixa bem claro que não se trata de um fenômeno recente (como os críticos do capitalismo alegariam), ainda que admita que tenha crescido e se tornado um problema mais grave. Mas o dinheiro não tem alma. Acho interessante que Neil evita o clichê do “dinheiro não compra felicidade” (mas, como bem perguntou Millôr Fernandes, por acaso miséria traz?), preferindo investir no poder que ele pode trazer a quem dispõe de bastante. E “Big Money” se enquadra bem nas críticas que algumas correntes de economistas fazem da sociedade capitalista, já que elas produzem e movimentam grandes somas, mudando a sociedade, o jogo do poder político, as vidas das pessoas. O clip da música possui trechos feitos em computação gráfica, e o cenário pós-apocalíptico em que Geddy, Alex e Neil aparecem em cima de um tabuleiro de Monopoly (popularmente conhecido como Banco Imobiliário) ficou muito interessante.


6. JETHRO TULL – “Farm on the Freeway” (Crest of a Knave, 1987)
Ian Anderson reflete que uma pessoa pode receber uma compensação financeira pelos seus bens, mas ela terá sido realmente paga? O personagem da música foi obrigado a vender suas terras (herança de família) para a construção de uma rodovia e afirma que recebeu dinheiro por isso – mas ele já se considerava rico antes disso porque tinha essa propriedade. A letra levanta a questão de se realmente vale à pena trocar algo que tem valor muito mais profundo para alguém por uma soma em dinheiro. O progresso tinha chegado na região em que o protagonista da letra morava, e por isso a venda da sua fazenda era compulsória; ele afirma que aquela terra não era para uma estrada, e sim para produzir. Não era um rancho de novela (o Southfork Ranch da série de TV Dallas é citado nominalmente), mas era o seu lar, e agora ele se via apenas com uma picape e um milhão de dólares. Martin Barre faz um belo solo de guitarra e Ian Anderson tempera bem a música com sua flauta e teclados (incluindo um órgão discreto), fazendo de “Farm on the Freeway” um destaque do álbum Crest of a Knave. A letra aborda bem o problema de que as coisas têm preços econômicos (afinal, a venda das terras rendeu um milhão), mas também têm valor – e esse é um atributo subjetivo que as pessoas dão a elas (por isso que há coisas que as pessoas afirmam que não há dinheiro no mundo que as compre), mas também há o papel desempenhado pelo governo (única instituição que pode estabelecer vendas compulsórias), que nesse caso, por mais que alegue estar agindo para o bem geral, acabou provocando grande dor a uma pessoa comum.


5. PINK FLOYD – “Money” (Dark Side of the Moon, 1973)
A sardônica crítica ao dinheiro como uma fonte de loucura não poderia faltar. Escrita em uma época em que Roger Waters não soava hipócrita, “Money” é outra crítica ao consumismo e ao poder do dinheiro na sociedade moderna. As pessoas podem ter carros novos e caviar, mas ainda assim vão desejar comprar um time de futebol (será que Elton John já tinha comprado o Watford F.C. quando Roger escreveu a música?). A letra toca numa questão econômica central: os bens econômicos são escassos porque as necessidades humanas são infinitas – tanto é que o protagonista voa de primeira classe, mas está pensando em comprar um Learjet para suas viagens de avião. Mas o dinheiro pode ser um sucesso, pode ser ótimo, e também ser um crime. Musicalmente, “Money” começa com aquele trechinho de música concreta por meio das moedas e caixas-registradoras, e ganha corpo com um dos riffs de baixo mais famosos do rock, tocado por Gilmour e Waters em baixos de 6 cordas. O solo de sax do recentemente falecido Dick Parry prepara o terreno para David voar na guitarra, num trecho instrumental que chega a ter influência de reggae num momento. E eu não posso deixar passar um detalhe interessante: “Money” made a lot of money for Mrss. Waters, Gilmour, Wright (discretíssimo na música, aliás) and Mason...


4. GENESIS – “Get’Em Out by Friday” (Foxtrot, 1972)
Em um futuro distópico, uma família é ameaçada pela especulação imobiliária. Peter Gabriel incorpora vários personagens e modula sua voz para que o ouvinte os distinga: John Peebles, um cruel investidor imobiliário que preside a Styx Enterprises, Mark Hall (The Winkler), um empregado da Styx que recebe a tarefa de despejar as pessoas, e Mrs. Barrow, moradora de um imóvel na mira da empresa. Hall afirma que a família da sra. Barrow precisa sair de sua casa em nome do interesse da humanidade, e ela propõe pagar mais pelo aluguel – sem sucesso. A sra. Barrow, então, recebe 400 libras e um novo apartamento para alugar, mas a Styx aumenta o preço cobrado! Pior, o novo lugar é ruim, muito pior do que o que a família Barrow morava antes. Na segunda parte da música, as pessoas são geneticamente manipuladas para que alcancem no máximo quatro pés de altura; assim, mais pessoas poderão morar nas antigas habitações. Mas o “interesse da humanidade” predominou: John Peebles se tornou Sir John. Parte crítica social, parte sátira, “Get’Em Out by Friday” ilustra bem o poder das grandes corporações na sociedade, algo que já tinha sido denunciado nos anos 30 por Adolph Berle (que seria embaixador no Brasil durante a 2ª Guerra) e Gardiner Means, dois economistas americanos; o fato do chefão da Styx Enterprises virar Sir John permite concluir que o dinheiro se alia com a política e ambos dominam a vida das pessoas comuns. E mais uma vez ilustra a diferença entre preço e valor, afinal, a família Barrow ganhou 400 libras – mas perdeu o lar que amava. A música é complexa e o desempenho de Peter é sensacional ao incorporar os vários personagens diferentes, mas é importante destacar os teclados de Tony Banks, que conduzem muito bem a composição, e a bateria de Phil Collins. O Genesis foi meio criticado no começo da carreira porque vinha da classe média alta, mas aqui se alia às pessoas comuns.


3. DIRE STRAITS – “Money For Nothing” (Brothers in Arms, 1985)
Quanto vale o trabalho de um homem? O carregador que inspirou Mark Knopfler se queixa que os cantores da MTV não trabalham de verdade e ganham muito mais do que ele. “Money for Nothing” foi um sucesso absoluto, puxado pelo clip feito com computação gráfica (cutting edge technology em 1985), e trazia uma crítica à MTV que não o impediu de ser um sucesso na Music Television. O protagonista da letra se queixa que ele trabalha pesado o dia todo enquanto o “little fag” do videoclipe da MTV se enchia de grana. O riff marcante de guitarra conduz a música, Sting contribui com backing vocals bem colocado e os sintetizadores de Guy Fletcher e Alan Clark colorem a música com seus efeitos. A questão central que abre esse comentário tem uma resposta relativamente simples: trabalhos braçais exigem muito do trabalhador, mas não são exatamente difíceis de se encontrar, ao passo que escrever, gravar e lançar um hit musical não é exatamente um trabalho ao alcance de qualquer músico ou produtor. Assim, a escassez começa a determinar seu valor; pense que, além disso, há o fato de que a indústria musical movimenta bilhões de dólares e emprega centenas de milhares de pessoas – e nada disso estava visível para o carregador de loja que inspirou Mark Knopfler. Mas Mark provavelmente sabia disso, tanto que a sugeriu como música de trabalho de Brothers in Arms.


2. THE ROLLING STONES – “Salt of the Earth” (Beggar’s Banquet, 1968)
Jagger e Richards (que canta alguns versos) brindam aos trabalhadores comuns, aos agricultores pobres, às pessoas que dão duro para que a sociedade funcione. E Mick também reflete sobre as pessoas que o cercam, que vêm de uma realidade socioeconômica diferente: a faceless crowd em preto e cinza não lhe diz nada (o que me soa meio demagógico quando se tem em mente que ele, diferentemente de Keith Richards, vinha da classe média). Esta bonita balada (em alguns momentos ela me soa como uma espécie de projeto para a fantástica “You Can’t Always Get What You Want” – uma boa lição econômica, aliás) que encerra o memorável álbum Beggars Banquet (a parte interna da capa mostra os Stones como mendigos num banquete – outra metáfora economicamente interessante) não é muito conhecida, mas traz os Stones com alguma influência gospel e arranjo predominantemente acústico. Jagger e Richards nos lembram que são as pessoas comuns que carregam o mundo nas costas, o que mais uma vez nos coloca a questão do valor do trabalho, e, além dela, a constatação de que o trabalho das pessoas comuns pode gerar relativamente pouco em termos individuais, mas coletivamente é essencial para a riqueza das nações, como diria Adam Smith. A homenagem dos Stones ao trabalhador comum é simples, mas sincera; e, ao brindar para o blue collar worker, anônimo, comum, pouco preparado, a banda nos lembra que às vezes as melhores recompensas não têm valor econômico elevado.


1. MONTROSE – “Paper Money” (Paper Money, 1974)
Em termos de teoria econômica, esta é a música mais sofisticada de todas as da nossa lista. Ronnie Montrose e Sammy Hagar demonstram uma compreensão sobre o que é o valor da moeda muito maior do que a maioria dos ministros da Fazenda da história recente do Brasil, por exemplo. Em “Paper Money”, o protagonista se faz de rico e tem uma cédula de papel no valor de um milhão (!) de dólares, mas percebe que aquilo é apenas papel; não há coisas de valor real como ouro e prata, apenas um pedaço de papel pintado que as pessoas podem – ou não – aceitar, e reflete que no passado era diferente: um único homem tem o cofre, o outro guarda a chave. Com isso eles percebem que o dinheiro das pessoas depende de quem faz a política monetária, e um governante (ou o presidente do Banco Central) pode definir com uma canetada se você é rico ou pobre, basta valorizar ou desvalorizar a moeda em papel. E corretamente Hagar e Montrose constataram que, quando a moeda era conversível em metais preciosos, esse poder não existia. Musicalmente, a batida tribal de Denny Carmassi sustenta o baixo de Alan Fitzgerald para Montrose erguer uma parede com várias guitarras, e Sammy Hagar canta de uma maneira relativamente contida, mas ainda assim marcante. Ao refletir sobre o fim do padrão-ouro decretado por Nixon em 1971, o Montrose percebe que o dinheiro em papel não vale mais nada. Paper money don’t hold!

Um comentário em “Minhas 10 Favoritas: O Rock Encontra a Economia

  1. Parabéns, Marcello Zapelini. Tema muito interessante. Ao ler o texto, imediatamente me veio à memória a música “Brave awakening”, de Terry Reid. Em sua letra, Reid fala sobre a vida dos trabalhadores das minas de carvão, quando esse recurso acaba, deixando-os sem trabalho. A letra reflete a necessidade de se manter alguma esperança em épocas de vulnerabilidade econômica.

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