Por Ronaldo Rodrigues

O tecladista Patrick Moraz ficou mundialmente famoso por ter ingressado no Yes no ápice de sua fama em 1974 e depois ter feito parte de outro grupo bastante famoso, o Moody Blues. Contudo, sua trajetória vai bem além dos dois grupos. Moraz era um prodigioso garoto suíço, que começou a estudar piano aos 10 e já aos 16 anos era um reconhecido e premiado pianista. A projeção que ganhou nesta época o levou a abrir shows de ninguém menos que John Coltrane. Sua trajetória é repleta de pontos altos e histórias curiosas, bem como seu estilo e técnica apurada o colocam facilmente entre os maiores nomes do instrumento entre os que definiram os rumos do rock progressivo. Os 5 discos dessa lista dão um panorama geral de seu enorme talento.


Mainhorse – Mainhorse [1971]

Em 1969, Moraz estava em sua segunda tentativa de sucesso em Londres. A primeira havia fracassado por problemas com visto de trabalho. Nessa época, ele iniciou audições com músicos para formar uma banda própria, que fosse capaz de combinar a energia do rock efervescente daquela época com a força musical do jazz. Após exaustivas audições, Moraz formou o Mainhorse com um timaço de músicos, que mesmo ainda desconhecidos e pouco experientes, faziam um som de muito respeito e conseguiram um contrato com a Polydor. Em 1971 saiu o (infelizmente) único álbum da banda, autointitulado, que tem um instrumental realmente impactante, como poucas bandas estavam naquele mesmo ano (talvez apenas ELP, Gentle Giant e Mahavishnu Orchestra estavam pisando tanto no acelerador do virtuosismo quanto o Mainhorse). Só a introdução do disco (notoriamente a faixa se chama “Introduction”) já mostra Moraz ateando fogo aos teclados, cheio de passagens rápidas e pesadas. É um disco que carrega tudo de bom que o rock progressivo tinha a oferecer naquele começo de década.


Refugee – Refugee [1974]

O Mainhorse acabou vendendo pouco, ainda que tenha feito shows em alguns países europeus, e a banda se desmanchou em 1972. Moraz recebeu ofertas para trabalhar com trilhas sonoras de filmes e se ocupou com elas, de forma bem sucedida, após o desmanche de sua banda. Também nessa época, ele acompanhou uma companhia brasileira de ballet, que excursionou pelo Japão e Hong Kong. Terminados esses trabalhos, Moraz retornou para a Suíça, e de lá foi acionado pela cozinha do The Nice, grupo que havia sido a plataforma para Keith Emerson decolar ao estrelato. A ideia de Lee Jackson e Brian Davidson, que vinham de projetos com pouca repercussão, era reviver o The Nice e Patrick Moraz era um tecladista bom o suficiente para tal empreitada. Nisso, estava formado um novo trio prog – o Refugee. O material composto por Moraz e seus companheiros era deveras complexo e uma pesada rotina de ensaios era o dia-a-dia da banda na Inglaterra. O rock progressivo vivia seu auge de popularidade e o trio logo conseguiu um contrato com a Chrysalis para gravar um álbum, que foi lançado em 74. Progressivo até o osso, o trabalho já mostra Moraz como um habilidoso piloto de uma miríade de teclados – clavinete, piano elétrico e acústico, sintetizadores, mellotron, órgão Hammond…não só havia variedade de sonoridades, como também a técnica de Moraz o colocava longe da sombra dos já icônicos Keith Emerson e Rick Wakeman. Disco indispensável para todos os fãs de rock progressivo.


Yes – Relayer [1974]

Moraz estava voando baixo nos teclados, mas seus projetos não alcançavam o sucesso comercial que ele esperava. O Yes, por sua vez, estava encrencado – durante os trabalhos para seu sétimo álbum de estúdio, Rick Wakeman deixou a banda. O primeiro nome para substitui-lo, o tecladista grego Vangelis, não aceitou o convite principalmente porque já tinha naquela época uma aversão a viagens e turnês. Por sugestão do crítico musical Chris Welch, a banda convidou Patrick Moraz para o posto, já que predicados não lhe faltavam. Já no Yes, Moraz concluiu a gravação do álbum e participou de uma longa turnê, que foi de Novembro de 74 até Agosto de 75. Relayer dispensa grandes apresentações pois se trata de um clássico do estilo progressivo, com três grandes faixas, contando com a fantástica suíte “Gates of Delirium”. Da parte final desta, foi extraído um single de grande sucesso, batizado como “Soon”, no qual se ouve um marcante entrelaçamento entre a guitarra chorada de Steve Howe e o mellotron de Moraz. Em “Soundchaser”, Moraz simplesmente entorta os ouvidos do ouvinte.


Patrick Moraz – Story of I [1976]

Ainda que a discografia de Moraz seja bastante longa, penso que esse disco representa bem sua carreira solo. Moraz acumulava uma série de experiências com música de diferentes países, como sulamericanos (Brasil, notadamente), asiáticos e árabes. Depois da turnê de Relayer, cada membro do Yes dedicou-se a um trabalho solo e com Moraz não foi diferente. Ele embarcou para uma viagem por vários países sulamericanos e, na passagem pelo Brasil, se envolveu com vários músicos da cena local (tocou com músicos do Veludo, Vímana e do Som Nosso de Cada Dia) e reuniu um grupo de percussionistas para seus experimentos sonoros. O swing vivenciado em nossas terras, influenciou profundamente seu primeiro álbum solo, Story of I, que é uma exótica mistura de música progressiva (recheada de sintetizadores e indo na direção dos trabalhos eletrônicos de Vangelis) com percussões e trejeitos brasileiros. A inserção de elementos brasileiros chega ao ponto de termos nesse trabalho uma música com o título “Cachaça (Baião)”. Para a empreitada, Moraz se juntou a outros fantásticos músicos, como o baterista Alphonse Mouzon (ex-Weather Report) e o baixista Jeff Berlin. Se por um lado, há coisas que podem soar “esquisita” para quem gosta de rock aqui no Brasil, momentos avassaladoramente progressivas como “Indoors” (destacada na coluna “maravilhas do mundo prog” do nosso amigo Mairon Machado, veja aqui) colocam a coisa nos eixos novamente. Passada a tour do álbum, com bons momentos nos EUA e sua conturbada saída do Yes, Patrick Moraz tentou se basear no Brasil e ter o Vímana como sua banda de apoio, mas, como bem sabido, a coisa não deu certo. Posteriormente, Moraz conciliou novos trabalhos solos mesclando rock progressivo, pop e músicas regionais de outros países (a chamada World Music) até ingressar no Moody Blues, onde gravou vários álbuns na década de 80.


Moody Blues – Long Distance Voyager [1981]

Os Moody Blues retornaram à ativa em 1977, mas pouco tempo depois, o tecladista Mike Pinder deixou a banda. Moraz foi acionado pela banda logo após ter se apresentado no Mountreux Jazz Festival com Gilberto Gil e Airto Moreira em 1978. Apesar dos Moody Blues terem experimentado uma carreira bem sucedida desde o fim dos anos 60, foi no disco lançado com Moraz em 1981, Long Distance Voyager, que eles atingiram seu melhor resultado comercial. O álbum foi um estrondo em vendas e chegou ao primeiro lugar da parada da Billboard e ao top 5 na Inglaterra, além de ter dois singles de sucesso. Muito desse sucesso se deve ao quanto Moraz ajudou a banda a entrar no espírito da época do início dos anos 80 – o som melodioso da banda e o arsenal de teclados de Moraz foram a blenda perfeita para aqueles tempos de esplendor do chamado AOR. Moraz já havia migrado dos sintetizadores monofônicos para os polifônicos e estava com um arsenal sonoro bem atualizado para os ouvidos do momento, e não tinha dificuldade em soar pop, ainda que seja inegável o quanto seus teclados, mesmo executando coisas relativamente simples, é diferenciado em seu teor de técnica. É uma faceta diferente de um tecladista com um retrospecto de virtuosismo no jazz e no rock progressivo que merece ser também ouvido com atenção.

6 comentários

  1. Mairon

    Esse disco do moody blues é brabinho, mas os demais é uma maravilha melhor que a outra. Belas indicações Ronaldo

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  2. Mairon

    A patética reunião com o Vímana só não é o mais patética que o depoimento do Lulu Santos sobre o comportamento do Lobão com o Moraz. Ridicíulo nível mais alto de todos

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    • Ronaldo

      O Lulu pagando de otário desde tempos imemoriais…rs….mas não acho que a reunião tenha sido uma má ideia, teoricamente, pra nenhum dos dois lados. Olhando em perspectiva, os caras do Vímana eram jovens, cheios de energia, tinham bons equipamentos, tocavam bem, entendiam e conheciam a linguagem tanto prog quanto a brasileira; para o Moraz, parecia ser a galera ideal, já que foi mais ou menos o que ele fez ali no Story of I; só que na prática o caldo desandou total. Valeu!!!

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      • Mairon

        Ah sim, nisso eu concordo. E foi ele quem trouxe o Ritchie pro Brasil? Não lembro dessa parte da história. Mas que o Lulu e o Lobão se achavam (se acham) desde aquela época, e tentar humilhar um cara como o Moraz, é de uma palhaçada incomensurável.

  3. Ronaldo

    Nossa, nem fala…o Moraz colocava a turma toda no bolso fácil, fácil….rs. Não foi ele nem não, o Ritchie tava no Brasil desde 72, conheceu a Rita Lee/Lucinha/Liminha na Inglaterra e ela o convidou para o visitar no Brasil. Ele veio (não só por isso) e ficou.

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  4. Igor Maxwel

    Nada contra o Moraz, mas imagino como seria Relayer com o Wakeman na formação do Yes… Seria algo mágico como foram Fragile, Topographic Oceans e o (na minha opinião) superestimado Close to the Edge. Mas enfim, apesar disso, “The Gates of Delirium” está no meu top das 20 melhores músicas do Yes, pelo menos entre os 5 primeiros lugares!

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