Datas Especiais: 45 Anos De B. L. T.
Por Marcelo Freire
Em 1981, um disco chamado B.L.T. podia parecer, à primeira vista, uma piada construída em torno de um sanduíche, ainda mais quando a capa fazia questão de levar a brincadeira até as últimas consequências. As iniciais, porém, anunciavam algo bem mais substancioso do que bacon, lettuce and tomato: Jack Bruce, Bill Lordan e Robin Trower, três músicos com trajetórias suficientemente fortes para que a simples reunião de seus sobrenomes despertasse curiosidade. Quarenta e cinco anos depois, o álbum permanece numa posição curiosa, conhecido pelos admiradores de Trower e Bruce, mas raramente lembrado entre os trabalhos essenciais de qualquer um dos dois, como se tivesse ficado espremido entre carreiras grandes demais para acomodá-lo confortavelmente.
Talvez seja justamente essa posição à parte que torne B.L.T. tão interessante. O disco registra um momento de passagem na carreira de Robin Trower, oferece a Jack Bruce um novo ambiente para sua personalidade musical e encerra a participação de Bill Lordan na fase mais conhecida da discografia do guitarrista. Lançado pela Chrysalis em fevereiro de 1981, gravado e mixado nos Konk Studios, em Londres, produzido pelo próprio Trower e distribuído em dez faixas que ocupam pouco mais de 37 minutos, o álbum chegou ao 37º lugar da parada norte-americana, desempenho bastante respeitável para um trabalho que hoje costuma aparecer como nota de rodapé nas biografias de seus participantes. Foi o primeiro disco de Trower com Bruce nos vocais e no baixo e o último com Lordan na bateria.

Essa troca de nomes altera profundamente o que Trower vinha fazendo. Durante boa parte dos anos 1970, o guitarrista havia encontrado em James Dewar o parceiro ideal para um repertório baseado em riffs pesados, andamento cadenciado e longas extensões atmosféricas. Ah, James Dewar… Como cantava fácil esse sujeito! Além de ter uma das vozes mais extraordinárias e injustamente subestimadas do rock (ele consta com louvor no meu top five de vocalistas do rock), cujo talento ainda pede para ser descoberto pelo grande público, Dewar possuía uma voz grave, quente e naturalmente melancólica, assim como um estilo de baixo que servia às composições com discrição e precisão, deixando a guitarra ocupar a maior parte do espaço. Em álbuns como Bridge of Sighs, For Earth Below e Long Misty Days, voz, baixo e guitarra pareciam ter sido moldados dentro da mesma massa sonora, a ponto de ser difícil imaginar aquelas canções cantadas por outra pessoa.
Jack Bruce vinha de outro lugar. Mesmo deixando o Cream de lado por um instante, algo impossível durante muito tempo para qualquer músico que tivesse passado por aquela banda, sua carreira solo já havia demonstrado uma inquietação bem maior do que o rótulo de blues rock costumava permitir. Bruce carregava o jazz em sua formação, escrevia canções de estruturas pouco convencionais, tratava o baixo como instrumento melódico e possuía uma voz que raramente aceitava ficar discreta. Onde Dewar criava uma sombra quente em torno da guitarra de Trower, Bruce avançava para o primeiro plano, ocupava as aberturas, tensionava as melodias e, muitas vezes, parecia cantar contra o riff, em vez de simplesmente acompanhá-lo.
É nesse encontro de temperamentos que B.L.T. encontra sua identidade. Trower continua sendo o arquiteto do som, construindo as canções com riffs espessos, notas longas, vibrato expressivo e aquele timbre marcante e, muitas vezes, etéreo, que só ele tem. Bruce, por sua vez, recusa o papel de simples acompanhante e transforma cada linha vocal numa espécie de comentário dramático sobre o que a guitarra está fazendo. Bill Lordan funciona como ponto de equilíbrio, pois já conhecia profundamente a linguagem de Trower e compreendia quando sustentar o peso, quando soltar o groove e quando reduzir sua presença para que a tensão entre guitarra, baixo e voz pudesse respirar.

Lordan é outro que merece mais destaque do que nem costuma ter. Como já havia acompanhado Trower em seis álbuns de estúdio, desde For Earth Below, de 1975, e vinha de Victims of the Fury, lançado no ano anterior, último trabalho com a formação Trower, Dewar e Lordan, ele sabia como a coisa funcionava com Robin Trower. Sua bateria sempre teve peso, mas nunca dependeu de excesso (aliás, “excesso” também não é um atributo que se aplicasse a Dewar); havia nela uma combinação particular de firmeza e balanço, o tipo de execução que podia parecer simples até que se prestasse atenção ao modo como cada virada empurrava a guitarra para a frente. Em B.L.T., essa familiaridade se torna ainda mais importante, pois cabe a Lordan fornecer alguma estabilidade, enquanto Trower e Bruce descobrem até onde suas linguagens poderiam conviver.
“Into Money” abre o disco sem qualquer cerimônia, faixa perfita, um pancada deliciosa sustentada por um riff curto, direto e suficientemente áspero para deixar claro que a mudança de cantor não significaria o abandono do terreno conhecido. A guitarra ocupa o centro da gravação, mas Bruce imediatamente altera a sensação da música. Sua voz traz mais agitação e um componente quase teatral, como se cada frase precisasse ser conquistada contra a base instrumental. Em menos de três minutos, a faixa apresenta o princípio que sustentará o álbum: Trower oferece o cenário, Bruce o desestabiliza e Lordan mantém tudo em movimento.

“What It Is” amplia essa impressão. O riff possui o peso característico de Trower, porém a seção rítmica evita que a música se acomode numa marcha pesada. Bruce trabalha o baixo com maior liberdade, introduzindo pequenas movimentações que enriquecem a base sem disputar ostensivamente com a guitarra, enquanto Lordan estabelece um pulso seco e constante, que de simples tem só a aparência. Trower, como de costume, resiste à tentação de transformar cada espaço disponível em solo e prefere deixar o timbre falar por ele, tirando das notas um efeito físico, como se a guitarra empurrasse o ar diante dos amplificadores.

A primeira mudança mais evidente de atmosfera chega com “Won’t Let You Down”. Trower sempre foi particularmente eficiente quando reduziu a velocidade e permitiu que suas notas permanecessem suspensas, e aqui encontra espaço para um de seus fraseados mais expressivos do disco. Bruce diminui a dramaticidade, aproximando-se de uma interpretação mais contida, embora sua voz jamais adquira a suavidade natural de James Dewar. Essa diferença impede que a canção soe como uma tentativa de repetir o passado. A melancolia permanece, porém adquire outra textura, um pouco mais inquieta.
“No Island Lost” torna a transição ainda mais explícita, somada ao fato de que é uma composição que Trower já tinha antes da criação do trio deste álbum. A música, entretanto, já pertence inteiramente ao três músicos que a gravam. Bruce conduz a melodia com personalidade, Lordan oferece uma base cheia de balanço e Trower se movimenta entre o riff e pequenos comentários de guitarra, evitando construir a faixa em torno de uma única explosão instrumental.
“It’s Too Late” encerra o primeiro lado do LP retomando o clima mais lento e atmosférico. É uma daquelas canções nas quais Trower parece mais interessado na densidade do som do que na quantidade de notas, deixando acordes e frases se espalharem pela gravação. Bruce responde com uma interpretação forte, por vezes quase dolorida, e a própria diferença entre sua voz e o caráter nebuloso da guitarra cria uma tensão que beneficia a música. Ele parece querer romper a atmosfera que Trower constrói; Trower, em contrapartida, vai envolvendo a voz com camadas cada vez mais espessas.

O lado B começa com “Life on Earth”, única composição assinada exclusivamente por Jack Bruce. Sua presença autoral modifica de imediato o desenho da canção. A melodia vocal parece conduzir a estrutura com maior autoridade, enquanto a guitarra se adapta a um vocabulário que já não nasce inteiramente do universo de Trower. É talvez o momento em que a parceria deixa de soar como a banda de Robin Trower com outro cantor e se aproxima mais claramente de uma colaboração entre iguais. Bruce encontra espaço para suas inflexões melódicas e Trower responde sem tentar transformar a música numa peça típica de seu repertório – o que, convenhamos, é um esforço considerável para quem se mantém na ativa e construiu um universo próprio sonoro.
“Once the Bird Has Flown” retorna ao material escrito anteriormente por Trower e Keith Reid e ocupa uma região intermediária entre o peso e a introspecção. O baixo de Bruce se faz notar mais pela mobilidade do que pelo volume, completando as frases da guitarra e criando pequenas linhas paralelas, enquanto Lordan toca com uma economia quase pedagógica. A música revela um aspecto importante do disco: apesar do prestígio individual dos três participantes (notadamente Trower e Bruce), B.L.T. raramente se transforma numa vitrine de virtuosismo. Os músicos possuem técnica suficiente para alongar cada faixa em improvisações intermináveis, mas quase todas as composições permanecem concentradas, com começo, desenvolvimento e encerramento bem definidos.
“Carmen” é o ponto em que essa concentração produz um dos melhores resultados. A guitarra surge lenta e espaçada, cercada por uma atmosfera que remete aos momentos mais contemplativos da discografia de Trower, enquanto Bruce encontra uma interpretação mais equilibrada entre sua intensidade habitual e a delicadeza exigida pela canção. O resultado é uma balada densa, sem sentimentalismo excessivo, construída sobre o diálogo entre uma voz que parece conter algo e uma guitarra que diz exatamente o que ela não consegue formular. Não surpreende que “Carmen” tenha sobrevivido ao contexto do álbum e reaparecido décadas depois nos encontros ao vivo de Bruce e Trower.

“Feel the Heat” quebra a contemplação com o momento mais curto e agressivo do segundo lado. O riff possui a urgência sugerida pelo título, Lordan acentua o andamento com golpes firmes e Bruce canta com a autoridade de quem passou boa parte da carreira enfrentando guitarristas de grande volume. É possível ouvir aqui algo da antiga lógica do Cream, na qual baixo, guitarra e bateria deixam de cumprir funções rígidas e passam a disputar o mesmo espaço sonoro. A faixa entra, faz o que precisa e desaparece antes dos três minutos, sem permitir que a energia se transforme em repetição.
“End Game”, a música mais longa do álbum, encerra o percurso com pouco mais de cinco minutos. Depois de um repertório formado majoritariamente por composições compactas, a duração adicional permite que o trio explore com mais calma suas possibilidades. Trower amplia o fraseado, Bruce se movimenta por baixo da guitarra em vez de apenas sustentá-la e Lordan mantém a música presa a um pulso firme, evitando que a interação descambe para uma jam sem direção. O título acaba funcionando como uma coincidência particularmente adequada: aquela seria a última faixa do último disco de estúdio de Bill Lordan com Trower, encerrando uma parceria iniciada ainda na metade da década anterior.
A maior parte do repertório de B.L.T. nasceu da colaboração entre Robin Trower e Keith Reid, antigo companheiro do guitarrista no Procol Harum e responsável por muitas das letras de sua carreira solo. As exceções ajudam a contar a história do álbum: “Into Money” aparece creditada apenas a Trower, “No Island Lost” conserva a participação autoral de James Dewar e “Life on Earth” pertence a Jack Bruce. O disco carrega, portanto, três tempos simultâneos: o passado recente da banda de Trower, a nova parceria que começava a tomar forma e a presença de Bruce tentando introduzir sua própria linguagem em um repertório que ainda não havia sido concebido inteiramente para ele.
Essa condição explica também algumas de suas irregularidades. Nem todas as canções alcançam a mesma força, e em determinados momentos a impressão é de que Trower e Bruce ainda estão medindo o espaço ocupado pelo outro. A guitarra, acostumada a dominar a paisagem, precisa negociar com uma voz de enorme personalidade e com um baixista cuja concepção ultrapassa a função tradicional de sustentação. Bruce, por sua vez, entra em músicas construídas segundo uma lógica que havia se desenvolvido durante anos ao redor de James Dewar. A adaptação ocorre diante do ouvinte, com resultados melhores nas faixas em que ambos aceitam modificar ligeiramente seus hábitos.
Por isso, chamar B.L.T. de “obra-prima esquecida” serviria apenas para colocá-lo sob uma expectativa que o próprio disco não solicita. Seu valor está em outro ponto. Trata-se de um álbum de transição muito bom, conciso, bem tocado e dotado de momentos excelentes entre três músicos que ainda não haviam estabelecido regras para aquela convivência – e que não a estabeleceriam depois disso. Digamos que Trower envolve, Bruce provoca e Lordan organiza, e a música funciona justamente porque nenhum deles desaparece completamente dentro do projeto.

A parceria possuía substância suficiente para continuar. Trower e Bruce voltariam ao estúdio logo em seguida para Truce, lançado em 1982, dessa vez com Reg Isidore (outro conhecido de Trower) na bateria, e se reencontrariam mais de duas décadas depois em Seven Moons, de 2008, seguido por um registro ao vivo. Os sites oficiais ligados a Bruce e à gravadora Ruf reconhecem B.L.T. e Truce como os dois primeiros capítulos dessa colaboração, retomada muitos anos depois. Bill Lordan, infelizmente, não participaria das etapas seguintes, o que torna B.L.T. um documento único dentro dessa história. Ele pertence tanto à discografia de Robin Trower quanto à parceria com Jack Bruce, mas guarda uma formação que jamais voltaria a se reunir em estúdio. Sua bateria fornece a ponte entre o grupo que estava terminando e aquele que começava, permitindo que a mudança aconteça sem que o som perca inteiramente sua identidade.
No fim, o sanduíche estampado na capa talvez tenha prejudicado um pouco a percepção de um álbum mais complexo do que sua embalagem bem-humorada sugere (não vou negar que acho horrorosa a capa). B.L.T. não depende apenas dos nomes impressos acima das fotografias, embora esses nomes sejam suficientes para despertar interesse. O disco vale pelo modo como Bruce, Lordan e Trower negociaram, ao longo de 37 minutos, o espaço disponível dentro de um power trio, cada qual cedendo o bastante para que a música exista, mas conservando personalidade suficiente para que o encontro nunca se torne confortável demais.
E talvez seja por isso que ele continue merecendo novas audições. Em vez da comunhão perfeita que muitas vezes se espera de um projeto desse tipo, B.L.T. oferece três músicos experientes tentando descobrir o que fazer uns com os outros. O resultado possui arestas, diferenças e pequenas disputas internas, mas também contém peso, melodia, groove e uma quantidade considerável de boas canções. À mesa, os ingredientes preservam seus sabores. Juntos, acabam formando algo que nenhum deles produziria sozinho.

Track list
- Into Money
- What It Is
- Won’t Let You Down
- No Island Lost
- It’s Too Late
- Life On Earth
- Once The Bird Has Flown
- Carmen
- Feel The Heat
- End Game

Boa recuperação da parceria entre dois gigantes. Esse álbum, na minha opinião, é bem superior a Truce, mas está um pouco abaixo de Seven Moons, em minha modesta opinião o melhor dos três discos de Trower e Bruce; é verdade que no último disco a bateria de Gary Husband combina mais com o baixo de Jack, mas acho as composições mais fortes e elaboradas. Claro que a voz de Bruce envelheceu, mas ainda segura bem as pontas. E a verdade é que ninguém cantou melhor do que James Dewar quando se trata dos discos de Robin Trower (e isso inclui o fantástico Gary Brooker).
Que massa que gostou, Marcello! E, como sempre, levantou uma ótima questão: qual dos dois é melhor, “B.L.T.” ou “Seven Moons”? Eu sou do time “B.L.T.”, mas após a sua observação, vou ouvir os 2 novamente e, quem sabe, trazer a resenha do outro… Abração!
Team Seven Moons! Gosto da voz mais madura do Bruce no disco de 2008, o vocal dele meio que se perdeu nos anos 80 e ele achou um registro adequado às suas limitações na década seguinte; o Seven Moons Live também é muito legal, gosto muito do DVD. Acho que a gente concorda que o Truce é o mais fraquinho, não?
Agora vou ficar no aguardo da resenha do Seven, Marcelo!!