Por Ronaldo Rodrigues e Mairon Machado

O Ruphus é um dos principais expoentes do rock progressivo desenvolvido na Noruega nos anos 70. Apesar do sucesso modesto na Noruega (e na Alemanha, onde a banda se baseou por alguns anos), seus discos continuam sendo admirados por colecionadores e fãs de rock dos anos 70. A discografia da banda é variada e repleta de musicalidade, transitando pelo rock progressivo clássico, pelo heavy-prog ou pelo jazz-fusion, sempre com uma qualidade consistente. Outra característica marcante da banda é a presença de vocais femininos – Gudney Aspaas foi a vocalista principal durante vários anos e Sylvii Lillegaard também ocupou esse posto entre 1977 e 1978. Recentemente, os 4 primeiros discos do Ruphus foram relançados em caprichosas versões em LP e CD pela Karisma Records, que gentilmente intermediou a conversa entre nós e o baixista Asle Nilsen, um de seus membros fundadores. A entrevista foi traduzida para o português, mas abaixo colocamos a íntegra da conversa em inglês.

CR: Como vocês se encontraram em Oslo e formaram a banda?

Asle Nilsen: A primeira formação da banda aconteceu em 1970, a partir de um grupo de amigos em Oslo e teve um sucesso muito limitado. Mas a formação que se juntou em 1972 e se tornou o Ruphus aconteceu depois que Kjell Larsen e eu – Asle Nilsen – nos conhecemos e decidimos formar um novo grupo. Essa nova encarnação foi formada em 1972 e, no ano seguinte, lançamos nosso primeiro álbum com o apoio de uma grande gravadora (Polydor).

CR: Qual foi a trajetória da banda desde sua formação, a composição do repertório, a gravação das primeiras fitas demo e o lançamento pela Polydor?

Asle Nilsen: Fizemos uma demo com duas músicas na primavera de 1973, com um produtor norueguês chamado Stein Robert Ludwigsen e apresentamos à Polydor. Eles ficaram muito impressionados e nos deram um contrato de três álbuns. As músicas foram compostas em um espírito de equipe e de maneira muito colaborativa, mas eu diria que Håkon Graf e Kjell Larsen foram muito importantes no processo de criação.

CR: Quais eram suas principais influências? Havia alguma banda na Noruega naquela época que vocês particularmente admiravam?

Asle Nilsen: Fomos muito influenciados por bandas britânicas e americanas como Yes, Pink Floyd, Led Zeppelin, etc.

CR: Os dois primeiros álbuns de Ruphus tem capas muito interessantes. Você pode falar um pouco sobre a concepção das artes desses álbuns?

Asle Nilsen: Eu acho que as duas capas vieram um pouco de ideias minhas. Em New Born Day (N.E: o primeiro álbum, de 1973) você vê uma paisagem de inverno sombria e fria e quando abre a capa, você tem a mesma paisagem nas cores das flores do verão – daí o nome “New Born Day”. O segundo álbum, Ranshart, é mais inspirado por um conto de fadas. Na época, li um livro de Frans Werfel chamado “Song of Bernadette” que me serviu de inspiração.

CR: Em muitos países, a linguagem mais avant-garde do rock tinha tantos admiradores quanto detratores. Os críticos musicais e a mídia norueguesa eram receptivos ao rock progressivo? Como era tocar rock progressivo na Noruega durante a década de 1970?

Asle Nilsen: Eram poucos os críticos musicais receptivos ao prog rock na Noruega; a grande mídia e a televisão também não se entusiasmavam muito pelo estilo.

CR: Houve mudanças significativas no processo criativo da banda com as diferentes formações que o grupo teve?

Asle Nilsen: Sim. Como você deve saber, tivemos um grande número de músicos diferentes na banda ao longo dos anos, e isso, é claro, mudou o estilo e a inspiração. Éramos apenas Kjell e eu que estávamos na banda desde o álbum de estreia, New Born Day, até nos separarmos.

CR: Qual foi a ocasião mais significativa para Ruphus nos palcos? No Brasil, vídeos do Ruphus tocando no festival Ragnarock (1974) e uma gravação para a NRK TV (1977) são bem conhecidos. Você poderia nos contar um pouco mais sobre essas duas ocasiões?

Asle Nilsen: O Ragnarock foi de longe o maior festival da Noruega nos anos 70. Teve três edições – 1973, 1974 e 1975. O Ruphus tocou em 74 e 75 – muito divertido. O programa de TV de 1977 foi realizado em um estúdio da NRK. Nós morávamos na Alemanha na época e a NRK (Norwegian National Broadcast) nos convidou para fazer esse especial – muito surpreendente e totalmente inesperado.

CR: Vocês fizeram turnê ou tocaram como banda de abertura para alguma banda grande do período? Se sim, como foi a experiência?

Asle Nilsen: Não muitas.

CR: Entre as bandas relacionadas à genealogia de Ruphus, uma das mais apreciadas pelos colecionadores de discos no Brasil é o Junipher Greene. Qual é a relação entre Ruphus e Junipher Greene?

Asle Nilsen: Conhecíamos o Junipher Green muito bem, e o vocalista Freddy Dahl foi, durante um curto período entre New Born Day e Ranshart, nosso vocalista.

CR: O álbum Let Your Light Shine e o álbum seguinte adotaram uma direção musical diferente, mais associada à jazz-fusion e uma pegada mais eclética. Esse direcionamento também coincidiu com mudanças na formação da banda. Você poderia detalhar um pouco mais essas mudanças?

Asle Nilsen: Para nossa grande surpresa e contrariedade, o álbum Ranshart não foi tão bem recebido pelos críticos na Noruega, e foi um ponto de virada para nós. Também ficamos impressionados na época e bastante influenciados por artistas de jazz americanos como Chick Corea, Weather Report, John McLaughlin e Miles Davis, que levaram suas músicas a uma expressão muito mais eletrificada. Também contratamos o guitarrista norueguês Terje Rypdal para produzir nosso terceiro álbum, Let Your Light Shine, e ele teve grande influência no som e na direção que esse álbum nos levou.

CR: Considerando essas mudanças na direção musical, as formações de Ruphus de 1976 e 1977 apresentavam o repertório dos dois primeiros álbuns ao vivo?

Asle Nilsen: Sim, incluiam. Principalmente a música “Coloured Dreams”, do nosso primeiro álbum, que nos acompanhou durante todos esses anos.

CR: O estilo jazz-fusion é predominantemente instrumental. Foi difícil conciliar as composições e arranjos com o estilo vocal de Gudny Aspaas ou de Sylvi Lillegaard?

Asle Nilsen: Sim, em muitos aspectos achamos difícil, e provavelmente elas sentiram também essa dificuldade. Mas acho que conseguimos obter alguma lógica em todo o instrumental. O Inner Voice e o Flying Coloures têm muitas músicas com letras e performances vocais.

CR: Os estúdios geralmente são ambientes estressantes, mas nos quais situações e histórias incomuns às vezes surgem. Você destacaria algum fato curioso que ocorreu nos estúdios durante a gravação de algum dos álbuns de Ruphus?

Asle Nilsen: Nós fizemos 6 álbuns ao longo de 6 anos, e sim, deve haver histórias – mas elas parecem ter escapado da minha cabeça – desculpem-me.

CR: Alguns álbuns do Ruphus também foram lançados na Alemanha durante a década de 1970. Vocês fizeram turnês por lá e obtiveram bom reconhecimento com o público alemão?

Asle Nilsen: Tudo começou com Let Your Light Shine, que foi o primeiro álbum do Ruphus lançado na Alemanha. Isso nos levou a uma longa turnê pela Alemanha, com shows lotados e ótima cobertura de rádio. Para facilitar, nos mudamos para uma casa ao sul de Hannover na Alemanha, onde moramos por 4 anos. A Alemanha foi de longe o nosso maior mercado, e fizemos turnês na Alemanha, Suíça, Bélgica, Dinamarca, Suécia e Holanda de 1976 a 1980. Todos os nossos álbuns foram lançados na Alemanha a partir disso.

CR: Após o desmembramento da banda em 1981, os membros restantes continuaram a trabalhar na música? Você poderia contar um pouco mais o caminho que cada um seguiu?

Asle Nilsen: Sim, a maioria dos membros ainda são músicos ativos. Håkon Graf vive em Los Angeles e é muito ativo como músico de estúdio. Kjell Larsen também é muito ativo e tem muitos projetos em andamento. Tor Bendiksen tocou por um longo tempo, mas infelizmente ficou com zumbido no ouvido e teve que parar de tocar. Gudy aspas ainda está cantando e Jan Simonser também está tocando, quase todo mundo, exceto eu. Tenho uma carreira como engenheiro de som e chefe de áudio profissional na Bright Norway.

CR: Como foi o processo de relançamento dos álbuns de Ruphus em CD e LP pela Karisma Records? Como o público está recebendo esse reavivamento depois de tantos anos?

Asle Nilsen: Tocamos em um festival de Prog Rock em Haugesund, Noruega, em 2017, e conhecemos o pessoal do Karisma lá. Eles nos disseram da intenção de relançar todos os nossos álbuns. Dissemos que sim sem hesitar. O relançamento de nossos álbuns tem sido um sucesso. De fato, estou bastante surpreso com quantas boas críticas recebemos de todo o mundo. Eu acho que a maneira como a música é distribuída hoje dá uma perspectiva totalmente nova de se alcançar um grande número de pessoas.

CR: Ruphus fez recentemente alguns shows. Como foi a repercussão e como você acredita que serão os eventos e festivais pós-COVID 19?

Asle Nilsen: Fizemos alguns com grande sucesso, mas não temos nada planejado no futuro. A situação do Covid 19 atingiu muito nosso ramo – os primeiro a fecharem e os últimos a retornarem. É difícil prever quanto tempo isso vai durar.

CR: Você sabe algo sobre música brasileira (incluindo rock progressivo)? Gostaríamos de agradecer enormemente pelas respostas. Sinta-se livre para dar suas palavras finais aos fãs brasileiros.

Asle Nilsen: Bem, estou um pouco envergonhado sobre isso. Claro que ouvi falar do Sepultura e Gilberto Gil, mas dizer que sei algo além seria mentira. Eu nem sabia que tínhamos fãs no Brasil, mas é claro que estamos muito satisfeitos com isso. Então, para todos os fãs do Brasil nesses tempos estranhos e difíceis: mantenha a cabeça calma, coração quente e as mãos limpas. Fique bem, nós amamos todos vocês.

Íntegra em inglês:

CR: How did the first line up of the band come together in Oslo?

Asle Nilsen: RUPHUS was actually formed in 1970 by local friends in Oslo and had a very limited success. but the lineup that came together in 1972 and became RUPHUS was after Kjell Larsen and myself – Asle Nilsen, met and decided to form a new RUPHUS. Ruphus was formed in 1972, and in the following year, you released the first album with the support of a major label (Polydor).

CR: What was the trajectory during the formation of the band, the composition of the repertoire, the recording of the first demo-tapes, and the release by Polydor?

Asle Nilsen: We did a demo in the spring of 1973 with a Norwegian producer called Stein Robert Ludwigsen and did two songs that we presented to Polydor. They were very impressed and gave us a three album contract. The songs was in many ways a very collaborative teamwork, but I would say that Håkon Graf and Kjell Larsen was very instrumental in the process.

CR: What were your major influences? Was there any band in Norway those times that you particularly admired?

Asle Nilsen: We were very influenced by UK and American bands – like Yes, PinK Floyd, Zeppelin a.s.o.

CR: The first two albums of Ruphus have exciting art covers. Can you talk a little about the conception of the artwork of these albums?

Asle Nilsen: I think both covers was a little bit my idea, and New Born Day you see a bleak, cold  winter landscape and when you open the cover you have the same landscape in summer blossom coloures – hence New born Day. The second album Ranshart I think is more inspired by a fairytail, but I also read a book by Frans Werfel called the Song of Bernadette and was inspired.

CR: In many countries, the more avant-garde language of rock had as many admirers as detractors. Were musical critics and Norwegian media receptive to progressive rock? What was it like to play progressive rock in Norway during the 1970s?

Asle Nilsen: It was not many critics that were receptive to prog rock in Norway and media and television was not very enthusiastic.

CR: Were there significant changes in the band’s creative process in the different line-ups the group had?

Asle Nilsen: Yes, as you might know we had a large number of band member up through the years, and that of course changed the style and inspiration. It was only Kjell and myself that were in the band from New Born Day until we split up.

CR: What was the most significant occasion for Ruphus on stage? In Brazil, videos of Ruphus playing in the Ragnarock festival (1974) and a recording for NRK TV (1977) are well disseminated. Could you also tell us a little more about these two occasions?

Asle Nilsen: Ragnarock was by far the biggest festival in Norway in the 70 s. It lasted for three years 1973, 1974 and 1975 – RUPHUS played in 74 and 75 – great fun. The TV show from 1977 was done in a NRK studio. We lived in Germany at the time and NRK ( Norwegian National Broadcast) invited us to do this special – very surprising and totally unexpected.

CR: Did you get to tour or play as an opening act for any great band of the period? If so, how was the experience?

Asle Nilsen: Not much, we probably did a few way back.

CR: Among the bands related to the Ruphus genealogy, one of the most appreciated by records collectors in Brazil is Junipher Greene. What is the relationship between Ruphus and Junipher Greene?

Asle Nilsen: We knew Junipher Green very well, and their lead singer Freddy Dahl was in a short period between New born Day and Ranshart our lead singer.

CR: The album “Let Your Light Shine” and the following album showed a different musical direction, more associated with the jazz-fusion and an eclectic approach. These changes also coincided with changes in the line-up of the band. Could you detail these changes a little more?

Asle Nilsen: To our big surprise and very unfair we thought, the album Ranshart was not that well received by critics in Norway, and it was some sort of turning point for us. We had also been impressed and quite influenced by American jazz artists like Chick Corea, Weather Report, John McLaughlin and Miles Davis that had taken their music into a much more electrified expression. We also got the Norwegian guitar player Terje Rypdal to produce our third album Let Your Light Shine, and he was I big part of the sound and direction this album took us.

CR: Considering these changes in musical direction, did the Ruphus formations of 1976 and 1977 performed the repertoire from the first two albums in concerts?

Asle Nilsen: Yes, we did. Especially Coloured Dreams from New Born Day followed us through all years.

CR: The jazz-fusion style is predominantly instrumental music. Was it difficult to conciliate the compositions and arrangements with the vocal style of Gudny Aspaas or Sylvi Lillegaard?

Asle Nilsen: Yes in many ways we found it difficult, and probably most for the singers. But I think we managed to get some logic and meaning in all the instrumental. Both Inner Voice and Flying Coloures have quite a lot of songs with lyrics and vocal performances.

CR: Studios are often stressful environments, but in which unusual stories and situations sometimes arise. Would you highlight any curious facts that occurred in the studios during the recording of Ruphus’ albums?

Asle Nilsen: We did 6 albums over 6 years, and yes there must be stories – but they seem to have slipped my mind – sorry

CR: Some Ruphus albums were also released in Germany during the 1970s. Did you get to tour there and obtained recognition with the German audience?

Asle Nilsen: It all started with Let Your Light Shine that was the first RUPHUS album released in Germany. It led to a long tour around Germany with sold out concerts and great radio cover. To follow up we moved into a house south of Hannover where we lived for 4 years. Germany was by far our biggest market, and we toured Germany, Switzerland, Belgium, Denmark, Sweden, the Netherlands from 1976 to 1980. All our albums was released in Germany

CR: After the band’s dismemberment in 1981, did the remaining members continue to work in music? Could you detail the path that each one took?

Asle Nilsen: Yes, most of the members are still active musicians. Håkon Graf lives in Los Angeles and is very active as a session player. Kjell Larsen is also very active and have many projects going. Tor Bendiksen played for a long time, but unfortunately he got tinnitus (ear diseas) and had to stop plying Gudy aspas is still singing and Jan Simonser is also playing, so pretty much everybody except myself. I have a career as a sound engineer and Head of Pro audio at Bright Norway.

CR: How was the process for re-release Ruphus’ albums on CD and LP by Karisma Records? How is the audience receiving this revival after so many years?

Asle Nilsen: We played at a Prog Rock festival in Haugesund Norway in 2017, and meet the Karisma people. They would like to rerelease all our albums. It was a no brainer and we said yes. The relaunch of our albums has been a success. I am in fact quite surprised how many good reviews we have received from all over the world. I guess the way music is distributed today gives a whole new way of reaching out to a mass of people.

CR: Ruphus recently did some concerts. How was the repercussion, and how do you believe that events and festivals post-COVID 19 will be?

Asle Nilsen: WE have done a few with great success, but have nothing planned in the future. The Covid 19 situation has hit our branch very hard, first out and last in. It is hard to predict how long this will last.

CR: Do you know something about Brazilian (including progressive rock) music?  We want to thank you for the answers. Feel free to give your final words to Brazilian fans.

Asle Nilsen: Well, I am a bit embarrassed. I have of course heard about Sepultura and Gilberto Gil, but to say I know much would be a lie. I was not even aware we had fans in Brazil, but we are of course very pleased to heart that. So to all our Brazil fans in these strange and difficult times: Keep your head cool, heart warm and hands clean. Stay well, we love you all.

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