Por Eudes Baima 

Em 1969, Neil Armstrong colocava os primeiros pés humanos na Lua, mas, um ano antes, um fato igualmente inusitado abalaria o mundo dos fãs de rock’n’roll: Elvis Presley colocava, depois de anos, os pés na terra.

images (1)O famoso programa de TV ‘68 Comeback (Elvis 1968 Special), que teve trecho de destaque no recente filme Elvis (2022), representou para Elvis seu retorno ao mundo dos vivos, após anos em sua ilha da fantasia em Hollywood,onde, cercado de um exército de baba-ovos e aproveitadores, se isolouda vida real e, qual uma Carolina, sequer viu o carrossel do rock passar na janela. Enfiado em produções cinematográficas de gosto bem mais que duvidoso e gravando discos no piloto automático e cada vez mais distante de suas raízesblues e r&b, Elvis só poderia reivindicar o título de Rei do Rock num grande esforço de metáfora…e de nostalgia. Lógico que é possível pescar do período entre 59 e 68 mais de uma pérola do repertório real De modo geral, entretanto, os discos deste período beiram o descartável, e, embora com grandes vendagens, foram, com entrada do rock na idade adulta, graças aos Beatles (que Elvis na verdade detestava), à música psicodélica, ao heavy blues e ao discurso politizado do country-rock, deixados para trás.

Albert Goldman conta que o produtor do Comeback de 68, Steve Binder, diante dos devaneios fora da realidade de Elvis, o levou para um chocante passeio pelos arredores dos estúdios da CBS em Los Angeles. O Rei ficou aturdido, não só com a galeria de roupas coloridas e cabelos compridos exibidos pelos hippies, mas sobretudo por ter sido ignorado pelos transeuntes. Longe da turma de bajuladores (“Os caras”, como se chamavam.), Elvis não reinava senão sobre as hordas de nostálgicos dos anos 50. E ele, que não completara ainda 35 anos, era já da velha-guarda!

Por isso, ‘68 Comeback é um triunfo. Musical, mas também pessoal. Elvis volta aos blues e rocks selvagens, reagrupa sua sensacional banda cinquentista, comandada pelo mítico guitarrista Scotty Moore, secundado pelo baterista DJ Fontana (Bill Black houvera morrido em 1965) e detona um set semi-acústico esmagador. Enfim, a modernidade consistia em retomar a efervescente fusão de blues, country & western e maneirismo doo-woop que ele tinha inventado e que, agora, fazia a glória dos novos ídolos. O Especial de 68 está disponível há tempos em DVD e em CD (recomendo especialmente o CD Tiger Man, ou a caixa ‘68 Comeback, com todo tipo de bônus).

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Foi nesse clima de retomada da vida, de reinserção no mundo musical que Elvis fez seu melhor LP desde sua ida para o serviço militar, o espetacular From Elvis in Memphis, editado em CD no Brasil no ano 2000, mas só encontrável, hoje em dia, em sebos de bom estoque. Já fazia tempo que pessoas ligadas a Elvis, assistindo seu lento, mas progressivo afundamento, insistiam para que ele fosse gravar em Memphis, mas certamente com outras intenções. A de que ele retomasse as baladas country, por exemplo. Afinal, Memphis era sua cidade natal do ponto de vista musical e seus primeiros hits saíram dos estúdios da Sun Records, situada ali. Mas essa Memphis, Meca da música caipira americana produzida em série (aquela idiotia rural de que nos falava Lênin), vinha progressivamente dando lugar à irresistível força da nova música negra, de gente como Ottis Redding e Aretha Franklin, sem falar nos astros adolescentes e mais polidos da Motown. É nessa cancha que Elvis quer cair. Não que From Elvis in Memphis não tenha lá seus momentos caipiras, mas a marca do disco é a soul music que Elvis adapta, sem muito esforço, diga-se, à sua linda e potente voz do pop star negro.

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E, de fato, o disco traz linda faixas em estilo soul e funk, com aquele baixão tonitroante na frente, bateria swingada, guitarras rítmicas irresistíveis, e metais abrasivos, ora instigando à dança, ora sublinhando os vocais doloridos do Rei. Canções como “Wearin’ that Loved On Look”, “Only the Strong Survive”, o country convertido em soul de “I’m Moving On”, ou clássicos absolutos como “Long Black Limousine”, além de “Any Day” mostram que se alguém tinha direito ao legado da black music, este era Elvis, que a tinha tirado do gueto e transformado no maior fenômeno musical do século XX, o ock’n’roll. Então Elvis não estava fazendo safári nos estúdios dos negões. Ele era de casa.

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E por falar em gueto, são destas seções de 69 as melhores faixas gravadas por Elvis até sua morte, em 77, “In the Ghetto”, um lamento anti-opressão que soa inusitado na voz do wasp Elvis e “Suspicious Minds”, que não entrou no disco mas foi publicada comocompacto com enorme sucesso.

A edição digital de 2000 traz ainda cinco faixas bônus (inclusive “Suspicious Minds”), todas publicadas como singles e que não estão no disco original simplesmente porque não cabiam no tempo do LP. Os completistas podem correr atrás do CD duplo com todas as faixas finalizadas nas seções de From Elvis inMemphis, que não teve edição brasileira.

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Memphis se tornou local de peregrinação de cantores e músicos em busca de redenção artística. No mesmo 1969, Dusty Springfield, a namoradinha da Inglaterra, foi em romaria até lá para gravar seu belo Dusty in Memphis, igualmente tingido pelas cores negras da soul music. Uma provinha deste álbum está na trilha de Pulp Fiction, “Son of A Preacher Man”. E ficam aqui minha homenagem à Elvis, que ontem teria completado (ou será que completou?) 88 anos!

Track list

1.  Wearin’ That Loved on Look

2. Only the Strong Survive

3. I’ll Hold You in My Heart

4. Long Black Lumousine

5. It Keeps Right On-A-Hurtin

6. I’m Movin’ On

7. Power of My Love

8. Gentle On My Mind

9. After Loving You

10. True Love Travels On a Gravel Road

11. Any Day Now

12. In the Ghetto

2 comentários

  1. Marcello

    Legal ver um dos melhores discos do Elvis aqui!! Infelizmente, a carreira do rei tomou rumos artisticamente questionáveis, embora financeiramente rentáveis nos anos 60, e quando Elvis voltou à forma já tinha se transformado numa paródia de si mesmo. Mas depois de 68 é possível encontrar boas coisas perdidas na infinidade de discos lançados – e este disco é uma das maiores provas de que ele ainda tinha muito para mostrar ao mundo.

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  2. Mairon

    Esse é um dos grandes (se não o maior) disco da carreira do Elvis. Aliás, vi recentemente o filme de 2022. Claro que o filme tem algumas falhas, mas acho que o retrato feito do ponto de vista do Coronel Parker, com uma crítica muito forte a ele, é bastante fiel ao que foi contado ao longo dos anos. Elvis sofreu na mão de um explorador ganancioso e que enganou toda a família dele, principalmente o pai. Claro que tinha muito a dar, mas viver 5 anos fazendo shows em Las Vegas, deve ter sido algo pra acabar com a saúde mental de qualquer um. Mesmo assim, o cara ainda hoje é chamado de Rei!!!

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