Do Pior Ao Melhor – Judas Priest

Do Pior Ao Melhor – Judas Priest

Por Marcello Zapelini

All Hail The Priest! Com mais de 50 anos de carreira, o Judas Priest é uma banda emblemática na história do heavy metal. O grupo teve de tudo em sua trajetória: mudanças de formação, sucesso comercial, controvérsias, mudanças radicais na sonoridade, algumas escorregadas na discografia, mas sempre se manteve fiel ao som pesado (OK, em alguns momentos rolou bastante farofa – alguém aí se lembra da expressão?), e continua até hoje, depois de 19 discos de estúdio, 6 ao vivo e algumas coletâneas. Como acho que a minha lista não será aprovada pela maioria, vou polemizar de cara: o Judas Priest pode ter álbuns fracos, mas não tem disco ruim. O último colocado dessa lista

O Judas Priest teve dificuldades de consolidar uma formação, mas a clássica é aquela que traz Rob Halford no vocal, K. K. Downing e Glenn Tipton nas guitarras, Ian Hill no baixo e Dave Holland na bateria, responsável por seis discos de estúdio e um ao vivo entre 1980 e 1989. Após a saída de Holland, Scott Travis assumiu a bateria, Halford saiu e voltou (com o injustiçado Tim “Ripper” Owens nos vocais em seu lugar), Downing saiu para nunca mais voltar – com o ótimo Richie Faulkner assumindo seu posto – e Glenn Tipton se viu forçado a parar de excursionar com o grupo por motivos de saúde, o que levou o produtor Andy Sneap a assumir seu lugar nos shows, pois Tipton ainda contribui com composições e grava em estúdio. Já Downing tem gravado e excursionado com seu K. K.’s Priest (que o reuniu com Ripper e o ex-baterista Les Binks), mas confesso não acompanhar seu trabalho.

Eu não sou nenhum fanático pelo Judas Priest, não colocaria a banda na lista das minhas dez favoritas, mas sei que o que vou dizer agora vai soar como fanatismo: de Sad Wings of Destiny a Turbo a banda não lançou nenhum disco que possa ser realmente considerado ruim; poucas bandas podem se orgulhar de algo assim. E mesmo os mais fracos da discografia do grupo, com uma ou outra exceção, são melhores, na minha opinião, do que muita coisa que rolou por aí. Vou direto para os comentários dos discos justificando as posições que atribuí, mas confesso que já estou curioso para saber quais são as listas dos leitores!


Rocka Rolla [1974]

O primeiro LP do Judas Priest não é ruim, mas não cativa o ouvinte e nem dá pistas do que a banda iria atingir no futuro, tanto que não há registro de suas músicas nos discos ao vivo oficiais. Rocka Rolla começa bem com “One for the Road”, uma música razoavelmente pesada, agradável, e traz algumas boas músicas como “Never Satisfied” (a mais próxima do que a banda viria a fazer) e “Dying to Meet You”, mas “Caviar and Meths” (uma instrumental que, de quase 14 minutos, teve pouco mais de dois e meio lançados) e “Winter/Deep Freeze/Winter Retreat” exploram um som mais ambicioso, cheio de efeitos, que não combina com a banda; essas três engatam com “Cheater”, que, com produção melhor, teria se tornado um clássico. Embora a faixa-título tenha sido bastante executada ao vivo, não chega a ser das mais marcantes. Único álbum gravado com o baterista John Hinch, Rocka Rolla traz músicas assinadas por quase todos os músicos, exceto o batera, sendo que três delas são de coautoria de Al Atkins, o vocalista original. A produção anêmica – de Rodger Bain, que produzira os primeiros discos do Black Sabbath e do Budgie – tirou peso das guitarras, descaracterizando o Judas. Além desse problema, o fato de Glenn Tipton ter entrado na banda pouco antes da gravação não lhe permitiu ser o principal compositor e nem deu tempo de desenvolver a parceria com o Kenneth Kevin Downing, e isso fez falta.


Ram it Down [1988]

Ram it Down inicialmente deveria incluir o resto do que foi gravado para Turbo, mas acabou incluindo novas músicas, e não se decide entre seguir o caminho mais comercial ou retomar o peso dos discos antigos. O álbum começa bem, com a faixa-título, rápida e pesada, mas “Heavy Metal”, apesar do bom solo introdutório de Glenn, não é tão boa. “Love Zone” e “Come and Get It” são mais cadenciadas, menos pesadas (e prejudicadas pelo som de bateria), e “Hard as Iron” traz o peso de volta – só que o refrão é incompatível com o resto da música! “Blood Red Skies” é minha favorita do disco, ambiciosa em seus quase oito minutos, com arranjo que remete a Turbo. “I’m a Rocker”? Não duvido, mr. Halford, mas a música em si não apoia seu argumento… A versão de “Johnny B. Goode”, gravada para um filme, é muito criticada – mas não vejo problema nela, só a acho desnecessária, podia ser no máximo lado B de compacto. “Love You to Death” e “Monsters of Rock” encerram o álbum, a primeira soando como Judas no piloto automático e a segunda, bem melhor, traz Halford no seu melhor desempenho vocal do disco. Após a turnê de lançamento, Dave Holland, que enfrentara vários problemas de saúde durante a gravação, deixou a banda após quase dez anos. Envolvido num escândalo sexual de pedofilia, Holland foi preso e praticamente “limado” da história do grupo, sendo inclusive apagado de fotos antigas.


Demolition [2001]

O segundo disco gravado por Ripper Owens é mais fraco que o primeiro, na minha opinião. Parte do disco remete ao som mais contemporâneo de Jugulator, parte ao Judas clássico, mas sem grande sucesso. Glenn Tipton assumiu de vez as rédeas do grupo e assinou sozinho cinco das 13 músicas, mais duas com Chris Tsangarides (que só deu uma ajuda nas composições, sem se envolver com a produção) e uma com Scott Travis (seu único crédito como compositor até hoje). A abertura com “Machine Man” é um dos melhores momentos do álbum, rápida e pesada como tantas outras, mas o vocal de Ripper não combina com o Priest. Já em “Hell is Home” o cantor está bem, soltando os agudos que se espera de quem substituiu Rob Halford. Por outro lado, “One on One” é muito trash para o padrão Judas, e a voz de Ripper soa como se Dave Mustaine tivesse aprendido a cantar – mas creiam, isso não é elogio. “Jekyll and Hyde” é mais curta e mais direta, mas também não consegue chamar muito a atenção. E o disco segue por aí afora, sem entusiasmar. O duplo ao vivo Live in London (gravado na Brixton Academy em 2001) foi lançado em 2003, mas registra apenas três músicas de Demolition.


Redeemer of Souls [2014]

Redeemer of Souls é um álbum que conquistou elogios da crítica à época do seu lançamento – algo que a banda estava precisando para se recuperar da crítica negativa a Nostradamus, mas o tempo não lhe foi muito generoso, pois comentários recentes têm sido negativos. Tendo chegado ao 5º lugar da Billboard, posição mais elevada da banda no mercado americano e trazendo a estreia de Richie Faulkner no lugar de K. K. Downing, Redeemer of Souls é outro disco que ficaria em posição mais alta se fosse de outra banda, com menos coisa boa lançada, e às vezes penso que o produtor Mike Exeter, que pouco cuidou das músicas, é um culpado. Após a boa abertura com “Dragonaut”, temos a ótima faixa-título, a primeira com cara de clássico da banda, com ótimo riff de guitarras. O final com “Battle Cry” e “Beggining of the End” é ótimo, mas “Halls of Valhalla”, “Sword of Damocles”, “Secrets of the Dead”, “Metalizer” são todas boas músicas que não “grudam” nos ouvidos. Um detalhe que não sabia à época do lançamento é que Halford proibiu terminantemente que se usasse qualquer efeito nos seus vocais – ele se sai bem, aliás. No final das contas, Redeemer… é um daqueles discos que você demora a tirar da estante, mas quando ouve se pergunta por que passou tanto tempo da última audição – por exemplo, quando ouço “March of the Damned” me pergunto como esqueci dela. Mas no dia seguinte põe outra coisa para tocar e se esquece do pobre Redeemer…. Durante a turnê do disco a banda gravou o CD/DVD ao vivo Battle Cry, em que três músicas dele são executadas ao vivo e o início de “Battle Cry” serve de vinheta introdutória.


Jugulator [1997]

A banda ficou parada por um tempo após a saída de Rob Halford, mas recebeu de volta Scott Travis e incorporou o norte-americano Ripper Owens, resultando num álbum bem interessante, ainda que abaixo do que o Judas Priest já tinha alcançado. Entretanto, Jugulator tem sido reavaliado e nos últimos anos tem sido mais elogiado do que na época do lançamento. As músicas são todas de Tipton (que se encarregou das letras) e Downing. O disco é pesado e as guitarras são violentas, tornando-o uma boa opção para quem gosta do Priest mais heavy. E Ripper Owens é indubitavelmente um bom vocalista. Mas as letras sombrias de Tipton não me agradam muito, e o timbre das guitarras é bem anos 90 (não é minha época favorita para o heavy metal, para ser honesto). Tem coisas boas, como “Burn in Hell”, “Cathedral Spires”, “Brain Dead”, “Abductors” e a faixa-título, mas no todo o álbum nunca chegou a me impressionar muito; a própria banda parece renegar essa fase da sua carreira, pois as músicas desapareceram dos setlists depois que Rob voltou – e antes que alguém o acuse, ele já afirmou não se opor a cantá-las se os demais quiserem. Jugulator é um disco bom que não entusiasma, por isso está tão baixo na lista; e acho que o fato de Glenn ter lançado seu álbum-solo Baptizm of Fire um pouco antes deste aqui acabou prejudicando todo mundo; há músicas no disco-solo que poderiam ter soado bem aqui, com a participação dos colegas. O álbum foi sucedido pelo duplo ao vivo ’98 Live Meltdown, que provou que a banda continuava bem ao vivo e que Ripper conseguia manter o alto nível do seu antecessor. Cinco músicas de Jugulator aparecem nesse ao vivo.


Nostradamus [2008]

Este é um álbum conceitual que disputa com Turbo o posto de mais malhado da história da banda. Mais uma vez peço licença para discordar. O CD duplo/vinil triplo pode não ser uma obra-prima, mas tem músicas muito boas e traz uma banda que não tem medo de ousar soar diferente de tudo o que fizera antes. Com teclados de Don Airey e alguns arranjos orquestrais, Nostradamus se dividiu em dois atos e traz 14 músicas e 9 vinhetas para narrar a história do profeta francês. Dentre as músicas propriamente ditas, “Prophecy”, “Revelations”, “Death”, “Alone”, “Lost Love” e “New Begginings” são os principais destaques desse álbum que acabou ficando um tanto obscuro na discografia do Judas Priest, pois nem na turnê de lançamento a banda executou muita coisa dele – na verdade, apenas “Prophecy” e “Death” o foram, e há versões em A Touch of Evil, lançado em 2009 e que traz músicas gravadas nas turnês de Angel of Retribution e Nostradamus. Sobre as vinhetas, penso que são interessantes em termos da narrativa musical estabelecida no disco, mas não se destacam tanto para mim. Após este disco, K. K. Downing saiu do grupo pelas famosas “diferenças musicais” e por tretas com o manager Bill Curbishley. Ele inicialmente desapareceu do meio musical e depois voltou com o K. K.’s Priest. Para uma análise bem mais detalhada deste álbum injustiçado, sugiro a leitura da resenha feita pelo Mairon Machado .


Angel of Retribution [2005]

Depois de tanto tempo afastado, Rob Halford retornou à banda, ressuscitando a formação de Painkiller. Se Demolition tinha prejudicado a imagem do grupo, Angel… a recuperou. A produção um pouco abafada de Roy Z não ajuda muito, mas não compromete, e o consoante inclusive é coautor de uma das músicas que mais gosto no disco, “Deal With the Devil”, com um trabalho vocal muito interessante de Halford. A boa “Judas Rising” abre o disco como se proclamasse a volta da banda. O baixo pesado torna “Revolution” interessante, pois é raro ouvir Ian Hill com destaque. Mas “Worth Fighting For” reduz muito o peso, com cara de música para videoclip, e vale pela voz de Halford. “Demonizer” também não é ruim, mas não chega a chamar muito minha atenção, apesar dos bons solos, ao passo que “Wheels of Fire” remete aos bons momentos do Judas nos anos 80 e se torna com isso uma das minhas favoritas. “Angel” também surpreende com a introdução acústica (quanto tempo fazia desde que o Judas não usava violões?) e se mostra uma bela balada no estilo do grupo nos anos 70. “Hellrider” restabelece o peso, outra boa música; “Eulogy” segue-se, outra balada que traz com destaque um piano tocado por Don Airey, e prepara tudo para a ambiciosa “Lochness”, a música mais longa da história do Judas Priest até hoje (13’28” de duração), e que dividiu opiniões entre meus amigos na época do lançamento: uns (como eu) amaram, outros odiaram. Estes tiveram que engolir Nostradamus três anos depois…

Glenn Tipton, K. K. Downing, Rob Halford, Dave Holland e Ian Hill. Judas Priest no início dos anos 80

Point of Entry [1981]

Primeiro fato: eu gosto deste disco (e não sou o único, como se pode conferir aqui). Segundo fato: é um bom álbum, mas como a banda fez coisa muito melhor, ele fica mal posicionado na lista. “Heading Out to the Highway” começa muito bem os trabalhos, “Don’t Go” (curiosamente, nunca apresentada ao vivo, embora tenha sido lançada em single) e “Hot Rockin’” (esta com um dos videoclipes mais ridículos da história) mantêm o álbum em alto nível, e “Desert Plains” encerra um lado A quase perfeito – “Turning Circles” é a mais fraca, mas ainda assim é interessante. “Solar Angels” abre muito bem o lado B, com “You Say Yes” (com seu riff de guitarra supergostoso) e a simples, mas eficaz “All the Way” diminuindo um pouco o nível, mas ainda assim mantendo o álbum em bom padrão. “Troubleshooter” ganha muito com o refrão, mas é uma das menos marcantes do disco. “On the Run”, que encerra o álbum, também não chega a se destacar. Já foi dito que a banda estava mais a fim de festejar em Ibiza (onde o disco foi gravado) do que de preparar um sucessor para British Steel. Independentemente disso, Point of Entry é para mim um bom disco que teve o azar de ser o recheio do sanduíche com British Steel e Screaming for Vengeance; a maioria das pessoas dirá que o pão é muito bom, mas o que vai dentro nem tanto.


Firepower [2018]

Firepower, segundo disco gravado com Richie Faulkner, entrou na parada da Billboard na 5ª posição. O álbum foi produzido pelo veterano Tom Allon e por Andy Sneap, que se tornou o guitarrista substituto de Glenn Tipton nos shows. Tudo começa muito bem, com a faixa-título e “Lightning Strikes”, dá uma caída com “Evil Never Dies”, que nunca me chamou a atenção, mas volta a crescer com “Never the Heroes”, e segue bem com “Necromancer” e “Children of the Sun”. Aí tem-se a primeira surpresa do disco, a vinheta instrumental “Guardians”, introduzindo a ótima “Rising from the Ruins”, que engata com “Flame Thrower”, “Spectre”, “Traitors Gate”, caindo um pouquinho com a curta “No Surrender”, boa música que perde um pouco em relação às anteriores. E se “Lone Wolf” acaba não se destacando muito, “Sea of Red”, composição mais longa do disco, mostra-se muito bem trabalhada, com uma introdução lenta e um clima épico que remete ao Judas dos seus melhores anos. No todo, Firepower é um excelente álbum, mas que acabou não rendendo nenhum clássico para a banda, e por isso acaba se classificando um pouco mais baixo no ranking do que merecia…


Invincible Shield [2024]

Invincible Shield, mais recente disco da banda, já foi resenhado aqui. Andy Sneap produziu o álbum, com Tom Allon como coprodutor em duas músicas. Vários meses de audições confirmaram as impressões iniciais, e me fazem considerar este disco o melhor da formação atual (Halford, Tipton, Faulkner, Hill e Travis). É surpreendente que do alto de 50 anos de carreira o Judas ainda lance um disco assim. “Panic Attack”, “The Serpent and the King” e “Invincible Shield” abrem muito bem o album, que ainda tem as ótimas “Crown of Horns”, “As God is my Witness”, “Trial by Fire” e “Giants in the Sky” formando uma sequência matadora. As demais músicas conseguem manter a atenção do ouvinte e se mostram boas adições ao catálogo do Priest, fazendo de Invincible Shield um álbum que não tem nenhuma escorregada, nenhuma música que alguém vá considerar indigna da história do grupo – “Gates of Hell”, que remete ao trabalho dos anos 80, tem uma saudável dose de peso nas guitarras. Infelizmente, o Judas, como outras tantas bandas veteranas, atingiu aquele ponto da vida em que cada disco pode ser o último; se Invincible Shield o for, a banda terá se despedido à altura da sua trajetória.


Turbo [1986]

Resenhei este álbum para a seção “Discos Que Parece Que Só Eu Gosto”. Foi o primeiro LP do Judas que comprei no lançamento, mas acabei vendendo para um amigo e só depois, com o CD, é que o reavaliei. O problema de Turbo é a produção para lá de datada, porque tem músicas muito boas. A faixa-título, “Out in the Cold”, “Locked In”, “Wild Nights, Hot & Crazy Days”, “Parental Guidance”, todas são músicas que poderiam estar sendo tocadas nos shows até hoje, especialmente se rearranjadas sem as guitarras sintetizadas (claro que em “Turbo” e “Out in the Cold” não daria…). Turbo é um experimento artisticamente mal-sucedido, já que a maioria das pessoas tem uma opinião negativa do álbum, mas comercialmente foi o disco do grupo de melhor posição na parada dos EUA até Angel of Retribution ser lançado em 2005. Turbo tem uma boa edição de 30º aniversário acompanhada de um CD duplo ao vivo. Mas, como a turnê tinha rendido Priest… Live!, o impacto desse bônus é menor; ainda assim, é uma boa amostra do poder do grupo nos palcos nessa época. Pessoalmente teria preferido que incluíssem o que teria formado Twin Turbos, que está espalhado pelas reedições ou foi regravado para Ram it Down, mas ainda sobrou algum material inédito.


Painkiller [1990]

Turbo e Ram it Down foram muito criticados, mas para a maioria o Judas Priest voltou à forma com este disco. Mas, antes do resto, tenho que dizer algo que vai me render algumas xingadas: acho a faixa-título uma música excelente prejudicada por um vocal medonho; Rob Halford canta de um jeito esganiçado que me incomoda (que ele repete ao longo do disco, como na introdução de “All Guns Blazing” – boa música, aliás). A artilharia de Scott Travis na bateria mostra que a banda ganhara um ingrediente adicional para dar peso às músicas (gosto da bateria de Dave Holland, mas em alguns momentos ele soava leve demais para as músicas). Como no caso do disco anterior, “Hell Patrol”, a segunda música, não mantém o nível da faixa-título, mas não compromete muito. “Leather Rebel” e “Metal Meltdown” dão um bem-vindo destaque às guitarras de Tipton e Downing, provando que o Judas estava com a faca nos dentes ao gravar o álbum. A ótima “Night Crawler” se segue, equilibrando peso e tino comercial, e “A Touch of Evil” é outro destaque absoluto que aumenta a avaliação. “Between the Hammer and the Anvil” não se destaca, mas também não compromete, e a dupla “Battle Evil/One Shot of Glory” encerra o disco muito bem, a primeira uma vinheta instrumental que remete à clássica “The Hellion” e a segunda, uma música longa e bem trabalhada, com ótimas guitarras. O saldo final, para mim, é fácil de resumir: Painkiller estaria mais elevado na lista se fosse um disco de outra banda. Após o disco, saiu a boa coletânea Metal Works ‘73-’93 e enfrentou a saída de Rob Halford (que formou o Fight com Scott Travis), voltando a ter um disco de estúdio somente em 1997, com Travis de volta à bateria.


Killing Machine/Hell Bent for Leather [1978]

O segundo disco de 1978 (o único ano em que a banda lançou dois LPs), lançado oito meses depois de Stained Class, teve seu título trocado nos EUA a pedido da CBS, que o lançou em fevereiro de 1979 e incluiu “The Green Manalishi (With the Two-Pronged Crown)”, cover do Fleetwood Mac que depois seria adicionada às reedições. “Delivering the Goods” honra a tradição do Judas em iniciar os discos com uma música de primeira qualidade, mas “Rock Forever” e “Evening Star” não mantêm o nível (a última é bem comercial, mas confesso sentir um prazer perverso ao ouvi-la…); felizmente, “Hell Bent for Leather”, apesar de curtinha, joga o nível lá em cima de novo. Mas “Take on the World” é horrorosa, forte candidata a pior música deles nos anos 70. A sequência “Burnin’ Up”, “The Green Manalishi”, “Killing Machine” e “Running Wild” recupera o disco e prepara o terreno para “Before the Dawn”, uma balada simplesmente linda que é minha favorita do disco. Tudo se encerra com “Evil Fantasies”, que não consegue manter o nível das anteriores – aliás, se o Judas Priest abria bem seus discos, nem sempre sabia encerrá-los… Durante a turnê de divulgação deste disco o grupo gravou no Japão seu primeiro álbum ao vivo, Unleashed in the East, cuja primeira prensagem britânica trazia um EP com três músicas adicionais extraídas dos mesmos shows, que antes só podiam ser encontradas na exclusividade japonesa Priest Live & Rare e hoje fazem parte dos bônus no CD.


Sad Wings of Destiny [1976]

Mudança na banda: Alan Moore substituiu John Hinch na bateria, e Glenn Tipton se torna o principal compositor do grupo, pois três músicas (“The Ripper”, “Prelude” e “Epitaph”) foram escritas exclusivamente por ele; além disso, seu entrosamento com Downing é marcante, fazendo com que o Priest ganhe muito em termos de guitarras (sim, eu sei, Tipton participou de Rocka Rolla, mas ele entrou pouco antes da gravação do álbum e os dois ainda não tinham desenvolvido sua parceria). O salto de qualidade em relação ao primeiro disco é impressionante. “Victim of Changes” e “Dreamer Deceiver” ainda têm coautoria de Atkins, e o trio que se responsabilizaria pela maior parte do repertório do Judas (Halford/Downing/Tipton) assina “Deceiver”, “Island of Domination” e “Genocide”. “The Ripper” e “Victim of Changes” se tornaram clássicos do grupo, presentes em boa parte dos shows desde então, mas além delas há ótimas músicas como “Tyrant” (cujo vocal está aquém das versões ao vivo que sairiam posteriormente, aliás), “Genocide” e “Island of Domination”. A capa do disco já se aproxima mais de uma estética heavy metal e a banda se mostra bem mais segura, em especial nos quase oito minutos de “Victim of Changes”, uma forte concorrente ao posto de melhor música do Judas na minha opinião. Após este disco, o Judas deixou o selo independente Gull Records para assinar com a gigante CBS, e, com o apoio de uma grande gravadora, começou sua trajetória de sucesso.


Stained Class [1978]

Stained Class traz a estreia do bom Les Binks no banquinho do baterista, e ele permaneceria por mais dois álbuns, tornando a quarta formação do Judas a primeira a conseguir esse feito. E o estreante já mostra a que veio na primeira música, a clássica “Exciter”. A melhor música é, para mim, “Beyond the Realms of Death”, que teve a melodia composta por Binks ao pegar uma guitarra no estúdio, e traz um dos meus solos de guitarra (o do meio) favoritos em toda a discografia do Judas Priest (o solo final é bom, mas o do meio é matador…). A cover de “Better by You, Better by Me” (do Spooky Tooth) é muito boa, mas renderia um processo ao grupo após dois adolescentes tentarem se matar (um morreu, mas o outro sobreviveu) após ouvirem-na por horas a fio. Gosto bastante da faixa-título e de “Invader” (essa com uma rara coautoria de Ian Hill), tornando o antigo lado A praticamente perfeito! No antigo lado B, tem-se, além de “Beyond…”, as boas “Saints in Hell”, “Savage” e “Heroes End” – mas no geral o melhor ficou no lado A, tornando o LP meio desequilibrado. Stained Class tem músicas excelentes, mas fica um pouco perdido na produção total do grupo, e por isso não conquista uma posição muito elevada; mas não se deixe enganar, é um disco muito bom e não faz feio na coleção de ninguém que goste de heavy metal.


Sin After Sin [1977]

Daniel Benedetti resenhou magnificamente este ótimo álbum aqui. A banda, que fora contratada pela CBS após o mau desempenho da Gull Records (que posteriormente relançaria músicas dos dois primeiros LPs em coletâneas) na promoção dos álbuns, recebeu um bom orçamento para a gravação e Roger Glover foi contratado para a produção, mas, como nem tudo são flores, Alan Moore foi demitido e, sem baterista, foi preciso contratar Simon Phillips, um verdadeiro mestre (à época com 19 anos de idade) que atuou boa parte de sua carreira como músico de estúdio. O álbum é muito bom do começo ao fim, mas gostaria de destacar as magníficas “Sinner”, “Dissident Aggressor”, “Starbreaker” e “Last Rose of Summer” (que explora um lado mais baladeiro do grupo, que poucas vezes afloraria no futuro). E, claro, há a ótima cover para “Diamonds and Rust”, gravada por insistência de Glover, que queria uma composição mais comercial para um single. O álbum chegou ao 23º lugar nos EUA, onde eventualmente ganharia um disco de ouro, colocando o Judas definitivamente no mapa do rock. A banda até que tentou, mas não conseguiu manter Simon Phillips, tendo que procurar outro batera.


Defenders of the Faith [1984]

Defenders of the Faith é um dos melhores álbuns do grupo, sem dúvida. “Freewhell Burning” é um monumento do heavy metal, com peso e velocidade impressionantes. Daí em diante não há música que se compare a ela, mas também nada há que comprometa. “Jawbreaker” e “Rock Hard Ride Free” são boas músicas, e “The Sentinel”, que vem na sequência, chega perto do nível da abertura, quase um épico, embora não seja nem mesmo a mais longa do LP. O lado B começa com “Love Bites”, uma das músicas mais conhecidas do disco, mas também uma das piores, um pop meio nas coxas, mas que fez algum sucesso; pessoalmente, já simpatizei mais com essa música. “Eat me Alive”, outro rock rápido e pesado, recoloca o disco nos eixos – mas depois tem-se “Some Heads are Gonna Roll”, composição de Bob Halligan Jr. que entrou na tracklist com pinta de single, mas não deu certo. As três últimas faixas, “Night Comes Down”, “Heavy Duty” e “Defenders of the Faith” (essa aqui só uma coda da música anterior), encerram bem o disco, a primeira mais leve (é quase uma balada) e as duas últimas com jeitão de hino para o público gritar o refrão no estádio. Conheço gente que coloca este álbum em primeiro lugar na sua lista de favoritos, mas para mim ele é medalha de bronze. Mais uma vez gravado em Ibiza, Defenders… tem uma edição de 30º aniversário com a gravação de um show em Long Beach em 1984 – absolutamente imperdível, pois o repertório é ótimo e a banda está bastante afiada.


British Steel [1980]

British Steel marcou a estreia do ex-Trapeze Dave Holland na bateria (completando a formação clássica do grupo) e está recheado de músicas conhecidas, três das quais estão no top 10 das mais tocadas ao vivo pelo grupo. O lado A é quase perfeito, com a rápida e pesada “Rapid Fire”, a ótima “Metal Gods”, o megahit “Breaking the Law” e a tensa “Grinder” – pena que “United”, no meu ponto de vista, não está à altura das outras quatro. Em seguida, “You Don’t Have to be Old to be Wise”, uma música que entra fácil numa lista das melhores do Judas para mim, outro megahit – “Living After Midnight”, uma música simples e perfeita para quem quer apenas divertir-se com um som muito gostoso de ouvir – e as boas “The Rage” (com uma rara introdução de baixo de Ian Hill) e “Steeler”. Ou seja, um disco praticamente perfeito, à exceção de “United”, que pode até funcionar muito bem ao vivo, com seu jeitão de hino-heavy-para-cantar-junto, mas não me convence na versão de estúdio. Se alguém me diz que este é seu favorito do Judas, eu não fico nada surpreso… A edição de 30º aniversário traz um CD e DVD ao vivo como bônus, mas são gravações de 2009, da turnê que comemorava esse aniversário e na qual o álbum era tocado na íntegra.


Screaming for Vengeance [1982]

Meu álbum favorito do Judas Priest em todos os tempos. O grupo tinha conseguido aliar qualidade ao sucesso com British Steel e, na visão de muita gente, tropeçado com Point of Entry, e neste disco atingiu o seu apogeu, retornando à fórmula do álbum de 1980. Da abertura com “The Hellion/Electric Eye” (que até hoje me impressiona pelo trabalho espetacular de vocais de Rob Halford) até o encerramento com o andamento super gostoso de “Devil’s Child”, tem-se desde músicas pesadas como “Screaming for Vengeance” (o Judas raramente errava nas faixas-título) e “Riding on the Wind” (rápida e certeira) até pop descarado como “Take These Chains”, de autoria de um certo Bob Halligan Jr., um compositor da CBS que teria outras músicas regravadas pelo grupo), passando por músicas que aliam som hard a melodias mais comerciais como “You’ve Got Another Thing Comin’” e “Bloodstone” (outra com desempenho impecável de Halford). “Fever” e “Pain and Pleasure”, na minha opinião, estão um pouco abaixo das demais, mas têm seus atrativos, especialmente a segunda. A banda obteve dois discos de platina com este álbum e chegou a um bom 17º lugar na parada americana. E em termos de execuções ao vivo, apenas British Steel apareceu mais em setlists do que as músicas deste disco. A edição de 30º aniversário também trouxe um DVD ao vivo, dessa vez com um show da época (nos EUA – tente não rir com o “figurino” do Rob), além de algumas faixas-bônus no CD.

Um comentário em “Do Pior Ao Melhor – Judas Priest

  1. Muito surpreso com a posição de alguns discos nesta lista, principalmente Rocka Rolla, Painkiller e Redeemer of Souls, os quais na minha lista, ficam bem acima. Sobre o Turbo, até entendo a paixão do Marcello, por isso respeito, mas não me pegou tanto assim após novas audições (mas não é nem de longe o pior, isso é fato). A faase Tim Ripper eu tenho um certo receio, então minha lista do Melhor ao Pior (que sempre acho mais fácil de fazer nos comentários) fica

    1. Sin After Sin
    2. Stained Class
    3. Sad Wings of Destiny
    4. Defenders of Faith
    5. Nostradamus
    6. Painkiller
    7. Screaming for Vengeance
    8. Rocka Rolla
    9. Hell Bent For Leather
    10. Firepower
    11. Angel of Retribution
    12. British Steel
    13. Redeemer of Souls
    14. Point of Entry
    15. Jugulator
    16. Turbo
    17. Invicible Shield
    18. Dominator
    19. Raw Power

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