Por André Kaminski

Antes de começar a análise de algumas faixas do disco Oceanborn [1998] e Wishmaster [2000], é importante contextualizar um pouco em como eram os bastidores da banda em suas tours do período visto que em 1998 é o ano em que a banda passa a viajar primeiramente na Europa e depois na América do Sul e em outros países.

Basicamente, as tours nesse período eram compostas pelos cinco integrantes principais da banda (Tarja Turunen nos vocais, Tuomas Holopainen nos teclados, Emppu Vuorinen nas guitarras, Sami Vänska no baixo e Jukka Nevalainen na bateria), o produtor Tero Kinnunen, o empresário Ewo Pohjola, o técnico de luzes e motorista de ônibus Tommi Stolt, o roadie e vocalista de apoio Tapio Wilska e mais alguns músicos de apoio.

Nenhum dos membros da banda ou da equipe era usuário de drogas recreativas. Porém eles bebiam. E muito. Muito mesmo. Aos níveis de um Mötley Crüe da vida. Até hoje bebem demais. E os principais líderes da farra eram o produtor Tero Kinnunen, o técnico Tommi Stolt e o empresário Ewo, com Tuomas e Jukka acompanhando e encorajando. Os dois primeiros principalmente. Eles são daqueles caras que fazem aquelas brincadeiras e piadas nível quinta série para baixo. Kinnunen então era do nível que fazia aquelas apostas bizarras do tipo beber a própria urina se os caras pagassem o seu aluguel atrasado ou andar pelado no meio do hotel para todo mundo ver. Emppu bebia junto e participava das palhaçadas durante o dia mas de noite botava os fones de ouvido para poder dormir no ônibus e não ouvir as gritarias dos outros. O baixista Sami Vänska se isolava completamente do restante, apenas tinha uma amizade com Ewo e Tapio e, as vezes, os convidava para beber e conversar em algum bar. Tarja nunca foi de participar das festas e farras.

 

Ainda sobre a vocalista, as tours eram um período complicado para ela. Sua personalidade e seus gostos eram completamente diferentes dos demais. Ela foge bastante daquele estereótipo padrão de mulher europeia, que é independente, arranja e se vira em tudo para si. Ela era mais dependente principalmente em relação ao seu vestuário, objetos pessoais, remédios e outras necessidades femininas visto que como ela mesmo dizia, ela não era nada mais do que uma “caipira do interior que mal saiu de Kitee em grande parte de sua vida”. Além disso, ela tem uma personalidade mais afável, gosta de conversar e, digamos assim, preferia “ter conversas de gente adulta” ao invés das palhaçadas infantis e piadas maliciosas que os outros faziam. Como eles só ficavam sóbrios para os shows, então era difícil ter esse tipo de conversa com aquele monte de bêbados.

Mesmo com o pouco contato e as conversas rasas, têm-se a impressão de que Tuomas nutria fortes sentimentos pela cantora. Como ele não se abria de jeito nenhum, o tecladista se expressava através de suas próprias canções. Veremos o que pude tirar destes dois discos:

Oceaborn

Gethsemane: a música inteira seria o compositor lamentando o seu amor não correspondido por Tarja mas sem a coragem de revelar-lhe diretamente. Basicamente ele implora a Deus que o abençoe com o amor que tanto deseja. Novamente, ele se refere a Tarja como “Beauty” e a ele próprio como “Beast”. O lado “Fera” de Tuomas seria a pessoa que ele transparece ao mundo real: um sujeito fechado e cheio de defeitos, mas que aguarda uma “Bela” para lhe ajudar a melhorar. O próprio compositor diz na biografia principal da banda que a última linha desta canção “Without you, the poetry within me is dead” é algo muito pessoal. Percebe-se aí que Tarja seria a principal força inspiradora para ele continuar compondo.

Passion and the Opera: nesta aqui eu não tenho muita certeza, deixo aberto à especulação. A temática é obviamente sexo e erotismo. Seria ele fantasiando sobre Tarja? Tenho minhas dúvidas, mas há esta possibilidade.


Wishmaster

She is my Sin: nesta música, já dá de se perceber algumas referências à vocalista. É uma música de luxúria, de desejo ardente em ir fazer sexo com a mulher amada. Tuomas disse que a música é “sobre os desejos reprimidos que cada um de nós temos, escondidos além da compreensão”. A linha “for the bride too dear for him” parece o medo de revelar isso diretamente visto que ele a ama demais.

Come Cover Me: pode não parecer, mas muitas músicas do Nightwish são sobre sexo. Esta é mais uma delas, porém, numa via mais romântica. O verso “In the war for the love of you” seria o tecladista tendo consciência que não está conseguindo os sentimentos dela, mas está ainda batalhando para isso.

Dead Boy’s Poem: esta é uma das canções favoritas de Tuomas e uma das mais pessoais sobre si. Segundo ele, a ideia da música era “e se eu soubesse que morreria amanhã, qual a mensagem final que eu gostaria de deixar às pessoas?” A música é basicamente um pedido de desculpas aos seus erros e defeitos, lamúrias e toda a vida em torno da banda que ele criou. Tuomas se chama de “Menino Morto” quando quer demonstrar o seu lado triste e melancólico após a sua perda da inocência juvenil. E aqui um recado bem claro à quem ele ama: “And you, I wish I didn’t feel for you anymore”.


Após a tour europeia promovendo Wishmaster, viria a América Latina e uma reviravolta total na vida de Tuomas, Tarja e do restante da banda.

O empresário argentino Marcelo Cabuli e sua empresa foram os principais responsáveis em trazer a banda para todos os shows na América Latina. Começariam pelo México, aí Panamá e depois desceriam para vários shows no Brasil, Argentina e Chile.

Cabuli a princípio era bem visto pela sua reponsabilidade com os shows e cuidados em relação a banda. Organizou tudo corretamente e a banda estava contente em tocar pela primeira vez em outro continente. Porém, Tarja continuava infeliz e se sentindo sozinha nas tours e ficava doente com frequência devido ao stress da situação.

Logo no México, uma situação horrorosa para Tarja ocorreu: em um show lotado, um fã invade o palco e agarra Tarja falando besteiras em seu ouvido em um claro gesto de assédio sexual. Ela fica em choque e sem saber o que fazer enquanto a banda, apesar de terem visto a situação, continuava tocando normalmente. Ao que parecia 15 segundos intermináveis para Tarja, Cabuli invade o palco e arranca o sujeito à chutes de lá. Aí a banda resolveu parar de tocar e se recolheram ao camarim com a cantora aos prantos. Claro que ela não estava em condições de continuar, mas o restante da banda “unanimemente” decide que devem tocar as últimas três músicas planejadas do setlist. Tarja sentiu uma mistura de tristeza e raiva pela desconsideração ao que ocorreu a ela mas retorna e a apresentação é finalizada.

Enquanto o restante da equipe e da banda segue para mais uma de suas farras, o baixista Sami Vänska procura Marcelo Cabuli e pede para que ele acalme e console a moça. Ele o faz e a cantora fica mais uma vez decepcionada com o descaso da banda com ela.

Após a banda seguir para América do Sul, no último show no Brasil, Tarja contrai uma forte gripe. Cabuli estava na Argentina organizando os shows por lá e alguém do Brasil (presumo que seja o empresário chileno Paulo Baron que cuidava da banda por aqui, mas não tenho certeza) liga para ele para que a levasse a um hospital na Argentina porque Tarja mal conseguia andar de tanta febre. Ela viajou doente e no que eles chegaram, o argentino a levou a um hospital e ficou o tempo todo cuidando dela lá. E a partir dessa consideração de Marcelo por Tarja que nasceu o amor entre os dois. Eles começaram a namorar.

Essa foi a grande tragédia até aquele momento na vida de Tuomas e isso quase levou ao fim da banda. Marcelo passou a cuidar de tudo em relação a Tarja e então ela se isolou ainda mais do restante da banda. Emppu era o único que mantinha um diálogo amigável com os dois. Ewo e Marcelo se odiavam pra valer. E assim, o relacionamento da vocalista com relação ao restante da banda virou mesmo apenas negócios.

Depois de tudo isso, você deve estar se perguntando “mas e Tarja nunca reparou que várias das músicas da banda eram sobre ou para ela?”

Claro que sim. Ela tinha plena consciência disso.

“Mas então ela só continuava na banda por dinheiro?”

Aqui vai uma teoria minha: não creio que fosse pelo dinheiro. Tarja tinha que se dedicar aos seus estudos de canto clássico desde os anos 90 até concluir por volta de 2003 . Somente Tuomas como principal compositor ganhava mais dinheiro enquanto todo o restante ganhava bem menos. Os outros só começariam a faturar mais alto mesmo após o sucesso do disco Once [2004]. Logo, não creio que Tarja perderia muito dinheiro se tivesse saído naquele período entre 1997 e 2000. Nem eles mesmos imaginavam naquele período que seriam uma banda de sucesso mundial.

Apesar de Tarja nunca ter amado Tuomas, acredito que ela tinha esperanças de que finalmente ele “crescesse, amadurecesse e mudasse” e tivesse mais consideração por ela e aí, talvez, ela até pudesse desenvolver e retribuir aos sentimentos dele. Mas ele nunca fez isso. Ele nunca mudou. E isso se percebe claramente no dvd End of Innocence [2003] em que a banda se resume a piadas, bebedeiras, farras e trabalho. Após iniciar o seu relacionamento com Cabuli, aí sim creio que as relações se tornaram apenas dinheiro e negócios.

Na próxima parte, comentarei sobre o quase fim da banda e as letras que envolvem os discos Century Child, Once e Dark Passion Play.

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