beatles bowl

 

Por Davi Pascale

 

Na  primeira semana de Maio de 1977, foi lançado o histórico At The Hollywood Bowl, um registro dos músicos no auge de sua popularidade. O disco ficou décadas sem ter um relançamento e quando ocorreu, em 2016, chegou com uma nova cara. Novo tracklist e nova arte. É capaz que os fãs mais novos nem saibam sobre o LP, que é oficial. Por isso, no post de hoje, trago um pouco da história desse lançamento.

O vinil é, na verdade, uma coletânea de três concertos realizados pelos garotos de Liverpool no Hollywood Bowl (Los Angeles): 23 de Agosto de 1964, 29 e 30 de Agosto de 1965.  O disco era pra ter sido lançado no ano de 1964. A gravadora queria aproveitar o momento da beatlemania. A ideia inicial, para dizer a verdade, seria lançar a apresentação do Carnegie Hall (Nova Iorque), mas os rapazes não conseguiram permissão para gravar o espetáculo. Meses depois, decidiram gravar a apresentação de Los Angeles, mas o resultado final não agradou a equipe.

 

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John, Paul, George e Ringo ouviram as gravações, gostaram do material, se disseram surpresos e pediram uma cópia para eles. Contudo, os músicos disseram que não gostariam que o registro fosse lançado. George Martin também não aprovava o lançamento. No livro Complete Beatles Recording Sessions, Martin afirma que o procedimento de gravação foi equivocado. “Você teria que gravar a banda em dois canais e ter o terceiro para as vozes. Assim, poderíamos descer e subir o volume na mixagem. Eles fizeram errado. Fizeram uma mixagem bizarra. Quando recebi as fitas, encontrei guitarras e vozes no mesmo canal. E a gravação focava mais nos gritos do que na performance dos Beatles”.

Atualmente, é cada vez mais comum os grupos entrarem em estúdio para consertarem os erros antes de colocarem um trabalho ao vivo nas lojas. Voyle Gilmore, que produziu o LP junto com George Martin, chegou a declarar que “George Martin fez um discurso onde parecia que havia modificado algumas coisas. Eu duvido. Não havia muito que pudesse ser feito. O Hollywood Bowl tinha um bom sistema de som. A única coisa que fizemos foi plugar nossos microfones. Eles fizeram seu show habitual e nós gravamos. Não tinha sido ruim. Então fui para o estúdio e trabalhei no som do publico. Abaixei um pouquinho”. O show foi gravado em condições que hoje são consideradas amadoras, mas na época, era o que havia de mais moderno: uma mesa de som de 3 canais com uma fita magnética.

 

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No ano seguinte, o grupo retornou ao Hollywood Bowl para mais duas apresentações. Ambas, sold-out. A Capitol decidiu gravar os dois shows novamente. Embora tenham achado a qualidade de gravação melhor do que a do ano anterior, os executivos acreditavam que o material ainda não tinha qualidade suficiente para ir ao mercado. Com isso, essas gravações foram arquivadas. Durante muitos anos a única gravação oficial rondando desse show eram 48 segundos de “Twist and Shout” no LP Beatles´ Story, disco que narrava a historia dos Beatles. Apresentava, intercalada com a narração, trechos de entrevistas (com os músicos e com fãs) e de musicas.

Em 1970, o ultimo trabalho do grupo britânico chegou às lojas. No ano seguinte, houve uma primeira tentativa de dar uma lapidada no material. O trabalho foi oferecido à Phil Spector, que havia trabalhado no disco Let It Be. As fitas foram enviadas, mas não houve retorno. Sete anos depois, ficou decidido que iriam lançar o álbum à qualquer custo, por conta dos bootlegs que começavam a surgir nas lojas com as gravações dos shows. A maior parte, segundo os executivos, com som ruim.

A Capitol procurou Voyle perguntando se sabia onde haviam sido arquivadas as fitas originais. Diziam que gostariam de lançar o material e que gostariam que George Martin estivesse envolvido por conta da proximidade dele com os músicos. Martin se lembrava que não havia gostado da gravação na época, mas quando ouviu novamente as fitas ficou impressionado com a performance. “Fiquei maravilhado com a vitalidade e a crueza dos vocais. Então disse ao Bhaskar (Menon, presidente da Capitol) que iria tentar consertar com a tecnologia atual. Juntei-me ao técnico de som Geoff Emerick e transferimos as gravações de 3 canais para maquinas de 24 canais. Tínhamos um total de 22 musicas. Reduzimos para 13. Algumas tiveram de ser deixadas de fora por conta dos gritos que encobriam a banda”. A sacada dos produtores era genial, mas tinha um pequeno problema. Com o uso continuo do aparelho, as fitas magnéticas acabavam se derretendo por conta do superaquecimento. George Martin, que não é idolatrado à toa, encontrou uma solução pratica e nada usual: resfriar as fitas utilizando secador de cabelo com ar frio.

 

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As faixas foram novamente filtradas, editadas e equalizadas. Não foram realizados overdubs. Não teve conserto na parte vocal, nem instrumentos adicionados em estúdio. A solução encontrada foi fazer um “best of” daquele material. Foram selecionadas seis músicas do show de 64 (“Things We Said Today”, “Roll Over Beethoven”, “Boys”, “All My Loving”, “She Loves You” e “Long Tall Sally”), duas do show de 29 de Agosto de 1965 ( “Ticket to Ride” e “Help”) e quatro do show de 30 de Agosto de 1965 (“Twist and Shout”, “She´s a Woman”, “Can´t Buy Me Love” e “A Hard Day´s Night”). A faixa “Dizzy Miss Lizzy” é uma mistura da apresentação do dia 29 com a do dia 30. Talvez essa tenha sido a tal modificação comentada por George Martin que Voyle Gilmore não conseguiu sacar. (Vale lembrar que as faixas do dia 29 foram creditadas na capa erroneamente como gravações do dia 30. Por isso, muitos pensam que o álbum foi gravado em duas noites, ao invés de três).

O LP pode não ter agradado aos produtores, mas certamente agrada aos fãs. A qualidade de som é boa, levando em conta os fatores da época, e o registro é muito autentico. Os músicos esbanjavam energia. A execução não é perfeita. E nem teria como ser. Além de não possuir overdubs, os músicos muitas vezes não conseguiam ouvir o que estavam tocando (por conta do tal histerismo), portanto não estranhe se pegar um ou outro errinho. Ainda assim, o disco cativa e emociona o ouvinte. Justamente pela crueza da gravação e pela histeria da plateia, quando ouvimos o disco em volume alto, nos sentimos como se estivéssemos no local do show. Em 2016, por conta do lançamento do documentário Eight Days a Week, a gravadora finalmente lançou esse material em CD. O disquinho vinha com faixas adicionais e nova capa. No entanto, a versão original somente correndo atrás do vinilzão da época. Esse disco, que durante muitos anos, foi considerado pelos fãs como “o álbum perdido dos Beatles” sempre esteve na minha coleção. E você? Já conhecia essa versão de 1977? Ou só passou a conhecê-lo na nova prensagem?

 

Track list:

1. Twist and Shout
2. She’s A Woman
3. Dizzy Miss Lizzy
4. Ticket to Ride
5. Can’t Buy Me Love
6. Things We Say Today
7. Roll Over Beethoven
8. Boys
9. A Hard Day’s Night
10. Help!
11. All My Loving
12. She Loves You
13. Long Tall Sally

2 comentários

  1. Marcello

    Conheci esse disco na época do vinil por meio de um amigo beatlemaníaco – eu, fanático pelos Stones, adorava discutir com ele – e, posteriormente, por meio de um CD russo que traz duas das três apresentações, intitulado “The Beatles Live ’65”, um pirata que trazia uma capa retirada de um disco americano, em que eles aparecem segurando guarda-chuvas. Sempre gostei desse disco por causa da energia da banda, com músicas bem cruas e sem aquele verniz do estúdio.
    Um detalhe: o duplo “The Beatles Live! At the Star Club in Hamburg, Germany”, antecede esse lançamento em um mês (é de abril de 1977, enquanto que “At The Hollywood Bowl” é de maio); não é um lançamento oficial, mas sempre esteve nas discografias dos Beatles e é, acredito, o primeiro disco ao vivo do grupo.

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    • Davi Pascale

      Verdade! Existe o Star-Club. Tenho o LP duplo, de capa preta. Se não me engano, ele é oficial. Ele acabou sendo lançado por um selo alemão, antes de ir para outros países. Bem lembrado, Marcello. Vou corrigir o texto. Valeu…

      Responder

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