PFM – Chocolate Kings: entre a identidade italiana e o sonho internacional

PFM – Chocolate Kings: entre a identidade italiana e o sonho internacional

Por Fernando Bueno

Em 1973 o Premiata Forneria Marconi já estava com dois excelentes álbuns lançados e já tinha um bom reconhecimento dentro de seu país. Porém, ainda faltava o reconhecimento do exterior. Seus discos não haviam sido lançados em outros países e o pouco conhecimento que fãs de outras nacionalidades tinham deles era por conta da influência de músicos como Greg Lake, que ficou impressionado quando assistiu a alguns shows dos italianos quando o Emerson, Lake and Palmer excursionava pela Itália. Essa boa impressão fez com que o músico trouxesse os italianos para a gravadora Manticore.

Porém, se ainda hoje o idioma italiano repele alguns fãs, na época isso foi ainda mais forte. Por isso, a ideia de regravar algumas de suas músicas dos dois primeiros discos em versões em inglês foi algo até natural. Daí surgiu Photos of Ghosts (1973) e a situação mudou bastante. O álbum foi o primeiro disco a figurar na Billboard 200 na posição de número 180. Pode parecer uma posição modesta, mas foi o primeiro álbum de uma banda italiana a entrar na parada da Billboard. “Celebration” chegou a tocar bastante em rádios americanas e canadenses, e o Premiata Forneria Marconi excursionou nos Estados Unidos apoiando outros gigantes ingleses.

No ano seguinte, em março, L’isola di niente, totalmente em italiano, veio para manter o alto nível dos dois primeiros discos. Três meses depois uma edição em inglês do álbum saiu com a adição de uma faixa: a versão de “Impressioni Di Settembre” que se tornou a faixa título do álbum The World Became the World. A tradução das letras de ambos os lançamentos em inglês até o momento ficou a cargo de Peter Sinfield, que ficou conhecido como um dos co-fundadores do King Crimson, sendo o responsável pelas letras do gigante inglês.

 O Premiata Forneria Marconi conquistou boa parte do respeito que queria entre músicos e fãs de progressivo, mas permaneceu um grupo de nicho. Nos Estados Unidos eles eram conhecidos principalmente pelo público que acompanhava Genesis, Yes, King Crimson e ELP. Muitos chegaram a considerá-los a primeira prova de que o rock progressivo não era uma exclusividade britânica. Entretanto, o grande público continuava enxergando o progressivo como um gênero dominado pelas bandas inglesas.

Porém a banda queria mais e ainda entendia que o idioma era um limitador. Assim decidem que o próximo álbum seria gravado diretamente em inglês e propuseram a entrada de um vocalista fluente no idioma para entrar na banda. O escolhido foi Bernardo Lanzetti. Até então todos os outros músicos também eram cantores, assim, com Lanzetti, pela primeira vez eles tinham um vocalista principal, que também tocava guitarra.

O resultado foi Chocolate Kings (1975), considerado o primeiro álbum da segunda fase do Premiata Forneria Marconi. E a estratégia de se lançar ainda mais para os mercados anglófonos estava a todo vapor. Entretanto, essa estratégia teve um preço artístico. A entrada do vocalista Bernardo Lanzetti, dono de um timbre agudo frequentemente comparado ao de Peter Gabriel, somada ao direcionamento musical mais pesado e menos influenciado pelo folclore italiano, fez com que a identidade característica da PFM fosse parcialmente diluída. Embora o virtuosismo instrumental permanecesse intacto, Chocolate Kings abandonou parte da personalidade que tornara os primeiros discos tão singulares e, em diversos momentos, aproximou-se bastante da estética do Genesis da primeira metade da década de 1970. Não por acaso, muitos admiradores consideram este um excelente álbum de rock progressivo, mas um dos menos originais da fase clássica da banda, justamente por soar mais próximo dos gigantes britânicos do gênero do que da personalidade única construída em Storia di un minuto, Per un amico e L’isola di niente.

Versão americana da capa

Chocolate Kings também marcou o último trabalho de Mauro Pagani como integrante efetivo da PFM (a partir dessa época, a banda passou a ser identificada cada vez mais simplesmente como PFM). Ele era responsável pelas flautas, violinos e outros instrumentos folclóricos, além de ser um vocalista eventual. Sua saída retirou justamente um dos principais responsáveis pelas influências folclóricas e mediterrâneas que haviam caracterizado o som da banda em seus primeiros anos.

O resultado foi um misto de decepção e entusiasmo. A decepção de alguns fãs que se sentiram traídos pela mudança sonora e o entusiasmo da banda e de outra parcela de fãs que reconheceram a qualidade do disco. Afinal, ser comparado com um dos principais expoentes do estilo é sinal de que você criou algo marcante. Na minha opinião eu não recomendaria esse álbum para uma pessoa que queira conhecer a banda. Certamente falaria para ouvir os primeiros três álbuns. Afinal, o legado que a banda tem hoje é certamente ter sido umas das principais formações do rock progressivo italiano. Para quem quiser conhecer mais do estilo, sugiro a leitura dos três textos que fiz há vários anos e que ainda servem de iniciação para muita gente. Os links você encontra aqui: (Parte 1, Parte 2 e Parte 3). Na Parte 1 falo bastente sobre o próprio PFM.

O tempo acabou colocando Chocolate Kings em uma posição curiosa dentro da discografia da PFM. Durante muitos anos foi visto como o disco em que a banda teria sacrificado sua identidade em busca do mercado internacional. Hoje, porém, boa parte dos fãs a enxerga como um excelente álbum de rock progressivo por mérito próprio, apenas diferente daquele que consagrou os italianos no início da década.”

Essa fase com o vocalista Bernardo Lanzetti ainda gravaria dois álbuns: o ótimo Jet Lag (1977) e o mediano Passpartù (1978). Curiosamente, nesse último eles voltam a gravar em italiano, mas o direcionamento musical muda quase que completamente de novo, indo para um pop progressivo que já estava virando uma tendência em várias bandas do estilo. A partir daí o Premiata Forneria Marconi entraria num período quase interminável de álbuns irregulares, mudanças constantes de formação, quase se tornando uma caricatura de si mesmo. Nos últimos anos a formação foi estabilizada e nos brindaram com ótimos álbuns novamente e tem dado gosto de retomar a audição de seus álbuns. Os dois últimos, Emotional Tattoos (2017) e I Dreamed of Electric Sheep / Ho sognato pecore elettriche (2021) já saíram em formato duplo com as versões inglesas e italianas em cada um dos discos. Vale a pena ir atrás.     

Um comentário em “PFM – Chocolate Kings: entre a identidade italiana e o sonho internacional

  1. O PFM era uma ótima banda que a maioria não se dava ao trabalho de ouvir justamente por causa do vocal em italiano, mas eu curtia bastante. Infelizmente os dois CDs que tinha deles (este e o “The World…”) eram ambos em inglês, e demorei um bom tempo para conhecer os outros – e hoje nem tenho mais os discos, emprestei para um amigo da onça que sumiu do mapa. Gostava mais do “The World…” (as duas primeiras músicas do disco são as melhores para mim!) do que deste (mas “Harlequin” e “Out of the Roundabout” valem o disco), até porque não curtia muito o vocal do Lanzatti, mas ouvi bastante enquanto os tive.

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