Por Micael Machado

O músico Pit Passarell fez história no Heavy Metal nacional como fundador, principal compositor, baixista e depois vocalista do grupo paulistano Viper, responsável por alguns dos mais emblemáticos registros do gênero já lançados no país. Mas o artista também possui um lado mais leve, e suas composições de estilo mais próximo ao BRock dos anos 80 vem aparecendo aqui e ali em discos de outros grupos (principalmente o Capital Inicial, aproximação que se aprofundou ainda mais com a entrada do irmão de Pit, o guitarrista Yves Passarell, para a banda de Brasília em 2001) desde o final do século passado, pelo menos, além de compor boa parte do disco Tem pra Todo Mundo, lançado pelo próprio grupo original de Pit em 1996. Pois, em 2020, o ainda integrante do Viper resolveu juntar algumas destas composições a outras ainda inéditas, e lançar seu primeiro registro solo, intitulado Praticamente Nada, em um belo disco de “rock nacional”, como atesta uma espécie de “obi” que acompanha a edição em CD lançada pelo selo Encore Music com apoio do site Wikimetal. Nesta empreitada, Pit se dedica apenas aos vocais, tendo a companhia de Flávio Simões no baixo, Wesley Maldonado na bateria, Cris Simões nos teclados e violões (além de assinar a produção do álbum), e conta com a presença dos guitarristas Eduardo Simões, Sílvio Vartan e Augusto Nogueira (além do já citado Yves) se alternando nas guitarras (infelizmente, o encarte não especifica quem toca em qual faixa).

Mais da metade do repertório já apareceu ao longo da carreira do Capital Inicial, sendo certamente as mais conhecidas as faixas “O Mundo” (escolhida como o primeiro single de divulgação de Praticamente Nada, tendo aparecido em Atrás dos Olhos, de 1998, e que na versão do autor soa bastante curiosa sem o característico “tchu ru ru” da introdução, substituído por um interessante fraseado de guitarra) e “Depois da Meia-Noite”, inicialmente lançada em Das Kapital, de 2010 (e que aqui ganha um arranjo um pouco mais pesado que a versão do grupo candango). “Algum Dia”, que apareceu com destaque no disco Rosas e Vinho Tinto, de 2002, ganha um novo arranjo, com a presença de violões e um vocal mais agressivo por parte de Pit, enquanto “Instinto Selvagem” (que já tinha uma atmosfera quase punk com o Capital, mas que ganha mais “sujeira” aqui, além de um excelente solo de guitarra) e “Seus Olhos” (que se distancia da forma mais pop do registro dos brasilienses, sem se descaracterizar totalmente, e também lançada como single) são duas faixas que apareceram em Gigante!, lançado em 2004. “Vamos Comemorar” (outra de Das Kapital) e “Poucas Horas” (do disco Saturno, de 2012) ganham letras diferentes na versão de seu compositor original, especialmente a segunda, que manteve praticamente apenas o seu refrão marcado pelo característico e repetitivo “tudo vai ficar bem”. Para o meu gosto, estas “novas” versões com Pit acabam soando mais agradáveis que as “antigas”, pois não possuem um viés tão “pop rock” quanto aquelas registrada pelo grupo de Brasília, além da voz de Pit ser bem mais “roqueira” que a de Dinho Ouro Preto, se encaixando melhor à cara mais “pesada” que o compositor deu às suas próprias versões.

Pit Passarell: o músico que fez história com o Viper lança seu primeiro registro solo, apostando no rock nacional.

Algumas faixas já haviam sido registradas por outros projetos capitaneados por Passarell, como o Metanol (com quem o músico gravou “Revolução na Cidade”, que apresenta uma certa pegada punk) e os The Lucratives, banda formada por boa parte dos músicos envolvidos no CD, e com quem Pit lançou, ainda em 2008, além de algumas das faixas que também integram Praticamente Nada citadas no parágrafo acima, a veloz “Veloset”, uma das duas únicas faixas deste álbum com versos em inglês (a outra é a semi balada “Love of My Life”, única cuja maioria das frases principais são gravados na língua que consagrou a banda principal de Pit). A balançada “A Minha Vida Vai Ser Bem Melhor” (com algo de rock clássico dos anos 50 no refrão), a faixa título e a cadenciada “Que Seja Eterno o Nosso Amor” (lançada como segundo single de Praticamente Nada) – estas duas, composições que, apesar de também apresentarem algo de punk rock em seu arranjo, não se diferenciam tanto assim de outras músicas compostas por Pit e já registradas anteriormente pelo Capital – são as únicas das quais não consegui encontrar um registro anterior, e servem, assim como as demais faixas do álbum, para mostrar que Passarell tem um dom para compor faixas marcantes não só no heavy metal clássico que o consagrou, mas também na seara do rock nacional de viés mais oitentista (e, cabe dizer, a quantidade de refrões marcantes que este disco apresenta é, sem dúvidas, muito acima da média).

Praticamente Nada não é (nem pretende ser) um disco de Heavy Metal, e, se você for um “metaleiro” com a mente mais fechada a outros estilos, sugiro que fuja da audição deste álbum. Mas, se, como eu, tiver alguma ligação com o BRock dos anos 80, ou for fã do estilo musical do próprio Capital Inicial, certamente encontrará aqui um álbum bastante agradável de ouvir. Confira!

Contracapa de Praticamente Nada

Track List:

1. Veloset

2. Algum Dia

3. Praticamente Nada

4. O Mundo

5. Seus Olhos

6. Instinto Selvagem

7. Poucas Horas

8. Vamos Comemorar

9. Revolução na Cidade

10. Que Seja Eterno o Nosso Amor

11. Depois da Meia-Noite

12. A Minha Vida Vai Ser Bem Melhor

13. Love of My Life

9 comentários

  1. MAIRON MELO MACHADO

    Tá certo que os artistas são livres para fazerem o q quiser, mas o Pit entregar isso aos fãs eh no minimo muito constrangedor. Eita disquinho sem vergonha

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  2. André Kaminski

    Eu até gosto dos instrumentais das músicas, só o que me incomoda é o Pit Passarell usar aquele vocal “pop rock” em várias das músicas. Até o falecido Chorão interpreta com mais energia.

    No geral, um bom disco, mas que poderia ser melhor.

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  3. Fernando Bueno

    Em toda matéria que cita Pit Passarel não falam nada do que vem acontecendo com ele por todos esses anos. Quem viu a turnê de reunião com André Matos sabe que ele estava apenas fazendo número no palco. totalmente alienado e, muito provavelmente, com o baixo desligado. Alguns dizem até que a turnê foi um modo de arrecada grana para o tratamento dele. E o visual de Pit me parece de alguem que sofreu/está sofrendo de algum mal mesmo.

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      • Micael

        Eu fui um que não citei nada sobre o estado atual dele por não ter conhecimento do que realmente está ocorrendo. Naquela turnê ele realmente estava “na capa do Batman”, e não parece ter melhorado muito de lá para cá. O que é uma pena, certamente… Não sei se ele vai conseguir se recuperar plenamente de quaisquer que sejam seus problemas, mas torço fervorosamente por isso…

  4. Alysson Fernandes

    Não gostei do disco. Acho faltou uma pegada mais rock. Até o “Tem pra todo mundo” e os discos citados do Capital soam melhores. Sem contar essa capa ridícula que parece que ele está cagando. Vamos ser sinceros, depois que o Pit transcedeu a matéria, é o Felipe Machado que segura a onda do Viper. Inclusive o disco dele “FM Solo” é excelente.

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  5. Micael

    Também gosto do FM Solo, mas é uma “praia” bem diferente da deste disco aqui! Penso que o PIt resolveu fazer algo numa direção diferente do que já havia mostrado em sua carreira, e não tem como comparara este disco com os do Viper… Seria mais ou menos como comparar o John Lydon de Sex PIstols com o de PIL… Ou o Mick Jones do Clash como do BAD… são coisas muito diferentes…

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  6. Davi Pascale

    Gostei bastante do disco do Pit. Bem superior ao Tem Pra Todo Mundo. Entendo a galera torcer o nariz, já que esse é um álbum de pop/rock e ele fez fama no metal, mas as músicas são muito boas. Prova a força dele enquanto compositor. Só não entendi o porque ele demorou tanto para lançar esse disco. No encarte consta que as gravações são de 2008/2009.

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