Por André Kaminski

A história das Runaways é vasta, apesar da duração da banda ter sido bem curta. Todas as análises dos discos são minhas impressões pessoais mesmo. Já o que falarei a respeito da história e contextualização eu utilizei como fonte esta excelente série de artigos publicado pela Melissa de Sá no seu site Mundo Mel. Acessem que vale muito a pena!

Lita Ford (guitarra), Joan Jett (guitarra, vocais), Cherie Currie (vocais), Sandy West (bateria) e Jackie Fox (baixo)

Basicamente, de acordo com a autora que pesquisou sobre o assunto, a banda deu início em 1975 quando Joan Jett se encontrou com o produtor e empresário Kim Fowley em uma dessas boates noturnas americanas e o falou de sua intenção de formar uma banda só de garotas. Ele gostou da ideia e pouco tempo depois, a baterista Sandy West também o contatou dizendo o mesmo. Fowley lembrou do pedido de Joan Jett e logo passou o contato de dela, para que se encontrassem e iniciassem o que viria a ser o embrião do The Runaways. Pouco tempo depois, Fowley recomenda a baixista Micki Steele e o trio grava uma demo. Mas pouco tempo depois, Micki deixa a banda e um teste para uma nova baixista foi feito. Lita Ford entra neste teste, mas acaba assumindo uma vaga como segunda guitarrista. Fowley queria alguém especificamente para assumir os vocais que fosse ao mesmo tempo doce e provocativa em cima do palco (coisa que a punk Joan Jett e a heavy metal Lita não aceitariam fazer). Daí veio Cherie Currie para o papel. Pouco tempo depois, Jackie Fox acaba assumindo o baixo e a formação mais conhecida da banda está completa.


The Runaways [1976]

Com a maioria das canções compostas por Joan Jett e Kim Fowley, além de outros compositores como Kari Krome que também ajudaria a escrever várias outras músicas da banda – e mais um cover do Velvet Underground – o primeiro disco da banda sai e logo causa um furdunço na imprensa pelo fato de ser uma banda inteiramente feminina fazendo rock pesado. Apesar de Suzi Quatro já ser bem conhecida na época, é fato que muitos ainda torciam o nariz para o fato de cinco meninas adolescentes entrarem no mercado primariamente masculino. Mas logo no primeiro disco que ainda é o melhor da curta discografia da banda, percebe-se que se alguém sabia raciocinar fora da caixinha pensaria que este disco seria um marco na história do rock. Coisa que aconteceu. É um ótimo disco que mescla os principais gostos de todas as integrantes, principalmente das personalidades fortes de Cherie (pop rock), Joan (punk e rock & roll clássico) e Lita (hard rock e heavy metal). Jackie Fox foi creditada no baixo, mas na verdade ele foi gravado por Nigel Harrison, do Blondie, visto que Jackie era guitarrista e ainda estava aprendendo a tocar baixo. A mais do que clássica “Cherry Bomb” que estourou nas rádios, principalmente no Japão, é ainda a música principal quando se trata de Runaways. Tem uma pegada simples de baixo e maliciosa levada punk, que junto com os vocais provocativos de Cherie e o curto solo típico do heavy metal de Lita a fizeram um clássico já em seu nascimento. Mas o disco não se resume a isso. A mais rock & roll “You Drive Me Wild” cantada por Jett segue como um destaque junto a mais um solo cortante de Lita (por sinal, mesmo uma menina ainda, já arrebentava nos solos). “Thunder” com Currie é outro destaque com uma guitarra um pouco mais hard rocker por parte de Joan e Lita mesmo com a cozinha um tanto mais “reta” da bateria de Sandy, a música funciona muito bem. “Blackmail” cantada por Joan já segue a linha mais sessentista com vocais mais rasgados e que soa muito agressiva lembrando músicas de motociclistas ao estilo George Thorogood e sua “Bad to the Bone”. O disco finaliza com a ótima “Dead End Justice”, cuja cozinha de baixo e bateria soam como uma versão mais longa e trabalhada de “Cherry Bomb” com ambas Cherie e Joan dividindo os vocais. As letras são bem juvenis (inclusive com ambas meio que dialogando), mas confesso que até gosto por combinar bem com o que a banda representava. Não tem como fugir disso, The Runaways é um disco marcante e merece ser mais valorizado por retratar bem uma época que jamais se repetirá.


Jackie Fox, Joan Jett, Sandy West, Cherie Currie e Lita Ford.

Como foi uma banda formada por um empresário sem se preocupar muito com o fato das personalidades das garotas combinarem, é óbvio que as Runaways tiveram muitas brigas e discussões nos bastidores. Principalmente entre Cherie Currie e Lita Ford, que eram o completo oposto uma da outra. A vocalista gostava mais de pop rock e do glam e queria levar a banda para um lado mais comercial e de apelo visual enquanto Lita queria socar peso nas composições, solar mais e botar energia nos shows. Nem preciso dizer que isso fazia ambas trocarem tapas e acaba que a baterista Sandy tinha que frequentemente separar as duas. Kim Fowley para manter o controle sobre a banda, incentivava essas rixas entre elas. Tirando Jackie Fox, todas já consumiam drogas e álcool, o que não ajudava a manter o clima de paz na banda por muito tempo. Joan Jett sempre fugia das polêmicas quando podia visto que ela sempre estava focada na música e em fazer um bom show. No meio desse clima todo, no começo de 1977 o próximo disco já seria lançado e novas turnês agendadas visto que a banda já causava algum barulho nos meios undergrounds do ocidente enquanto no Japão elas bombavam nas rádios.


Queens of Noise [1977]

Joan Jett reduziu o seu número de contribuições mas as outras integrantes participaram das composições nem que fossem de apenas uma única música. O som deu uma pesada, porém, o disco também teve uma recepção morna no ocidente. Jett e Currie novamente dividem todos os vocais. Já se percebe essa mudança logo nas guitarras da primeira música, o single “Queens of Noise”. Os backings das outras integrantes estão ainda melhor encaixados no que no disco anterior. Apesar disso, acho as composições do primeiro disco melhores, embora ache que a diferença de qualidade de ambos seja bem pequena. Também destaco o excelente heavy metal (e a melhor faixa do disco) “Take It or Leave It”, em que Jett cantando de maneira mais “suave” contrasta com o instrumental pesado e com um longo solo de guitarra de Lita Ford. Gosto também da mais hard rocker e até meio brega “Midnight Music” visto que Currie brilha em sua interpretação da música. Por fim, também aprecio “I Love Playin’ With Fire” com um riff inicial que lembra muito AC/DC e então caindo para mais um heavy metal mais veloz e Joan Jett mandando ver nas vozes. Tirando “California Paradise” que é uma música bem fraca, as outras três canções finais mantém o nível de mais um ótimo disco das Runaways.


Como um quarteto. Joan Jett, Lita Ford, Vicki Blue e Sandy West.

O ano de 1977 foi bem mais tumultuado para elas. A primeira baixa aconteceu com Jackie Fox. Antes do show final da turnê do Japão, ela reparou que seu baixo, ao qual ela gostava muito, estava simplesmente arrebentado depois de cair do suporte. O descaso dos roadies com a situação dela, juntando ainda o fato do bullying de Kim Fowley estar se tornando insuportável (ainda mais que Jackie era o alvo preferido dele), ela simplesmente não aguentou e simplesmente abandonou a banda, embarcando para os Estados Unidos. Joan Jett teve que ir para o baixo e sem uma guitarra rítmica, o show ficou muito aquém do que elas costumeiramente tocavam, com uma sonoridade magra e sem energia. Vicki Blue foi contratada para assumir o baixo. Mas pouco tempo depois, em mais uma das incontáveis brigas de Cherie com Lita Ford, dessa vez devido a cantora ter tirado fotos sensuais exclusivas para uma espécie de “auto-promoção” usando a banda, as duas novamente discutiram e Curie abandonou a banda. Assim, Joan Jett assume como a vocalista principal dos próximos dois discos (com ocasionais vocais de Lita Ford e Sandy West).


Waitin’ for the Night [1977]

Em dezembro do mesmo ano, sai o terceiro disco das Runaways. Com Joan dominando as composições, estas por sua vez com uma pegada mais punk misturada com o hard rock e o heavy metal de outrora. Também um ótimo disco, percebe-se que Jett está ainda mais confiante em seus vocais fazendo belas performances em uma sonoridade que sempre foi a sua preferida. O estilo da banda dá uma mudada principalmente nos shows, em que se percebe que o próprio público que começou a frequentar os shows delas mudou. O público mais hard rocker deu lugar ao pessoal mais ligado ao punk. Os shows mais performáticos deram lugar a mais energia. Lita Ford e Sandy West capricham nas guitarras e bateria, enquanto Vicki Blue é mais discreta com seu baixo. Daqui, destaco “Gotta Get Out Tonight” em que os riffs de guitarra estão simplesmente incríveis. “Trash Can Murders” foi composta por Ford e obviamente, mais guitarras se destacam em uma canção que mistura bem o hard e o punk. “Don’t Go Away” é uma faixa um pouco mais desprezada deste disco, mas a aprecio pela levada diferenciada de guitarra e o vocal gritado de Joan. A auto-intitulada “Waitin’ for the Night” é uma balada (uma das poucas da banda) em que mais uma ótima interpretação de Joan demonstra que ela também soa muito bem quando usa o sentimentalismo do qual faria com muito mais frequência nos Blackhearts. É um disco diferente das Runaways e faz com que esta trinca inicial seja simplesmente muito boa de se ouvir.


Mais alguns shows e novas baixas. Vicki Blue, que estava sendo deixada de lado pelo produtor John Alcock resolve sair da banda. O fato dela, apesar de não usar drogas, sofrer com ataques de epilepsia também assustava as garotas. Para a felicidade de todos, Kim Fowley também se afasta de empresariá-las. Alcock também deixa Joan Jett meio de lado neste disco, beneficiando Lita Ford e Sandy West. Porém…


And Now… The Runaways [1978]

O fato é que este disco é fraquíssimo. Pouca coisa se salva aqui. As composições fortes de Joan Jett se resumem a duas. E as outras canções são bem inferiores a tudo o que as Runaways gravaram no passado. Apesar de Vicki Blue aparecer nas fotos e ser creditada no baixo, o fato é que este foi gravado por Lita Ford. Com dois covers (um do Beatles e outro do Slade) e uma faixa que havia sido descartada pelo Sex Pistols, as outras seis canções não seguram um disco que estava fadado ao fracasso mesmo antes de ser lançado. Joan Jett canta sem qualquer vontade no disco. O cover de “Mama Weer All Crazee Now” do Slade e a composição de Jett chamada “Takeover” são as poucas que são razoáveis. Mesmo sendo mais hard rock, as guitarras são magras e repetitivas. As canções cantadas por Sandy West (“Right Now”) e Lita Ford (“I’m a Million”) não empolgam. O disco parece ter sido gravado com o freio de mão puxado. Não havia muito mais o que fazer para salvar as Runaways do rompimento nesse ponto.


Sandy West, Lita Ford, Joan Jett e Laurie McAllister

Laurie McAllister foi chamada para assumir o baixo e tocar em alguns poucos shows de promoção deste disco e ela logo abandona a banda em janeiro de 1979. Já não havia mais clima. Joan Jett queria que a banda se tornasse mais punk e glam. Lita e Sandy West queriam o hard rock e o heavy metal. O parco dinheiro que elas tinham visto que Fowley era o dono da marca Runaways e o fato das três estarem se afundando nas drogas continuavam a importunar a banda internamente. Seu último show foi em São Francisco na Califórnia, na virada de Ano Novo de 1978 para 1979. Em abril de 1979, a banda se dissolve.

Joan Jett construiu uma carreira de sucesso com o Blackhearts, lançando muitos discos e singles de sucesso com o passar dos anos, tocando sempre o seu amado punk misturado ao glam que ela tanto aprecia.

Cherie Currie tentou uma carreira solo sem sucesso em conjunto com sua irmã gêmea Marie, além de ter atuado em alguns filmes. Em 2002, ela se interessou pela arte em madeira usando motosserras e tem sobrevivido de sua arte desde então. As vezes, fazia alguns shows esporádicos com Sandy West cantando músicas das Runaways. Recentemente, ela anunciou que estava gravando um novo disco a ser lançado ainda em 2019.

Lita Ford também partiu para a carreira solo e lançou alguns discos de médio sucesso mas que servia para pagar as contas e se manter no underground. Nos anos 80, Lita chamou a atenção por se envolver amorosamente com rockeiros famosos como Chris Holmes (W.A.S.P.), Nikki Sixx (Mötley Crüe) e Tony Iommi (Black Sabbath) até se casar de vez com Jim Gillette, vocalista do Nitro. Os anos 90 e 2000 foram meio mornos para ela, que se dedicava a cuidar dos filhos. Mas após um conturbado divórcio com Gillette e a perda da guarda de seus filhos para ele, Lita resolve se empenhar novamente à música e feito vários shows pelos Estados Unidos cantando algumas canções próprias, alguns covers e mesmo uma versão própria de “Cherry Bomb” das Runaways.

Sandy West infelizmente não teve uma boa sorte nessa vida. Ela criou uma nova banda chamada Sandy West Band da qual sobreviveu os anos 80 e 90 tocando canções das Runaways, as vezes em companhia de Cherie Currie. Também teve que trabalhar em alguns empregos comuns como bartender e assistente de veterinário e foi presa algumas vezes devido a pequenos furtos que cometia (possivelmente para sustentar seu vício). Infelizmente, ela sempre foi muito afligida pelas drogas pesadas das quais não conseguia se libertar e acabou falecendo de câncer de pulmão em 2006. O que é triste é saber que Sandy West declarou que seu tempo nas Runaways foi o mais feliz de sua vida…

Vicki Blue se tornou com o tempo produtora de filmes, documentários e clipes musicais. Inclusive, ela mesma produziu o documentário Edgeworld em 2004, falando da história das Runaways da qual ela fez parte.

Laurie McAllister tentou continuar na música fazendo parte de outras bandas femininas mas que simplesmente não deu em nada. Então ela largou a música para trabalhar como técnica veterinária. Laurie infelizmente também faleceu em 2011, vítima de uma forte crise de asma.

No caso da primeira baixista, Jackie Fox, esta merece um último parágrafo mais longo. Após o fatídico problema no Japão onde ela, após perder o seu baixo, inclusive fez uma tentativa de suicídio, ela se gradua como advogada e consegue um diploma especializado em Linguística e Língua Italiana na prestigiada universidade de Harvard. Porém, chocando a todos, após a morte de Kim Fowley em janeiro de 2015, Jackie revela que ele a estuprou em uma noite de 1977 após ela ser drogada tendo Cherie Currie e Joan Jett presenciado o ocorrido. Jett declarou que viu a cena de maneira diferente, que não se lembra deste fato ter ocorrido da forma como Jackie descreveu e meio que tira o dela da reta. Já Cherie afirmou que aquilo foi consensual e Jackie aceitava os avanços de Fowley, tanto que ela disse que saiu do lugar enojada com a situação (e ela era uma das que mais odiava Kim). Que se ela visse que Fox estava sendo estuprada, acertaria uma cadeirada na cabeça de Fowley na hora e que se sente injustiçada por ser acusada de ter presenciado um crime e não ter feito nada. É uma situação bem complicada e lamentável que não há como se provar. Mas percebe-se claramente que o ato sexual (consensual ou não) deixou traumas horríveis em Jackie, da qual espero  de coração que os tenha superado com o tempo.

Uma possibilidade de reunião das Runaways se torna improvável no momento. Lita sempre incentivou e declarou que toparia imediatamente uma reunião com as velhas companheiras, das quais  Cherie Currie e Vicki Blue também aceitariam. Mas Joan Jett nem negou e nem aceitou essa possibilidade, devido aos seus compromissos com o Blackhearts. E sem ela, não rola reunião.

É fato que as Runaways deixaram uma marca inegável na música mundial, sendo valorizadas muito mais após o rompimento da banda do que na época em que estava ativa. Lamentável que elas tenham passado por tantos problemas nos poucos 4 anos de sua existência. Mas caso ocorra algum dia a reunião, é certeza que será em um clima muito mais agradável do que nos anos 70. Torço muito pelo sucesso de todas, seja nas carreiras que escolheram para tocarem a vida.

6 comentários

  1. Anônimo

    Difícil dizer quem é mais gostosa e bonita, Lita Ford ou Joan Jett. Mas ambas as duas se saíram bem em suas respectivas carreiras solos, sobretudo Lita Ford que enveredou por um lado mais hard rock e heavy que era sua praia, principalmente em “Dancing on The Edge”, um álbum muito bom e bem tocado. Já a Joan Jett sempre tocou aquilo que gosta, que é um rock’n’roll com punk rock. Mas que não me diz muita coisa, mas seus olhos lindos e seu rostinho doce e charmoso….Eu casava com essa mulher! 🙂

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  2. Anônimo

    E falando em Lita Ford, tem uma cantora norueguesa excelente que surgiu fazem alguns anos, mais precisamente em 2015, chamada Marita que faz um som que remete à Lita Ford e ao hair metal dos anos 80, até peço para que a Consultoria do Rock fale sobre ela, curti muito o som dela.

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  3. Anônimo

    Tem uma história que dizem que os caras do Rush em um show da qual elas abriram para eles, aonde o Rush tirou sarro da performance das garotas e depois meio que brigaram no camarim. Mas talvez seja boatos, afinal existem fotos das duas bandas bebendo juntas.

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    • André Kaminski

      Também ouvi falar disso, mas acho que pediram desculpas e se acertaram depois. No caso, foi o Geddy Lee e o Alex Lifeson que supostamente fizeram. O que eu ouvi falar e não sei se é verdade é uma história de que o Scorpions foram para perto do palco e ficavam cuspindo nelas. Sei lá, essa me parece mais duvidosa, mas também já ouvi essa história.

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