Por Micael Machado

Em 2008, o grupo progressivo inglês King Crimson fez aquela que deveria ser sua última turnê, celebrando seu quadragésimo aniversário. Tendo em seu line up o sempre presente Robert Fripp nas guitarras, sintetizadores e soundscapes (equipamentos eletrônicos que produzem as famosas sonoridades ambientais conhecidas como “Frippertronics”), o cantor e vocalista Adrian Belew, o baterista e percussionista Pat Mastelotto, o baixista e “sticker” (como se chama o instrumentista que toca Chapman Stick, alguém sabe?) Tony Levin (retornando ao grupo após quase dez anos) e um segundo baterista, Gavin Harrison (ex-integrante do Porcupine Tree), o então quinteto se apresentou em poucas datas na Europa antes de entrar em um hiato que, para Fripp, deveria ser definitivo, devido à sua eterna briga com as gravadoras e o mundo empresarial da música (motivo que já o havia feito parar com as atividades da banda algumas vezes antes). Mas, em 2011, Fripp começou a fazer jams despretensiosas com o cantor e guitarrista Jakko Jakszyk, então membro de um grupo tributo ao King Crimson chamado 21st Century Schizoid Band, onde também tocava o saxofonista e flautista Mel Collins, que já havia integrado o Rei Escarlate entre 1970 e 1972, registrando três discos de estúdio e um ao vivo com o grupo. Jakszyk, Fripp e Collins lançaram o álbum A Scarcity of Miracles em maio daquele ano, tendo na “cozinha” a ajuda dos já citados Levin e Harrison. O registro excitou os fãs do King Crimson, que passaram a especular uma volta da banda aos palcos, fato que foi confirmado pelo líder Fripp em 2013.

A nova formação do sempre mutante legado carregado por Fripp seria composta pelo quinteto responsável por A Scarcity of Miracles, com o acréscimo do antigo companheiro Pat Mastelotto e de um terceiro baterista, Bill Rieflin, ex-colaborador de grupos tão díspares quanto Ministry, R.E.M. e Swans, e que, nesta encarnação do KC, ficaria também responsável por alguns dos trechos de teclados. Este septeto ficaria conhecido como “The Seven-Headed Beast” (algo como “A Besta de Sete Cabeças”, em tradução livre), e excursionou por 20 datas nos Estados Unidos no final de 2014, em uma turnê chamada “The Elements of King Crimson”. Dois destes shows ocorreram em 30 de setembro e 1 de outubro daquele ano no Teatro Orpheum, em Los Angeles, na California, e foram lançados em janeiro de 2015 (coincidindo com o quadragésimo-sétimo aniversário do grupo) sob o nome Live at the Orpheum, em uma edição dupla que compreende um CD e um DVD-Áudio (ambos com o mesmo conteúdo), além de uma versão limitada em vinil de 200 gramas (e repertório igual ao do CD).

“A Besta de Sete Cabeças”: Tony Levin, Gavin Harrison, Mel Collins, Bill Rieflin, Robert Fripp, Pat Mastelotto e Jakko Jakszyk

Se, por um lado, este disco ao vivo deve ser bastante saudado, por trazer faixas que o grupo não interpretava ao vivo desde o início da década de 1970 (além do retorno de Collins e Levin a um disco do King Crimson), por outro, vários motivos poderiam ser citados para colocá-lo como uma grande decepção. O maior deles, sem dúvida alguma, é sua curta duração (meros 41 minutos, muito pouco para tanta expectativa gerada pelo anúncio do álbum, sendo que sabe-se hoje que os dois shows foram gravados na íntegra, e poderiam ter sido lançados em sua versão completa, se Fripp assim desejasse), seguido de perto pelo fato de que as duas músicas inéditas presentes no enxuto track list são, na verdade, curtos e desinteressantes trechos instrumentais. “Walk On: Monk Morph Chamber Music”, uma delas, é uma simples intro do show, unindo sonoridades geradas pelos Frippertronics, sons aleatórios de flauta e de uma orquestra afinando, conversas entre os músicos e até um trecho falado de uma conhecida “faixa escondida” presente nas edições originais do álbum Islands, de 1971, e que apareceu depois nas edições comemorativas lançadas em CD. Já “Banshee Legs Bell Hassle”, a outra “novata”, compreende pouco mais de um minuto e meio de barulhinhos percussivos feitos pelos três bateristas, em uma vinhetinha sem muito sentido, pois a força da união de tão talentosos instrumentistas fica longe de ser demonstrada aqui. A única outra canção não lançada na década de 1970 presente no registro, “The ConstruKction of Light” (faixa título do álbum de 2000) também soa decepcionante, não pela primorosa execução (que agrega inéditos trechos de sopro em seu arranjo, em um acréscimo muito bem vindo à música), mas por estar presente apenas em sua curta parte instrumental inicial. Quando a expectativa para a entrada da letra escrita por Belew é interrompida pelo final da faixa, fica uma sensação amarga em quem ouve Live at the Orpheum, pois o gosto de “quero mais” é impossível de se fazer presente nesta hora.

Felizmente, o restante do disco é de fazer sorrir de orelha a orelha qualquer fã mais devoto do Rei Escarlate. “One More Red Nightmare”, originalmente presente no álbum Red, de 1974 (particularmente, o meu preferido dentre a vasta discografia do grupo), surge maravilhosa, com destaque para o peso e a força das três baterias, que finalmente se faz presente neste disco, além das passagens de sopro de Collins, especialmente no primeiro solo de sax. Lamentavelmente, faltam aquelas passagens no prato tão marcantes no início da versão de estúdio, e a voz de Jakszyk soa aguda demais perto da perfeição e da força da versão original, registrada pelo saudoso John Wetton, algo que não chega a tirar o brilho de uma das melhores composições da chamada “trilogia elétrica” do King Crimson. Fechando o lado “A” do vinil, como fazia no citado Islands, “The Letters” é bastante fiel à versão de estúdio, embora apresente um solo de sax mais longo que aquele registrado décadas atrás por Collins, e falte algo do peso nas guitarras que a faixa original possui. Jakszyk se sai bem melhor aqui, pois seu registro de voz não fica tão distante do de Boz Burrell (cantor da primeira versão), ganhando destaque na parte a capella ao final da canção, e, ao longo do arranjo, o peso e a força das três baterias novamente se faz presente, sem nunca soar “embolado” ou “atropelado”, algo que poderia facilmente acontecer com músicos menos tarimbados que os presentes aqui.

Interior da capa gatefold da versão em vinil de Live at the Orpheum

O lado “B” do vinil (ou as duas últimas músicas do CD) também são só alegria. Outra faixa originalmente presente em Islands, “Sailor’s Tale” sempre foi uma das minhas favoritas da fase inicial do Rei Escarlate, em muito graças à sua vibrante linha de baixo, reproduzida aqui com perfeição por Levin, mas também graças a um sentimento de “perigo” e de aparente desordem que o arranjo produz, e que consegue ser mantido nesta versão, além de alguns pequenos improvisos aqui e ali por parte de Collins. O “ameaçador” mellotron da faixa de estúdio acaba fazendo falta na parte final, mas a guitarra de Jakko e os sopros de Mel conseguem, de alguma forma, compensar esta “perda”, com a guitarra de Fripp (penso eu que seja dele) solando alucinadamente ao fundo, e só não transformando esta na melhor faixa de Live at the Orpheum porque o disco se encerra com a maravilhosa “Starless”, música que também termina o lado “B” do já citado Red. A maior obra prima já lançada pela banda, esta suíte é um dos grandes clássicos do rock progressivo, e já teve várias versões ao vivo lançadas ao longo dos anos (várias delas presentes na caixa Road to Red, sobre a qual já tratei aqui no site, em matéria que, infelizmente, o site UOL retirou do ar), mas todas elas gravadas ainda com David Cross ao violino. Quem já as ouviu, sabe que o arranjo é bem diferente daquele presente em Red, gravado sem a presença do violinista. Sendo assim, esta é a primeira versão registrada ao vivo com o arranjo de estúdio, onde os sopros de Collins ganham bastante destaque ao longo da execução da faixa (como no registro de 1974, onde ele também esteve presente). Nem a diferença entre os timbres vocais de Jakko e Wetton, nem a evidente desaceleração do trecho final da parte instrumental intermediária (pouco antes da retomada do tema inicial), nem mesmo a sentida ausência do peso do baixo presente no encerramento da composição original conseguem estragar este clássico, que acaba sendo o grande destaque deste belo registro ao vivo do King Crimson.

Live at the Orpheum acabou sendo o único registro da turnê de 2014, mas esta encarnação em septeto ainda participaria dos álbuns Live in Toronto, de 2016 (gravado em 2015 e lançado como parte do Collectors Club do King Crimson) e do box set Radical Action to Unseat the Hold of Monkey Mind, um compilado de apresentações ao vivo da turnê de 2015 lançado também em 2016. No mesmo ano, Rieflin precisou se afastar da turnê, sendo substituído pelo baterista Jeremy Stacey, da Noel Gallagher’s High Flying Birds, mas retornou no ano seguinte, apenas como tecladista, transformando o grupo em um octeto, no que passou a ser conhecida como a encarnação chamada de “Double Quartet”, ou “Duplo Quarteto”, em tradução livre. A formação do período sem Rieflin está presente no EP ao vivo Heroes e no CD triplo Live in Vienna, ambos de 2017, e o “Double Quartet” aparece em Live in Chicago, lançado no final do mesmo ano, além de continuar na estrada ao longo deste 2018. Seria muito sonhar com uma apresentação da banda aqui por estas terras tropicais? Tomara que não!

Contracapa de Live at the Orpheum

Track List:

1. Walk On: Monk Morph Chamber Music

2. One More Red Nightmare

3. Banshee Legs Bell Hassle

4. The construKction of light

5. The Letters

6. Sailor’s Tale

7. Starless

1 comentário

  1. Marcello

    O bom é que tem saído uma fornada e tanto de discos ao vivo do Crimson, inclusive um em Viena, muito mais completo do que este resenhado aqui. Será que eles passarão por aqui? Sonhar não custa nada…

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