Por Ronaldo Rodrigues

Hoje não causa tanta surpresa uma banda demorar 2 anos ou mais para gravar/lançar um novo álbum. Peguemos uma banda muito famosa hoje como o Foo Fighters; são já veteranos, mas não da era jurássica do rock (seu primeiro disco é de 1995). Nos últimos 10 anos, o Foo Fighters lançou 4 discos – 2011, 2014, 2017 e 2021. Não vamos entrar no mérito do quanto Dave Grohl é um cara ativo e atuante em muitos projetos relevantes, mas estamos apenas nos atendo ao fato de como o ritmo de produção de novos trabalhos para as bandas de rock já foi, em média, muito mais intenso do que é atualmente. E é sobre exemplos mais extremos de bandas, que tiveram períodos muito produtivos, que iremos tratar nesse texto. Até a década de 90, era comum as bandas lançarem um disco por ano (as vezes até em intervalo menores que 12 meses). Atualmente, o mercado musical está deveras desmantelado e a lógica é a absoluta falta de lógica, mas isso é outro papo. Era uma estratégia de marketing estar sempre em evidência, vender muitos discos e shows para se consolidar entre o público, especialmente para grupos em ascenção. Nisso, há muitos exemplos positivos de bandas que conseguiam o mérito de conciliar quantidade e qualidade e é sobre elas que vamos tratar, o que reflete certamente um ápice criativo. Não vamos entrar no mérito de artistas de antes do fim dos anos 60, já que na época em que os compactos eram muito mais relevantes do que os álbuns completos, a lógica também era diferente.

Talvez os primeiros nomes a listarmos aqui sejam os famosíssimos Beatles e Rolling Stones. Os Beatles entre 1963 e 1965 lançaram 6 discos e esse padrão de muitos lançamentos foi uma constante ao longo de sua carreira de apenas 7 anos de existência (carreiras solos). Já os Rolling Stones, com uma carreira muito mais longeva, também não ficaram atrás. Seus primeiros 4 discos saíram entre 1964 e 1965; em 1967 foram dois álbuns (Between the Buttons e Their Satanic Majestic Request) e continuaram no padrão de um disco lançado por ano de 1968 até 1974 (com exceção de 1970). Da era psicodélica, Jimi Hendrix era outro esfomeado musical que colocou no mercado musical três lançamentos (sendo um deles duplo) em meros 15 meses. De maio de 1967 a outubro de 1968 vieram a luz Are you Experienced?, Axis: Bold as Love e Electric Ladyland. Feito similar foi realizado pelos Doors, que entre janeiro de 1967 e julho de 1968 lançaram o álbum homônimo, Strange Days e Waiting for the Sun.

Na mesma Califórnia dos Doors, o Creedence Clearwater Revival parecia uma máquina de hits, com 6 álbuns em 2 anos, sendo 3 lançados em 1969 (Bayou Country, Green River e Willie and the Poor Boys). 1969 foi marcado também pela intensa atividade do Led Zeppelin que lançou seus dois petardos iniciais nesse ano, assim como o Grand Funk Railroad (em 71 repetiriam a dose). Um grande destaque desse período da virada dos 60’s para os 70’s, vai para o Chicago, que em menos de 2 anos lançou 3 álbuns duplos (!) de grande qualidade musical. Por ser uma banda numerosa e com vários compositores, a coisa fluía com muita naturalidade na produção de novo material. O Chicago manteve o padrão de lançar ao menos um álbum por ano até 1980.

Na seara progressiva, também havia muita gente muito produtiva. Moody Blues, Yes e ELP são grandes exemplos.  O Moody Blues trouxe ao mercado 4 bons álbuns entre agosto de 1968 e agosto de 1970. No caso do Yes, foram 2 trabalhos em 1971 – Yes Album e Fragile; já no caso do ELP, 1972 foi ano do lançamento de Pictures at an Exhibition (um ao vivo com trabalho inédito) e Trilogy, duas obras de grande complexidade musical. O Gentle Giant foi outro grupo que teve um ano movimentado em 1972, com o lançamento de Three Friends e Octopuss. No caso progressivo, impressiona a produtividade face a complexidade do material produzido pelas bandas e a necessidade de ensaios árduos para elaboração do repertório.

Na metade dos anos 70, podemos destacar o Kiss, que lançou sua estréia e Hotter than Hell em 1974, assim como Destroyer e Rock and Roll Over em 1976. O Queen também lançou Queen II e Sheer Heart Attack em 1974, no início de sua ascenção ao sucesso coroado no ano seguinte. Os irlandeses do Thin Lizzy estavam a mil na mesma época – entre agosto de 1975 e outubro de 1976 três grandes álbuns saíram das mãos dos caras – Fighting, Jailbreak e Johnny the Fox. Falando em grandes obras, 1977 assistiu dois grandes lançamentos de David Bowie – Heroes e Low, fruto de sua fase Berlim. Já do lado mais pesado, o Motorhead lançou uma trinca de álbuns peso-pesado entre março de 1979 e agosto de 1980 – Overkill, Bomber e Ace of Spades. Adentrando nos anos 80, o Saxon lançou entre abril de 1980 e outubro de 1981 três dos mais importantes álbuns de sua discografia (Wheels of Street, Strong Arm of the Law e Denim and Leather); já o  Manowar lançou Hail to England e Sign of the Hammer em 1984.

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Dos anos 90 em diante, o exemplo mais notável talvez seja o Guns n’ Roses, tanto para mais quanto para menos. A mesma banda que teve a ousadia de lançar dois discos duplos, de inquestionável relevância, em 1991 (as duas partes de Use Your Illusions), demorou 15 anos para lançar um novo álbum, o questionado Chinese Democracy. Mais recentemente, podemos pinçar como exemplo de grupos proeminentes os progressivos do Big Big Train que lançaram 3 álbuns entre 2016 e 2017, e o King Gizzard & The Lizard Wizard, que lançou vários álbuns em 2017 e no corrente ano de 2021 já lançou 2.

5 comentários

  1. Marcello

    Acho que vários fatores contribuem para a diminuição no ritmo de lançamentos, como a diminuição das vendas de mídia física, os gastos elevados na produção dos discos,
    as turnês que duram 2-3 anos, e assim por diante. Mas o primeiro fator não explica a queda de ritmo já nos anos 80, por exemplo. Mas queria citar alguns que faltaram, dentre os mais conhecidos.
    Deep Purple Mk I lançou seus três discos em menos de 1 ano e meio, a Mk III, dois em 1974.
    Uriah Heep lançou 2 discos de estúdio em 1971, mais 2 em 1972 e novamente em 1977, mantendo o padrão de pelo menos um LP por ano entre 70 e 78 – no total, foram 12 discos de estúdio, um ao vivo e uma coletânea oficial nesses 8 anos.
    Bob Dylan em 1965-66: três LPs, um deles duplo, e posteriormente entre 1974 e 76, com três discos de estúdio e dois ao vivo.
    Nos anos 90, tem o caso do Bruce Springsteen, que lançou Human Touch e Lucky Town em 1992.
    E claro, tem o caso à parte de Frank Zappa! Mais de lançamentos oficiais, vários deles duplos, entre 1966 e 1993. Só em 1979 foram cinco discos, dois deles duplos. Incluindo discos inteiramente ao vivo, compilações de inéditas e coletâneas, chega-se a 70 lançados em vida!

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  2. Ronaldo

    Excelente contribuição e ótimas lembranças, meu caro! textos como esse valem muito por conta desse bate-bola.
    Abraço!

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  3. Fernando Bueno

    Eu sempre penso que nos anos 60 e 70 praticamente tudo era novidade e quem acompanhava de perto todas essas bandas não tinha tanto material antigo para referência. Hoje em dia quem acompanha as bandas novas, também acompanha as mais antigas e as mais um pouco antigas ainda, acompanha as velhas e também os dinossauros do rock, quando não se interessa por outros estilos também. Ou seja a concorrência do material lançado por bandas novas tem a concorrência de todo material já lançado até então. E a tendência é só crescimento do volume de música já lançado. Eu acho que é até mais fácil para uma banda nova lançar um disco hoje em dia, mas o disco dela vai concorrer com um Paranoid, com um Machine Head, com um Dark Side, com um The Number of the Beast na loja… É até injusto, mas é o que acontece. Eu mesmo me pego procurando discos da NWOBHM e não compro discos de uma banda de metal promissora. No fim das contas eu acho que vamos acabar regredindo para a época dos singles por tudo isso que falei….

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    • Alex

      Concordo, eu mesmo quando vou numa loja de discos, até pego aquele disco de uma banda nova que acho interessante, aí me deparo com aquele disco de algum medalhão que ainda não tinha. Como não tenho grana pra levar tudo… sinto muito banda nova, mas…

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