Consultoria Recomenda: Não Precisamos de Vocês!
Editado por André Kaminski
Tema escolhido por Mairon Machado
Com Anderson Godinho, Davi Pascale, Fernando Bueno, Marcelo Campos e Marcello Zappellini
Um grupo é um conjunto de dois ou mais indivíduos que interagem, compartilham características ou objetivos comuns, formando algo uniforme e harmônico. Os integrantes se organizam para realizar tarefas, assumir papéis e satisfazer necessidades sociais ou funcionais, e no caso da música, grupos requerem muita paciência para tolerar vaidades, assim como a amizade entre os membros da banda acaba revelando-se positiva em gravações e shows. Mas, e é muito comum, as vezes desavenças surgem, e eis que de um grupo, nasce outro, através de dois ou mais membros do original que decidem seguir novos caminhos, descartando seu grupo anterior em busca de novas empreitadas que satisfaçam o ego, e por que não, o bolso. O Consultoria Recomenda de hoje apresenta álbuns de grupos saídos de outros grupos, ou seja, ex-integrantes de uma banda que criaram novas bandas. Confira e nos indique quem você sentiu falta aqui. (Mairon Machado)

Ginger Baker’s Airforce – Ginger Baker’s Airforce [1970]
Por Mairon Machado
Vamos com um pouco de história. Em 1969, com o fim do Cream e do Traffic, Steve Winwood (teclados, guitarra, vocais, ex-Traffic) se uniu a Eric Clapton e Ginger Baker (ambos ex-Cream, guitarra e bateria respectivamente) para, com Rick Grech (baixo, violino), criar a super banda Blind Faith. Infelizmente, o grupo durou apenas um único e essencial disco, por problemas pessoais de Clapton. Então, Ginger, Steve e Rick montaram um novo projeto, agregando ao time o ex-Traffic Chris Wood (flauta, saxofone) e o antigo parceiro de Ginger Baker na Graham Bond Organization, o genial Graham Bond (saxofone, instrumentos de sopro) e a dupla de ex-The Cake Eleanor Barooshian e Jeanette Jacobs nos vocais, além de outros cinco músicos (destacando Alan White, futuro Yes, na bateria, e Denny Laine, futuro Wings, nas guitarras) para criar uma das maiores forças sobrenaturais da música. Essa fusão de – no mínimo – três bandas diferentes se apresentou pela primeira vez ainda em 1969, e no show do Royal Albert Hall de 15 de janeiro de 1970, já sem Eleanor e White, registraram seu primeiro e incrível disco. Comandados pela locomotiva sonora que era Baker, com um naipe de metais afiadíssimo, um trio vocal de harmonias e melodias arrepiantes, e claro, o fantástico trabalho de Steve, Rick e Laine, estes monstros cometem atos antropofágicos que apreciamos deliciosamente encantados. Um tenta devorar o outro, porém de maneira ordenada, e no fim, tudo soa excelentemente excelente, vide “Da Da Man”, “Doin’ It” e “Don’t Care”. Nas faixas mais percussivas e viajantes, no caso “Aiko Biaye”, “Do What You Like” e “Early in the Morning”, cada pequeno gigante tem seu espaço para brilhar, seja no violino de Rick, na flauta de Wood, nos sopros de Graham e cia., e sim, Ginger destruindo como poucos bateristas conseguiam fazer. Obviamente, “Toad” – que introdução avassaladora, caralho! – é o grande momento do baterista no disco, mas no geral, todas as 8 faixas são um grande momento da história da música. Um disco seminal e apoteótico, que deveria ser muito mais comentado pelos sites especializados, mas que faço questão de resgatar aqui.
Anderson: Não conhecia tal banda, mas apesar da confusão que é esse ‘show’, foi um passatempo interessante. É facilmente possível encontrar jazz, alguma psicodelia e muito rock. Destaque para a percussão e obviamente para os momentos em que a bateria come solta. A longa (15 minutos) “Toad” se destaca ao apresentar um embate entre tambores, conga e bongôs, mostrando o virtuosismo e polirritmia de Baker. Por outro lado, a improvisação fornece momentos em que mesmo a banda parece estar um tanto confusa, ainda, a produção deixa a desejar quando enterra os vocais e os metais em uma sonoridade turva. Talvez experimentar uma das remasterizações que existem possa ajudar a entender melhor o caos desse álbum.
André: Como baterista, o cara era monstro mesmo. Não tem como negarmos isso. A força e a selvageria de cada batida de Ginger era surpreendente. Porém, ele infelizmente caía naqueles defeitos do jazz-rock de improviso quando acrescenta em suas músicas instrumentos desafinados tocados de qualquer jeito. O violino em algumas faixas deste disco é de querer encher os ouvidos de cera quente. Mas… quando se tem as partes de bateria e guitarra, flauta ou sax, aí o disco soa bem melhor. Como era um ao vivo daqueles bem crus, então quem não está acostumado ao prog ou ao jazz vai cair matando nesse trabalho. É um disco nota 8.2, mas sem os violinos desafinados, poderia ter sido um 9.3 tranquilamente.
Davi: Esse projeto nasceu do fim do Blind Faith e conta com músicos do calibre de Steve Winwood, Chris Wood e Denny Laine. O time é realmente estelar, não tem como criticar a habilidade de nenhum desses instrumentistas. Ginger Baker dá aula na versão de “Toad” (Cream) e em “Do What You Like” (Blind Faith), mas, de fato, esse é um disco que não me agrada. O que temos aqui é uma apresentação de quase 80 minutos de duração com os músicos explorando a sonoridade do jazz rock em uma performance repleta de improvisos. A música que mais foge à regra é “Aiko Byaie”, que traz uma forte influência de música africana. A maior parte das canções são longas, o instrumental impera. No entanto, nenhuma composição faz meus olhos saltarem. Não tem aquela faixa que me faz querer pegar o disco porque deu vontade de escutá-la. Vale pela curiosidade, pelos lendários músicos envolvidos e nada mais.
Fernando: Sempre tratei Ginger Baker como o elo fraco (no sentido de relacionamento pessoal) que fez o Blind Faith ser uma banda de um disco só. Sabemos que Eric Clapton teve que engolir a participação dele, simplesmente porque não conseguiu dizer “não”, quando Baker soube do seu novo projeto com Steve Winwood. Porém aqui, com ele sendo o “maestro” as coisas funcionaram muito bem. O disco é um pouco difícil de ouvir e ser absorvido em umas primeiras audições, mas quando você compreende a proposta tudo flui melhor.
Marcelo: Após o Cream, Ginger Baker não quis saber de recriar o passado: ele o abandona deliberadamente. O Air Force aponta para outra direção, mais aberta, mais coletiva, mais atravessada por influências africanas e jazzísticas. O “não precisamos de vocês” aqui é, na verdade, “não precisamos mais ser aquilo”. Não é minha praia, mas, para quem aprecia essa proposta mais livre e expansiva, é um prato cheio.
Marcello: Este álbum duplo ao vivo é daqueles que você ama ou odeia. Embora nunca tenha conseguido o disco, estou no primeiro grupo, apesar de todos os exageros envolvidos nas músicas. Com oito composições (em 78 minutos), há espaço de sobra para improvisos dos dez músicos envolvidos, mesclando jazz, música africana (“Aiko Byiaie”), blues, rock e pop e, claro, muita bateria e percussão. “Da Da Man”, de Harold McNair, abre os trabalhos com um bocado de peso, a jazzy “Toad” (e seu solo quilométrico de bateria) é a “orquestra de percussão” com que Ginger sonhava desde os tempos do Cream, Denny Laine canta (muito bem) “Man of Constant Sorrow” e “Early in the Morning”, e Steve Winwood desfila seu brilhantismo habitual no órgão (em que faz par com o não menos excelente Graham Bond) e nos vocais de “Don’t Care” (música que, aliás, não gosto) e “Do What You Like” (que tem mais um solo gigantesco das baterias), além de tocar baixo em “Man of Constant Sorrow” para que o titular Ric Grech possa se concentrar no violino. Ginger Baker’s Air Force é um registro de um tempo em que músicos brilhantes não se preocupavam com rótulos ou limites para sua música, e não se envergonhavam de mostrar habilidades incomuns para o público. Pena que a banda durou pouco, e que seu segundo LP seja tão inferior ao primeiro.

Foghat – Foghat [1973]
Por Marcello Zappellini
O segundo LP do Foghat traz o nome da banda na capa – ilustrada por uma pedra e um bread roll (daí o apelido “Rock and Roll”) dado pelos fãs. Lonesome Dave Peverett (guitarra/vocal) e Roger Earl (bateria) se juntaram ao Savoy Brown quando da gravação do segundo álbum da turma de Kim Simmonds, e, posteriormente, Tony Stevens tornou-se baixista do grupo. Em dezembro de 1970, após Looking In, os três deram adeus ao chefe para formar uma nova banda, chamando o excelente guitarrista do Black Cat Bones, Rod Price, para completar a formação. Em julho de 1972 gravaram o primeiro álbum e em março, o segundo – que escolhi para recomendar. O álbum começa com a ótima “Ride, Ride, Ride”, com Peverett estraçalhando no vocal (com apoio de backing vocals femininas) e Price numa slide guitar sensacional, diminui um pouco com a bluesy “Feel So Bad” (cover de Chuck Willis, que dá destaque às ótimas guitarras de Peverett e Price) e volta a ganhar peso com a hard rocker “Long Way to Go” (o riff principal traz a guitarra de Price mixada vinte vezes para dar peso!). O lado A se encerra com a baladinha “It’s Too Late”, leve e agradável, e o destaque absoluto é para a bela interpretação vocal de Lonesome Dave, embora o solo de Rod Price não deixe nada a desejar! Outro bom rock’n’roll, “What a Shame”, abre o lado B, com presença de um saxofonista não identificado, e a sequência “Helping Hand” e “Road Fever” mostra que o Foghat não estava para brincadeira, duas músicas pesadas e festeiras, na melhor tradição do grupo. “Road Fever” traz um trecho de guitarras gêmeas no melhor estilo do Thin Lizzy, embora a música não se pareça em nada com as da gangue de Phil Lynott, e a coda traz Peverett e Price duelando. “She’s Gone” tem um riff insistente de guitarra que conduz a música e, embora não seja tão boa quanto as anteriores, não chega a comprometer. Por fim, “Couldn’t Make Her Stay” encerra o disco, levada pelo violão de Peverett e um solo suave de Price. Foghat é um ótimo disco, um dos melhores da banda, na minha opinião – mas a banda ainda faria muita coisa boa.
Anderson: Considerando os álbuns que nunca tinha ouvido, esse é o mais gostoso de ouvir. Um boggie com muito de blues, um rock ‘n’ roll direto, sem invencionismo, vigoroso e animado. A produção (assinada pelo próprio Foghat e com Tom Dawes) é seca e orgânica – nada de excessos, tudo no osso. A base rítmica de Earl (bateria) e Stevens (baixo) cria um groove pesado e ao mesmo tempo descontraído. Rod Price, entrega frases incisivas e solos cheios de atitude e com bons slides. Peverett canta com seu vozeirão rouco e suado, belo casamento. Destacaria os bons covers “Maybelline” e “I Just Want to Make Love to You” e, ainda, a ótima “A Hole to Hide You”. Vale a audição completa do material.
André: Gosto muito do Foghat e fazia mais de uma década que não ouvia este álbum. Com todos esses anos ouvindo tudo quanto é tipo de som e de discos diferentes, considero este segundo álbum um disco sólido e seguro, mas de boa qualidade. Traz ali a energia do hard rock, aquelas linhas de guitarra blues bem comuns à várias bandas do início dos anos 70 e mais umas boas doses de boogie dos anos 50 e 60. A banda lançaria discos melhores uns anos depois, sendo meu favorito Rock and Roll Outlaws de 1974, mas este álbum apresenta também canções bem legais , sendo as que mais gosto com a abertura e divertida “Ride, Ride, Ride” e “Road Fever” cuja versão mais crua ao vivo soa ainda melhor.
Davi: Ok, eu entendi a mensagem que eles quiseram passar na capa do disco. O que eles quiseram dizer é que esse é um puro álbum de rock n roll. Agora… Que a imagem é tosca, é, hein? Meu Jesus!!! O disco, contudo, é muito bom. Aqui eles trazem uma sonoridade de rock de arena mesclando rock com blues. Os grandes destaques acabam sendo a esperta slide guitar de Rod Price com os poderosos vocais de Dave Peverett. O tracklist é bem consistente, contudo, se tivesse que destacar meus momentos favoritos seriam “Ride, Ride Ride”, “I Feel So Bad”, “Long Way to Go” e “Road Fever”. Em poucas palavras: rock n´ rollzão direto, divertido e sem firulas. Bom para ouvir com som alto!
Fernando: Debut de Foghat apresenta um hard boogie cru, divertido e extremamente eficiente. Eu sempre tratei a banda quase como uma One Hit Wonder, apesar de gostar muito do álbum Fool For The City como um todo. Entretanto nunca tinha ouvido outro álbum além desse. Paciência, ainda dá tempo e quem sabe agora eu começo.
Mairon: Durante um bom tempo o Foghat era algo que eu ouvia bastante aqui em casa, muito por conta da minha paixão por Savoy Brown. Tive alguns de seus discos nas minhas prateleiras, sendo este, Fool for the City e Live os que mais giravam na vitrola. Mas com o passar do tempo, perdi o tesão de ouvir a banda, passei os discos adiante e fiz alguns trocados com eles. Reouvir Foghat até me deu um certo ar de nostalgia, principalmente por ouvir os riffzões de “Long Way to Go”, “Ride, Ride, Ride”, “Road Fever”, “She’s Gone”e “What a Shame”, e o vozeirão de Lonesome Dave estourando as caixas de som. Que espetáculo o slide guitar de Rod Price em “I Feel So Bad”, baita blues, as inspirações Zeppelianas de “Helpin’ Hand”, outra com um show de slide, e que coisinha mais linda e delicada que é “It’s Too Late” , fácil a melhor do disco. É rock ‘n’ roll na veia (não à toa, o disco é conhecido por este nome entre os fãs da banda), com exceção apenas da baladaça “Couldn’t Make Her Stay”, que não tem nada a a ver com as demais faixas do disco, mas não deixa de ser uma bela canção. Uma pena que o Foghat acabou se transformando num pastiche musical na segunda metade dos anos 70. Aqui, eles reinavam! Baita lembrança
Marcelo: Ainda que o Savoy Brown fosse uma banda muito boa, o surgimento do Foghat soa como um salto de outra ordem. Aqui, aqueles mesmos músicos parecem encontrar uma forma mais direta, com mais groove e, no fim das contas, mais rock and roll, e o resultado é um discaço. Faixas como “Helping Hand”, “Feel So Bad” e “Ride, Ride, Ride” deixam isso evidente. Fica claro que, com esse disco, eles provam que ainda havia um caminho mais potente a ser explorado e sabiam exatamente qual era.

U.K. – U.K. [1978]
Por Fernando Bueno
Robert Fripp enjoou de tudo e deixou John Wetton e Bill Bruford na mão. Os dois se juntaram à Eddie Jobson, músico oriundo de diversos baluartes da música, mas que não tinha um nome assim tão grande quanto dos dois já citados e do fantástico guitarrista Allan Holdsworth. A banda pode ser o responsável, junto do Bad Company, pela criação do que conhecemos pelo AOR oitentista feito pelo Asia (também com John Wetton) e diversos outros grupos alguns anos depois. A junção de habilidade técnica, mesmoque em músicas um pouco mais diretas, com melodias grudentas era um pouco raro com o prog tardio dos anos 70. John Wetton e Eddie Jobson brilham especialmente. Sofisticado, melódico e preciso, permanece referência do rock progressivo moderno. Uma pena que Bill Bruford não tenha continuado para o segundo e também ótimo disco Danger Money (1979), mesmo que seu substituto, Terry Bozzio, seja um baterista do calibre tão alto, que chegou a influenciar outro monstro do instrumento Neil Peart.
Anderson: Alguns bons momentos como Nevermore ou Alaska, mas o material é de uma densidade absurda e isso me faz perder um pouco o senso crítico. Sintetizadores frenéticos, ambientações pesadas, passagens instrumentais complexas tudo gera um som extremamente progressivo, com alguma coisa de fusion. Definitivamente não é minha praia, muita ruptura, músicas longas com aquelas demonstrações de domínio sobre os instrumentos que chegam ao glorioso lugar nenhum. Tem um DNA de King Crimson, mas bem dissipado principalmente por essa influência do fusion.
André: Já vi gente que adora o disco e já vi gente que o despreza. Pelos motivos negativos, gente criticando os teclados de Eddie Jobson e o excesso de firulas do prog. E gente que os ama pelos mesmos motivos. Não acho lá um disco genial até pelo que seria considerado um supergrupo, mas o considero bom e interessante. As músicas que mais gostei são justamente as duas últimas do lado B, a singela e intrincada “Nevermore” e a mais veloz que fecha tudo “Mental Medication”. Para quem ama prog, é um trabalho com todos os seus exageros, quebras, sonoridades malucas e solos geralmente da metade das faixas para frente. Para quem não é muito chegado, a salada pode ter ingredientes demais.
Davi: O U.K. foi um grupo que durou pouco. Foram apenas 2 álbuns de estúdio e 1 ao vivo. O mais celebrado é realmente esse indicado por nosso consultor. Ainda que os críticos costumem se referir à eles como um supergroup, o que não é nenhum exagero, o motivo de tanta celebração é que nesse disco, o trabalho de guitarra ficou a cargo do genial Allan Holdsworth. Os fãs do rapaz certamente irão se deliciar com a linda introdução de “Nevermore”. Contudo, sendo bem honesto, todas as vezes que escuto esse LP, o que me chama mais atenção é o trabalho de teclado de Eddie Jobson. O creme do disco é o trabalho instrumental, onde os músicos misturam o rock progressivo com fusion. No entanto, as linhas vocais acredito que poderiam ser melhor pensadas. Na minha visão, faltam aqueles ganchos que ficam na sua cabeça. Para mim, um bom disco, mas não genial. Faixa predileta: “In The Dead of Night”.
Mairon: Um dos grandes discos de estreia de supergrupos da história. Enquanto existem alguns exemplos de supergrupos que não deram certo (ou não sairam como a gente esperava, vide Asia e The Firm por exemplo), o U. K. acertou na mosca em seu primeiro trabalho. Ou melhor, atirou em Marte e acertou em Júpiter, por que tenho certeza que ninguém esperava o som revolucionário que os caras fizeram aqui, indicando o som que se tornaria conhecido nos anos 80 como AOR. Méritos totais para o jovem Eddie Jobson, que com seus teclados / sintetizadores, e seu violino elétrico, criam uma sonoridade muito distinta do que ouvimos no King Crimson, de onde havia saído dois de seus companheiros de banda, ou até no Roxy Music, de onde ele próprio havia saído. É viagem musical atrás de viagem musical, e Jobson se destacando nas ótimas “Alaska”, “Thirty Years” e “Time to Kill”, mas óbvio, com performances assombrosas de Bruford e Wetton, que particularmente, faz sua melhor performance vocal aqui. Melhor faixa para a suíte “The Dead of Night”, uma aula de como quatro gigantes (não vamos esquecer que o guitarrista aqui simplesmente é Allan Holdsworth, que destrói em “Nevermore”, e brilha nos duelos instrumentais com Jobson em “Mental Medication”) podem sim trabalhar magnificamente juntos. Pena que esta formação durou apenas um disco, mas, os outros álbuns do U. K., e o que Bruford fez com sua Bruford, são igualmente incríveis. Mais sobre a banda trago aqui.
Marcelo: Ótima dica (coisa do Mairon, certeza). Com John Wetton (ex-King Crimson e Uriah Heep), Eddie Jobson (ex-Roxy Music e Frank Zappa), Bill Bruford (ex-Yes e também King Crimson) e Allan Holdsworth (ex-Soft Machine) na guitarra, o resultado é um prog mais enxuto, técnico e, ao mesmo tempo, direcionado, como se cada integrante soubesse exatamente o que trazer e o que deixar para trás. Poderiam ter durado mais.
Marcello: Esse é daqueles discos que, quando você vê os músicos envolvidos, os olhos saltam das órbitas – todo mundo tinha pedigree. A suíte “In the Dead of Night” é o cartão de visita, com mais de 13 minutos de um prog não muito pretensioso, mas que dá o devido destaque à impressionante mudiclidade dos envolvidos (aprecio particularmente a bateria de Bill Bruford) – a segunda parte, “By the Light of Day” traz belo desempenho vocal de Wetton e os sintetizadores de Jobson (um arranjo que se repete nos três primeiros minutos de “Thirty Years” – até Bruford entrar e Holdsworth mostrar sua classe na guitarra). A instrumental “Alaska” sempre me faz lembrar de “In the Light” (Led Zeppelin) pelo sintetizador da introdução, mas é outra música interessante, especialmente quando os outros três entram (Bruford espanca seu kit sem dó nem piedade). Por outro lado, “Time to Kill” não me agrada nem um pouco, apesar do bom solo de Jobson no violino elétrico. “Nevermore” dá oportunidade para Holdsworth se destacar um pouco mais do que nas músicas anteriores, principalmente no violão da introdução. “Mental Medication”, que encerra o disco, soa um pouco desconjuntada, como se fossem muitas ideias para pouco tempo – mas vale pela ótima linha de baixo de Wetton e pelos teclados impressionantes de Jobson. U. K. é um álbum que, no Progarchives, alcança respeitáveis 4,12 de média (de 1 a 5) e foi considerado top 30 no ranking dos melhores discos de progressivo pela Rolling Stone, mas, na minha opinião, ainda que seja bom, não chega a tanto; de Jobson, Wetton, Holdsworth e Bruford eu esperava mais – ainda que para mim seja um dos discos essenciais para conhecer o trabalho do baterista. Os discos seguintes foram gravados como trio, com o ótimo Terry Bozzio na bateria, mas também não chegam a ficar muito alto nas minhas listas.

Dio – Sacred Heart [1985]
Por André Kaminski
Quando vi o tema, já sabia que queria o Dio. Entretanto, não queria recomendar os dois primeiros discos que já são vacas sagradas da discografia do baixinho. Então recomendei o terceiro trabalho justamente por ser um álbum menor, mas ainda contendo alguns clássicos bastante tocados ao vivo e ainda contendo Vinny Appice na batera. Após Dio e Appice saírem da bagunça que estava o Sabbath, eles criaram uma banda que superou em muito a qualidade daquilo que sua banda anterior vinha fazendo e viria a fazer por pelo menos uns 10 anos. É um disco mais leve, com mais cara de hard oitentista e com aqueles tecladinhos ame ou odeie que nos remete claramente ao período. “Hungry for Heaven” e a melhor faixa do disco.
Anderson: Bom álbum, mas um pouco menos consistente do que os dois anteriores. Considero um material um pouco mais palatável pro grande público, um pouco ‘menos metal’. Apesar disso, talvez seja o mais bem sucedido comercialmente da carreira solo do Dio. A tríade de clássicas “Rock ‘n’ Roll Children”, “Hungry for Heaven” e “Like the Beast of A Heart” são as que mais se destacam em minha opinião. Uma pena que após a gravação do álbum, durante a turnê, Vivian Campbell deixe a parceria com Dio. Por outro lado, os companheiros de outrora Jimmy Bain e Vinny Appice se mantém e gravariam outros materiais com o clássico vocalista.
Davi: Quando iniciou o Dio, Ronnie James Dio já tinha em seu curriculum nomes como Rainbow e Black Sabbath, portanto as expectativas em cima da nova banda do baixinho eram enormes e ele não deixou por menos. Nessa primeira encarnação, ele contava com o auxílio de nomes como Vivian Campbell, Jimmy Bain e Vinny Appice. Nada mal, né? Em comparação aos dois trabalhos anteriores, diria que Sacred Heart conta com uma mixagem um pouco mais polida, os instrumentos têm um pouco menos de peso. Mesmo assim, o disco não deixa de ser impactante (por conta do repertório e do ótimo trabalho vocal de Ronnie James Dio). “King of Rock n Roll” é uma faixa bem sólida (ainda que não me agrade aquele público falso na introdução). A arrastada “Sacred Heart” e as comerciais “Hungry For Heaven” e “Rock n Roll Children” são clássicos indiscutíveis. Das canções lado B, a minha favorita fica por conta de “Fallen Angel”. Ótimo disco, embora considere um degrau abaixo de The Last In Line e Holy Diver.
Fernando: Em que pese meus protestos que isso é uma carreira solo de Dio e não uma banda, vamos ao disco. Esse terceiro trabalho de Dio mantém o alto padrão épico estabelecido nos discos anteriores, porém é claramente inferior aos dois primeiros e até por isso não seja muito lembrado. Mas o problema é que os outros dois são fora da média em relação à qualidade e não que Sacred Heart seja ruim. Talvez menos sombrio que seus antecessores, mas ainda poderoso e cheio de personalidade.
Mairon: O último grande disco do Dio começa com uma de suas melhores canções, “King of Rock ‘n’ Roll”, uma paulada com um riff fenomenal de Vivian Campbell. A partir de então, o disco flui maravilhosamente por nossos ouvidos, com a voz aveludada de Ronnie Dio comandando pérolas como a faixa-título, “Fallen Angels” e principalmente “Like The Beat of A Heart”, uma das faixas mais subestimadas da carreira de Dio, E claro, Campbell também dá seu show a parte nos solos de “Another Lie”, “Just Another Day” e “Shoot Shoot”, que tem uns teclados meio constrangedores. E aí que vem o principal problema do disco. Acho que os pontos baixos do discos são justamente as canções de maior sucesso, “Rock ‘n’ Roll Children” e “Hungry for Heaven”, que não combinam em nada aqueles tecladinhos sonsos com o que há de pesado e pegado nas demais músicas de Sacred Heart. Gosto muito do disco no geral, e mesmo não estando no patamar de Holy Diver e The Last in Line, tem sim grandes momentos. Uma pena que Campbell saiu com atritos gigantes com Dio, e nunca mais tocaram juntos.
Marcelo: Dos três álbuns que Ronnie James Dio gravou com Vivian Campbell, Sacred Heart é, para mim, o mais fraco – o que não significa que seja um disco ruim, longe disso, mas talvez o que mais deixa transparecer um desgaste interno. A relação entre Dio e o guitarrista já estava bastante tensionada durante as gravações, com divergências que depois viriam a público e culminariam na saída de Campbell ainda durante a turnê, antes de seguir para o Whitesnake e, posteriormente, o Def Leppard. Há aqui bons momentos, como seria de se esperar, mas o disco soa menos inspirado do que seus antecessores, como se algo daquela química inicial já não estivesse mais completamente ali.
Marcello: Dos três discos da formação original do Dio, é o que menos me agrada – mas já melhorei, porque detestei quando ouvi as primeiras vezes. “King of Rock’n’Roll” abre os trabalhos em boa forma, numa música registrada ao vivo (lembro de ter lido tempos atrás que era uma gravação de estúdio com o som da plateia mixado por cima, mas não encontrei confirmação). A faixa-título vem na sequência, com um ritmo mais cadenciado e um desempenho fantástico do Pequeno Grande Homem Ronnie James, além de teclados com mais destaque que o normal. “Another Lie” tem um solo muito interessante, que quebra o ritmo da música e traz Vivian Campbell em ótima forma. A sequência com “Rock’n’Roll Children” e “Hungry for Heaven” traz as músicas mais conhecidas do LP, mas, na minha opinião, nenhuma delas é muito interessante: a primeira traz um teclado irritante (o que se salva é outro solo fantástico de Campbell) e a segunda recicla ideias anteriores de Dio com um riff que lembra o clássico “Baba O’Reilly” do The Who. Mas, depois delas, “Like the Beat of a Heart” (com seu riff pesadíssimo que me evocou o Sabbath), “Just Another Day” (rápida e pesada), “Fallen Angels” (outra música que me lembra um pouco o Black Sabbath pós-Ozzy) e “Shoot Shoot” (pouco conhecida e com um jeitão de hard rock oitentista – mas eu adoro, é minha favorita do disco após “King…” e “Sacred Heart”, recolocam o disco nos eixos. Depois desse disco, Dio cometeu o erro de demitir Vivian Campbell e, embora tenha gravado alguns discos legais, nunca chegou aos pés dos dois primeiros; no final das contas, não sei que lugar Sacred Heart alcançaria num “Do Pior ao Melhor” de Dio, mas seguramente estaria longe das últimas posições.

Alter Bridge – One Day Remains [2004]
Por Marcelo Freire
O caso do Alter Bridge talvez seja um dos mais emblemáticos quando se pensa nesse “não precisamos de vocês”, pois, quando o Creed chega ao seu ponto de esgotamento (mais por desgaste interno do que por queda de relevância), três quartos da banda (Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips) seguem juntos. Isso já diz muito. O núcleo musical permanece intacto, sobretudo porque Tremonti era o responsável pela composição musical, com seus riffs característicos. No entanto, não há como negar que uma das marcas registradas do Creed era Scott Stapp, com seu timbre grave e barítono e suas letras marcadas por temas espirituais e emocionais. A entrada de Myles Kennedy, portanto, não poderia ser apenas a substituição de um vocalista, ela precisava garantir a manutenção de uma combinação musical que já havia se mostrado eficaz, ao mesmo tempo em que abrisse novas possibilidades. Acho até curioso perceber como One Day Remains (o primeiro sem Stapp) não soa como um rompimento radical com o passado, mas como uma espécie de expansão natural – como se aquelas ideias já estivessem ali esperando o intérprete certo para ganhar forma plena. Faixas como “Open Your Eyes” e “Metalingus” deixam isso evidente: o DNA é reconhecível, mas o alcance de Kennedy é, inegavelmente, outro. Gosto bastante de ambas as bandas e escolhi, para o tema desta seção, um caso em que o rompimento não é para se reinventar, mas sim para os músicos apenas seguirem em frente e que, nesse movimento, revelam que ainda havia muito a ser dito além daquilo que haviam conseguido até então.
Anderson: Posição pessoal: A banda é boa, o estilo é divertido, o vocalista é muito bom, mas não funciona pra mim. O irônico é que gostava do Creed quando adolescente e consigo ver Creed neles, e o mais interessante é que trazem o plus de um vocalista bom e solos! Coisas que não havia no Creed. Tudo que fazem, e já ouvi grande quantidade dos seus álbuns, soa como uma banda genérica, dessas que toda cidade com uma cena rock mínima possui. Por outro lado, tiveram a coragem de fazer o que muitos outros deveriam ter feito (Né, Mr. Andreas Kisser ou Mr. Van Zant?) e criaram uma nova banda ao invés de ficar mamando no sucesso do passado. Dito isso, esse álbum em específico possui algumas coisas interessantes como Open Your Eyes, música bem equilibrada. Burn it down que foge bem do Creed e cria uma cara de banda nova para eles. A balada Broken Wings cai muito bem, também, porém no geral é um álbum que provavelmente já estava no gatilho pro Scott Stapp cantar. O Myles parece um tanto burocrático. Bom material, mas, como disse, comum demais.
André: Creed é muito ruim, gente do céu. Graças a deus, quando este filhote surgiu, eu já não acompanhava mais a MTV, então acaba que não conhecia muita coisa deles, e o que eu conheci já me deixou com os pentelhos em pé. Mas cá estou aqui, ouvindo o disco para a Consultoria Recomenda e… não dá. Olha, eu tenho ficado mais tolerante nos últimos anos, mesmo com esses rocks alternativos, mas este Alter Bridge… não dá.
Davi: O Alter Bridge surgiu das cinzas do Creed. Quem viveu o início dos anos 2000, certamente lembra-se da febre que foi. Os discos Human Clay e Weathered eram presença constante na coleção dos adolescentes da época. Portanto, era de se esperar que o novo grupo de músicos do Creed trilha-se um caminho parecido. E não há como negar, nesse álbum de estreia, várias baladas soam como sobra da trupe de Scott Stapp. Canções como “Broken Wings”, “Shed My Skin” e especialmente “Open Your Eyes” poderiam estar presente em qualquer um dos álbuns que citei acima. Aonde o grupo se diferenciava era nas faixas mais pesadas como “One Day Remains” e “Find The Real”, onde apostavam em um hard rock moderno, com um pezinho no heavy. O disco era bom, Myles Kennedy já cantava bem, mas a impressão que dava era da ‘banda que tem potencial, mas ainda está em busca de sua identidade’, saca? Disco bacana, mas não considero seu trabalho definitivo.
Fernando: O Creed sempre foi um patinho feio junto dos fãs dos fãs mais ortodoxos. O fato de sem uma espécie de cópia de Pearl Jam sempre jogou contra. Ao se juntarem ao Myles Kennedy produziu um fenômeno, na minha opinião, parecido com o que aconteceu com o Audioslave. O todo melhorou demais e eles passaram a entrar no radar. Entretanto é uma banda que eu não consegui manter o interesse.
Mairon: As bandas que não conhecia deste recomenda (e eram duas), resolvi ouvir sem ir atrás de informações, até para tentar saber também qual a banda originou o que estava ouvindo. O Alter Bridge eu já tinha ouvido falar, mas não conseguia lembrar do que se tratava. Na primeira faixa, “Find The Real”, achei algo na linha vocal de Chris Cornell, lembrando um pouco Audioslave, aquele grunge mais moderno, mas com uma guitarra muito parecida com a do Slash, principalmente no solo, já que o riff em nada tem de Guns, até por ser bem mais pesado. Outra que tem um ar de Guns N’ Roses no instrumental é “Metalingus”, mas muito mais pesada que a banda de Axl. Enfim, ao longo da audição, reconheci que não é o Chris Cornell de jeito nenhum, tão pouco é o Slash (estava jurando que era algo relacionado ao Velvet Revolver), e apesar do excesso de baladinhas, gostei do que ouvi. Destaque para a faixa-título, a viajante “Burn It Down”, e claro, para esse vocalista que não sei quem é, mas se esforça em ser um Cornell de baixa categoria. Uma banda modernosa, bem a calhar com o ano de lançamento do álbum, mas que não consegui ir além disto para tentar identificar as origens do que foi registrado aqui.
Marcello: Nunca tinha ouvido o disco – como o Alter Bridge é um projeto de integrantes do Creed, e eu nunca gostei dessa banda, não prestei atenção no grupo, tanto que não lembrava que o ótimo vocalista/parceiro do Slash, Myles Kennedy, faz parte deles. O disco começa bem com “Find the Real”, com seu som meio grunge, e ganha peso na segunda faixa, “One Day Remains”, mas a música não chega a se destacar. A semibalada “Open Your Eyes” dá mais chance para Kennedy brilhar. “Burn it Down”, a música mais longa do disco, tem uma introdução suave e é outra semibalada com boa atuação do vocalista (em alguns momentos me lembrou Chris Cornell!) – mas as guitarras dele e Mark Tremonti são o principal destaque, apesar de o solo final ser curto. “Metalingus” traz o peso de volta, e o refrão bastante agradável é o que mais se sobressai na música, uma das melhores do disco na minha opinião. “Broken Wings” reduz mais uma vez o ritmo, outra música mais próxima de uma balada que se diferencia das outras por causa dos violões que dão um diferencial no arranjo. Mas, em termos de baladas, “In Loving Memory” é, para mim, o melhor momento, bastante emotiva. “Down to My Last” mantém o disco numa vibe meio melancólica, e é outro momento de brilho de Myles. A introdução cheia de efeitos de “Watch Your Words” é o passaporte para uma música que reintroduz o peso nas composições, mas para mim é provavelmente a mais fraca do álbum. “Shed My Skin” também não me chamou muito a atenção, mas “The End is Here” concluiu bem o disco (apesar da introdução meio esquisita, vá lá). No todo, o disco é bom, mas não é daqueles que colocaria na minha coleção. Coloquei na minha playlist, mas ainda é cedo para dizer que o Alter Bridge terá espaço na minha estante de CDs.

Beady Eye – Different Gear, Still Speeding [2011]
Por Davi Pascale
O Beady Eye surgiu do fim do Oasis. Os irmãos Gallagher estavam brigados (para variar) e Liam Gallagher decidiu puxar os músicos que estavam tocando com eles e criar uma nova banda. Todo mundo sabe que Noel Gallagher é o principal compositor do Oasis. Por isso, havia uma desconfiança se essa nova banda iria, de fato, funcionar. E acho que podemos dizer que sim. Ok, Noel faz falta. Sinto falta de uma guitarra um pouquinho mais suja e faltava alguém que fosse capaz de criar hits para fazer o grupo ganhar evidência, que fizesse a galera esquecer que estavam ouvindo uma versão reduzida do Oasis, mas o disco é bem feito. As influências continuam as mesmas. Ou seja; o rock britânico dos anos 60 (Beatles, Stones, The Who e Kinks, para ficar nos mais óbvios). Contudo, os músicos resgatavam um ar mais despretensioso, deixando um pouco da megalomania do Oasis de lado e entregando um som mais simples, mais direto. A voz de Liam estava boa, o disco tinha bons momentos. Ainda acho que se tivessem insistido no projeto (eles duraram apenas 2 discos) e se não tivessem se negado a tocar música do grupo que os tornou famosos nos shows, poderiam ter causado um certo barulho. Faixas preferidas: “Four Letter Words”, “TV Roller”, “Standing On The Edge of The Noise” e “Three Ring Circus”.
Anderson: O “Oasis sem o Noel” puxa pro lado dos anos 1960-1970 com força, mas tem uma carinha de Oasis já na primeira música. A diferença mais marcante para o Oasis, em minha opinião, é a ausência da guitarra líder cheia de melodias que Noel trazia, aqui ela foi substituída por um trabalho mais cru e menos refinado de Gem Archer. A bateria de Sharrock apronta uma cozinha forte, e os backing vocals (feitos por Gem e Andy) aparecem bastante. É um material que não sai do lugar comum, mergulha em um grande mais do mesmo. “Four Letter Word”, primeira do álbum, é a com mais cara de Oasis e, também, a mais interessante. “Bring the Light” e, a mais intensa do material, “The Morning Son” se destacam, mas nada demais. Se a ideia era superar os originais, aqui eles não conseguiram fazer melhor.
André: Quando eu ouço uma banda dessas, sinto um problema terrível. As vezes penso que é só uma banda influenciada pelo rock dos anos 60. Mas quando ouço com mais atenção, me soa como uma daquelas milhares de bandas do rock alternativo apenas querendo imitar àquele tempo. Não me soa genuíno. Não sou contra qualquer banda emular sons de décadas anteriores. Apenas acho que é tudo tão meticulosamente calculado que a própria banda não acredita em suas músicas ou em sua proposta. Querem apenas arrancar verdinhas de saudosistas. Tanto é que duraram meros 5 anos. Seja lá o motivo do rompimento, ao menos admito que esse disco é ainda melhor do que qualquer coisa do Oasis, banda que tenho alergia.
Fernando: Muito parecido com o Alter Bridge para mim. Reconheço a qualidade desse disco, comprei logo quando saiu e ouvi bastante, mas nunca mais ouvi e nem ouvi outro disco além desse. O álbum aposta em rock britânico direto, com ecos de The Beatles, glam e psicodelia sessentista. Muito parecido com o que o Oasis fazia, mas de uma forma diferente. Naquela história de “copia, mas faz diferente”. Se foi uma resposta para mostrar à Noel sua independência e provar que conseguia fazer sozinho, Liam conseguiu.
Mairon: Somente um site como a Consultoria do Rock para me fazer voltar a ouvir o Beady Eye. Eita, não lembro realmente a última vez que ouvi este disco, mas lembro de como não tinha nada a ver com o Oasis, e de como me surpreendeu positivamente. Passados – no mínimo – 10 anos sem ouvir o disco, ainda me chocou faixas como “Beatles and Stones”, “Bring the Light” (rockzão sensacional), a pegada “Standing on the Edge of the Noise”, e principalmente, o peso de “Four Letter Word”, ao lado de “Champagne Supernova”, uma das melhores músicas que um Gallagher gravou na vida. Outra coisa que me impressionou é como o Oasis aparece raramente aqui e acolá (“Kill for a Dream”, “The Beat Goes On”, “The Roler” e na longuinha “WigWam”). É a comprovação que Liam é o mais talentoso (ou o menos chato) dos Gallagher? Não sei, mas que é uma boa audição, isso eu garanto.
Marcelo: Aqui, a ausência de Noel Gallagher é mais sentida do que superada. Sem ele, Beady Eye até faz um britpop (ou indie rock, vá lá) gostoso de ouvir e, para mim, com uma leve psicodelia que eu gostaria de ter ouvido no Oasis, mas não tem jeito: falta o principal eixo composicional. Há energia, há identidade britânica, há até bons momentos; ainda assim, o disco inteiro parece dialogar com um vazio que não consegue preencher.
Marcello: Ouvi na época do lançamento e acabei me esquecendo desse grupo como um todo e do álbum em particular por causa da bem-sucedida carreira solo do Liam Gallagher. O som não se desvia muito do Oasis, inclusive porque Gallagher abusa dos maneirismos vocais que o distinguiam na banda-mãe. “Four Letter Word” abre o disco com um leve toque de psicodelia – toque que fica mais forte em “Millionaire”, que retoma as influências dos Beatles que tanto marcavam o Oasis. “The Roller” aposta num arranjo mais leve, mas continua fortemente sessentista. “Beatles and Stones” me fez levantar a sobrancelha, pensando no que viria, mas a música não lembra nenhuma das duas bandas e acabou não me impressionando. “Wind Up Dream” tem uma harmônica simpática, e “Bring the Light” é um bom rock’n’roll meio cinquentista (inesperado quando se trata de qualquer um dos irmãos Gallaghe)r, mas é um bom rock’n’roll. “For Anyone” é bem curta e acaba de decolar, mas tenho a suspeita de que não iria a lugar algum, então, melhor assim. “Kill for a Dream” é outra composição que remete à psicodelia, bem mais interessante do que a anterior, elevando o nível do disco. “Standing on the Edge of Noise” é a minha favorita no disco, com guitarras mais proeminentes e um vocal menos forçado – gostaria que o disco tivesse mais músicas assim, mas “Wigwam” é outra música semipsicodélica sem destaque, apesar de ser a mais longa do disco; a coda é extensa demais para as poucas ideias que traz. “Three Ring Circus” é bem mais interessante, com um riff insistente e um ritmo meio marcial, como se fosse música circense mesmo. O álbum se encerra com a baladinha “The Beat Goes On” (que soa um pouco como as músicas dos Threetles na série Anthology), simpática e inconsequente, e com “The Morning Son”, outra que acabou ficando meio longa, com muito eco no vocal de Liam. O álbum não é ruim, mas não me chamou a atenção, e o resultado é que depois da segunda audição não senti vontade de escutar pela terceira vez. Para resumir, Noel Gallagher fazia falta…

The Halo Effect – March of Unheard [2025]
Por Anderson Godinho
Como bom fã do In Flames não poderia escolher algo diferente, até porquê todos os caras do The Halo Effect tocaram no In Flames. Não só tocaram como fizeram parte dos melhores álbuns da banda. Peter Iwers, Daniel Svensson e Niclas Engelin ajudaram a criar um estilo próprio de fazer música pesada. Além deles, Jesper Strömblad (fundador do In Flames) era a alma e a cabeça do som original da banda, por mais longe que fossem em suas “viagens artísticas” era ele que conseguia manter a conexão com o passado da banda após tantas mudanças. Já o vocalista do Dark Tranquillity, Mikael Stanne, apesar de não ter sido membro oficial, fez participações em um originário In Flames. Quanto ao The Halo Effect, creio que estão se entrosando ainda. O primeiro álbum é mais sólido e gerou expectativas, nesse o trabalho se mantém em alto nível, mas acredito que podem bem mais. O disco entrega exatamente o que se espera: melodic death metal. As guitarras gêmeas de Strömblad e Engelin revivem aquele som do The Jester Race e Whoracle, com harmonizações melodiosas. A bateria de Svensson mantém a pegada galopante, enquanto o baixo de Iwers dá peso e groove. Nos vocais, Stanne alterna entre o rosnado agressivo que lembra o início do Dark Tranquillity e limpos bem dosados (algo que ele usava menos no passado). Bom álbum, mas ainda falta algo.
André: Não sei o motivo dos caras terem deixado o In Flames para criarem esta banda, mas o que imagino é que eles queriam retornar ao som do antigo melodic death metal que o antigo In Flames criava nos anos 90 e 2000 e que foi sendo alterado para uma espécie de metalcore/alternativo. Conseguiram. O trabalho é muito bom, pesado, com vocais num meio termo entre o rasgado e o gutural e um instrumental recheado de bons riffs. Não renovaram o gênero, mas o disco cumpre bem o seu objetivo de agradar velhos fãs do In Flames.
Davi: O The Halo Effect é uma banda formada por ex-integrantes do In Flames, banda considerada como um dos precursores do death metal melódico. E a proposta dos músicos aqui é justamente fazer death metal melódico. Portanto, é o tipo de álbum que não tem muito erro. Os caras sabem exatamente o que fazer. Daniel Svensson é um grande baterista, contudo, quem se destaca mesmo no álbum são os guitarristas Niclas Engelin e Jesper Strömblad. Os vocais ficam por conta de Mikael Stanne, conhecido por ter gravado os vocais em Lunar Strain (debut do In Flames), e por ser a voz do Dark Tranquility. Honestamente, prefiro ele nos (poucos) momentos onde mescla o gutural com vocal limpo, como ocorre em “Forever Astray” e “Between Directions”. Gosto quando o cantor explora diferentes recursos vocais. Sempre preferi o In Flames com o Anders Fridén, nunca fui muito fã do Mikael (nem do Dark Tranqulity), mas para aqueles que acompanham e gostam do rapaz, o disco deve agradar em cheio. Outros destaques ficam por conta de “Detonate” e “What We Become”.
Fernando: É The Halo Effect, mas pode chamar de In Flames Inc. O álbum combina agressividade moderna, melodias marcantes e produção robusta, ou seja, uma amálgama tardia do som de Gotemburgo. A nostalgia é palpável e utilizada de forma inteligente, mas não parece apenas uma cópia do passado. Um trabalho sólido e honesto para os fãs que estranharam as mudanças e direcionamento do atual In Flames.
Mairon: Esta é outra que nunca ouvi falar, ainda mais com um disco do ano passado, e que não tenho nem ideia de quais são as origens. Já ouvi muita coisa parecida com isto, mas destas bandas modernas, não consigo gravar nome, ainda mais no estilo proposto aqui, algo que mescla vocais guturais com bateria acelerada e riffs power metal (existe death power metal melodic???). Instrumentalmente, a coisa funciona legal, principalmente em “What We Become” e nas melhores do disco, “Coda” e principalmente, “This Curse of Silence”. Mas por que elas são as melhores? Simples, porque são toda instrumental. Vocal gutural é algo que não aguento mais. O melhor exemplo é “Between Directions”. Quando há um vocal normal, a música é interessante, com um bonito arranjo orquestral. Mas pra que que colocam os vocais vomitados no meio? Totalmente desnecessário. No fim, apesar das músicas serem curtas, e do álbum ter pouco mais de 40 minutos, foi cansativo ouvir March of Unheard até o fim. Espero, como diz o nome, não ouvir mais isto pelo resto da minha vida.
Marcelo: Nunca tinha ouvido falar. Já na segunda faixa, larguei o disco e fui pesquisá-los; descobri que derivam dos suecos do In Flames. A partir daí, acabei chegando ao Foregone (2023), que o próprio YouTube me sugeriu, e foi um caminho mais convincente: esse, sim, ouvi do começo ao fim. Não voltei ao The Halo Effect.
Marcello: Não conhecia nem a banda nem o álbum, até porque não sou fã de death metal. Assim, deixei para o final, e a música contida em March of Unheard acabou me surpreendendo, com boas soluções melódicas para variar um pouco o peso do álbum, arranjos mais elaborados do que ouço nas minhas poucas incursões no gênero, guitarras bem interessantes, e um vocal que em alguns momentos soa humano (como em trechos de “Forever Astray” e “Between Directions”). Se “Cruel Perception”, “Detonate”, a faixa-título, “Forever Astray”, “Between Directions” (com seu arranjo de cordas, uma melodia envolvente e o melhor desempenho vocal de Mikal Stanner) chamaram muito minha atenção, “Our Channel to Darkness” soa como um monte de clichês do gênero. “A Death That Became Us” traz um dedilhado de guitarra na introdução que me recordou Marillion e sua “Cover my Eyes (Pain and Heaven)” – que por sua vez sempre me lembrou U2 – e com isso foi a música mais inesperada do disco (mas nem por isso ruim, que fique claro!). A breve instrumental “This Curse of Silence” (queria que fosse um pouco mais longa) e “Coda” (outra instrumental) também me agradaram, ainda que nem tanto quanto as músicas que destaquei acima. As demais músicas, se não chegaram a me impressionar, também não comprometeram. A versão que ouvi traz um bônus, “Not Yet Broken”. “Coda” teria sido um encerramento bem melhor, mas a música não é ruim, só me pareceu mal posicionada na lista. Para concluir, o disco é melhor do que esperava. Provavelmente não irá frequentar muito minhas audições, mas isso é mais por não gostar do gênero do que por causa do álbum em si.

Muito legal ter participado da seção e sobretudo ter ouvido os discos que não conhecia ou não lembrava mais. E também foi bom fazer o pessoal ouvir Foghat de novo ou até mesmo pela primeira vez, a banda merece – especialmente porque Roger Earl continua levando o grupo em frente. Quanto aos demais álbuns, no final das constas, só acertei uma indicação dos consultores…