Por Mairon Machado

Em janeiro de 2017, através da Globo Livros, chegou às lojas o alaranjado livro Rita Lee – Uma Autobiografia, trazendo a história da Rainha do Rock nacional, Rita Lee Jones, narrada pela própria. Para os fãs da cantora que fez sucesso ao lado de Mutantes, Tutti Frutti e principalmente, do marido Roberto de Carvalho, Rita conta sua vida como uma vovó sentada diante dos netos comendo bolinho de chuva e tomando chá, e apresentando muitas fotos pessoais (algumas ilustrando essa matéria).

A facilidade na escrita de Rita torna a leitura fácil e rápida. Através de diversos mini-capítulos, e tentando seguir uma ordem cronológica, a autora narra desde sua infância cheia de peripécias ao lado das irmãs no casarão da Vila Mariana em São Paulo, sob os olhares severos e rígidos do “General” papai Charles, até o presente momento, quando decidiu aposentar-se de vez do brilho dos holofotes e viver a vida ao Deus dará. Isso sem jogar muita merda no ventilador, inclusive do seu próprio. O tom depreciativo em termos de diversos nomes citados ao longo do texto, e da própria família de Rita (a qual ela chama de Família Buscapé) pode ser até engraçado de início, mas não convém para um livro de tão importante relevância, já que estamos tratando do maior nome feminino do rock nacional.

Com o pai Charles e o filhote de jaguatirica Guna

Mas voltando as merdas na vida de Rita, uma delas é o fato de ter “perdido a virgindade” com um técnico da máquina de costura Singer que foi consertar a máquina de sua mãe e enfiou uma chave de fenda em sua vagina, isso quando ainda era criança. Nessa mesma época, a menina Rita ficou tão nervosa em sua primeira apresentação em público, tocando piano, que acabou se urinando em pleno palco. Outros grandes problemas surgem ao longo do livro, como a sua conturbada relação com o álcool, que a levou a ser internada por diversas vezes em clínicas de reabilitação. Ainda, Rita trata sem rodeios do acidente que esfacelou o seu maxilar e quase a impediu de cantar em meados dos anos 1990, justamente por conta da bebida, e de várias de suas operações (mastectomia, hemorroida, cordas vocais, retirada da vesícula) e da suspeita de Mal de Parkinson. Ou seja, toca na própria ferida sem medo de sentir dor.

Em termos de carreira musical, Rita apresenta primeiramente sua fase junto aos Mutantes, com a fusão das Teenage Singers (grupo vocal que contava com Rita entre os membros) com os Wooden Faces (que contava com o que Rita chama de triumvirato dos mano: Sergio Dias na guitarra, Arnaldo Baptista no baixo e Cesar Baptista na bateria) no grupo O’Seis. As participações nos programas de Ronnie Von, Quadrado e Redondo, Divino Maravilhoso, Astros do Disco, bem como os festivais da época, e até a peça de teatro O Planeta dos Mutantes, estão presentes sem muitos detalhes, assim como comentários muito breves sobre os cinco discos que Rita lançou junto ao grupo.

Rita no final dos anos 60

De interessante, ficam a seção de fotos para a capa de A Divina Comédia … Ou Ando Meio Desligado, realizadas na cada dos Baptista, e que segundo a autora, por terem sidos pegos nus na cama da mãe Baptista, foi o estopim para que a mãe de Rita obrigasse o casamento entre ela e um dos irmãos, mesmo ela namorando um flautista chinês chamado Thomas O. Lee, a passagem do grupo pela Europa, com Rita afirmando ter ficado constrangida com o lançamento de Technicolor (álbum intencionalmente gravado para lançar o grupo no Velho Continente, em 1970, mas que só viu a luz do dia nos anos 2000), os dias na Cantareira, período em que gravaram Jardim Elétrico, e claro, o desbunde com o fim do grupo, quando repentinamente, segundo Rita, durante um ensaio, Arnaldo falou: “A gente resolveu que a partir de agora você está fora dos Mutantes porque nós resolvemos seguir na linha progressiva-virtuose e você não tem calibre como instrumentista” … “Uma escarrada na cara seria menos humilhante“. Será? Vale citar que nesse ponto do texto, Rita já se vangloreia do seu álbum de estreia, Build Up, na qual o maior destaque, “José”, foi uma música que ozmano detestaram, e que ela tinha muito orgulho.

No limbo entre Mutantes e Tutti-frutti, Rita traz uma viagem lisérgica para a Inglaterra, o dia em que conversou com Jimmy Page na Bahia, o jantar ao lado de Eric Clapton, quando convidou uma “amiga mala” que literalmente acabou com a noite, a formação da Cilibrinas do Éden, ao lado de Lúcia Turnbull, e como ela roubou as cobras de Alice Cooper (Mouchie e Angel) durante a turnê do americano pelo Brasil em 1973, isso com a ajuda do roadie (e novo affair) de Rita, Andy Mills.

No paraíso, com o marido e filhos

Da família ao lado do marido Roberto de Carvalho, há as histórias de seu início de relacionamento, o medo de Roberto não querer assumir ser o pai do primogênito Beto Lee, o nascimento dos três filhos, um aborto por conta de uma gestação extra-uterina, que a artista se condena até hoje, os sucessos dos discos lançados no final dos anos 70, início do 80, quando a rotina disco-show torna-se tão exaustiva que Rita, frustrada com lançamentos pouco inspirados, acaba decidindo parar com as turnês, e curtir muitas férias em lugares paradisíacos. Também aparecem comentários sobre o programa Radioamador, que Rita apresentou na Rádio 89 FM, o programa TVLeeZão da MTV, e o sucesso da turnê Bossa ‘n’ Roll, que Rita fez ao lado de Alex, já que Roberto estava morando nos EUA na época da turnê (início dos anos 90). Também é comovente o relato da viciada Rita sobre seus conturbados problemas com o álcool, que quase acabaram com a família e a levou por diversas vezes à clínicas de reabilitação, além de uma queda feia que fraturou o maxilar e deixou Rita sem falar por alguns meses.

Para trazer dados importantes que a autora esqueceu, o livro usa de um “ghost writer”, o fantasminha Phantom (na realidade Guilherme Samora, um dos maiores colecionadores da vida de Rita no país), e que entrega diversas informações importantes ao leitor. Dentre elas, destacam-se: a primeira gravação das Teenage Singers, no raríssimo álbum autointitulado de Prini Lorez (1964); a estreia dos Mutantes no programa de Ronnie Von em 15 de outubro de 1966; O sucesso de Fruto Proibido (1975), que Rita diz que foi apenas um “disquinho bacana”; o inesquecível show de Ribeirão Preto, pós-prisão, quando os fãs subiram ao palco e arrancaram pedaços da roupa dela, enquanto ela seguia cantando, mesmo grávida; …

Uma das várias participações do “Ghost Writer”

Algumas pessoas recebem subcapítulos especiais, no caso Hebe Camargo, que ajudou a promover a carreira solo de Rita, Elis Regina, que tirou Rita da cadeia, onde ela ficou presa, grávida, por porte de maconha, algo que ela confessa ter sido uma grande injustiça, Ney Matogrosso, o cupido entre ela e seu marido, Roberto de Carvalho, João Gilberto, que convidou Rita para uma participação especial da Globo, e gravou a canção “Brazil com S”, e Thomaz Green Morton, o Homem do Rá, que praticamente destruiu (segundo Rita) com a apresentação dela e do marido na apresentação do Rock in Rio de 1985. Até Yoko Ono é citada, sendo esta responsável por vetar canções/versões que Rita iria registrar no álbum Aqui, Ali Em Qualquer Lugar.

Mas nem tudo é uma maravilha no livro. Para começar, em diversos momentos Rita se perde divagando na sua relação com seus animais de estimação (cachorros, cobras, tartarugas, gatos e até onça), festas particulares e presenças de ilustres, como Bill e Hillary Clinton, e não traz detalhes das gravações de seus discos, seja com os Mutantes, seja com o Tutti Frutti. Sobre as gravações de seus principais clássicos com Roberto, Rita fala que “eram momentos de pura criação após grandes noitadas de sexo”, e apenas isso. Parece que só uma boa trepada é o suficiente para criar um clássico.

Imagens do livro

O pior é quando fica extremamente chato de estar se lendo o livro e do nada, uma citação menosprezando Arnaldo aparecer. Parece amor retraído, ou então, necessidade de aparecer. Rita realmente coloca toda sua mágoa com o ex-mutante em diversos momentos, dentre eles, quando insinua que ele apenas está fingindo sequelas da famosa queda do terceiro andar do hospital psiquiátrico lá em 1982. Para quem não sabe, Arnaldo foi internado em um hospício e de lá, jogou-se na tentativa de escapar, ficando em coma durante um bom tempo e tendo sequelas gravíssimas até hoje.

Segundo Rita, Arnaldo resolveu jogar-se no dia do aniversário dela, de uma clínica meia-boca para “esquisitinhos” depois de ter queimado o piano da mãe. Rita foi avisada por uma fã de “Loki” que ele estava internado como um indigente. Graças a ela e Roberto, transferiram ele para o Hospital Samaritano, aos cuidados da fã (Lucinha, atual esposa de Arnaldo), que usava “cabelo vermelho e franjinha no melhor estilo Rita Lee“. Tempos depois, ela ligou para Arnaldo fingindo ser uma secretária de Kurt Cobain, e ele falou fluentemente e sem gaguejar em inglês. É de um tremendo mal caratismo expor isso de tal forma, e principalmente, afirmar isso. Ainda, relata que durante seu casamento, “Arnaldo comia todas, enquanto eu dava umas voltas com Danny (cachorro de Rita) e fingia não saber nada“. Muita mágoa e insinuações criminosas para pouco proveito de leitura …

No quarto bordel da Rua Pelotas

Antes, ela já destrói a família Baptista. Liberal para sua época, “todos sofriam de renite, respiravam pela boca, babavam muito e cuspiam quando falavam“. “Serginho, o caçula gordinho, nunca leu um livro na vida, raramente escovava os dentes, …, o Sancho Pança do mano mais velho“. Sobre Arnaldo, “das vezes que tentamos transar, foi broxante, eu sentia nojinho das babadas dele, que confessou que comigo era bem menos emocionante do que com uma boneca inflável“. Se essas informações são verdadeiras, qual a necessidade dessas informações ao leitor? Sejamos honestos … Ainda, Rita também relata que durante a turnê de Bossa ‘n’ Roll, tentou fazer um show de reunião com ozmano, mas que acabou não vingando justamente no momento que Arnaldo viu Sergio no palco, ficando revoltado e dizendo que não tocaria com alguém que usa Fender e não Gibson, na velha rivalidade transistorizados x valvulados. “Loki saiu indignado junto da fã-esposa-clone-da-rita-lee e eu, a bruxa que condenou os mutas ao ostracismo, fiquei lá, posando de paisagem“.

Primeiro, Mutantes no ostracismo?? Segundo, para que insistir em chamar Lucinha de “clone de Rita Lee”??? É muita pretensão, exibicionismo, ou amor enrustido através de ciúmes mesmo? E digo ciúmes por que quando ela mesma se chama de A Lôka, com essa grafia, já no final do livro, não tem como não sentir uma pontinha grande de saudades do ex-marido …

Pelada na praia

Para completar, e por que não, dar uma de advogado de defesa, esse parágrafo entrega o que eu tento dizer. Ao falar sobre a mudança que o trio Mutante passa do primeiro para o segundo disco: “Não que ozmano (n. r. Sergio e Arnaldo) fossem desimportantes dentro dos Mutas, muitíssimo pelo contrário, a virtuosidade de Sergio era fato inegável, apenas sua técnica instrumental se mostrava inversamente proporcional ao talento como compositor. De nós, era o que cantava melhor, apesar da mania de imitar Paul McCartney, o que eu considerava vergonhoso. Arnaldo tinhas ótimas ideias, tocava piano e baixo legal, em matéria de ousadia estava anos-luz à frente. Quanto a mim, não tocava nem cantava porra nenhuma“. Ou seja, é muita auto-depreciação sem necessidade.

Todos sabemos como os Mutantes foram importantes para o mundo da música, tanto que recentemente, um canal russo elegeu o grupo como o segundo grupo brasileiro mais importante de todos os tempos, atrás apenas do Sepultura, e como nomes como David Byrne e Kurt Cobain, entre outros, babam pelo som dos caras. Então, esse tipo de declaração é no mínimo sem sentido, para não dizer outra coisa. Na obra definitiva sobre sua vida e carreira, que ficará para a eternidade e gerações pesquisarem quem foi Rita Lee, é triste ler tanto ódio e rancor.

A bebê Rita ao lado dos pais e irmãs

A analogia da turma do Bolinha e do Mágico de Oz com os colegas de MPB da época é tão ridícula e pedante quanto a citação que Rita faz para Chico Buarque (no baile, Rita avacalha também com Elis, Aninha, Edu Lobo, Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo, além do grupo MPB-4). Outra que sofre nas mãos de rita é a “governanta-empresaria” Mônica Lisboa, que apesar de não ter o nome citado no livro, aparece por diversas vezes, sendo acusada de responsável por acabar com a carreira do Tutti-Frutti, e de usar do nome Rita. Durante as gravações de Entradas & Bandeiras, a mixagem foi totalmente realizada por Luis Carlini, que deixou o álbum “um festival de guitarras atropelando voz, vocais, teclados, baixo … virou um disco do moço“. Com isso, Rita se considera a mocinha ingênua de uma novela colombiana, ludibriada pelo cartel de Medellin (composto por Luis e da Governanta).

Por fim, têm informações muito complicadas de se acreditar. Primeiro, no capítulo Nojinho, ela afirma ter nojo das coisas, que não gosta de dar selinho e coisa e tal. É estranho no mínimo essa informação, já que no dia do lançamento deste livro, Rita distribuiu selinhos aos montes, e no próprio livro ela se auto-elege a criadora do selinho da Hebe … Mas a pior delas é a de uma Bad Trip ao lado de um amigo (Baratão), no Rio de Janeiro, quando os dois pegaram meio quilo de cocaína e ficaram cheirando durante três dias sem parar. Qualquer um que acompanha programas de investigação criminal ou polícia sabe que meio quilo de cocaína é MUUUUUUUUUITA cocaína, e que se cada um tivesse consumido 250 gr de cocaína em três dias, com certeza não teriam durado para contar a história. É ler e fingir acreditar …

No lançamento de seu livro

Enfim, o livro é tranquilo de ler, principalmente para quem quer uma linguagem “jovem”, mas a ausência de informações pertinentes com uma carreira musical tão ampla, a quantidade de comentários azedos e pouco acrescentadores de conteúdos, e principalmente, o excesso de informações pessoais totalmente inúteis, tornam Uma Autobiografia aqueles casos que você lê uma vez e nunca mais pega novamente. E vamos agora reler o (também) criticado A Divina Comédia dos Mutantes, que para Rita, o autor apenas deveria ter ficado Calado (Carlos Calado é o autor do livro).

8 comentários

  1. Francisney

    Para mim Rita lee foi umas das piores representante das mulheres nos anos 60 e 70 e digamos que até momento no Brasil…
    Parabéns pelo conteúdo …

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    • Mairon

      Obrigado Francisney. Mas agora fiquei curioso. Por que você pensa isso?

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  2. Raphael

    Apesar de ter admiração pela obra dela, em especial a fase Tutti-Frutti, assumo que não me instiguei de ler o livro. Muito por causa do que li num artigo do André Barcinski na UOL, que em linhas gerais acaba falando algo similar ao escrito aqui: Para uma artista da magnitude dela e sendo esta autobiografia a última obra que (possivelmente) legará para a posteridade, poderia ter tido uma maior dose de capricho… Mas quem sabe, se daqui a alguns anos encontrar essa autobiografia perdida por 10 bolsos em algum sebo da vida, eventualmente posso compra-la

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  3. André Kaminski

    Eu li cerca de metade dessa biografia dela, parei ali por volta dos anos 80. Apesar de admirá-la como musicista, a forma como ela fala dos irmãos Dias me soa um tanto prepotente. Não sinto maturidade nas ideias e ações de Rita ao longo dos anos, parecendo agir e pensar ainda como aquela guria porra louca na época de seus 20 anos até hoje.

    Mas enfim, fica seu lado na história registrado e seus ótimos discos com os Mutantes para apreciação, mais do que a pessoa em si.

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  4. Tiago Bittencourt França

    Belo texto. Sempre tive vontade de ler uma biografia (séria) da Rita. Quando tomei ciência deste lançamento, não me animei nem um pouco, justamente pela forma como ela trata o Sérgio e o Arnaldo e pelos poucos detalhes acerca de sua vasta e riquíssima obra. Não sei qual é da tia, mas soa como um pouco de recalque.

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    • Mairon

      Com certeza Tiago, o que é totalmente desnecessário. Mas parece que ela sofreu um trauma dos Mutantes terem vingado mundialmente nos anos 90 e ela caído quase que no ostracismo mundial

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  5. António Marcos

    Excelente resenha, mesmo Rita Lee não ajudando muito, pois sua história no mutantes deve ter sido muito rica, tanto no aspecto musical como no pessoal.

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    • Mairon Melo Machado

      O que aparece de novidade no grupo dos Mutantes cada dia é de uma beleza que ela podia ter explorado mais. Esses dias teve uma imagem dela com o baixo regulus, arnaldo nos teclados e Sergio na bateria. O que será que rolou de som??? É um Pré-ELP!!!

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