Por Davi Pascale

Edu Falaschi conquistou o Brasil e o mundo quando se uniu ao Angra em 2001. A cobrança era alta. O Angra havia se tornado um dos maiores nomes da cena metálica brasileira e o rapaz tinha que substituir ninguém mais, ninguém menos do que Andre Matos. Naquela época, André era a grande referência quando o assunto era ‘cantor de heavy metal brasileiro’. Edu começava a se tornar um nome falado por conta do seu trabalho com o Symbols, grupo que estava em ascensão na época, mesmo assim tomou bastante pedrada. Afinal, tinha outro estilo de cantar.

Aos poucos, Falaschi foi formando seu time de seguidores. Embora não tivesse o mesmo alcance de Andre, também era um excelente cantor. Tinha um timbre de voz que se encaixava no estilo do grupo, boa presença de palco e boa técnica vocal. Os primeiros álbuns que fez ao lado da banda – Rebirth e Temple of Shadows – foram fortes e hoje figuram entre os preferidos dos fãs. Pensando nisso, o cantor decidiu cair na estrada relembrando seus dias de Angra. Aquela velha história… Um jeito de reviver aquele material junto aos velhos fãs e dar um pequeno aperitivo aos seus novos admiradores do que era uma apresentação do conjunto naquela época.

Tive a oportunidade de assistir o Edu Falaschi com o Angra 2 vezes. Uma em 2005 quando dividiram o palco com Whitesnake e Judas Priest no Anhembi. E outra, no Via Funchal, no ano seguinte, quando estavam lançando o (bom) Aurora Consurgens. Além de marcar o lançamento do álbum, o show celebrava os 15 anos de banda e havia a promessa de um DVD dessa apresentação, que nunca saiu. Uma pena, o show foi bem bacana…

Comecei a acompanhar o Angra bem no início. Cheguei a assisti-los em 1994, no Monsters of Rock, com o Andre Matos ainda, mas nunca torci contra. Pelo contrário, continuava acompanhando a banda e os projetos paralelos de seus integrantes e ex-integrantes. Gostei bastante do trabalho que Edu realizou ao lado do grupo, portanto o anuncio da turnê me deixou bem contente. Infelizmente, o músico teve dor de cabeça para fazer com que as apresentações saíssem do papel.

Assim que anunciou que cairia na estrada com esse projeto, o músico teve problemas legais com o nome que havia escolhido. Inicialmente, a gira atenderia pelo nome de Edu Falaschi – The Angra Years, mas conforme o músico explicou em uma live, houve um desentendimento com seus ex-companheiros de banda e surgiu a ameaça de barrarem seus shows pelo uso do nome Angra. Com isso, Edu criou um novo nome para o projeto: Rebirth of Shadows Tour. Ou seja, uma mistura dos nomes dos álbuns mais famosos do seu período. (Para ser honesto, acho esse segundo nome mais legal). E foi justamente com o intuito de promover a tour, e também de presentear seus fãs, que foi criado o EP Glory Of The Sacred Truth.

Não é de hoje que os músicos do Angra possuem uma relação mais próxima com o mercado japonês. Mesmo na época de André, saíam álbuns em edições limitadas, EP´s exclusivos, CD´s com faixas adicionais. O primeiro álbum solo de Andre Matos teve bônus exclusivo para o Japão. Portanto, a ideia de lançar um EP por lá não é errada. Ainda mais sabendo que as músicas apresentadas aqui remetem ao seu período de Angra.

O disco é formado por 6 faixas. A inédita “The Glory Of The Sacred Truth” abre o álbum. Power metal de primeira relembrando os dias de ouro do gênero. Edu, que vem sendo crucificado nos últimos anos por suas performances, faz uma de suas melhores interpretações. O trabalho de falsete do refrão me remeteu bastante ao Michael Kiske. A faixa é forte. Conta com as famosas orquestrações, um bom refrão, além do trabalho matador de Aquiles Priester.

A letra é inspirada em um assunto bem atual, as tão faladas fake news. Em comunicado oficial, o cantor explica a letra da canção. “Nesse mundo de internet, esse mundo digital, tudo é muito rápido e todas as mentiras se transformam em verdade facilmente, o que faz com que a verdade que valia ouro, seja sagrada nos dias atuais”, diz. “É muito comum hoje em dia quando as pessoas, covardemente, tentam destruir outras vidas usando mentiras e falsas informações, é uma coisa horrível de se fazer especialmente quando você não tem a chance de se defender”.

Embora sejam conhecidos por serem uma banda de heavy metal, o Angra sempre nos brindou com boas baladas. E na fase Edu Falaschi não foi diferente. (Dois grandes exemplos são “Heroes of Sand” e “Wishing Well”). Portanto, não me surpreende que a segunda inédita desse álbum seja uma balada. “Streets of Florence” não é uma balada melosa, pelo contrário, é pra cima e contém todos os elementos do gênero. Quebrada de tempo, distorção… Outra faixa super bem construída e bem marcante. O refrão dessa, por algum motivo, me remeteu a “For Tomorrow” do Shaman.

“A letra conta uma história triste que aconteceu em Florença. É baseada em uma lenda de amor entre uma mulher e um homem separados para sempre pela guerra. A mulher passa todos os dias do resto de sua vida na janela esperando pelo retorno do amor de sua vida”, explica Edu. “Quando ela morreu, a janela foi fechada, mas fenômenos estranhos começaram a acontecer e então passaram a deixar a janela sempre aberta. É uma letra um tanto espiritual”.

Essas duas músicas são muito especiais para os fãs porque se trata do primeiro registro de inéditas entre Edu, Aquiles e Fábio Laguna há mais de uma década. Completam o time aqui; os guitarristas Roberto Barros e Diogo Mafra, além do baixista Raphael Dantas. O EP termina com 4 registros ao vivo de canções de seus tempos de Angra, já realizados com esse time.

As faixas são executadas de maneira bem fiel e a voz de Edu Falaschi está muito boa. Mesmo nas canções ao vivo. A primeira a marcar presença é a clássica “Nova Era”, do álbum Rebirth. A seguir, temos 3 canções pinçadas de Temple of Shadows. “Temple of Hate” mostra um trabalho de guitarra com bastante influência de Yngwie Malmsteen. “Angels and Demons”, vem na sequencia, e traz um trabalho destruidor por parte de Aquiles. É impressionante as quebradas de tempo desse cara!!! O disco se encerra com “Spread Your Fire”. Outra grande faixa no melhor estilo power metal, que conta com uma ótima performance de Edu.

A capa é uma criação de Carlos Fides. Esse rapaz já fez capa para artistas do porte de Scalene, Oficina G3, Noturnall, além de já ter trabalhado com o Edu no Almah. Ou seja, o cara tem a manha. A imagem ficou bem bacana e está bem no estilo das ilustrações utilizadas pelos artistas que fazem esse tipo de som. O encarte traz todas as letras e uma foto do grupo que gravou o CD. Há ainda um segundo encarte com a tradução das letras em japonês (sim, comprei o CD original) e um pequeno texto introdutório. Não falo japonês, mas pela citação do nome das bandas, dos discos e das músicas, acredito que estejam explicando o projeto e as novas faixas. No Brasil, existe uma edição digipak de 4 faixas. As 2 canções inéditas em formato estúdio e ao vivo. As regravações do Angra são exclusividade da edição japonesa.

O trabalho é de altíssima qualidade. As composições inéditas são excelentes e resgatam o espírito dos dias de Angra. As versões ao vivo estão muito bem executadas. A qualidade de gravação é impecável. E, como já foi dito, Edu está cantando muito bem. Para quem é fã do rapaz e/ou de sua antiga banda, trata-se de um item obrigatório na sua coleção. Fica a dica…

Faixas:

  • The Glory Of The Sacred Truth
  • Streets of Florence
  • Nova Era (Live)
  • The Temple of Hate (Live)
  • Angels And Demons (Live)
  • Spread Your Fire (Live)

2 comentários

  1. André Kaminski

    Sempre achei o Falaschi muito injustiçado como cantor. O cara estava doente e ainda assim tentava o que podia para cantar no nível que os fãs esperavam. Recentemente, em um vídeo com o Gastão Moreira, ele revelou que sua voz cagou naquele período do Rock in Rio porque ele sofria de refluxo noturno durante anos que estava queimando suas cordas vocais. Depois de tratado, tá aí ele cantando o que sempre cantou.

    Torço pelo sucesso dele e do Almah.

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    • Davi Pascale

      Bacana, André. Também gosto do Edu. Manda bem e é super gente boa. Vamos ver o que ele vai aprontar a seguir. Vi gente dizendo que ele vai deixar o Almah em standby e seguir como artista solo. Ele ainda não se pronunciou a esse respeito. Vi que ele vai gravar um DVD ao vivo com esse time. Vai rolar participação do Kai Hansen, do Guilherme Arantes e do João Carlos Martins. Estou curioso para ver o que ele vai aprontar…

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