Discografias Comentadas: Roxy Music

Discografias Comentadas: Roxy Music
Paul Thompson, Bryan Ferry, Rik Kenton, Brian Eno, (em pé); Andy Mackay e Phil Manzanera (sentados). Roxy Music em setembro de 1972

Por Marcello Zapelini

26/9/1945: no norte da Inglaterra, numa família de classe trabalhadora, nascia Bryan Ferry. Apesar da pobreza, a infância e a adolescência o levaram a um gosto refinado e a um certo saudosismo por um passado mais elegante do que o presente que ele vivia. E após cursar a escola de Artes, Ferry começou a desenvolver seu projeto musical; o primeiro recruta para seu projeto foi um baixista chamado Graham Simpson, que Ferry conhecia da escola, e um anúncio rendeu alguns músicos interessados: Phil Manzanera (guitarra), Andy Mackay (sax e oboé), Paul Thompson (bateria), e um sujeito esquisito que gostava de manipular tapes e que era o único que sabia como usar um sintetizador – Brian Peter George St. Jean-Baptiste De La Salle Eno.

Em 1972, o Roxy Music lançava seu primeiro single (“Virginia Plain”) e, logo depois, o primeiro LP – o sucesso comercial atingido estabeleceu-os na cena rocker britânica. Simpson, prejudicado pelas drogas, foi sacado ao final das gravações do primeiro disco, e dali em diante o Roxy não teve baixista fixo. Ferry e Eno logo se estranharam, e o último saiu após o segundo LP. Em seu lugar entrou o jovem tecladista e violinista Eddie Jobson. Manzanera, Mackay e Thompson se contentaram em ser sidemen para Bryan e o Roxy se manteria com músicos convidados sempre que necessário.

Ferry tinha controle total sobre o grupo, compondo a quase totalidade do repertório, definindo a arte das capas (quase invariavelmente incluindo belas mulheres), planejando cenários e efeitos visuais nos shows, mas sempre abrindo espaço para os músicos brilharem e cedendo espaço nos singles para que apresentassem composições próprias. Entretanto, já em 1973 ele lançava seu primeiro LP solo, e levaria uma carreira em paralelo à banda. Em 1976 a banda decidiu dar um tempo, voltando em 1979 – perdendo Thompson pouco depois. O trio Ferry – Manzanera – Mackay permaneceu, auxiliado por músicos contratados, até 1983, quando a turnê de lançamento de Avalon (1982) terminou. Com Thompson de volta e vários músicos adicionais, oRoxy Music se reuniria em 2001 e gravaria ao vivo um CD duplo e um DVD, mas não lançaria mais álbuns de estúdio. Em 2011, o Roxy pararia por um tempo, apresentando-se em 2019 e 2022, quando ocorreu o fim (definitivo?) da banda.


ROXY MUSIC [1972]

O álbum traz a modelo Kari-Ann Moller em pose de pin-up dos anos 40 na capa; na parte interna, seis figuras esquisitas com óculos de homem-mosca, penteados cheios de gel, jaqueta de oncinha, plumas e vai por aí afora. O álbum soa diferente de quase tudo o que era feito em 1972, e mesmo as músicas mais simples trazem alguma coisa, algum detalhe inesperado. “Re-make/Re-model” começa com sons de festa; a música possui um riff insistente de baixo de Simpson, o sax de Mackay, Manzanera fazendo miséria na guitarra e os efeitos sonoros de Eno, tudo sobre uma bateria em stacatto e o piano de Ferry. Cada músico tem seu momento solo e os backing vocals repetem insistentemente CPL593H, placa do carro de uma ex-namorada de Ferry. “Ladytron”, na sequência, já tem mais cara de Roxy e é uma das minhas favoritas do LP, com o vocal cheio de maneirismos de Ferry e Eno usando seu arsenal de barulhos esquisitos. “If There is Something” põe o piano e a guitarra em primeiro plano (aliás, como toca Manzanera!) e depois libera o sintetizador de Eno; ela é seguida, na versão americana, por “Virginia Plain”, o primeiro single, um rock’n’roll simpático e alegre que se tornou um clássico do grupo. Aliás, a música foi uma das últimas a serem gravadas, e Simpson já tinha sido expulso da banda (Rik Kenton toca baixo). “2HB” escancara os interesses de Ferry no campo artístico (o título significa “To Humphrey Bogart”), pois remete ao passado glamouroso de Hollywood. “The Bob (Medley)” traz várias pequenas faixas interligadas e mais um título enigmático (Bob = Battle of Britain) na música mais experimental do disco. “Chance Meeting” inicia de modo mais convencional, até a guitarra distorcida de Manzanera entrar. “Would You Believe” traz Ferry quase no falsete, com o sax de Mackay costurando a melodia no fundo; a música acelera e vira um rock cinquentista. A bela “Sea Breezes” é o mini-épico do disco, iniciando com o piano elétrico e o oboé fornecendo a base para a voz chorosa de Ferry. Mais ou menos na metade, a bateria pesada de Thompson muda o ritmo e o clima da música que se encerra repetindo a melodia original. “Bitters End” encerra este que considero um dos melhores discos de estreia de uma banda de rock dos anos 70 em mais uma melodia que remete à década de 50. O disco fez sucesso, chegando ao 10º lugar na parada britânica, e o visual alucinado ajudou a impulsionar a carreira do Roxy Music.


For Your Pleasure [1973]

O Roxy Music começa furioso seu segundo LP, com a vertiginosa “Do the Strand”, cuja letra convida todo mundo a dançar. “Beauty Queen”, na sequência, tem mais cara da banda, e o trecho instrumental no meio traz um pouco mais de Brian Eno, que pouco se destacou na faixa de abertura; da mesma maneira, “Strictly Confidential” é outra música que não teria soado fora de lugar no primeiro disco, abrilhantada por um belo desempenho de Manzanera. O lado A termina com duas músicas excelentes, “Editions of You” e “In Every Dream Home a Heartache”; a primeira traz um solo de Eno no seu sintetizador VCS3 que explora, nas palavras de seu autor, algumas sonoridades desagradáveis, e a segunda é provavelmente a única música escrita por uma banda do primeiro escalão sobre uma boneca inflável. Phil Manzanera mais uma vez solta os bichos no solo de guitarra, e a música tem um false ending sensacional. Virando o LP, tem-se outro mini-épico, “The Bogus Man”; o bicho-papão é, nesse caso, um predador sexual, e Mackay é o astro, pontuando a música inteira com saxes atonais; em minha opinião, essa versão de estúdio é muito superior à gravada ao vivo disponível em Viva! Roxy Music (1976). O álbum se encerra com a bonita “Grey Lagoons” e a faixa-título, que se tornou um clássico da banda. Mais uma vez, Bryan Ferry compôs sozinho todo o repertório do LP, que traz em sua capa a namorada do cantor à época, a modelo Amanda Lear, que segura uma pantera negra numa coleira, e no fundo tem-se Bryan vestido de chofer à porta de uma limusine; na capa interna, os cinco aparecem segurando guitarras – e é impossível não dar mais atenção à figura emplumada de Eno, apesar do chefe Ferry estar no meio da foto. O baixista John Porter é creditado como “convidado”, num padrão que se repetiria posteriormente.

For Your Pleasure melhorou o desempenho comercial, chegando ao 4º lugar no Reino Unido e figurando em modesta 193ª posição nos EUA (o primeiro LP não chegou à parada americana). Durante a turnê de lançamento, Eno cometeu o grave crime de chamar mais atenção do público do que Ferry, e este colocou os outros contra a parede, na base de “ou ele ou eu”. Brian Eno se tornaria produtor, além de gravar discos-solo e em parceria com outros músicos (como Robert Fripp, do King Crimson), e o Roxy incorporou o jovem tecladista/violinista Edwin Jobson às suas fileiras.

Phil Manzanera, Paul Thomson, Eddie Jobson, Bryan Ferry, John Gustafsson e Andy MacKay, Roxy Music em 1975

Stranded [1973]

O segundo disco de 1973 traz a estreia de Eddie Jobson (teclados, violino) e, como convidado, o baixista John Gustafsson, que gravaria outros discos do Roxy. Na capa, a modelo Marilyn Cole, ex-coelhinha da Playboy, mantém a tradição das belas mulheres. O disco foi outro sucesso na Inglaterra, liderando a parada – mas também não teve grande desempenho nos EUA, atingindo apenas a 186ª posição. “Street Life”, uma das minhas favoritas do Roxy, abre o disco com efeitos sonoros, como no primeiro disco, é propulsionada por um riff insistente de Manzanera e destaca vocais furiosos de Bryan. Na sequência, a bela “Just Like You” abre chance para respirar, e antecede “Amazona”, divertido rock que recoloca Manzanera (coautor da canção) em destaque. “Psalm”, na sequência, é um daqueles mini-épicos do Roxy Music que fazem a banda pintar uma verdadeira paisagem sonora com teclados, sopros e o violino de Jobson. O antigo lado B traz duas verdadeiras maravilhas, “A Song for Europe” (composta por Ferry e Mackay, cujo breve solo de saxofone é memorável), com sua letra que lamenta a desilusão amorosa em diferentes cidades europeias, parcialmente cantada em latim (!) e francês, e a ótima “Mother of Pearl”, que depois seria regravada por Johnette Napolitano (Concrete Blonde) em seu projeto Pretty & Twisted; após uma introdução curiosamente hard rock para o padrão do Roxy Music, ela se torna uma bela balada. Mas esse lado B ainda traz “Serenade”, com sua interpretação apaixonada e mais um desempenho inspirado de Phil Manzanera, e “Sunset”, que emenda com “Mother of Pearl” e encerra o álbum de maneira suave e um pouco melancólica. Stranded é, na minha opinião, um dos melhores discos do Roxy Music, senão o melhor – mas a concorrência é grande, pois, dependendo de meu estado de humor, qualquer um dos quatro primeiros pode ganhar essa honra.


Country Life [1974]

O quarto álbum do grupo é considerado um dos melhores – e eu concordo com essa avaliação. Embora tenha chegado apenas ao terceiro lugar nas paradas britânicas, foi o maior sucesso do Roxy até então nos EUA, pois alcançou o 37º lugar. A capa americana é diferente da original: as duas garotas de lingerie translúcida foram demais para a terra da Playboy e da Penthouse, e apenas a folhagem de fundo aparece na capa do LP americano; uma das meninas é irmã de Michael Karoli, do Can, e a outra, a namorada do guitarrista. A formação se estabilizou, com John Gustafsson reprisando seu papel de baixista convidado. “The Thrill of it All” inicia (muito bem) o disco com outra faixa rápida, embora dessa vez a mixagem não dê o destaque devido à ótima instrumentação da banda. “Three and Nine”, na sequência, é marcada pela harmônica de Ferry, instrumento que ele tocou relativamente pouco ao longo da carreira; ela e “Bitter-Sweet” (que tem um clima meio soturno e alguns versos em alemão que teriam sido traduzidos pelas duas modelos da capa) foram escritas com Andy Mackay. “All I Want is You” é outra música mais rocker, e traz bom solo de Phil, que assina em parceria com Bryan as ótimas “Out of the Blue” e “Prairie Rose”, a primeira um clássico absoluto do grupo e a outra injustamente pouco lembrada. A cinquentista (e simpática) “If Takes All Night” encerra o lado A em clima de festa. No lado B, além de “Bitter-Sweet” e “Prairie Rose”, temos a hard e meio funky “Casanova”, as belas “Tryptich” (com sua introdução grandiloquente) e “A Really Good Time” (cujo arranjo orquestrado deve ter sido feito por Jobson, mas não encontrei créditos).


Siren [1975]

Siren é, a meu ver, um disco um pouco mais fraco que os anteriores, e seria o último LP de estúdio do grupo a contar com Jobson e Gustafsson; Bryan Ferry colocaria o grupo na geladeira logo após o encerramento da turnê de lançamento. O desempenho comercial foi um pouco inferior ao álbum anterior, atingindo o 4º lugar no Reino Unido e o 50º nos EUA. É interessante observar que Mackay e Manzanera têm, cada um, duas coautorias, e Jobson, uma – o que torna este o álbum do Roxy com mais músicas compostas por Ferry em parceria até então. O disco começa (muito bem) com a dançante e funkeada “Love is the Drug”, outro clássico do grupo. Composta por Ferry e Mackay, a música tem uma bela linha de baixo e convida a pelo menos bater o pé no chão. “End of the Line” tem violino bem proeminente e uma interpretação melancólica de Ferry. Na sequência, a segunda coautoria de Mackay, “Sentimental Fool”, é um pouco mais elaborada e vanguardista, embora não me agrade muito – novamente, para mim o baixo de Gustafsson se destaca. “Whirlwind” (Ferry/Manzanera) encerra o lado A do LP num ritmo mais rápido que as anteriores, e os destaques vão para o bom solo do guitarrista e a interpretação afetada/apaixonada de Ferry. O lado B se iniciava com “She Sells”, única parceria entre Jobson e Ferry, uma música com ritmo gostoso de se ouvir, mas não muito memorável – a não ser pelo violino do tecladista. Já “Could it Happen to Me” é bem mais interessante, com um bom riff de guitarra e a banda como um todo dando o melhor de si, e prepara o caminho para o segundo grande clássico deste Siren, “Both Ends Burning”, uma música cujo único defeito é não dar muito espaço para Manzanera ao final (as versõea ao vivo corrigiram esse pecado). A segunda parceria entre Ferry e Manzanera, “Nightingale”, é uma bela canção cuja introdução é bem diferente do resto da música. O álbum conclui com a ótima “Just Another High”, música mais longa do disco e um de seus pontos altos, com um arranjo de metais e backing vocals bem interessantes pontuando o vocal de Ferry. Na minha opinião, a banda deixou o melhor para o final. A sereia da capa é Jerry Hall, então namorada de Ferry – pouco depois ela o trocou por Mick Jagger.

Após o encerramento da turnê de Siren, Ferry, Manzanera e Mackay partiram para diferentes projetos musicais, e a gravadora manteve a caixa registradora funcionando com dois álbuns, Viva! Roxy Music (1976), que apresenta gravações ao vivo feitas entre 1973 e 1975 (várias trazendo John Wetton no baixo), e a excelente coletânea Greatest Hits (1977). Ferry já tinha dois discos solo lançados em 1973 e 74 e teria mais três entre 1976 e 78; parecia que a banda estava acabada, mas a história continuaria.


Manifesto [1979]

Depois de anos de silêncio, Bryan Ferry reativou o grupo. Manifesto trazia o Roxy como quarteto (Jobson não voltou com os outros; Paul Carrack e Richard Tee são os tecladistas convidados), com uma capa cheia de manequins (em vez de mulheres de verdade) e, embora tenha sido bem-sucedido (7º lugar na parada britânica, 23º na americana), não foi tão elogiado pela crítica. Com menos experimentos e ousadia que os anteriores, o álbum abre com a faixa-título (uma de quatro parcerias Ferry/Manzanera), em que o baixo (tocado por Alan Spenner ou Gary Tibbs – os créditos não definem) faz misérias e a tensão cresce ao longo dela. “Trash”, na sequência, é outra parceria entre Ferry e Manzanera que saiu como single e traz a banda se divertindo numa música rápida e alegre. “Angel Eyes” é a única creditada a Ferry e Mackay e foi um dos singles do álbum: agradável e dançante, a música envolve o ouvinte e prepara para a bela “Still Falls the Rain” (outra de Ferry e Manzanera), com bom desempenho vocal de Bryan e um riff insistente de Phil, uma das minhas favoritas do disco. “Stronger Through the Years” fecha o lado A (“East Side”) com outro riff marcante de Phil e outro baixo sensacional (especialmente no final). O lado B (“West Side”) se inicia com a ótima “Ain’t That So”, outra música leve e dançante, mas que deveria ter o sax de Mackay mixado mais alto; Ferry toca harmônica e seu vocal suave ganha o acompanhamento de backings proeminentes (Melissa Manchester, Luther Vandross e Carrack). “My Little Girl” é a última parceria Ferry/Manzanera do disco, outra música leve e dançante, mas que chama menos a atenção. Os backing vocals novamente se destacam. Outro hit, “Dance Away”, leva o álbum adiante, com percussão eletrônica na introdução e teclados fortemente oitentistas – arrisco dizer que essa música foi uma das principais que moldaram o movimento New Romantic na década de 80. “Cry Cry Cry” é um soul sessentista em que Mackay evoca no seu sax os metais da Stax, e é provavelmente a mais fraca do disco. Tudo se encerra com a bela, nostálgica e melancólica “Spin me Round” – os teclados de Carrack e Ferry levam a melodia nas costas, com Manzanera e Mackay muito discretos.

Andy Mackay, Phil Manzarena e Bryan Ferry. Roxy Music nos anos 80

Após a turnê deste álbum, Paul Thompson deixou o Roxy; a participação dos bateristas Rick Marotta e Steve Ferrone nas gravações de Manifesto indicava que as coisas não estavam bem entre ele e Bryan. Um show nos EUA foi licenciado no final dos anos 90 como Concert Classics e depois relançado como Concerto e Ladytron. Não é fácil de achar, mas há uma versão posterior sob o nome Live in America. Ferry, Manzanera, Mackay e Thompson são apoiados por Gary Tibbs (baixo) e Dave Skinner (teclados).


Flesh+Blood [1980]

Pouco mais de um ano, o agora trio Ferry-Manzanera-Mackay lançou seu novo disco, com capa de Peter Saville (que ilustraria muitas capas do New Order) e vários músicos de estúdio (os bateristas Allan Schwartzberg, Andy Newmark e Simon Phillips; Alan Spenner, Neil Jason e Gary Tibbs no baixo; Neil Hubbard na guitarra; Paul Carrack nos teclados em duas músicas). Pela primeira vez, o Roxy Music apresentava duas covers em seus discos, “In the Midnight Hour” (Wilson Pickett) e “Eight Miles High” (The Byrds). A maravilhosa faixa-título, com seu riff de guitarra proeminente, é quase uma música-solo de Ferry, que toca todos os instrumentos à exceção do baixo (sensacional, aliás), bateria e percussão. “Oh Yeah” é um dos hits (e uma das melhores músicas) do disco, outra canção que influenciaria o pop britânico dos anos 80. “Same Old Scene” mostra que o Roxy Music se adaptara aos anos 80, com arranjo baseado em teclados eletrônicos, ainda que a guitarra de Manzanera se destaque e Mackay ganhe espaço na metade final. O lado A quase perfeito encerra-se com a monumental “My Only Love”, com uma bela letra de Ferry que lamenta o fim de seu único amor e solos econômicos (mas perfeitos) de Phil e Andy. No lado B, três músicas escritas por Ferry e Manzanera (Mackay não tem nenhuma coautoria no disco): “Over You” é uma volta ao passado recente do Roxy, uma música suave e dançante que é considerada pelos críticos um dos melhores momentos do grupo nos anos 80, “No Strange Delight” (tensa e até meio soturna, mas não menos interessante que as anteriores, e a única do disco com o oboé de Mackay) e “Running Wild”, linda balada que traz as guitarras de Manzanera e Hubbard se entrelaçando, e belos teclados de Carrack e Ferry. Entre elas, a versão modernosa de “Eight Miles High” não entusiasma, mas não compromete (especialmente por causa do ótimo solo de Phil), e “Rain Rain Rain”, escrita somente por Ferry, uma das poucas músicas do grupo sem participação da guitarra de Phil, cujo ritmo meio reggae coloca em destaque a bateria de Schwartzberg. Flesh+Blood traz vocais eletronicamente tratados, menos Manzanera e Mackay do que o recomendado pela OMS, mas é outro disco excelente.

Em fevereiro de 1981 o Roxy Music encerrou a turnê de lançamento de Flesh+Blood, mas pelo resto do ano não esteve ativo, apenas lançando o single “Jealous Guy” como uma homenagem a John Lennon; além disso, a gravadora relançou os sete primeiros LPs numa bela caixa, garantindo que haveria produto novo nas prateleiras.


Avalon [1982]

O último disco de estúdio do Roxy Music é uma cria dos anos 80 – mas nem por isso deve ser desprezado, pelo contrário. O álbum foi o mais bem-sucedido da carreira da banda, alcançando o primeiro lugar na Inglaterra e vendendo mais de um milhão de cópias nos EUA (embora nunca tenha passado do 53º posto); na capa, Lucy Helmore, que pouco depois se tornaria a sra. Ferry. Os convidados dos discos anteriores, Paul Carrack (teclados em “To Turn You On”), Alan Spenner e Neil Jason (baixo), Neil Hubbard (guitarra), Andy Newmark e Rick Marotta (bateria), Jimmy Maelen (percussão), Fonzi Thornton e Yannick Étienne (vocais) e Kermit Moore (violoncelo) se juntam a Ferry, Manzanera e Mackay em outro bom álbum pop, que começa com a bela “More Than This”, anos depois regravada pelo 10.000 Maniacs (após a saída de Natalie Merchant). A fiaxa-título é uma daquelas baladas fatais de Ferry, e sempre me pareceu a inspiração para “Slave to Love”, do disco solo Boys and Girls (1985). As guitarras de Manzanera e Hubbard se destacam em “The Space Between”, que traz Ferry harmonizando com os vocalistas em outra letra que lamenta o fim de um amor. “While my Heart Still Beating” (escrita por Ferry e Mackay) é outra balada elegante e melancólica que mostra que a banda estava inspirada. Abrindo o lado B, “The Main Thing” não chega a se destacar; mas a parceria Ferry/Manzanera, “Take a Chance With Me”, mostra que a banda estava afiada em mais uma bela melodia, e novamente a harmonia vocal ganha destaque. “To Turn You On” mantém o disco em alto nível, e o pop elegante de “True to Life” prova que o Roxy deixaria saudade. Duas breves instrumentais, “India” e “Tara” (de Ferry e Mackay) completam o álbum.

Março de 1983 viu o lançamento do EP The High Road, gravado ao vivo em Glasgow (com a participação de Hubbard, Spenner, Newmark, Maelen e Thornton, além do futuro tecladista do Dire Straits, Guy Fletcher, e das backing vocals Twatha Agee e Michelle Cobb); um vídeo ao vivo seria lançado no mesmo ano, mas gravado em Fréjus, na França (esse show saiu oficialmente em 1990 como Heart Still Beating). Dois meses depois, terminava a turnê de lançamento de Avalon e o Roxy Music discretamente se desfez. Uma coletânea intitulada The Atlantic Years 1973-1980 foi lançada ainda em 1983 e Ferry, Manzanera e Mackay se dedicaram a seus projetos pessoais e carreiras solo.

Paul Thomson, Andy Mackay, Bryan Ferry e Phil Manzarena. Roxy Music em 2002

Outras coletâneas se seguiriam (com destaque para a excelente box set The Thrill of it All em 1996), muitas mesclando material solo de Ferry com as músicas do Roxy. A reunião em 2001 rendeu o ótimo Roxy Music Live, bem como o DVD Live at the Apollo, permanecendo até 2011 na estrada. Outras reuniões ocorreram em 2019 e 2022 (esta para comemorar o 50º aniversário do primeiro álbum), mas não houve mais lançamentos.

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