Por Mairon Machado

Dez anos de espera. Esse foi o tempo que os fãs de um dos maiores gênios da história esperaram para poder ouvir e sentir com relação as emoções, letras e música de David Bowie. Nesse longo período, muitos fatos ocorreram na vida do músico, cantor e compositor inglês. E dez anos se passaram deste que é considerado um dos grandes discos da década passada, e certamente, um dos grandes discos da vasta carreira do camaleão. Vamos voltar no tempo e relembrar a importância disto, e como é constutído The Next Day.

Em 16 de setembro de 2003, Bowie lançou Reality, vigésimo terceiro álbum de estúdio, continuando uma nova fase na sua carreira camaleônica, que o colocou novamente entre os mais vendidos nos Estados Unidos com canções inspiradas na nova era do rock, sem abuso de eletrônicos e tendo a sua voz como principal instrumento. Essa nova fase de Bowie havia começado quatro anos antes, através de Hours … (posição quarenta e sete na Billboard) e seguiu com o ótimo Heathen (décimo quarto nos Estados Unidos), e claro, Bowie continuava soberano (apesar de não figurar no topo) nas paradas britânicas, chamando atenção com três grandes discos e resgatando sua credibilidade, a qual foi queimada nos anos 90 com projetos fracassados (o incompreendido grupo Tin machine e os  eletrônicos Black Tie, White Noise -1993, 1. Outside – 1995, e Earthling – 1997).

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David Bowie

Bowie saiu em turnê pelo mundo durante o ano de 2004, sendo assistido por mais de setecentas mil pessoas, até que durante o Hurricane Festival, em 25 de junho daquele ano, o camaleão começou a sentir fortes dores no peito, causada por uma artéria entupida que levou-o para uma angioplastia, realizada na cidade de Hamburgo logo em seguida. A indecisão  pairou sobre os fãs. Primeiro: Bowie poderia seguir em turnê? Essa resposta foi obtida rapidamente, com todos os shows restantes sendo cancelados. Segundo: Bowie iria lançar discos? Bowie respondeu em 08 de fevereiro de 2006 que talvez sim, mas seu ritmo de trabalho iria diminuir. E foi o que ocorreu. Raras foram as aparições do camaleão a partir de então, e muitos chegaram a cogitar que ele teria se aposentado para a música.

Até que no dia 08 de janeiro de 2013, no dia que completou sessenta e seis anos, Bowie anunciou que estaria lançando um novo álbum, e liberou o single de “Where Are We Now?”. Os fãs entraram em polvorosa. Ele estava vivo, e mais vivo do que nunca. Veio o vídeo de “The Stars (Are Out Tonight)” em 26 de fevereiro, e a expectativa cresceu, pois as duas canções faziam por merecer toda a crítica positiva que imprensa e fãs destacavam.

08 de março e The Next Day tomou conta das lojas mundiais, e a espera de dez anos valeu muito a pena. Com quatorze canções, Bowie, em parceria do eterno amigo Tony Visconti, nos leva por um espetáculo sonoro de quase uma hora de duração, que nos remete para o final dos anos 70, por vezes peregrina nos anos 80 e raramente faz menções aos anos 90. Certamente, os álbuns Diamond Dogs, Lodger e Scary Monsters (and Super Creeps) são aqueles que mais podemos encontrar semelhanças, as quais são impossíveis de não serem destacadas, só que em uma incrementação moderna, diferente dos mesmos, a começar pela fantástica faixa-título, com um riff grudento e uma levada envolvente, que se intensifica com a quebrada “Dirty Boys”, cuja mistura de saxofone, guitarras e efeitos na voz de Bowie sugerem uma influência (tímida) no King Crimson de Lizard.

É impossível não sentir os efeitos das vocalizações e o andamento de “The Stars (Are Out Tonight)”, com um belíssimo arranjo de cordas, as escalas insinuantes de baixo e Bowie soltando a voz, transmitindo emoção como só ele consegue fazer, e se você acha que “Love is Lost” é uma balada mela-cuecas, irá se surpreender com as passagens de teclados, tocados pelo próprio Bowie. “Where We Are Now?” entra nas listas de melhores baladas gravadas por Bowie, em um nível abaixo da linda “Wild is the Wind”, mas com o mesmo poder de levar as lágrimas, assim como “Valentine’s Day”, outra balada perfeita para se aninhar no cangote da amada em um dia frio.

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The Next Day em vinil

A partir de “If You Can See Me”, o disco muda, tornando-se muito melhor do que já estava, sendo esta esquizofrênica e estranhíssima, com efeitos na voz de Bowie e um ritmo avassalador, enquanto “I’d Rather to be High” possui um refrão hipnotizador, que fica por dias em nossas mentes. “Boss Of Me” soa preguiçosa e em uma linha característica do que o Smashing Pumpkins fez nos anos 90. “Dancing Out in Space” é a mais oitentista, com um andamento quadrado da bateria, mas com efeitos na guitarra que lembram “”Heroes””, e novamente, com os vocais de Bowie sendo o destaque.

A reta final é praticamente perfeita. “How Does the Grass Grow?” é impossível de definir. A melhor mistura de anos e estilos que Bowie conseguiu criar. Os vocais sobrepostos são dos anos 90, enquanto os sintetizadores saíram de algum álbum dos anos 80, mas a guitarra do encerramento só pode ser dos tempos de Diamond Dogs. Guitarra distorcida é o que não falta no riff pesado de “(You Wil) Set the World on Fire“, um hard setentista que se candidata a melhor canção do disco (ao lado de “Dancing Out in Space”).

O ritmo hard é aliviado com a acústica “You Feel So Lonely You Could Die”, tendo mais um belo arranjo de cordas, e The Next Day encerra-se com “Heat”, uma espécie de sequência para a clássica “Warszawa”, somente com o violão e uma marcação percussiva acompanhando longos acordes de sintetizador, e a voz grave de Bowie aquecendo e deliciando os corações dos fãs, como um bom Cabernet Sauvignon, só que aqui, com sessenta e seis anos aprimorando seu sabor.

Bowie, um Cabernet Sauvignon – 66 anos

Bowie, um Cabernet Sauvignon – 66 anos

Os japoneses foram beneficiados com uma faixa bônus, “God Bless the Girl”, e The Next Day também recebeu um lançamento em vinil duplo (com o CD original de brinde) e uma versão DELUXE com três bônus: “So She”, “Plan” e “I’ll Take You There”. Em poucas semanas, o álbum vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo, sendo que na primeira semana, apenas no Reino Unido, vendeu 94.048 cópias. Com o passar das vendas, The Next Day foi primeiro em dezoito países (entre eles Reino Unido, Alemanha, Argentina, Bélgica e Irlanda), foi segundo nos Estados Unidos e quinto no Japão, provando que os fãs estavam realmente ávidos pela música de Bowie.

Em um ano que a maioria da imprensa especializada destacou 13 do Black Sabbath como melhor lançamento, eu afirmo que meu favorito com certeza foi (e é) The Next Day. Além de ser muito mais honesto, possui a voz impecável de Bowie, algo que o comedor de morcegos Ozzy Osbourne infelizmente abandonou em meados dos anos 80. Uma lástima que 3 anos depois Bowie nos deixou, ao mesmo tempo que criou uma despedida fantástica chamada Blackstar. Mas isso é papo para daqui alguns anos.

Track list

1. The Next Day

2. Dirty Boys

3. The Stars (Are Out Tonight)

4. Love is Lost

5. Where We Are Now?

6. Valentine’s Day

7. If You Can See Me

8. I’d Rather Be High

9. Boss of Me

10. Dancing Out in Space

11. How Does the Grass Grow?

12. (You Wil) Set the World on Fire

13. You Feel So Lonely You Could Die

14. Heat

 

6 comentários

  1. Marcello

    Quando vi o artigo, parei o que estava ouvindo e fui atrás de “The Next Day”, que há tempos não rolava. Que obra-prima… Um daqueles discos que devem ser ouvidos na íntegra, e que não podem ter músicas espalhadas em coletâneas, tamanha é a organicidade do trabalho. Quase toda a carreira do Bowie está sumarizada nessas músicas. Para mim, “The Next Day”, “If You Can See Me” e “You Will Set the World on Fire” estão à altura do melhor que ele fez ao longo de sua carreira, algo que nem mesmo o fã mais exaltado poderia imaginar, afinal, foram dez anos de espera. É pena que não houve nenhuma apresentação ao vivo para apreciarmos ainda mais essas músicas. Ontem completaram-se sete anos desde sua partida; Bowie nos deixou uma longa série de discos com mais pontos altos do que baixos, e se despediu bem perto do topo.
    E agora que ele está junto com o Major Tom em algum lugar do espaço, como não se emocionar com “Where Are We Now”?

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      • Mairon

        Mas acrescento hehehe. Para mim, stars are out tonight é A música do disco, dançante, com vocalizacoes q tu te pega cantando do nada e uma interpretação visceral de bowie.

      • Marcello

        “Stars Are Out Tonight” é fantástica, sem dúvida!! Para mim, uma das melhores coisas do Bowie é o fato de que se você conversar com dez fãs diferentes você tem mais chances de que eles te apontem dez discos distintos como o melhor do cara do que, por exemplo, com um fã dos Stones. E ainda por cima, se conversar com dez fãs diferentes que tiverem apontado o mesmo disco como sendo o melhor, há a possibilidade de escolherem músicas diferentes como sua favorita!

  2. Ricardo Martins

    Comprei na Nova Zelândia um box do The Next Day que vem com um cd de faixas extras e um dvd com os vídeos oficiais. Uma maravilha.

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