Por Micael Machado

Este dia 26 de novembro de 2022 marca os vinte anos do lançamento de um dos álbuns mais inusitados que o chamado “movimento grunge” legou ao mercado musical: a versão “completa” (com o subtítulo Volumes 1 & 2) do disco Degradation Trip, segundo registro da carreira solo do vocalista e guitarrista Jerry Cantrell (também do Alice In Chains), o qual já havia sido disponibilizado no mercado em sua versão “simples” (ou “incompleta”) em junho de 2002, mas que ganha uma dimensão completamente diferente quando ouvida em sua forma integral, imaginada anteriormente pelo artista, como ocorre nesta versão, inicialmente lançada em uma edição em CD duplo nesta mesma data daquele mesmo 2002.

A história do disco começa ainda em 1998, quando Cantrell se isolou em sua própria casa por “três ou quatro meses, realmente não saindo para nada, mandando buscar comida comida fora e raramente me banhando durante este período”, como ele declarou em uma entrevista de 2002. A separação (à época) dos membros do Alice In Chains e o final da banda (que, embora não oficializado, persistia na prática, com o grupo não se apresentando ao vivo desde 1996 por conta dos problemas de saúde do vocalista Layne Staley, que vivia praticamente recluso desde a morte de sua ex-noiva Demri Parrott no mesmo ano) afetaram muito ao guitarrista, que jogou em suas novas novas músicas todas as frustrações e sentimentos pelos quais estava passando. Durante este autoimposto período de reclusão, em um intenso processo criativo, o músico compôs perto de trinta composições novas, as quais seriam “aperfeiçoadas” em novas sessões de composição ao longo de 1999. No meio deste processo, Cantrell chegou a mostrar algumas de suas criações mais recentes para Staley, que acabou trabalhando em duas delas, as quais foram gravadas pela banda e se tornaram “Get Born Again” e “Died”, ambas lançadas pela primeira vez ainda em 1999 no box Music Bank, e que viriam a se tornar as últimas gravações em vida do cantor junto ao Alice In Chains (sendo que ambas apareceriam em relançamentos e compilações posteriores do grupo ao longo dos anos).

Em abril de 2000, sem um contrato solo com uma gravadora, Jerry Cantrell decidiu bancar ele mesmo as gravações das faixas compostas durante seu isolamento, chamando para lhe ajudar a então “cozinha” da banda de Ozzy Osbourne, o baixista Robert Trujillo (ex-Suicidal Tendencies e Infectious Grooves, e futuro Metallica) e o baterista Mike Bordin (do Faith No More, e com curta passagem pelo Black Sabbath como parte da formação que se apresentou ao vivo em 1997). Dave Jerden, que já havia trabalhado com Cantrell no Alice In Chains, inicialmente seria o produtor, mas desavenças entre ele e o guitarrista fizeram com que Jerry assumisse a produção do registro, contando com a ajuda de seu amigo Jeff Tomei como co-produtor. Após o registro de vinte e cinco músicas, Cantrell intensificou as negociações com as gravadoras, chegando a um acordo com a Roadrunner, que, receosa em lançar um álbum duplo (com temas musicais e líricos tão intensos quanto aqueles, ainda por cima), propôs que o guitarrista selecionasse quatorze faixas para um lançamento simples (ocorrido em junho, como citado), mas com a promessa de disponibilizar a obra completa de alguma forma no futuro (li em algum lugar que esta condição dependeria do número das vendas da primeira versão, algo que não consegui confirmar quando fiz a pesquisa para este texto, portanto peço que considerem esta informação como um boato, não como um fato). O disco foi dedicado à memória de Layne Staley, que havia falecido em abril daquele ano por overdose de drogas.

Capa da versão “simples” de Degradation Trip

Esta primeira versão “incompleta” estreou no número 33 da billboard, ficando no TOP 200 por cinco semanas, e vendendo mais de 100 mil cópias até dezembro daquele ano. Sendo assim, em 26 de novembro de 2002 foi lançada a versão “completa”, com as músicas na ordem original imaginada por Cantrell. Muitas de suas faixas poderiam facilmente se passar por gravações do Alice In Chains, mais notoriamente a abertura com “Psychotic Break” (com seus vocais dobrados e uma certa tristeza no arranjo, guiado em sua maior parte por um repetitivo riff de guitarra), “S.O.S.” (lenta e melancólica, também com vocais dobrados por Cantrell), “Hellbound” (que alterna partes rápidas com outras mais cadenciadas), a agitada “Anger Rising” (primeiro single do álbum, e que conta com o guitarrista Chris DeGarmo, ex-Queensrÿche, como convidado especial) ou “Chemical Tribe”, com muito uso do pedal wah-wah por parte do guitarrista na sua introdução e um excelente refrão (também com vocais dobrados pelo cantor). Outras faixas precisariam de poucas mudanças para se adequar ao track list de discos como Facelift (casos de “Owned”, “Locked On” ou “She Was My Girl”) e Dirt (como a arrastada e pesada “Bargain Basement Howard Hughes”, “Spiderbite” e seu riff repetitivo, ou da pesada “Castaway”).

O lado acústico das composições da banda, ainda que com passagens elétricas em maior ou menor quantidade, também não foi esquecido por Cantrell, seja em faixas que lembram as presentes no EP SAP (como as tristonhas “Solitude” e “Gone”, “Thanks Anyway” e sua alternância entre melancolia e partes mais pesadas e rápidas, ou a quase balada “31/32”) ou em outras que acabam remetendo ao EP Jar of Flies por causa de seus arranjos, como é o caso de “Angel Eyes”, talvez a faixa mais “comercial” deste lançamento (e da própria carreira de Cantrell), e que foi escolhida como segundo e último single do disco, da “quase alegre” “Give It A Name” (com seu refrão mais melancólico em contraste com o andamento dos versos), da bela instrumental “Hurts Don’t It?” ou de “What It Takes”, faixa lenta e melancólica mas sem explicitar totalmente sua tristeza ao longo de sua duração; ou ainda das densas “Pig Charmer” e “Dying Inside”, que parecem sobras do autointitulado terceiro álbum do grupo, o popular “disco do cachorro de três pernas”.

Já outras composições soam meio como “estranhos no ninho” na discografia do compositor, se afastando mais de seu estilo “tradicional”. É o caso, por exemplo, da experimental e esquisitíssima “Feel The Void”, da quebrada e diferentona “Mother’s Spinning In Her Grave (Glass Dick Jones)”, de “Siddhartha”, que tem alguns toques orientais dados pelo que soa como uma cítara tocada ao longo da melancolia de seus versos principais (embora seu refrão seja bastante agitado em contraste á tristeza de boa parte da duração da faixa), ou de “Pro False Idol”, que, não fosse pelo excesso de distorção no timbre da guitarra, poderia se passar facilmente por um hard rock oitentista sem maiores problemas (pelo menos até o surgimento de uma parte totalmente psicodélica ali no meio, o que altera bastante o arranjo da faixa dali e diante).

Robert Trujillo, Jerry Cantrell e Mike Bordin, o trio que registrou Degradation Trip Volumes 1 & 2

Na turnê de promoção do álbum, Cantrell foi acompanhado pela banda Comes with the Fall, que conta (ou contava, pois não achei registros de que o grupo continue na ativa) com o guitarrista/vocalista William DuVall, a quem Jerry havia conhecido ainda no ano de 2000. Começava ali uma relação que levaria a um convite para DuVall juntar-se a um reunido Alice In Chains em 2006, posto que seria efetivado em 2008, iniciando assim uma nova história na carreira tanto da banda quanto de seu principal guitarrista e compositor, a qual, arrisco a dizer, traz muito da influência dos estilos, timbres e arranjos utilizados por Cantrell neste disco (vide, por exemplo, músicas como “Your Decision” ou “Voices”, as quais poderiam estar neste disco duplo sem maiores problemas, embora não se encaixem muito na produção musical anterior da Alice Acorrentada)..

A versão abreviada do álbum foi lançada em vinil (duplo) pela primeira vez em janeiro de 2017, e a versão completa só seria lançada neste formato (em um disco quádruplo!) em fevereiro de 2019, com uma belíssima edição na cor laranja escuro (com pinceladas em preto e vermelho mescladas à cor predominante) disponível de forma limitada no mercado mundial em apenas duas mil cópias numeradas (a minha é a de número 1333, só para registro). Devido à temática das letras e à sonoridade mais depressiva/lamuriosa da maioria de suas composições, as quase duas horas e meia de Degradation Trip Volumes 1 & 2 não são exatamente um passeio fácil e agradável aos ouvidos menos acostumados à carreira de Jerry Cantrell antes ou depois deste álbum. Porém, aos fãs do guitarrista, o trajeto pelos sulcos do disco, ainda que com alguns percalços, será extremamente satisfatório ao final. Boa viagem aos que arriscarem!

Contracapa de Degradation Trip Volumes 1 & 2

Track List (versão simples):

1. Psychotic Break

2. Bargain Basement Howard Hughes

3. Anger Rising

4. Angel Eyes

5. Solitude

6. Mother’s Spinning In Her Grave (Glass Dick Jones)

7. Hellbound

8. Give It A Name

9. Castaway

10. She Was My Girl

11. Chemical Tribe

12. Spiderbite

13. Locked On

14. Gone

Track List (versão completa):

Volume 1

1. Psychotic Break

2. Bargain Basement Howard Hughes

3. Owned

4. Angel Eyes

5. Solitude

6. Mother’s Spinning In Her Grave (Glass Dick Jones)

7. Hellbound

8. Spiderbite

9. Pro False Idol

10. Feel The Void

11. Locked On

12. Gone

Volume 2

1. Castaway

2. Chemical Tribe

3. What It Takes

4. Dying InsideSiddhartha

5. Siddhartha

6. Hurts Don’t It?

7. She Was My Girl

8. Pig Charmer

9. Anger Rising

10. S.O.S.

11. Give It A Name

12. Thanks Anyway

13. 31/32

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