Por Micael Machado

Os Ramones foram a melhor banda de todos os tempos, pelo menos para mim. Quem também parece ter a mesma opinião é o jornalista Everett True, autor de Hey Ho Let’s Go – A História dos Ramones, livro de 480 páginas lançado no Brasil pela editora Madras, e que repassa a história do quarteto nova-iorquino, desde a infância de seus membros até a morte do guitarrista Johnny Ramone em 2004 (acontecida após a primeira edição, e tratada em um epílogo a partir da segunda tiragem da obra, lançada em 2005). Já nas primeiras páginas, Everett se declara um fã dos bro desde a adolescência, tendo a oportunidade de entrevistar membros e ex-integrantes do grupo (bem como amigos e associados) por diversas vezes, sendo que tinha tudo para escrever a obra definitiva sobre a banda que “salvou o rock and roll”, como clama o encarte do disco All the Stuff And More – Vol. 1. Infelizmente, não foi bem isso o que ocorreu.

Logo de cara, True deixa claro que It´s Alive (duplo ao vivo lançado em 1979) é seu álbum preferido dos Ramones, e que considera os três primeiros discos da banda clássicos absolutos na história do rock. O problema é que ele parece crer que apenas a formação inicial com Tommy na bateria, Joey nos vocais, Johnny na guitarra e Dee Dee no baixo (responsável pelos quatro registros) era a verdadeira, e tudo o que veio depois apenas denegriu o que o quarteto conseguiu naquela época. Assim, o período desde a infância/adolescência dos quatro membros originais até a saída de Tommy (em 1978) é bastante detalhado, com diversas curiosidades sobre a vida pessoal e profissional dos músicos, e sobre os períodos de gravações de cada álbum. Amigos, produtores, empresários e membros do staff dos Ramones (além dos próprios bro, através de entrevistas em diferentes anos) contam interessantes histórias que agradarão em cheio aos fãs do quarteto. Mas Tommy cedeu seu lugar a Marky, e o autor parece ter perdido o interesse no grupo. Assim, se os quatro primeiros anos até a saída do baterista ocupam as primeiras cento e cinquenta páginas (junto com a vida pré-banda de seus membros), os próximos vinte e seis anos se atropelam em parcas duzentas e oitenta e quatro, ou seja, menos que o dobro (há ainda uma extensa discografia detalhada e um mais extenso ainda índice remissivo completando o livro). E o que se lê nestas páginas é de enfurecer qualquer um que aprecie o trabalho da banda.

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A formação original dos Ramones, que True parece acreditar ser a única “verdadeira”

Sem perdão, Everett vai destruindo disco após disco lançado desde a saída de Tommy. Road to Ruin (a estreia de Marky) é “os Ramones  não querendo mais ser os Ramones”; End of the Century é “um álbum solo de Joey, produzido por Phil Spector contra a vontade dos demais membros do grupo” (e, como ele faz questão de frisar, praticamente sem a participação destes); os discos entre Pleasant Dreams e Brain Drain são “irregulares e desiguais”, “uma fileira de álbuns controversos”; e, quando o autor define que o pífio álbum de rap Standing In The Spotlight, de 1989 (lançado por Dee Dee pouco antes de sair da banda, com o baixista adotando o nome de Dee Dee King) é superior aos álbuns que o grupo lançou com CJ em seu lugar (e ainda, como se fosse possível, afirma que o mesmo é superior a Animal Boy e Halfway To Sanity, justamente os meus discos favoritos da banda), dá para perceber que a capacidade de avaliação de True não pode mesmo ser levada muito a sério!

Além disso, há a irritante caracterização de cada membro, reforçada ao longo de todo o livro: Joey é tratado como um sujeito romântico e um tanto ingênuo, do qual todos gostavam, mas que vivia sempre doente e era frustrado por não ter conseguido se tornar um grande astro do rock (como assim?). Dee Dee era um compositor genial, mas um sujeito instável, que vivia drogado o tempo todo, sem se importar muito com a realidade a seu redor. Marky era um boçal bêbado, Tommy a força que os manteve unidos no começo (e que muito afetou a todos quando partiu, segundo a visão do autor – sendo que o fato de que a banda continuou na ativa por mais dezoito anos sem ele parece passar despercebido ao jornalista). Richie ganha umas poucas linhas (e a frase “ele nunca foi realmente um Ramone”), e Elvis (Clem Burke, ex-baterista do Blondie, que ficou no grupo por apenas dois shows) tem uma citação ainda menor, que explicita sua incapacidade de tocar adequadamente as músicas dos nova-iorquinos (novamente, como assim?). Quanto a Johnny, Everett não dedica praticamente sequer uma palavra favorável ao guitarrista, o que faz com que aqueles que leem o livro formem a pior imagem possível sobre ele. A coisa é tamanha que, a partir da segunda edição, o autor se viu forçado a incluir o apêndice citado anteriormente, inteiramente dedicado ao “general” do grupo (como ele é chamado em alguns trechos), onde o ilustrador John Holmstron (responsável pela arte de diversos itens do quarteto) fala algumas palavras sobre Johnny que, se não chegam a ser positivas, pelo menos são mais afáveis do que as demais utilizadas ao longo da obra.

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A banda com Marky, em foto presente no livro

Não bastasse tudo isso, Everett afirma que apenas Joey teria participado de todos os discos entre Rocket to Russia (de 1977) e Adiós Amigos (de 1995), sendo ele mesmo, como se sabe, ocasionalmente substituído nos vocais por Dee Dee ou CJ. True ainda insinua que, nos álbuns sem Dee Dee, Johnny e CJ sequer teriam tocado, com a banda durante as gravações sendo formada por Joey, Marky, o produtor e letrista Daniel Rey nas guitarras e o músico Andy Shernoff (ex-Dictators) no baixo – basicamente, o mesmo grupo que registrou o primeiro disco solo de Joey, Don’t Worry About Me, lançado postumamente em 2002. O jornalista ainda acredita que o projeto The Ramainz, que reuniu Dee Dee e Marky (e, por um curto período, CJ) após a separação do quarteto, seria uma aglomeração mais digna que a “banda-tributo” dos discos pós Brain Drain, a qual não mereceria a alcunha de Ramones por conter apenas Joey e Johnny da formação original. A própria capa da obra parece ser um grande embuste, sendo aparentemente uma montagem em cima de uma das primeiras fotos promocionais com CJ (por acaso, presente na primeira camiseta da banda que eu tive), sendo que qualquer um familiarizado com o grupo reconhecerá que o Joey da foto é muito mais velho do que aquele da época em que Tommy, que aparece ao fundo, estava na banda.

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Aquela que seria a foto que deu origem à montagem presente na capa do livro, utilizada aqui em um bootleg do grupo.

 

Enfim, a cada página lida após o relato da saída de Tommy, a irritação só cresce no verdadeiro fã do quarteto, que compra o livro para saber mais sobre a história de seu grupo favorito, e acaba tendo de lidar com a frustração de um sujeito que só valoriza os primeiros anos da mesma banda. Sobre este período, Hey Ho Let’s Go – A História dos Ramones é bastante atraente, mas o desprezo do autor sobre a maior parte da carreira dos Ramones torna a leitura um verdadeiro ato de masoquismo, o que é lamentável, pois, com o material que tinha em mãos (e as citações a entrevistas que aparecem ao longo das páginas deixa isto claro), Everett poderia ter escrito uma obra a ser celebrada por todos os fãs da música dos “irmãos” do bairro Queens. Mas escolheu realizar um compêndio tendencioso, que falha ao tentar justificar a importância da banda, e contar com isenção sua história. Uma pena!

1 comentário

  1. Marcello

    Parece-me que a maioria dos biógrafos de bandas de rock quer apenas “vender seu peixe”, aprofundando-se na fase que mais gostam e deixando o resto. Fiquei um pouco decepcionado ao ler “A Long Strange Trip: The Inside Story of the Grateful Dead”, porque mais da metade do livro se concentra nos primeiros cinco anos da carreira do grupo, ficando muito pouco para os anos finais. E isso que o livro era escrito pelo publicitário do Dead, Dennis McNally, que não trabalhava com eles no período em que mais se aprofundou (“inside story”? Mesmo?). Também li uma biografia do Paul McCartney que praticamente parou a narrativa após o fim do Wings – fiquei com tanta raiva que vendi o livro num sebo.

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