As maiores mentiras do rock

As maiores mentiras do rock

Por Fernando Bueno

Algo que deve ter acontecido com todo jovem iniciante no mundo do rock foi o contato com as histórias que acompanhavam todas as bandas. O rock, além da música, também sempre viveu de seus mitos. Ler biografias de bandas sempre foi algo bastante prazeroso e até mesmo inspirador. Mas o que seriam dessas histórias de bandas se não fossem as lendas? Geralmente as lendas são mais interessantes e se tornaram até maiores do que as próprias histórias verdadeiras.

Algumas lendas, porém, se mostraram reais como a aparição de Syd Barrett no estúdio em que o Pink Floyd gravara um disco que servia como uma homenagem a ele mesmo. Essa coincidência incrível é até difícil de acreditar, mas era verdade. Porém, neste primeiro de abril, estamos aqui para falar das grandes mentiras do rock. Aquela história que ouvimos diversas vezes, mas que não passa de balela ou foi transmitida de uma forma que não fosse exatamente de como aconteceu. Dá para dividir isso em dois tipos: as mentiras fabricadas, com intuito de se criar um marketing, e as lendas urbanas que eram boas demais para morrer. Claro que esse texto não pretende esgotar o assunto, mas pode ser um gerador de conversas infinitas. Assim, conte nos comentários a história que você mais gosta ou a que faltou na lista abaixo.

Podemos começar com uma das maiores lendas do início da música: o pacto de Robert Johnson com o diabo. Não é exatamente do rock, mas o blues foi uma das principais raízes do rock and roll. Dizia-se que Johnson tinha vendido sua alma numa encruzilhada para aprender a tocar guitarra como nenhuma outra pessoa tinha feito. Essa lenda já gerou documentários, um filme clássico baseado nessa história e até mesmo gera renda para a cidade de Clarksdale, no Mississipi, por conta da enorme quantidade de turistas que querem conhecer o local. Sua morte prematura ajudou a espalhar e aumentar o mito. Todos se impressionaram com a evolução técnica de Robert em pouco tempo, mas a explicação realista é de que ele era realmente um prodígio e sob a tutela de músicos locais (o nome de Ike Zinnerman é citado em alguns lugares), aliado à prática intensiva tenha desenvolvido sua forma de tocar.

Outra lenda deliciosa era a de que o Elvis está vivo. Sua morte em 1977, por overdose de remédios, deixou milhões de fãs desolados. Porém a decadência musical e física do cantor, um dos primeiros que levantaram a bandeira do rock and roll, era visível. Suas performances no fim da vida em Las Vegas, já bem gordo e sem a voz que o consagrou, eram arremedos do passado de um músico que marcou vidas e gerações. Mas a lenda é que, cansado de sua vida como celebridade, ele teria forjado sua própria morte para desaparecer e viver com tranquilidade, longe da fama. Porém ele foi “visto” em postos de gasolina, aeroportos e lojas de conveniência algumas vezes, e até hoje.

Outra história parecida aconteceu e muitos ainda juram que Jim Morrison está vivo. Sua morte, por insuficiência cardíaca, foi bem anterior à de Elvis Presley e aconteceu em Paris, em 1971, também aos 27 anos como Robert Johnson. A teoria mais recente é que ele teria forjado sua morte e estaria vivendo como um zelador nos Estados Unidos. As teorias se fortalecem porque não houve uma autópsia oficial de seu corpo, portanto não há registros documentando sua morte, mas não há nenhuma evidência concreta de que isso não seja verdade.

Você já deve ter se deparado com algum meme brincando com a longevidade do guitarrista dos Rolling Stones. Mas já ouviu a história de que Keith Richards trocou todo seu sangue?  Essa história até meio absurda conta que, em uma tentativa de se livrar de vez das drogas, Richards fez uma troca completa de todo o sangue de seu corpo. Durante as décadas de 60 e 70 Keith teve graves problemas com o vício em heroína. E em algum momento, cansado de ter que responder sobre o assunto, falou que teria feito o procedimento e estava limpo. A imprensa publicou a história como verdade e o mito cresceu. Na realidade Richards passou diversas vezes por tratamentos médicos para desintoxicação e hoje em dia, com 80 anos, é um símbolo da resistência a excessos que já levou muitos outros músicos. Vale lembrar que, essa história de trocar todo o sangue surgiu também na época em que o Cazuza ainda estava vivo e lutava contra os problemas causados pela AIDS. Muito se falava que isso teria acontecido como uma forma de tentar se livrar do vírus. Até sangue de cavalo era citado em algumas situações.

Para sair um pouco de assuntos pesados uma das maiores lendas do rock é a de que o Dark Side of The Moon sincroniza com o filme o Mágico de Oz. Em algum momento, algum desocupado pensou em colocar o filme dos anos 30 junto do álbum. O procedimento correto seria que no terceiro rugido do leão da MGM o disco deve começar. Obviamente algumas coisas batem, mas é um daqueles casos em que nosso cérebro tenta identificar padrões. As principais coincidências estão na parte do tornado que bate com o solo vocal em “The Great Gig in the Sky”, o tornado se encerra exatamente quando esse solo acaba. Quando a Dorothy vai para o mundo colorido é exatamente quando começa a música “Money”. A explicação é que foi gasto muito dinheiro para ter um filme colorido pela primeira vez na história. Mas o que mais me impressiona é que na terceira vez que o álbum toca, durante o fim da música “Time” quando David Gilmour canta “home, home again” é exatamente no momento em que a Dorothy acorda em sua casa. Roger Waters afirmou que tudo não foi proposital e que sim tudo isso é fruto de uma “coincidência cósmica”.

Não podia deixar de citar uma história que por muito tempo aparece por aí e ainda existe muita gente que defende que tudo isso é verdade. Se trata do caso do Kiss copiou o Secos e Molhados nas maquiagens. Em um primeiro momento pode-se até dizer que é uma possibilidade, porém, a história não se sustenta quando você olha bem de perto. O Secos e Molhados surgiram com esse visual marcante e postura provocativa de seus integrantes. Tinha uma forte influência de teatro e cultura brasileira. Já o Kiss tinha maquiagens com identidade própria. Cada integrante era um personagem diferente. A influência eram os quadrinhos e principalmente o glam rock. A acusação vem por conta do surgimento do Kiss pouco tempo depois que o Secos e Molhados já era sucesso no Brasil, porém não há uma evidência real de algum contato entre os grupos, o mercado brasileiro era relativamente fechado para o mercado internacional e a banda tinha nenhuma relevância internacional. A estética também não é realmente igual, o Secos e Molhados é mais fluida e expressionista, enquanto o Kiss é fixo e focado em seus personagens. No Brasil essa história pegou muito por conta de uma tentativa de afirmação nacional, um pouco da eterna ideia do Brasil x EUA, algo como ‘nós fizemos primeiro e eles nos roubaram’, tentando criar um clima de injustiça cultural. Já o Kiss tem suas referências bem documentadas e a influência de Alice Cooper, Arthur Brown, New York Dolls é muito mais crível do que uma banda de um país longínquo.   

Para finalizar a maior lenda e mentira da história do rock: a de que Paul McCartney está morto (Paul is dead). Como assim você acha que isso é mentira, Fernando? Pode pergunta algum leitor mais bem informado e embasado com fatos. Ele morreu sim, em 1966 e foi substituído por um sósia. E está tudo lá na nossa cara. Na capa do disco Abbey Road eles representam um funeral em que Paul está descalço e é um costume enterrar os mortos assim na Inglaterra. Na placa do carro está a inscrição ’28 IF’, ou seja, Paul teria 28 anos se não tivesse morrido. A caça de pistas como essas se tornou um fenômeno cultural e em pouco tempo a proporção absurda. Segundo quem acredita nisso John Lennon ficou indignado sobre isso e começou a entregar a situação ao longo da carreira da banda. O tema tem até uma página própria na Wikipedia e quem quiser se aprofundar ainda mais vai encontrar diversas “provas” de que isso realmente aconteceu. Paul já brincou diversas vezes sobre isso, inclusive em um disco ao vivo de 2003 intitulado Paul Is Live.  

Essas histórias revelam muito sobre o próprio rock. A necessidade de se criar figuras mitológicas, o papel da imprensa em amplificar todos os exageros e lucrar com isso e no fim das contas, a mentira é muitas vezes mais interessante do que a verdade. Essas mentiras ajudaram a construir a aura do rock em um espaço onde a fantasia e a realidade se misturam.

 

 

3 comentários sobre “As maiores mentiras do rock

  1. Duas histórias que me vieram à cabeça foram:
    – Os Beatles se reuniram secretamente e gravaram em 1977 um álbum novo, e, para disfarçar, creditaram a um tal Klaatu. O grupo canadense sempre disse que não tinha nada a ver com o boato; mas se sabe que o empresário era meio escroque, então, pode ter sido a fonte do papo furado.
    – Gene Simmons costurou uma língua de vaca na sua para ficar ainda mais linguarudo. Essa para mim era fantástica!
    Algo que não se enquadra bem no conteúdo da matéria mas foi uma grande mentira foi o New Deep Purple de 1980 com Rod Evans no vocal e um guitarrista fisicamente parecido com Ritchie Blackmore. Evans teve a cara de pau de anunciar “Might Just Take Your Life” como sendo do “nosso álbum Burn”!
    De todas as histórias apresentadas, a minha favorita é “Paul is Dead”, porque há tantas “evidências” que você acaba ficando na dúvida!

  2. Tem a estória do Led Zeppelin e um certo uso de peixes…
    Kiss pisoteando pintinhos…
    Alice Cooper jogando uma galinha viva no público e ela sendo destroçada…(real eu creio)
    Ozzy arrancando cabeça de pomba e morcego…(real)
    Ozzy cheirando uma fileira de formigas…
    coitados dos bichos…

  3. Taí um assunto que me interessa bastante: as grandes mentiras ditas por grandes bandas. No caso dos Beatles, creio que a maior mentira contada por eles foi aquela em que disseram ser “mais populares que Jesus Cristo” em uma entrevista. Mais do que uma mentira, foi uma gigantesca blasfêmia que revoltou os conservadores, sem dúvida.

    Vou citar também duas mentiras ditas por duas bandas: a primeira é o Judas Priest envolvendo o até agora mais recente disco Invincible Shield (2024), quando Richie Faulkner disse em entrevistas que as canções teriam uma pegada mais “progressiva” em comparação ao antecessor Firepower (2018). Ouvi o disco após lançado e não encontrei nada disso que o guitarrista falou antes, mas sim o mais do mesmo mostrado no CD anterior, bem produzido, bem tocado e tudo o mais. Enfim, Faulkner mentiu pra mim!

    A segunda mentira é talvez a mais imperdoável de minha parte é com os alemães do Scorpions, quando Klaus Meine e Rudolf Schenker disseram em entrevistas que o álbum que viria depois do ótimo Blackout (do qual a banda estava promovendo em suas turnês entre 1982 e 1983) seria melhor ou tão bom quanto. E esse trabalho veio em 1984 com um título meio enfadonho: Love At First Sting, do qual ainda hoje não consigo entender o motivo de ter sido o que foi na época em que foi lançado… Foi o disco que deu ao hoje veterano grupo – veterano sim, mas não “relevante”, na minha opinião – a fama de “vendido” e “traidor” do rock (segundo os “puristas” que sempre apoiaram-os desde o início), muito antes de nos anos 90 o Metallica atingir um patamar semelhante com um trabalho que faria um sucesso astronômico ao mesmo tempo em que dividiria e continua dividindo opiniões ainda hoje. Mas isso é outro caso… Voltando aos Scorpions, não vou perdoar o fato de terem realizado o sonho de alcançar o auge de sua carreira (segundo os críticos, pois para mim eles alcançaram o oposto) com um disco que parece dizer-me muito porém não diz-me absolutamente nada. Se fosse com outro trabalho lançado antes ou depois de Love At First Sting, certamente o resultado seria diferente e bem mais satisfatório pro meu gosto. No mais, é só isso a enfatizar por aqui.

Deixe um comentário para Igor Maxwel Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.