Por Fernando Bueno

Viajei recentemente e queria um livro para acompanhar a viagem durante o deslocamento e também naqueles momentos em que estaria com tempo livre. Quase sem ideia alguma sobre qual livro queria, tinha em mente alguma biografia ou algum livro de ficção histórica que é o que estou lendo bastante ultimamente. Estava assistindo a série The Crown e pensei em talvez Winston Chuchill ou Margareth Thatcher. Chegando na livraria vi esse livro que chamou atenção. Depois de olhar as biografias disponíveis voltei para onde estava ele e acabei levando.

O autor, Hunter Davies, é bem conhecido dos fãs do Beatles. Ele foi o primeiro autor a escrever uma biografia do quarteto, ainda quando a banda estava na ativa: The Beatles – A única Biografia Autorizada, lançada em 1968, mas com várias edições posteriores, inclusive brasileira. Como o próprio nome já diz, a primeira biografia autorizada pelo grupo acabou sendo a única lançada enquanto eles ainda estavam juntos.

Por ser apenas poucos anos mais velho que a média dos integrantes foi fácil os músicos aceitarem o então jornalista como alguém do grupo mais próximo. Davies esteve presente em vários momentos que hoje imaginamos como pontos de inflexão da carreira do grupo e da história da música pop. Tinha acesso às casas dos músicos, das mesas de bar, das salas de ensaios e até do estúdio na gravação de discos que hoje consideramos clássicos da música. Só de estar presente em vários desses momentos já seria a glória para muitos fãs e até mesmos para quem trabalhava em torno da maior e mais importante banda da história. Mas ele conseguiu pequenos troféus que guarda hoje com muito carinho. A sugestão de palavras para completar alguma frase, alguma rima e até mesmo dando uma pequena, quase imperceptível, contribuição para uma das capas mais célebres de todos os tempos: a do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Ele colocou a estatueta, similar à um troféu, que está posicionada entre as letras L e E do nome do grupo. Ele conta que Paul pediu para ele levar alguma coisa diferente para que os ajudasse a compor a cena. Também sugeriu o nome de um jogador de futebol, mesmo sabendo que os quatro não tinham tanto interesse pelo esporte e a foto dele acabou entrando – a saber, Albert Stubbins, que atuou no time do Liverpool nos anos 50. Curiosa a história que ele conta dessa ocasião em muitos nomes foram listados para aparecerem na foto da capa, mas, devido ao espaço limitado, vários deles foram cortados. A curiosidade fica por conta de que o nome de Jesus foi cortado antes mesmo do que o do Hitler e ele explica o motivo. Isso nos faz lembrar da histórica entrevista em que John Lennon fala que os Beatles eram mais famosos que Jesus.

Porém os maiores troféus foram mesmo as páginas, os manuscritos, das letras das músicas que eles estavam trabalhando que foram entregues à Hunter em mãos pelos próprios músicos. Ele conseguiu um número razoável para se dizer portador de uma pequena coleção dessas que são peças muito procurados por colecionadores mais fanáticos pela obra dos Beatles. E esses manuscritos são o mote principal do livro. Muita gente aí já deve ter visto a notícia de algum desses manuscritos serem vendidos por uma pequena fortuna cada. Com algumas em mãos, ele procurou outros colecionadores, inclusive o filho de Paul McCartney, James McCartney, e museus para conseguir cópias de outras para ilustrar o livro. São dezenas e dezenas de letras escritas pelos músicos, algumas delas passadas a limpo por algum assessor para serem usadas em estúdio no momento da gravação. São diversos os casos de letras em desenvolvimento, com muitas correções, versões preliminares ou até mesmo com mais estrofes do que acabou entrando nas músicas. O interessante é que Hunter analisa não só a letra final como essas partes extras ou o motivo das mudanças. Também analisa as músicas em que os manuscritos não foram encontrados ou possivelmente nem existem. Outro fator importante é que os papeis que os compositores utilizavam eram qualquer que estivesse à mão. Papel timbrado de hotel, envelopes, cartas de outras pessoas, cartões de natal, aniversários e outras datas e até mesmo uma conta de cobrança por uma linha telefônica em nome de Lennon, que estava com o pagamento atrasado.

O livro é feito em ordem cronológica, disco à disco, apresentando e analisando as letras das músicas junto de uma pequena biografia do quarteto naquele momento em que estavam sendo gravados. Incrível como as histórias vão se passando e nós percebemos que o tempo não passa tão rápido quanto a gente espera na vida dos músicos, o que demonstra a quantidade absurda de material que eles produziram em tão pouco tempo. Sobre isso recomendo o texto publicado de autoria de Ronaldo Rodrigues, à poucas semanas aqui na Consultoria do Rock, sobre bandas produtivas. Esse pequeno histórico ajuda o autor à explicar o que levou os compositores a escreverem sobre os diversos temas abordados em suas músicas.

Outro fator que me marcou bastante a leitura do livro foi o incentivo que a obra me deu para ouvir a discografia completa da banda. Há muito tenho essa vontade, sempre colocava algo na frente, mas dessa vez foi diferente e quero fazer o mesmo com várias das bandas que tenho os discos todos. Ouvir toda a obra de um grupo de uma vez – ou para usar um termo mais atual, maratonar os discos -, principalmente quando eles possuem bastante material é muito interessante. A gente sabe da evolução musical que os Beatles tiveram ao longo dos anos mas é muito mais legal quando a gente consegue perceber essas nuances. O livro certamente vai ser objeto de consulta em todas as futuras audições de algum álbum e certamente vai ser guardado próximos dos discos. Recomendo a leitura para todos os que se interessam pela banda ou que gostam da história do rock.

 

 

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