Family: Um Tesouro Subestimado do Rock Inglês dos Anos 70

Family: Um Tesouro Subestimado do Rock Inglês dos Anos 70

Por Fernando Bueno

Dizer que os anos 70 foram gigantes no surgimento, na produção e quantidade de músicos e artistas fenomenais é um lugar-comum em todas as publicações sobre música. Mas quem gosta de garimpar não consegue deixar de se surpreender por diversas e infinitas descobertas.

Às vezes nem é preciso cavar demais para chegar em algum grupo excelente e esse é o caso da banda que será tema desse texto aqui: o Family. Sempre li o nome deles em alguma publicação falando de outras bandas, mas nunca realmente tinha ido atrás das suas músicas para conhecê-los. Confesso que, em um primeiro momento, achei até mesmo que a citação era apenas um modo carinhoso de se referir ao Sly and the Family Stone. Nada a ver, claro, mas é possível que isso tenha atrasado minha busca pela banda. Mas isso acabou durante esse período de carnaval. Enquanto a maior parte da população estava atrás de algum bloquinho de carnaval, eu estava na minha casa procurando essa nova família de músicos.

Formado em 1967 em Leicester, Inglaterra, o Family tinha em Roger Chapman seu principal nome com muitos outros músicos passando pela banda ao longo dos anos. Outros dois músicos também fizeram parte com mais consistência dessa curta história da banda: John Whitney e Rob Townsend. A banda surgiu dos remanescentes do The Farinas, que posteriormente se transformou no The Roaring Sixties. O próprio Chapman não foi um dos primeiros integrantes desses grupos, entrando pouco antes da banda adotar Family como seu nome, sugerido por um produtor musical em alusão ao tipo de vestimenta que os músicos utilizavam em suas apresentações e que, segundo ele, os dava uma aparência mafiosa. O visual não se manteve por muito tempo, mas o nome sim. Difícil especificar o que cada músico fazia na banda, pois praticamente todos os componentes tocavam mais de um instrumento. Às vezes gravavam diversos instrumentos diferentes em um mesmo disco. Mas podemos resumir de que Chapman era o cantor principal, Whitney era o guitarrista e Townsend o baterista.

Não tenho intenção de esgotar o assunto e nem falar sobre todos os sete álbuns lançados pelo grupo de 1969 até 1973, em mais um exemplo de como a produção de discos era intensa para essas bandas dessa época. Acredito que muita gente, assim como eu, tenha o primeiro contato com o Family quando se conhece a história do surgimento do Blind Faith, banda que então reunia Eric Clapton e Steve Winwood em um dos grupos que criminosamente teve vida curta demais. Junto deles estavam Ginger Baker, que vinha do Cream, junto de Clapton, e Rick Grech, baixista do Family. Uma pena o Blind Faith não ter durado pelo menos mais uns dois álbuns. Rick já havia gravado dois álbuns com o Family, Music In A Doll’s House e Family Entertainment, ambos lançados no abençoado ano de 1969. Esse último, pelo menos nos lugares onde eu li sobre eles, é tratado como seu principal disco, entretanto o primeiro disco é o mais bem cotado no site Progarchives especializado em rock progressivo. Iniciaram como um grupo de rhythm & blues, mas logo adotaram o rock progressivo, um pouco de psicodelia e folk. Para citar novamente o Progarchives, eles os consideram justamente uma banda de progressivo eclético.  

No lugar de Rick Grech, John Weider, que havia sido do The Animals, entrou para gravar mais dois álbuns: A Song For Me e Anyway, novamente dois álbuns saindo no mesmo ano, no caso 1970. Anyway é um disco meio ao vivo, meio material de estúdio. Mas logo depois entrou para o posto John Wetton, mais um nome que os fãs de rock progressivo conhecem muito bem por ter participado de bandas como o King Crimson, UK e Asia, para citar apenas alguns. Nesse caso a presença de Wetton foi o principal motivo do meu interesse pela banda. Adoro o trabalho dele com todas essas bandas, o tenho como um grande baixista e aprecio demais sua voz. O primeiro álbum em que ele participou, Fearless (1971), talvez por puro “clubismo” é, até então, o que mais gostei. Participou bastante do disco até mesmo com vocais principais, mesmo sendo um estreante no grupo. O disco foi o primeiro da banda a ficar entre os 200 álbuns da Billboard.

É o álbum em que menos senti os elementos mais progressivos do grupo. Tem menos experimentações e o torna um pouco mais acessível. A voz mais áspera de Chapman com as partes mais delicadas da faixa de abertura, por exemplo, é algo bastante curioso. Cabe aqui dizer que em algumas resenhas que li, vi algumas vezes as pessoas reclamando exatamente da voz de Chapman. Mas é marcante o quanto de peso John Wetton acrescentou ao baixo do Family, além de sua destreza vocal, claro.

Depois de Fearless veio Bandstand (1972), ainda com John Wetton, apesar da pouca participação efetiva dele no álbum. Entretanto ele não esquentou por muito mais tempo a vaga, pois foi convidado por Robert Fripp a se juntar ao King Crimson estreando em Larks’ Tongues in the Aspic (1972) e ficando até o fim da banda pós-lançamento de Red (1974).

Voltando ao Family, é possível encontrar toda a discografia deles, principalmente no YouTube, mas no Spotify só estão disponíveis os dois primeiros, Fearless e um ao vivo lançado em 2013 com gravações de arquivo chamado Family Live. Bandstand tem um direcionamento ainda mais acessível, por decisão dos próprios músicos em uma clara intenção de tentar ganhar mais exposição ao sol do mercado musical. A turnê desse disco foi acompanhando nada menos que Elton John em shows nos Estados Unidos já com Jim Cregan substituindo Wetton. No ano seguinte veio It’s Only A Movie, um álbum considerado menor na discografia e o último de estúdio do grupo. Nessa última fase, mais um nome bastante conhecido pelos fãs entrou na banda, John Ashton, músico que acompanhou Jon Lord e Ian Paice em discos pós Deep Purple. Especialmente no clássico do Paice Ashton Lord, Malice in Wonderland (1977).

Em 2012 houve uma reunião com Chapman e Townsend, da formação original, mais músicos que participaram eventualmente ao longo da carreira discográfica, mas alguns músicos convidados para completar a formação. Não resultou em nenhum lançamento, mas conseguiu trazer a banda de volta à ativa e fazê-los serem lembrados novamente. Embora o Family não esteja no mesmo patamar de muitas das bandas contemporâneas, sua história se cruza com outros nomes de destaque do rock inglês. Um ótimo nome para quem gosta de escavar os anos 70 em busca de tesouros menos óbvios, eles são uma descoberta que vale cada minuto investido.     

 

2 comentários sobre “Family: Um Tesouro Subestimado do Rock Inglês dos Anos 70

  1. Family é uma banda que conheci por meio da passagem do John Wetton, que já estava no meu radar por sua passagem pelo Uriah Heep e King Crimson. Por sorte um amigo tinha o “Fearless” e deu para ouvir o ecletismo do grupo. A voz do Roger Chapman me causou estranheza, mas depois que me acostumei acabei curtindo. Eventualmente comprei o CD com “Anyway”, que gostei bastante, e posteriormente consegui o “A Song for Me” – e mais nada. Nos bons tempos dos sites de MP3 acabei baixando toda a discografia deles e concluí que esses três discos eram mesmo os melhores na minha opinião.
    Vale mencionar que o Family se apresentou no festival da Ilha de Wight em 1970 e uma versão sensacional para “Weaver’s Answer” aparece no filme e no disco “Message to Love” – assistindo o filme a gente percebe que Chappo era uma verdadeira força no palco, agitando o tempo todo. Muito legal trazê-los para a Consultoria!!

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