Por Mairon Machado

Nada mais justo que hoje, dia da “Independência do Brazil”, trazer aqui um texto sobre a maior banda que o país pariu em seus 520 anos de “descoberta”, Os Mutantes. Há quase um ano, escrevi sobre o livro Rita Lee – A Autobiografia, lançado pela eterna ex-Mutante em 2017, e desci um pouco a lenha no livro, por diversas situações que você pode conferir aqui. Naquele livro, Rita, entre críticas diversas a pessoas diversas, critica também Carlos Calado, autor da biografia A Divina Comédia dos Mutantes, lançado primeiramente em 1995, e que até hoje, já recebeu uma segunda edição em 1996, e uma terceira em 2012.

Claro, o livro tem quase 25 anos, então é natural haverem outras edições, mas honestamente, para mim esse é uma das melhores biografias lançadas em nosso país sobre um artista legitimamente brasileiro. Com 360 páginas, 22 capítulos mais Prefácio por Mathilda Kóvak, Agradecimentos, Índice Remissivo, Discografia, Bibliografia e Crédito das diversas imagens raras que aparecem ao longo do livro, A Divina Comédia dos Mutantes é um prato cheio para quem quer conhecer a história da banda mais importante da história do Brasil, e por que não, uma das maiores do mundo.

O livro começa relembrando a tragédia que envolveu Arnaldo Baptista, quando o mesmo jogou-se, no dia 31 de dezembro de 1981 (aniversário de Rita), do terceiro andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo, narrando todo o drama da recuperação de Arnaldo, e depois, em ordem cronológica, conta a formação dos Mutantes de forma envolvente e de fácil leitura, fazendo com que o texto passe rapidamente por nossos olhos. A infância e adolescência dos irmãos Sergio, Arnaldo e Claudio (o quarto Mutante) Baptista, bem como de Rita, são os primeiros capítulos, destacando as primeiras bandas e apresentações dos mesmos, até chegarem ao grupo O’Seis.

Nesta passagem, muito bem detalhada, destacam-se a criação do Six Sided Jazz, que mudou rapidamente para Six Sided Rockers, e então O’ Seis, as apresentações dos Rockers na TV (Programas Jovem Guarda, Show em Si-monal, Papai Sabe Nada e Almoço Com as Estrelas), a primeira gravação com um Mutante (o compacto “Pertinho do Mar” e “O Meu Bem Só Quer Chorar Perto de Mim”, de Tony Campello, acompanhado pelas Teenage Singers, que tinham Rita nos vocais), e a gravação do raríssimo compacto do O’Seis.

No limbo pós debandada geral dO’Seis, surge Ronnie Von, responsável por acolher o trio Rita, Arnaldo e Sergio, além de batizá-los, e levá-los para a TV, cuja estreia foi no dia 15 de outubro de 1966, no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von. Surgem as participações no Quadrado E Redondo da TV Bandeirantes, Divino Maravilhoso da Tupi, os encontros com Gilberto Gil e Caetano Veloso, e os Mutantes participando (e chocando) nos grandes festivais nacionais da segunda metade dos anos 60. Novamente, Calado preenche o texto com muitos detalhes, o que torna a leitura bastante atrativa, e ainda traz informações pertinentes e raras, como a participação do grupo no filme As Amorosas, o registro de Tropicália ou Panis et Circensis, disco símbolo do tropicalismo, contando com o trio, o inflamado discurso de Caetano no TUCA em 1968, durante o FIC daquele ano, e a esperada (e elogiada) estreia de 1968, no álbum homônimo que hoje é aclamado como um dos Melhores Lançamentos nacionais da história. Outro ponto interessante, e bastante desconhecido até então, foi o festival organizado por Caetano na boate Sucata, contando com os Mutantes, que acaba levando a conturbada prisão (e deportamento) de Caetano e Gil em 27 de dezembro de 1968.

Com o status de grande banda alcançado logo no primeiro lançamento, chega então Mutantes, o segundo disco, e a estreia de Dinho “I Du Rancharia” Leme na bateria. O autor traz a primeira passagem do grupo pela Europa, apresentando-se no MIDEM, em Cannes, França (1969), onde ganharam muitos elogios da imprensa francesa, apresentações em Portugal, e ainda uns dias de férias nos EUA, onde viram Janis Joplin, que deixou-os de boca aberta, e decepcionaram-se com os Mothers de Frank Zappa. Como novidade não-musical para os fãs da banda, Calado traz detalhes da participação da banda como convidados da Feira de Utilidades Domésticas de São Paulo, em abril de 1969, com o desfile Moda Mutante, apresentando as coleções masculina e feminina da Rhodia, com os Mutantes como atração central, em um evento que durou quase três semanas, e a peça de teatro Planeta dos Mutantes, espetáculo que estreou em julho de 69, escrito e idealizado pelo trio, e que chocou a pauliceia desvairada com cenas bastante bizarras, e que acabou resultando em certo prejuízo financeiro ao grupo. Porém, é aqui onde a sonoridade dos Mutantes começa a mudar.

Essa mudança aparece em A Divina Comédia Ou Ando Meio Desligado, que contou com a fundamental colaboração do amigo Élcio Decário nas composições, Liminha, fã dos Mutantes desde adolescente, no baixo e participações de Naná Vasconcelos e Raphael Vilardi. Arnaldo mergulha nos teclados, influenciado pelo que viu e ouviu na Europa, e começa a ter suas primeiras brigas e separações com Rita, levando inclusive a uma breve “estacionada” dos Mutantes, já no final de 1969, com Rita passeando pela Europa e Arnaldo viajando de moto pela América Latina. Essa separação acabou sendo boa visualmente para Rita, que acabou sendo convidada para ser protagonista dos shows-desfiles Nhô-Look e Build Up, outra grande novidade para os fãs do grupo, e também lançou seu primeiro álbum solo, Build Up, com participações dos demais membros da banda.

Com a chegada dos anos 70, os Mutantes mudam-se para a serra da Cantareira. Novamente, a banda vai à Europa, agora para uma temporada de shows no Olympia francês. Voltam ao Brasil para fazer parte do elenco do programa Som Livre Exportação, da Rede Globo, e com muitos ácidos europeus na mente, registram Jardim Elétrico, disco com canções de um álbum inicialmente planejado para ser lançado na Europa (Technicolor), mas que acabou ficando engavetado por quase 30 anos, e mais algumas novidades. Os detalhes que Calado nos apresenta até aqui são muito reveladores não só da intimidade mutante, mas da importância e pioneirismo do grupo em ser um dos primeiros nomes nacionais a conseguir conquistar o mercado europeu com shows lá no Velho Continente, destacando ainda mais a relevância do nome Mutantes para a música mundial.

Envolvidos pela fácil e repleta de informações leitura, chegamos em 1972, e no capítulo 17, com os Mutantes lançando seu quinto álbum, e metendo-se em uma empreitada fantástica: uma turnê itinerante por pequenas cidades do país, começando por Guararema, onde foram saudados pelo prefeito local. Sobre Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, brigas com a censura e a exploração instrumental da faixa-título são os destaques. Com a casa na Cantareira, a banda passa a cada vez mais fazer ensaios e improvisos, culminando com uma forte guinada para o rock progressivo britânico de Yes e ELP (principalmente). Rita e Arnaldo separam-se novamente, com Rita indo para a Inglaterra, e na sua volta, gravam Hoje É O Primeiro Dia do Resto das Suas Vidas, segundo disco de Rita, mas que na verdade, é um álbum totalmente Mutantes.

Da Inglaterra também veio Mick Killingbeck, que mudou totalmente a cabeça dos rapazes da banda, tornando-se um guru de Arnaldo (e um affair de Rita). Ele é um dos principais influenciadores de “Mande Um Abraço Pra Velha”, última canção com Rita na banda, já que logo em seguida, após declarar “estar cansada de ser o Jon Anderson”, a ovelha negra havia sido demitida (ou convidada a deixar a banda) por Arnaldo. Esse é o ponto mais delicado de A Divina Comédia dos Mutantes. Calado coloca o dedo na ferida, e acaba sendo sensato, atribuindo a separação para os dois lados em termos de culpa (uma Rita que queria ser estrela e um grupo de rapazes que queriam ser a melhor banda do país).

O ano de 73 começa com o grupo vivendo a fase Uma Pessoa Só. Calado nos apresenta as gravações de O A E O Z e diversas apresentações da banda naquele ano, com o show Mutantes com 2 Mil Watts de Rock, para a época, o maior espetáculo sonoro que o país já vira. Calado também apresenta a (única) apresentação das Cilibrinas do Èden, banda formada por Rita e a amiga Lucia Turbull, na Phono 73, e os graves problemas de Arnaldo com as drogas, culminando com sua saída da banda (ele mesmo se demite) por tentar impor uma apresentação gratuita em São Lourenço, Minas Gerais, o que foi descartado pelos colegas de forma unânime. Arnaldo foi sozinho para Minas, e ali entrou em derrocada na carreira, enquanto Rita monta a Tutti Frutti e começa sua longa carreira solo de sucesso. Ah, o álbum Loki! também é narrado por Calado, em um clima de muita dor e emoção.

Chegamos na reta final do livro, com Sergio tocando o Mutantes e suas diversas formações, seja com Manito, Túlio Mourão ou Luciano Alves nos teclados, o batera Rui Motta e Antonio Pedro e Paul de Castro no baixo. É a época dos shows lotados, músicas longas e viajantes, das gravações de Tudo Foi Feito Pelo Sol – curiosamente, até então, o álbum do grupo que mais havia vendido – e Ao Vivo, de uma turnê pela Itália, e o fim de uma das bandas mais importantes da história da música nacional. A tentativa frustrada de unir o trio original em 1992, em um show de Rita, é tratada rapidamente por Calado, que conclui o livro dando um panorama atual (na época) de cada membro que passou pela banda.

Sergio, Arnaldo e principalmente Rita desceram a lenha no livro sem exagero algum. Tudo bem, o autor pode ter se passado em algumas informações bastante pessoais (principalmente nos casos amorosos e extra-conjugais do trio), mas esse tipo de fofoca é pouco perto da grandiosidade de pesquisa (foram quase 2 anos de trabalho e mais de 200 entrevistas) e informações que A Divina Comédia dos Mutantes traz. Para quem é um fã da banda, é uma ótima pedida de investimento. E para quem está a fim de aprender muito sobre uma época que não volta mais, e de todo o pioneirismo de Arnaldo, Claudio, Rita, Sergio, Liminha e Dinho, terá em mãos uma ótima escolha.

6 comentários

  1. Ronaldo

    Eu até então tinha a impressão de que, devido as críticas que recebeu dos músicos, era um livro meio “impreciso”. Mas agora entendendo o motivo das críticas, o texto primoroso do Mairon me fez perceber que DEVO ler esse livro.
    Abraço!

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    • Mairon

      Valeu Ronaldo. Obrigado pelas palavras. Acho que o livro vale principalmente pelo trabalho de pesquisa que o Calado fez. Abraço

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  2. Rilmar da Rocha Moreira

    Excelente livro de Carlos Callado! Tenho a primeira edição. Excelentes comentários de Mairon Machado! Bom demais!!! Gostaria que comentassem tb o livro da Chris Fuscaldo, Discobiografia Mutante.

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    • Mairon

      Não tenho esse livro Rilmar, mas vou correr atrás. Abraços e obrigado pelo comentário

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    • Mairon

      Saiu sim Mario. Está nas páginas 63, 69 e 71, no capítulo Beatlemania. Abraços

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