Por Amanda Cipullo

Elizabeth Douglas nasceu em 1897, em Algiers. Durante a infância, mudou-se com a família para o sul Memphis e lá aprendeu a tocar violão e banjo. Alguns anos depois, no início da adolescência, saiu de casa e começou apresentar-se nas ruas de Memphis, cantando e tocando violão, com o nome de Kid Douglas – referência a seu apelido de infância. Uma vida errante e nem um pouco fácil, na qual ganhava alguns trocados por suas apresentações nas esquinas.

Na década de 1920, a efervescência do blues se espalhava das colheitas de algodão para ruas dos Estados Unidos. Caminho irreversível para a música – sorte nossa. E, obviamente, junto com a popularização do estilo, as gravadoras se empenhavam na busca por novos talentos. Foi numa dessas que, em 1929, em frente a um dos locais em que sempre se apresentava com Kansas Joe McCoy, parceiro musical e marido, foi “descoberta” por um olheiro da Columbia Records, que os convidou para gravar algumas músicas, em Nova York.

É aí que começa a trajetória da cantora, guitarrista e letrista, que marcou definitivamente a história do blues.

Em 1929, Kid Douglas, agora sob a alcunha de Memphis Minnie e junto com Kansas Joe, grava suas primeiras canções, pela Columbia: “Bumble Bee”, um dos grandes sucessos de sua carreira, regravada diversas vezes ao longo das últimas décadas, e também “Goin’ Back to Texas” (1930) e “Frisco Town” (1930), todas composições de Minnie e Kansas. Nesta época o casal também grava “When the Leeve Breaks”, conhecida por ter sido regravada, com uma nova melodia, em 1971, no álbum Led Zepellin IV.

Em 1930, Minnie e McCoy passam a residir em Chicago. Durante esses anos, acompanham o crescimento da cena blues de perto, gravando e também tocando na noite com diversos músicos, como por exemplo Tampa Red e Big Bill Broonzy. Neste período, foram gravadas canções como: “I’m Going Back Home”, “Meningitis Blues” I’m in the Heavenly Way”, “The Promise True and Grand”, “Midnight Special”, “I Never Told a Lie” e “Georgia Skin”.

Em 1934, Minnie e Kansas Joe gravam pela última vez juntos e, no ano seguinte, se divorciam. A partir daí, Minnie começa a incluir novos estilos ao seu repertório. Neste período, transita entre as gravadoras Bluebird e Decca, enquanto faz turnês pelo sul dos Estados Unidos. Grava também com Casey Bill Weldon, bluesman com quem também havia sido casada nos anos de 1920.

No início dos anos de 1940, Minnie grava os standards “Me and My Chauffeur Blues” (1941) – uma de suas canções mais conhecidas – , “Looking the World Over” (1943) e “Black Rat Swing” (1943). Também nesta época, integra a “house band” do 708 Club, famoso clube de Chicago, local em que fazia jams sessions com alguns convidados como: Big Bill Broonzy, Sunnyland Slim e Snooky Pryor. Ainda no final da mesma década, Minnie é demitida da Columbia e passa a gravar por selos menores.

Nos anos seguintes, no entanto, tudo fica mais complicado. Com a popularização de outros estilos, o blues é deixado de lado, fazendo com que os artistas tivessem dificuldades em achar gravadoras e casas de shows que os aceitasse, e muitos acabaram voltando para casa. Com Minnie, pelo menos, foi assim. Na década de 1950, ela volta para Memphis, o lugar onde tudo começou e também terminou.  Lá, continua se apresentando esporadicamente, obviamente, com muito menos e dinheiro do que antes. Em 1960, sofre o primeiro AVC . No ano seguinte, seu então marido morre. Com os recursos financeiros se tornam cada vez mais escasso e a saúde debilitada, Minnie, a hoodoo lady guitarrista, acaba falecendo em 1973.

Hoje, o que me vem à cabeça quando penso em Memphis Minnie é justamente a frase que está escrita em sua lápide. Algo mais ou menos assim “ouvir Minnie é ouvir suas fantasias, sonhos e desejos, mas quando os ouvimos, é como se ouvíssemos a nós mesmo”. Tanto tempo depois, ainda é exatamente assim.

 

Deixar comentário

Seu email NÃO será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.