Por Mairon Machado

A bateria é com certeza um dos instrumentos mais importantes no mundo do rock. Além de ditar o ritmo das canções, o instrumento também serve para que muitos artistas utilizem o seu baterista como uma forma de “descanso”, deixando-o a vontade para solar enquanto curte umas biritas ou simplesmente relaxam durante a apresentação. Tanto que Jimmy Page do Led Zeppelin, por exemplo, utilizava os solos de John Bonham para “brincar” com algumas groupies nos camarins. Amanhã, 20 de setembro, é o Dia do Baterista, e em homenagem ao coração de toda banda, e a Lee Kerslake, infelizmente falecido hoje, trago Cinco Performances de bateria de cair o queixo. Nelas, o baterista não só faz a condução, mas também cria ritmos mirabolantes, ou simplesmente, inexplicáveis até mesmo para profissionais da área. E se lembrar de mais alguma, ou discordar das aqui mencionadas, os comentários estão à disposição.


“Close to the Edge” – Close to the Edge [1972] (Yes)

Aqui é um caso típico onde técnica unida com perfeição e competência geram algo inacreditável. A suíte do álbum homônimo, lançada pelo Yes em 1972, tem várias partes que atraem o ouvinte. Mas ao se concentrar na performance de Bill Bruford, fica aquela pulga na orelha de “da onde ele tirou isso?”. Na primeira metade da suíte, Bruford inventa uma forma de tocar totalmente em contra-tempo, tirando completamente do sério aquela mente acostumada a uma batida 2 x 4 comum, e faz o air drummer passar um constrangimento enorme por não acertar UMA batida se quer. O mais curioso é que Bruford faz uma série de maluquices e viradas em contra-tempos totalmente aleatórios, mas sem nunca perder o ritmo para o solo de Steve Howe (introdução), ou os vocais bem encaixados de Jon Anderson e Chris Squire. Na sequência final, é outra série de delírios baterísticos que nem Freud conseguiria explicar, batidas totalmente desencaixadas, mas que se encaixam perfeitamente para o grandioso solo de Wakeman. Coisa de gênio. Ok, na parte do “I Get Up, I Get Down” ele não participa, mas isso é pouco perante tudo o que ele faz antes e depois desse trecho. Tanto que ao vivo, Alan White jamais conseguiu reproduzir uma batida correta, e preferiu dar outro andamento para a música. Uma das melhores canções de todos os tempos só poderia ser tão grandiosa graças a um dos maiores bateras da história, infelizmente aposentado.


Brain Salad Surgery, o grande álbum do ELP

“Karn Evil 9” – Brain Salad Surgery [1973] (Emerson Lake & Palmer)

Uma das obras mais impressionantes lançadas pelo trio inglês, “Karn Evil 9” é um tour de force para colocar qualquer principiante de quatro. Dividida em três partes (Impressions) e concentrando-se apenas no que Carl Palmer faz com seu kit, o homem demole tudo o que vê pela frente sem piedade. A “1st Impression” apresenta um Palmer um tanto quanto contido, fazendo algumas batidas comuns, viradas igualmente comuns, nada demais durante boa parte do trecho que encerra o lado A. Só que na reta final do lado A, ele começa a soltar o braço, com um ritmo descomunal e uma série de viradas, marcações nos pratos, cowbells, entre outras, que já levam o batera a se destacar sobre a tecladeira de Keith Emerson. Então, o homem consagra o solo de guitarra de Greg Lake com um vigor descomunal, e quando colocamos no lado B, a frase “Welcome back my friends to the show that never ends …” ressoa nas caixas de som para nos apresentar um show a parte de Palmer. O pouco que ele fez no lado A é ampliado no Lado B. A “1st Impression” surge como uma locomotiva sem freio, derrubando o que vem pela frente em um ritmo dilacerante, conduzido pelas batidas inacreditáveis de Carl Palmer. Claro que Emerson e Lake fazem seu trabalho muito bem, mas toda a condução rítmica que Palmer entrega para o solo de Emerson é para se escabelar de tanto sacudir a cabeça. Há um pequeno trecho para Palmer exibir-se com um solo destruidor, e cara, aqui o bicho pega. Velocidade absurda, batidas incontroláveis, cansa só de ouvir, e isso é levado até o encerramento da “1st Impression”. Na “2nd Impression”, Palmer dá uma aula de jazz para poucos, fazendo de tudo. Seu duelo com o piano de Emerson não se restringe apenas a mera condução. É pancadaria comendo solta, numa luta pouco ouvida nos discos de rock progressivo, e de difícil descrição com palavras. Só ouvindo! A “3st Impression” é igualmente fantástica, com rufadas, viradas, batidas em seco, pratos socados sem piedade, enfim, uma performance tremendamente justificada para estar aqui. E ao vivo, o bicho pegava mais ainda, com Palmer executando seu solo ferozmente, e ainda, geralmente, tirando a camiseta no meio do solo, marca tradicional do batera. Quem quiser ouvir a versão de estúdio, está no fundamental Brain Salad Surgery (1973), e quem quer conferir performances ao vivo da faixa, acesse o vídeo da banda no California Jam de 1974, ou então delicie-se com o ao vivo Welcome Back My Friends To The Show That Never Ends … Ladies and Gentleman Emerson, Lake & Palmer (1973).


“A Light in Black” – Rising [1976] (Rainbow)

Cozy Powell tem uma carreira repleta de altos e baixos. O auge de suas performances, quando ele realmente ganhou destaque mundial, após passar pela trupe da Jeff Beck Group, foi ao lado de Ritchie Blackmore no Rainbow. No disco Rising (1976), temos duas performances inacreditáveis. O que ele faz na introdução de “Stargazer” já é impressionante, mas é em “A Light in Black” que Powell mostra por que foi um dos maiores bateristas de todos os tempos. A velocidade absurda que ele emprega logo no início da faixa, acompanhando o riff grudento da guitarra com marcações precisas e rápidas nos pratos, é mantida por mais de oito incansáveis minutos, soberanos. Powell perpassa pelos solos de teclado e guitarra sempre com um ritmo fulminante e preciso, que dá vontade de sair batendo a cabeça e agitando os braços. Mas é nesses solos que ele mostra por que de estar aqui. O domínio dos dois bumbos, numa velocidade sempre precisa, a marcação na caixa e as viradas nos pratos, é coisa para mais de um polvo, fora que tudo isso é numa pancadaria sensacional. Quando ele trava duelo com os teclados, destruindo os pratos, já estamos batendo a cabeça na parede. Mas ainda vem mais. Acompanhando o rei Blackmore, Powell repete a mesma performance, adicionando mais marcações junto com o teclado, tornando a faixa ainda mais atraente. Por vezes, o solo de Blackmore nem parece estar na nossa mente, já que é aquela pancadaria nos bumbos e na caixa, com os pratos sendo estraçalhados, o que sobressai das caixas de som. Novamente temos o duelo com os teclados, pancadaria comendo, e Powell segue firme, incansável, destruindo seu kit, e encerrando uma das melhores músicas de todos os tempos com mais uma série de viradas impressionantes!


“La Villa Strangiatto” – Hemispheres  [1978] (Rush)

Os fãs de Peart podem dizer que há outras canções com performances mais inacreditáveis por parte do baterista, e até posso concordar, mas em “La Villa Strangiatto” acredito que o que ele faz é inacreditável por que ele torna-se o centro das atenções, diferente das outras. Desde o dedilhado inicial da guitarra, ele que puxa as batidas que vão explodir nos solos de Lifeson e Lee (também comandados por ele), com uma marcação singular no cymbal. As viradas que levam ao solo são virtuosas, e a marcação no cymbal é feroz e pontual. Mas é quando a faixa diminui o ritmo para o magnífico solo de Lifeson, que Peart faz algo descomunal. A marcação é quebrada, complexa, e somente depois de duas ou três audições percebemos que ele altera o bumbo e a caixa exatamente no mesmo número de compassos invertidos do cymbal, e sempre com um rolo extra em cada intervalo. Fazer isso uma ou duas vezes até vai, mas concentrar o cérebro para fazer coisas tão distintas em um intervalo de tempo tão longo, não é para meros mortais. A medida que o solo ganha corpo, Peart vai empregando mais força em suas batidas, e quando vê, ele está solando junto com Lifeson, mantendo o ritmo mas fazendo a música ganhar mais sentido do que apenas notas e escalas de guitarra. A marcação do cymbal é incansável, as batidas improváveis surgem espontaneamente, e então, mais uma explosão, agora para Peart conduzir a loucura de guitarra e baixo. Agredindo os tons-tons, Peart se dá ao luxo de degladiar com Lee em um solo jazzístico, apresentando rufadas impossíveis de serem reproduzidas (quiçá criadas), explorando o cymbal a la Buddy Rich, ou simplesmente, espancando seu kit sem piedade em uma virada brusca, mas perfeita. A faixa volta ao seu início, com toda a precisão que o trio canadense sempre soube trazer para suas músicas, e encerra-se como um clássico atemporal na música mundial, presente no fantástico Hemispheres (1978) e em vários álbuns ao vivo e coletâneas do Rush.


“Eagle Fly Free” – Keeper of The Seven Keys Part II [1988] (Helloween)

O Helloween é um pioneiro no speed metal, muito graças as performances velozes de Ingo Schwichtenberg. O baterista infelizmente cometeu suicídio em 1995, mas entrou para os anais de maiores bateristas de todos os tempos com suas marcações nos pratos e tons, bem como a velocidade impressionante. “Eagle Fly Free” possui essas características de arrancada, acompanhadas de viradas muito precisas e complexas. Com um ritmo endiabrado, Ingo parece solar enquanto Kiske canta (“In the sky a mighty eagle Doesn’t care ‘bout what’s illegal … ), alterando batidas nos tons, pratos, viradas, e sempre marcando com precisão na caixa. No refrão, a velocidade continua absurda, os dois bumbos não param, e Ingo faz mágica para criar um ritmo tão impressionante com apenas quatro membros no corpo. Repetem-se as estrofes, e se você já está cansado, prepare-se para ouvir a sequência de solos, começando com as guitarras de Kai Kansen e Michael Weikath, passando pelo ótimo solo do baixista Markus Grosskopf, volta para as guitarras, e então, Ingo “duelar” com a banda, fazendo um solo furioso, espancando seu kit com viradas impressionantes, carregando algum efeito de eco na bateria, e retornando para o ritmo fulminante que leva ao refrão, encerrando a jornada sonora de uma locomotiva desenfreada com uma rufada e mais uma virada de tirar o fôlego, e uma das mais belas canções da história do Metal, presente no excelente Keeper of the Seven Keys Part II.

21 comentários

  1. Igor Maxwel

    “Heart of the Sunrise” é para mim a opção mais adequada para o Bill Bruford ser representado nessa lista, e não a música-título de Close to the Edge (mais uma vez a Consultoria me fazendo provocações com este disco do Yes). Quanto as outras quatro músicas, concordo 1000%!

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    • Igor Maxwel

      Opa, esqueci de citar que não gosto também de “La Villa Strangiatto” uma das mais fracas músicas do Rush a meu ver… Agora sim, quanto ás outras três, está tudo OK!

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    • Mairon

      Igor, confesso que nem me lembrei de você quando fiz essa lista. Portanto, nenhuma provocação a você aqui. Saudações e obrigado pelos comentários.

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      • Igor Maxwel

        Combinado, patrão… Desculpe-me se fui um pouco grosso no meu comentário… Falou!

    • Diogo Bizotto

      Imagina o tamanho do ego do cara em pensar que o autor de uma publicação possa escrever algo pensando em provocá-lo ou agradá-lo.

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      • Igor Maxwel

        É o seguinte, Diogo: eu gosto muito do Yes, mas não sou muito fã do Close to the Edge. Não gosto quando ele é citado aqui na Consultoria e isso para mim é uma provocação sim. Muitos dizem que CTTE ainda é o melhor disco do grupo, mas a verdade é que ele é apenas o mais “superestimado” de sua discografia por tamanha babação de ovo desses fãs. Outra coisa: a formação de CTTE (e de Fragile) tinha tudo para ser a melhor da história do Yes se o contraditório do Bruford não tivesse posto tudo a perder com sua saída, um dos fatores dos quais eu não gosto de CTTE tanto quanto outros discos deles.

  2. sergio luiz

    faltou o grande brian downey do thin lizzy, don´t believe the word ele faz miserias .

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  3. CLEIBSOM CARLOS ALVES CABRAL

    Me parece que quem fez a lista é “fanático” pelo rock progressivo e seu filho bastardo, o power metal Até aí tudo bem, gosto é gosto e cada um curte o que quer. Sou da opinião de que devemos obrigatoriamente sair de nossa bolha para fazermos qualquer lista de “melhores”, senão esta lista de antemão já fica “limitada” e presa ao subjetivismo do gosto pessoal. Se for esta a intenção do CONSULTORIA, reneguem meu comentário ao limbo e bola para frente! Talvez eu esteja sendo reacionário aqui, mas para mim quem curte música além e acima dos gêneros musicais e faz uma lista de “performances inacreditáveis na bateria” tem a obrigação, e é obrigação mesmo, de incluir nela CLYDE STUBBLEFIELD…

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    • Mairon Melo Machado

      Rainbow se encaixa onde? Progressivo ou Power Metal? No meu ver, os músicos de jazz e funk são acima dos grandes músicos da bateria (com exceção de Bruford, que sabia tocar jazz como poucos), e por isso não inclui Clyde, assim como não inclui Mouzon, Cobham ou DeJohnette e tantos outros monstros. Mas é um baita performance, com certeza

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      • CLEIBSOM CARLOS ALVES CABRAL

        Agora entendi! Você não incluiu o cara por achá-lo hors concur e neste caso está corretíssimo…Sou da opinião estapafúrdia de que o RAINBOW com o DIO nos vocais é um dos pais do power metal, junto com o IRON MAIDEN e o MANOWAR…E para terminar, se sua lista está restrita ao rock, creio que você foi injusto ao não incluir nela nada do mito BILL WARD, porque ele é um dos poucos bateristas do estilo a encarar e tocar a bateria como o instrumento percussivo que ele é, além de que BILL não parou no tempo e segue ouvindo coisas novas e inovando, pois seu último disco solo, ACCOUNTABLE BEASTS, é simplesmente sensacional!

      • Mairon Melo Machado

        Nesse caso, poderia ter incuído Bonham, Keith Moon, Phil Ehart, … Até Charlie Watts tem performances soberbas. Aqui são algumas, Não é uma questão de justiça ou injustiça, são cinco apenas. É óbvio que há muitas outras. Mas nenhuma das que estão aqui são injustas.

    • Fabio Rossi Torres

      Oi Cleibson ! Você curte os discos solo do Geezer Butler ? Tive contato recentemente, tem uma pegada meio industrial. Valeu pela dica, vou conferir esse disco do mestre Bill Ward.

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      • CLEIBSOM CARLOS ALVES CABRAL

        Fábio, valeu pela dica! Vou correr atrás dos discos solo do grande Geezer…Quando ao ACCOUNTABLE BEASTS, para mim é o melhor disco solo de algum integrante de banda de todos os tempos. BILL WARD viajou tanto no material e recebeu apenas porrada da crítica especializada. O disco não tem nada de BLACK SABBATH e parece ter sido feito por um músico jovem inquieto em começo de carreira e não por alguém consagrado com mais de 70 anos. A crítica foi da opinião de que o disco só tinha defeitos e eu, ao contrário, penso que ele só tem qualidades.

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